Bloco 15 Um homem sem profissão · Capítulo 15 de 20
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Bloco 15

Mas como? Sern o principal elemento que é ela? i Vou a Santos tomar casa para outra tem­ porada de inverno de papal, a quem Kamiá acompanhará com Nonê. E uma onda de re­ cordações toma conta de mim. Em frente ao carramanchão do Petit Parc no vasto estirão de areia de cor suja, sulcada pelas rodas das carroças que faziam silhueta sobre o horizonte marinho como naqueles dias, diante do grande mar e do pequeno rochedo de Urubuqueçaba, desgrenhado, revi o lugar em que fizêramos nossos túneis e mais longe onde ela escrevera na areia: ‘M ’aime Oswald” . Em São Vicente, respirei o grande ar marinho que fazia o ambiente alegre mas não a vida. Volto a S. Paulo de trem, sempre recor­ dando. E de repente, com o frio da noite, um desânimo enorme apodera-se de mim, sinto necessária a renúncia de tudo, quero acon­ chego, olho em redor, Eanda, Papai, Kamiá, Guilherme, Pedro, e sinto-me só. Promovem um jantar na Vila Cerqueira César com Irmã Úrsula. Eu chego. Há uma pobre ovação. Choro perto de Kamiá. Define declara que se me casasse com Landa merecia a morte. i pî í' ! fcâ ■ yjyii U 1! i t ï J U r i I y L 'i I Ii'l í i III B1 Leio “ Leiir Âme” para grupos de ami­ gos. Vazei principalmente nesta peça, que nos cafés escrevi em francês com Guilherme de Almeida, toda a crise amorosa que me oprimiu. Suzanne Deprés, de passagem por São Paulo, representou com Lugné Poe um ato dela no Teatro Municipal. Eu e Guilherme estáva­ mos por detrás do palco. O teatro repleto. Eecomendaram-nos que de modo algum, mes­ mo chamados à cena, aparecêssemos na ribalta. Chego ao fim da dor. Sem que ninguém saiba, volto de novo ao Rio. Chutei papai e Kamiá para São V i­ cente. Pedro Rodrigues de Almeida acompanha- me até o Brás, onde me abraça. Inglêses rijos bebem e fumam no carro restaurante. Diviso pela vidraça, na noite sofrida, o pão-de-ló escuro da cidade, salpicado de con- feitos luminosos. Minha alma recua pensando na possibilidade de revê-la. Puta! Maupassant falava a respeito da mulher, na sua “ sensibilité à surprise’\ Que terá su­ cedido? Cretinamente órfico, penso no mês de Maria. Jacareí lembra tio Luís, velho e espa- daúdo. Soube que êle sumiu de casa para pe­ dir esmola, a fim de levar o seu retrato à Nossa Senhora Aparecida. Promessa. Estou mudo como Otelo na expectativa. No correr do trem, a lua amarela muda de forma e de lugar. Tenho sono, Landa! Não façamos o amor triste. Luto para revê-la. Misturei no caso uma professorinlia do Instituto que declara ter pe­ na de mim. Mas o grande ilusionista desta vez é Solfieri de Albuquerque que afirma com oti­ mismo ter lhe falado, que vai tudo hem, que ela está firme. Um sujeito me garante que êle é o maior lambedor da Capital Federal. Múcio Teixeira sumiu no seu fraque má­ gico. Conheci-o na época de sua célebre en­ trada em São Paulo quando afirmou depois de assentada a candidatura Rubião Júnior a presidente do Estado, que seria outro o eleito, um moço. Kubião morreu e foi escolhido Altino Arantes. A figura do Barão Ergonte me interessou apesar do ódio que tinha dele meu amigo Emílio de Meneses. O hierofante morava num quarto de pensão da Pua José Bonifácio, onde restaurava virgindades, inter­ vinha em casos escabrosos etc. etc. Era um assombroso sujeito. Agora, não o encontro na capital, isso me desola. Acostumei-me a vê-lo ligado à minha tragédia. A figura rubi­ cunda e sinistra do hierofante, no fraque cin­ za, uma comenda a brilhar no peito, o mo­ nóculo caído, indo e vindo, levando formidá­ veis planos de campanha e trazendo surpre­ endentes derrotas. m V i Fui batido, humilhado e ofendido no co­ ração e no brio pela mais bela e mais infame das mulheres. Penso em me destruir. .1 M Kamiá não escondia suas predileções pe­ lo perfeito mocinho Antônio Define. Queren­ do uquidar o entusiasmo mútuo de ambos, que se tornara visível e incômodo, consegui me apo­ derar de uma carta amorosa dela a êie. No mes­ mo dia, e^a enviara também de São Vicente, onde acompanhava meu pai, outra carta a mim. Tendo aberto ambas, em vapor de água, troquei as cartas, fazendo com que Define re­ cebesse endereçada a êle a que fora escrita a mim. Isso indicava que ela se enganara, colo­ cando a carta amorosa a êle no meu envelope. Foi um susto e uma imediata suspensão de re­ lações. Antônio Define riscou-se dentre os freqüentadores da casa da Rua Augusta. Su­ mia assim, comodamente, de minha vida. Fi- fine, 0 católico impoluto, prenhe de virtudes domésticas, cívicas e sonetais. Não denun­ ciei a meu pai o ocorrido. Dormia sozinho num ounHo enouanto no outro Kamiá fazia crescer Nonê e continuava seus deveres filiais para com o velho e a casa. i f Isadora Duncan está dando espetáculos no Rio. Sigo de novo para lá. Continuo tristemente órfico. Na viagem de noturno, em meio do caminho, desci a vi­ draça e o grande céu estrelado da Aparecida, para que tantas vezes olhei pasmado do lar­ go da Matriz e da porta do velho hotel de Dona Marciana, anunciou-me a aproximação do Santuário. Quando, da curva negra dos campos, rebentou a ladeira de luzes rodean­ do as duas pontas da igreja, soluços estala­ ram-me no peito e lágrimas molharam-me o rosto. Mas Landa é a mais extraordinária das putas. Vi-a, vi-a saindo do banho às 4 ho­ ras da tarde. Ela me olhou, abriu a boca, voltou violentamente a cabeça e cobriu-a com a mão num gesto inconfundível de pavor. Fi­ lha de três gerações de putas! Múcio Teixeira me leva ao Encantado para ver o inútil cenário de amor que nos preparou. Janto no Hotel Moderne em Santa Te­ resa onde estão artistas franceses que contam histórias pitorescas de Isadora Duncan. Ela também está hospedada aí. Guilherme está comigo. Encontramo-la à saída da mesa. Ela tem gestos de estátua. É feia de rosto, tem o maxilar duro dos ame­ ricanos mas sua plastica esplende na túnica alva que veste. Belos gestos de estátua. Traz um molho de rosas no braço. Abordamo-la en­ cabulados. Recebe com sorriso o volume de ‘Mon coeur balance” e ^ ‘Leur Âme” que fi­ zemos editar. Isadora fala francês e diz que quer ine ver em São Paulo. Landa prepara a sua apresentação de dançarina num espetáculo que será dado no Teatro Municipal do Rio. Solfieri de Al­ buquerque pinta-a carregada por toda uma geração de escritores através de redações de jornais. Cercam-na entre outros, o roliço e burro Sebastião Sampaio e Olegário Mariano. Volto a São Paulo completamente des­ moralizado. Falharam as mágicas de Múcio Teixeira, as intrigas de Solfieri e os conse­ lhos jesuíticos dos padres. Foi-se embora aquele belo sonho ^^d’une calme existence à deux, sous le regard des anciens dieux du foyer”, como eu dizia em francês. Por um acaso bom vimos nos encontrar na minha casa da Rua Augusta, Pedro, Otá­ vio Augusto, Guy e Inácio. Jantar de homens. Vinho e discurseiras. Papai, Kamiá e Nonê continuam em São Vicente. Pedro Rodrigues de Almeida evoca a ca- becinha loira de Landa. Otávio ergueu-se e teceu num comovido improviso o romance da eterna pesquisa, da eterna procura, da eterna mágoa da miragem. Fê-la dançar diante de nós, a cabeça tentante e fugidia, fê-la ir e vir, positivar-se e sumir. Ela era bem a visão dêsse desejo do impossí- vel que a todos nos inquieta. Era a realização do inachado, do irrealizável, a promessa do nada. A ela, que nos mantinha a todos e a mim em particular nesse estado deslumbrado e do­ loroso da caça ao ideal, êle erguia a sua taça de vencido. Pedro replicou chamando, ao contrário, o poeta de vencedor porque nestas questões da mulher e do amor a vitória consiste sòmente na posse da verdade inquiétante que êle com tanto brilho enunciara. Tinha falado numa cabeça loira que se toma com carinho, dizia mais, que se toma pelos cabelos, melhor, que se recosta sobre o peito. Cabeças loiras, rui­ vas, castanhas, negras, quem as não tem tido Pedaços de mulher, qual de nós não os teve? Mas uma mulher inteira... Regozijava-se de ter em Otávio um companheiro de jornada pois via que êle também conhecia o profundo escorregadio de “ Leur Âme” . Vazei, como já disse, minha desgraçada experiência amorosa nas duas peças que es­ crevi em francês com Guilherme de Almeida. Refletem elas a descoberta da mulher, ve­ rídica no seu sexo e no seu destino. Foi a descoberta das vacilações naturais de Landa, aumentada pelos meus preconceitos e pela mi­ nha formação patriarcal. Vou desgastar meu sofrimento em cabarés e pensões de mulheres. Mas nenhuma me atrai. I ii 1V Vêm a São Paulo os artistas franceses que conheci no Hotel Moderne. Com êles, o escritor belga Fonson, autor de “ Mile. Beul- mans”. Este conta que em sua terra as crian­ ças pobres têm um único divertimento, “ Papa pête et on rit”. É o estado da Europa antes da revolução russa. Isadora Duncan está em São Paulo. Vou visitá-la como prometi no Rio. São cinco bo­ ras da tarde. Hora elegante, hora do cbá in­ glês que o mundo adotou, bora clara em que estão presos todos os demônios e atadas as mãos das feiticeiras e dos elfos. Depois de lambiscar o meu jaquetão nu­ ma vitrina que faz espelbo e endireitar o laço da gravata, dirijo-me corretamente para o edi­ fício gris da Rotisserie Sportsman, na Rua de São Bento, esquina da Direita, o mesmo que faz boje fundo para a Praça do Patriarca. O porteiro solícito comunica-se com O apartamento, dá o meu nome, que estou certo dela já ter esquecido, e pede para que eu es­ pere. Minutos atentos. Desce pelo elevador um moço alto e loiro, procura-me, em fran­ cês. É 0 pianista Dumesnil que acompanha a artista em suas tournees. — “ Madame vous prie de venir la voir après le spetacle” . Estou jogado de novo na rua mas, mais do que na rua, sinto-me dentro de um pro­ blema terrível. Como? Visitar uma mulber fr í extraordinária a lioras mortas num liotel, de­ pois do espetáculo. Isso é o cúmulo da fal­ ta de educação, da falta de linha, da ausên­ cia de escrúpulos. Serei eu por acaso um valdevinos, um personagem fescenino de Pau­ lo de Kock Eu, aquele menino gordinho que saiu virgem das saias maternas aos vinte anos, sobrinho de tio Herculano e ex-redator do ‘Diário Popular” '? Nunca, mas de modo al­ gum terei a imoral coragem de beneficiar-me de um convite com certeza errado, para sur­ preender no íntimo de tais desoras uma cele­ bridade inconfundível da cena mundial que se acha de passagem por minha cidade. O próprio porteiro, tão amável agora na sua so­ brecasaca de botões dourados vai me agarrar pela nuca levando-me à porta aos pontapés. Ou o ascensorista saberá barrar a minha au­ dácia e castigar o meu cinismo reconduzindo- me ao andar térreo, sem dizer palavra, quan­ do eu lhe anunciar o apartamento que procuro. No entanto, o acompanbador da dançarina soubera perfeitamente me encontrar e dar-me 0 estranho convite. Depois do espetáculo... Não sei nem como nem onde jantei, com­ pletamente alienado. Sej apenas que tudo me conduziu, mesmo as pernas, até o Teatro Mu­ nicipal que esplendia de luzes e de gente. Isa­ dora Duncan estreava em S. Paulo. O pano se levantou e eu vi a Drécia, não a Grécia livresca dos sonetões de Bilac que toda uma subliteratura ocidental vazava para a colônia inerme. Eu vi de fato a Grécia. E P i a Grécia era uma criança seminua que colhia pedrinhas nos atalhos, conchas nas praias e com elas dançava. O cenário unido duma só cor abria-se para vinte e cinco séculos de mar, de montanhas e de céu. E do fun­ do duma perspectiva irreal, as sombras da caverna platônica tomaram a carne virginal de Ifigênia para ressuscitar a realidade úni­ ca. A voz do piano arquiteturava Gluek. Essa mulher é alga, sacerdotisa, paisagem. Deixei estonteado o teatro, a gente. Per- di-me de novo na cidade. Atravessei o viadu­ to velho, custei a estacar. Um endereço me enlaçava. Aquela deusa tinha me mandado di­ zer que viesse vê-la. Mas como'? Ousaria a temerosa emprêsa? Quem era eu diante da deidade boêmia e esvoaçante que, em plena decadência bailárica, restaurava a dança e abrira para o seu século o prenúncio de um renascimento patético da plástica e do ritmo? Quem era eu, o menino que vivia das sopas de Cerqueira César, para afrontar de perto, sozinho e a horas mortas, o gênio andejo da mulher despida que levara o escândalo de seu espírito e o fascínio de sua carne às cin­ co partes do mundo? Quem era eu, o filho bem educado de Dona Inês, o rapaz que tinha família em Caxambu, o matriculado na Ló­ gica do padre Sentroul e no Direito Romano do professor Porchat, para suportar aquêle sopro de tempestade shakespeariana!

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