Bloco 4 Um homem sem profissão · Capítulo 4 de 20
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Bloco 4

Lembro-me com saudade dessa solidão da casa da Kua de Santo Antônio. Mesmo nos do­ mingos eu preferia não sair, não ir ao Veló- dromo que era perto, na Euã da Consolação, onde está aberta hoje a Eua Nestor Pestana e que ficou sendo o nascedoTiro do esporte paulista. Da janela lateral de nossa sala de jantar eu avistava as copadas árvores da chácara do Conselheiro Eamalho, na Consolação, que desciam até a atual Avenida 9 de Julho. De­ trás, vinha um clamor que se elevava de quando em quando na tarde quieta. Era o futebol que nascia. Ali localizava-se o campo do Clube Atlé­ tico Paulistano, onde se defrontaram esse clube e o São Paulo Atletic, que era composto de ‘únglêses” e cujo líder, baixinho e de bigo­ des em ponta, chamava-se Charles Miller. In­ ventara êle um passe arrevesado, dado com o calcanhar, e que guardou o seu nome. A mole­ cada perguntava : — Você é capaz de dar um charles-míler'? O Paulistano, xodó da cidade, não tinha os meus votos. Eu era mackenzista, talvez levado pelo rubro da camisa sobre os calções brancos. Eiquei fã do goleiro gordo Mário Mendes e do beque Belfort, que dava chutes espetaculares no gramado da Consolação. H Quando aluno do Ginásio de São Bento, joguei mediocremente no começo e depois fui considerado um bom beque. Mas também aí não fiz carreira. Nas noites quietas, meus pais deitavam- se cedo. Eu procurava, sentado à mesa de jantar, ensaiar num caderno a minha nas- nente literatura sem motivos. Nesse momento, rompia para os lados da Consolação uma mú­ sica de banda. Era a sociedade filarmônica Ettore Fieramosca que ensaiava. Em geral, tocavam uma marcha fúnebre. Nessa época era comum verem-se os enterros feitos a pé, acompanhados de fanfarra. Eu parava comovido, estudando aquele Chopin de banda. E pensava no futuro e na orfandade. Com a fundação do Grêmio Guarani, veio animar-se a vida enfastiada daquele pe­ queno grupo de famílias burguesas que abriam o Bairro da Bela Vista. Ideador e rea­ lizador do propósito social foi meu primo Marcos que além de promover saraus dan­ çantes, inventou de fazer um teatro no porão de sua casa. Eu era naturalmente indicado para ser astro da pequena troupe que Mar^ COS formou com vizinhos, entre os quais ra­ pazes da família Montmorency, decadentes brotos de uma nobre estirpe francesa. Meu fracasso foi do primeiro dia. Nunca consegui articular duas frases no palco. Isso consti- r 4 M f tuiu imediato motivo de brigas com o Mar­ cos. Eu não podia atribuir minha inépcia cênica a uma incapacidade absoluta. Era tudo, naturalmente, produto das perseguições do Marcos e de seus amigos, mais velhos do que eu. Diversas representações se sucederam no palquinho do porão, perante boa assistência, que entusiasmava os artistas com aplausos. Eu ficava de fora, bastante despeitado. A incapacidade no entanto era real como sempre foi a de falar em público. Talvez um excessi­ vo rigor de autocrítica me tenha contido e afastado sempre de expansões oratórias ou sim­ plesmente cênicas. Nunca dei para isso. Também não sabia dançar, o que torna­ va extremamente fastidiosos os saraus do Grêmio Guarani. Quem aí se divertia à von­ tade era o Marcos, grande dançarino e seu irmão torto, o Odilon, que com as contradan­ ças acabou casando com uma moça pobre e bonita de origem portuguêsa, chamada Dulce Patrima. Isso foi considerado por minha mãe uma mèsaliance, agravada pelos parcos recursos do Odilon que, se não me engano, era simples cobrador da Companhia de Gás. Lembro-me duma interpelação violenta de mamãe, recostada no seu leito e pondo o Odi­ lon em palpos de aranha, diante da respon­ sabilidade de fundar uma família. Êle re­ sistiu a todos os argumentos e casou-se com sua dulcinéia, passando a acompanhá-la, pas­ sivo, vesgo, carregando os sucessivos filhos que iam vindo, por todos os saraiis de que arranjava convites. Dulce gostava de dançar. Eu detestava. Arrastava-me bocejante pelas cadeiras vazias do sarau. Apenas quando mamãe consentia que as criadas me levassem às festas religiosas — novenas e procissões da Igreja de São Benedito, no Largo de São Francisco, eu ensaiava com elas, no tablado de um coreto, passos de maxixe no meio da pretada. Evidentemente, definia-se assim minha intensa adesão ao povo, seus ideais e costumes. Com a proximidade dos quinze anos eu me sentia cada vez mais afastado dos ambien­ tes caseiros e maternos e mais chegado à rua e ao colégio. De há muito deixara de ir no começo da noite, ouvir com uma criada a retreta da banda da Força Pública na concha musical que se levantava em face do Palácio do Govêrno, na época completamente fecha­ do por grades. Para regalo da população, a banda militar executava ali uma ou duas vezes por semana um programa de grande êxito popular que enchia de gente o jardim público. Do amor, da vida e da morte, fui tendo por altos e baixos, uma noçãjo mais realista e exata. Da morte, eu tive notícia mais cedo. Dma manhã ecoaram pela casa lamentos e ais. Tinha morrido o Arnaldo, filho do Odilon, enteado de Tia Carlota. Fomos vê-lo. No caixão azul, a criança que eu conhecera viva e esperta, tinha uma impressionante e estra­ nha lividez. Os pais soluçavam. O amor que se apresentara cedo na loira Helena W.,vizinha e amiga de casa, dez anos mais velha que eu, a quem eu obrigava a sen­ tar-se a meu lado nas festas de aniversário, mudou logo de dona. Apareceu Sinhá. Ma­ gra, escrofulosa e quase preta. Mas, eu me faquirizava por aquelas pernas secas e pro­ curava entrevê-las deitando-me no chão à sua passagem. Depois namorei a mais velha das três meninas que se tinham mudado para a vizinhança, em frente. Chamava-se Sara e foi quem, de fato, abriu pela primeira vez meu coração cerrado de menino. Numa noite de 'vdsita em que eu acompanhava minha mãe, tendo os meninos saído, fiquei só com Sara que tomou curiosas iniciativas ginastas. Pu­ nha os pés no espaldar da cadeira de balan­ ço, a saia curta caía, mostrava até à calcinhá um par de pernas bem feitas e morenas e me dizia: — Mamãe não quer que eu faça assim, mas eu faço! Nas primeiras férias Sara viajou com a família para Buenos Ai­ res e me mandou pelo correio um cartão pos­ tal colorido com a seguinte frase: ^ ‘ Sauda­ des de sua amiguinha Sara’^ Durante anos conservei êsse cartão amassado no fundo de bolsos e gavetas e assim vim a saber que amava. Talvez um dia pudesse casar com Sara, que tinha a minha idade. Mas, já moço, de volta de minha primeira viagem à Europa, soube que a família de Sara se mudara. Nós também tínhamos mudado já há longos anos. E, numa visita qu fiz aos antigos vizinhos, Sara me passou completamente despercebida. Estava feia, ossuda, alta. Era outra pessoa. Perto de nossa casa pequena e burguesa, abria-se, num quarteirão inteiro, uma chácara arborizada de cigarras no verão, enluarada de sanfona e de sonho nas noites quietas. V i­ nha a ser a chácara do rico dono de todas aquelas habitações e terrenos. Era um velho- te chamado Fernando de Albuquerque, a pri­ meira pessoa que conheci americanizada. Fa­ zia grandes viagens aos Estados Unidos, don­ de trazia engenhosas novidades. Numa soirée em casa dele, nessa chácara imensa, foi-me apresentado o fonógrafo: — E ’ uma coisa que a gente pÕe um fio na orellia e ouve! Minha mãe fez questão que eu compare­ cesse a essa apresentação da espantosa des­ coberta: — Uma coisa que roda e a gente escuta tudo! A casa de Fernando de Albuquerque en- cheu-se de luzes e de gente. Eu estava ali quieto, ao lado de meu pai quieto. Dessa cena guardo a noção de que mesmo as coisas es­ pantosas nunca me espantaram. Encaixo tudo, somo, incorporo. De fato, fiquei impassível e nada exclamei quando me apresentaram a pequena máquina, onde um cilindro de cera ne­ gra em forma de rolo, despedia sons musicais através de fios que a gente colocava nos ouvi­ dos. íi Depois de exibida a invenção norte-ame­ ricana — de Tbomas Edison! dizia enca­ recendo-a, passou-se a gravar um disco vir­ gem. Meu pai, discretamente escusou-se de dizer qualquer coisa, eu nem fui cbamado. Fez grande sucesso de hilaridade um senhor que aproximando-se do disco prometeu: Doutra vez eu trago a flauta! Essa frase ficou cantando no fundo de minha memória. Não achei nela nenhuma graça. E através de sua filosofia do malôp^o, senti que a vida oferecia inúmeras ocasiões como essa em que alguém, na hora de brilhar, notava que não tinha trazido o instrumento do êxito. E prometia adiando a esperança: — Doutra vez eu trago a flauta! Nunca mais houve outra festa na casa senhorial e americana de Fernando de Albu­ querque. Nunca mais o improvisado flau­ tista, que eu saiba, foi chamado a depor, nem ali nem em outro importante ou modesto con­ clave. Apenas notei que muitas vezes eu ti­ nha também esquecido a flauta e exclamava para a vida e para os homens: — Doutra vez eu trago... O copeiro mulato, João Justino da Con­ ceição, do ^^Bmnba-meu-Boi”, foi quem me fez presente dos segredos da vida que eu igno­ rava profundamente. Uma noite, quando eu tinha sobre a mesa da sala de jantar livros e cadernos abertos, êle veio até mim e sabendo u que meus pais já se tinham retirado para o quarto, sussurrou na easa silente: — Eu sei como é que faz filho! Não é passarinho que traz, nem vem do céu. O ho­ mem tira a coisa dele e põe na coisa da mu­ lher e depois nasce a criança! Eu protestei incrédulo e êle reafirmou a revelação. Acredito ter sido esse o maior trauma da minha idade escolar. Pedi deta­ lhes. Êle deu : — Sai uma água grossa do homem e ou­ tra da mulher. E ’ gostoso! Até hoje ficou marcado em mim esse choque que derrubava inteira a santidade do sistema familiar. Era inadmissível que isso tivesse acontecido em relação à gente direita, a meus pais, meus avós. Desde então, o mun­ do para mim perdeu uma perna, ficou man­ quejando. A inocência, em que eu era caute­ losamente criado, desmoronou roçando em ci­ nismo. Minha mãe, em matéria de educação sexual chegara apenas a uma extraordinária concessão. O filho nascia de fato na barriga, mas vinha a parteira e cortava pelo meio o inchaço, depois costurava tudo e a mulher sa­ rava, tendo a criança ao lado. i Como já disse, a religião de casa era a católica, aliás, a única conhecida na zona. O meu quarto, seguindo a tradição de Pernam­ buco, onde minha mãe vivera em Recife, cha- mava-se ‘‘o quarto do Santo” . Entre os san­ tos enquadrados floria a figura cretina e conjugal de São José, pela qual me tomei de surdo e invencível sentimento de oposição^ Na Kua Barão de Itapetininga eu tinha sido anjo de procissão, ^ ‘o mais belo anjo de São Paulo”, afirmaram, ao poeta Paulo Mendes^ suas velhas tias que me tinham conhecido criança. Agora, na Rua de Santo Antônio, mu­ dara 0 centro hagiológico das preocupações de casa, tendo-se concentrado na Igreja da Con­ solação todas as nossas intimidades com o céu. Aí fiz muito cedo uma brilhante carreira, tendo chegado a ser na hierarquia das festas do Divino, Capitão do Mastro e, enfim. Impe­ rador. Tudo aquilo se realizava por sorteio, naturalmente inspirado pelo próprio Espírito Santo. Liam-se em meio da novena os nomes e os encargos. Era um atordoamento de in­ censo, de campainhas sacras e de badaladas de sino na torre quando saía a indicação do Imperador. Pois uma vez leram o meu nome todo — José Oswald de Sousa Andrade e a voz grossa e tonitroante do vigário da Con­ solação que se chamava Cônego Eugênio Dias Leite, berrou: — Imperador do Divino! Minha mãe nunca se sentiu tão comovida e orgulhosa em sua vida e meu pai, suando na corretagem e na venda dos terrenos, pa­ gou, grato, as despesas da festa. Não havia sòmente chateações e corvées de horas ajoelha- das em frente ao oratório e na Igreja. Vi­ nham também as saborosas e grandes broas do Divino, os cartuchos de procissão, as hon­ rarias e festividades. Por esse tempo criou-se em São Paulo o Ginásio de Nossa Senhora do Carmo,, entre­ gue aos irmãos maristas franceses. Iniedia- tamente aí nie matricularam. Nunca fui com os irmãos maristas nem com essa primeira ex­ periência ginasial. Os meninos maiores me apalpavam afrontosamente, espiavam-me por cima, na privada. Davam-me caxuletas por causa do lanche enorme que minha mãe pre­ parava. Meu pai ia me buscar todas as tar­ des, submisso e quieto, e quem me levava de manhã era uma preta centenária chamada Ma­ ria da Glória que afirmava, contrariando meus jovens conhecimentos, ter visto o Impe­ rador Napoleão em Pernambuco, donde viera. Não suportei por muito tempo o ambi­ ente do ginásio marista. Não me lembro de ter aprendido aí grande coisa. Ficou-me na memória uma comunhão coletiva, donde so­ brou mais do que o corpo de Cristo, um es­ tranho e bom café com leite, servido^ no refei­ tório do colégio, depois do ato religioso.

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