19 - A Explicação Inútil
Capítulo 19: A Explicação Inútil
Veio o pedido de explicação formal quando a noite ainda corria, precisamente para impedir que ele falasse primeiro de outro modo. Solicitavam justificativa, contexto, linha de raciocínio, documento útil para registro e futura acomodação. Queriam dele a versão que seria mais tarde arquivada como prova de boa-fé, erro pontual, sensibilidade excessiva, correção responsável ou qualquer outro nome aceitável. Não se pedia a verdade. Pedia-se matéria-prima para a próxima legenda.
Ativou o canal, ouviu a voz treinada do outro lado e, por alguns segundos, quase respondeu como sempre respondera, com equilíbrio, prudência, uma mescla de culpa e delicadeza suficiente para não produzir terremoto demais. Nessa pausa reconheceu o perigo. Sua explicação, mesmo sincera, seria capturada, indexada, distribuída, recortada em falas de apoio, de ataque e de mediação. Tornar-se-ia componente adicional do grande teatro da crise perfeita.
Disse então apenas o essencial, não houve falha técnica, houve escolha. E quando insistiram em parâmetros, em critérios, em responsabilidade pelo impacto, acrescentou algo ainda mais breve, os parâmetros ficaram pequenos demais para o que eu vi. Sabia que frases assim não bastariam para quebrar o tabuleiro. Bastaram, contudo, para recusar o vocabulário em que o tabuleiro esperava traduzi-lo. Era pouco. Era também o máximo disponível naquele instante.
Encerrado o canal, sentiu não alívio, e sim cansaço mais denso. Explicações eram inúteis não porque a realidade fosse indecifrável. Eram inúteis porque o sistema escutava apenas o que podia reformatar. Diante disso, o trabalho verdadeiro deslocava-se outra vez para as frestas, para as entregas concretas, para os nomes escritos à mão, para os desvios na noite e, talvez, para a memória futura de quem conseguiria juntar as peças que a administração sempre insistia em oferecer separadas.