Bloco 1
Êste livro é uma matinada. Apesar de ser o meu livro da orfandade. Em 1912, chegando de minha primeira viagem à Europa, e encontrando morta minha mãe, nos mudamos logo de moradia, eu e meu pai. Ao fechar o aposento dela, já com a casa vazia de móveis e pessoas, me ajoelhei para beijar o chão, no local onde mamãe falecera. Mas meu coração sorria para a vida. E assim foi du rante largo período, até murcharem uma a uma as pétalas da esperança que a coragem, a idade e a saúde faziam vicejar. Eram também outros os tempos. Basta um confronto entre a era familiar que nessa época começou a se decompor e a que a suce deu, colocar frente a frente duas gerações da família — a dos meus pais, seus irmãos e cunhados e a dos primos, que foi a minha. Durante infância e adolescência, vi um cuidado previdente zelar por cima de todas as cabeças da nossa gente e tutelá-las nas aflições e nas dores. Do lado de minha mãe, a famí lia do Desembargador Marcos Antônio Ro drigues de Sousa, meu avô materno, sofrerá por sua morte uma única deserção, a de seu filho mais velho, José. Foi o único a protes- tar contra a distribuição dos bens organizada pelo velho que, tendo dado como patrimônio a ilustração aos filhos, deixara a cada uma das filhas, que apenas haviam tido colégio, e que eram Inês e Carlota, a soma de cinqüenta contos de réis. Tio José, o mais velho, brigou com irmãs e irmãos, virou-lhes a cara na rua, sumiu com suas qualidades aprimoradas nu ma longa educação na Inglaterra e foi de pôs- to em pôsto galgar a guarda-moria do pôrto de Santos, onde se manteve ausente de nós. Os outros permaneceram num extremado pro pósito de assistência e amor. Meu tio Her- culano mudou-se para o Rio, mas de lá sempre participou dos casos de família dando seu aviso e conselho. As duas irmãs, Inês e Car lota, foram ligadas por uma vizinhança contí nua. Tio Chico, a quem chamávamos o captain, era o chefe da tribo. Intervinha em tudo com sua enérgica autoridade. Âs vêzes, minha mãe mandava-o avisar: — O Oswaldinho está com um dente mole e não quer arrancar. Apare cia a sua figura imponente, de bigodes curtos e lá ia num instante, amarrado numa linha, o produto condenado da minha primeira den tição. Tio Marcos, o caçula, rolou inutilmente pelo interior de São Paulo — Rio Claro, Ja- boticabal — levando consigo um talento inex plorado e a lenda de ter sido o melhor estu dante da nossa Faculdade de Direito. Quando se casou com uma Schmidt, inventaram que eu iria ser pajem na cerimônia, vestido de príncipe, todo em veludo azul. Mas o casa- mento se efetuou sem a minha presença. Não tendo conseguido se firmar na sua banca de advogado, procurou êle comprar um cartório que custava dez contos de réis. Eecorreu à rica da família, uma sobrinha, filha de tio Chico que, além de herdar, casara rica com um Junqueira. D. Noêmia negou-lhe sêca- mente o empréstimo. E êle andou falando sozinho pelas ruas. Êsse fato era o sinal do esfacelamento do grupo familiar. A um pri mo José, filho do tio mais velho que falecera, a mesma senhora fez sair de mãos abanando de seu palacete do Jardim América, no momento em que êle, mudado para São Paulo, não tinha teto para a mulher e os filhos. Sinais dos tempos. A nossa geração inte grara-se na consciência capitalista que gelara os velhos sentimentos da gente brasileira. Nos mantivemos, primos e primas, cautelosamente afastados, senão hostis, vagamente nos encon trando nos enterros da família e sabendo por travessas vias, de doenças, partos e transações. Nossos pais vinham do patriarcado rural, nós iuaugurávamos a era da indústria. Como e por onde começar minhas memó rias? Hesito. Devo começá-las pelo início de minha existência? Ou pelo fim, pelo atual quando, em 1952, os pés inchados me impossi bilitam de andar no pequeno apartamento que habitamos em São Paulo, à rua Ricar do Batista, 18, no 5.® andar. Quando esta que ficou sendo em minha vida a Esposa, Maria Antonieta d’Alkmin, vai num gesto buscar os meus chinelos e carinhosamente pro videncia as frutas de meu regime. Estou ata cado duma asma cardíaca, produzida por insu ficiência e 0 dr. Emílio Mattar procura me tirar do caixão, com injeções de Cardiovitol que 0 farmacêutico da vizinhança, seu Nenê, vem aplicar todas as noites, na veia. Fito nas paredes do living espaçoso as minhas altivas bandeiras. São os qua dros, as obras-primas da pintura mo derna de que breve vou me desfazer. São os estandartes levantados na guer ra que foi a minha vida. Um grande Chirico de 1914, da série ''Piazze d’itajia'’, onde se vê uma torre, um pequeno trem de ferro e dois homens minúsculos na solidão da praça onde se ergue uma estátua vestida de negro. É um dos quadros que criaram em Paris o Surrealismo. Chamam-no ‘'L ’enigme d ’une journée” . Há também, em azul, a obra-prima de Tarsila, “ O Sono” . Duas jóias de Cícero Dias, onde o mestre brasileiro liga o abstrato ao nativo. “ Os cavalinhos” de Chirico, o Di, uma telinha de Rudá e outra de Nonê, meus filhos e um guache de Picasso em azul e ne gro. São as minhas bandeiras que contam que nunca abdiquei na luta feroz dos meus dias. Hoje, feriado, 15 de Agosto, vieram al moçar conosco os casais Antônio Cândido e Domingos Carvalho da Silva. Saíram há pouco, depois de uma boa camarada gem. Domingos e Inês se refazem da tra gédia que lhes causou no mês passado a mor te de um filho de sete anos, Gilberto. Empresto a Antônio Cândido o livro de crí tica política de Lourival Fontes, intitulado “ Homens e Multidões” , que êle repele com horror. Mal sabe que se trata de mn mila gre, pois do tradicional e consciente fascista que organizou o BIP, saiu o melhor volume que possuímos no assunto, inteligen te, imparcial e informado. Antônio Cândido diz que uma literatura só adquire maioridade com memórias, car tas e documentos pessoais e me fêz jurar que tentarei escrever já este diário confessional. Pois, se é preciso começar, comecemos pelo começo. A mais longínqua lembrança que tenho de vida pessoal, destacada do cálido fôrro ma terno que me envolveu até os vinte anos, foi de caráter físico sexual, evidentemente pre coce. Está ela ligada à casa em que morávamos na Rua Barão de Itapetininga, de jardin- zinho ao lado. Sentando-me à porta da en trada e apertando as pernas, senti um prazer estranho que vinha das virilhas. Que idade teria? Três ou quatro anos no máximo. Acontece terem as crianças ereção no pri meiro mês de vida e iniciarem um inútil pe ríodo de masturbação, enquanto homens de quarenta anos e menos, perdem estupidamen te a potência para viver dezenas de anos como cadáveres. Obra de Deus — querem os padres e as comadres. O limite, o tabu dos primitivos. A adversidade metafísica. O malefício eterno e jjresente que todas as religiões procuram to- temizar. Assim, cêdo mergulhava eu nesse maravi lhoso universo da bronha onde permaneci vir gem até quase a maioridade. Vivia arrebanhando pretextos e motivos para a elaboração noturna de meu sonho se xual. Um domingo, meu tio Marcos Dolzani me fêz um convite. Levou-me ao circo que funcionava perto de casa, na atual Praça da Eepública que, terrosa e deserta, chamava-se naquele tempo o Largo dos Curros. Já estava construída, longe, a Escola Modêlo Caetano de Campos. Era uma matinê. Êle comprou uma entrada de galeria, me fêz passar e ficou esperando do lado de fora, na calçada, onde havia pretas com tabuleiros. Mais tarde, meu primo Marcos, gordalhufo e sempre rindo e caçoando, atribuiu isso a uma medida de econo mia. Querendo ser gentil com meus pais, em casa de quem se hospedava, meu tio me paga ra a entrada mas não gastara a dêle. 0 circo foi um deslumbrado céu aberto na secura de emoções que me cercava. Não só a banda de música, ginastas, cavalos e fe ras. Mas era o espetáculo em si que subvertia a monotonia do meu quotidiano. As mocinhas de maio entraram em meus olhos e aí permaneceram. Nas noites de ca- misolão, elas foram meu pasto e minha festa. Nesse tempo, aqui, ninguém usava pijama e minha mãe, à entrada de cada inverno, me presenteava com um comprido e folgado ca- misolão da boa lã daquele tempo. Aureolada de litografias de santos de to dos os feitios, onde se destacava, além do insí pido São José, uma ternura encaracolada de São João menino, com um cordeirinho nos bra ços, a minha cama ressuscitava o circo na pe numbra vacilante, onde uma lamparina votiva se acendia ante o austero oratório da família. Minha mãe tinha permanecido ali horas, conversando com a custódia de prata, onde, no centro, faiscava o Espírito Santo que era uma pombinha de ouro. Tinha longamente re latado aos santos as dificuldades de Seu An drade, o armamento incipiente dos terrenos da Yila Cerqueira César que êle comprara, as dores das comadres, os problemas dos paren tes e amigos. Gesticulava na sombra, gorda, baixa, convincente, os cabelos ralos tendendo ao grisalho. Depois me olhava abençoando e desaparecia para o seu quarto ao lado. V Então se descerravam os umbrais de meu mundo secreto. Geralmente uma daquelas moças tinha partido o calção na ginástica e subia os degraus da galeria para que eu o ajustasse. O camisolão azul era o pano do circo que o mastro central enfunava. E as ‘pastorinhas de meu sexo’’ do poeta Luís Coe lho, pelos olhos encantados da invenção, vi nham até mim, para consertar, róseas, frescas, faiscantes, os seus maios rasgados. Fora dessa sensação, minha vida de crian-