Bloco 11 Um homem sem profissão · Capítulo 11 de 20
Obra Menu

Bloco 11

Logo depois, mudou-se do apartamento sem indicar endereço e levando o dinheiro meu. Viajei com Kamiá. Fomos conhecer a Alemanha, feudal e colorida como mna lito­ grafia. Encontrando, de volta a Paris, Gio­ vanni Grasso e sua troupe, com eles fui para Londres, levando Kamiá. Instalamo-nos no quarteirão de Soho. Faltou-me de repente dinheiro. Esperei inutilmente a mesada que meu pai religiosa­ mente remetia de S. Paulo. Ao sair do quar­ to do hotelzinho que habitava, acendi uma vela diante de um quadrinho de Nossa Se­ nhora Aparecida que minha mãe me dera. No banco, nada. Regressei ao meio-dia. O quarto tinha pegado fogo. Vim a saber que o dinheiro estava em Paris, à minha ordem. Mudei-me com Kamiá para uma boarding­ house limpa, em Albany Street. Compramos um presunto que ficou pendurado na janela e conformamo-nos com os espetáculos de Grasso. Fomos uma vez ver a ópera no Coventry Garden. Como toda a ópera, uma luzida droga. Grande platéia. Eu tentara usar uma barba rala e desigual e isso me deu um terrível azar nas ruas populares de Londres. Chegava a ser vaiado. A popu­ lação dos public-bars era a pior do mundo. Desdentada, sem nariz. Assisti a um comício em fila triste e pacífica sob o feroz cassetete dos guardas da polícia inglesa. Estavamos, 118 O SW A LD D E AjM DRADE evidentemente, na Inglaterra de Marx. E eu não sabia. O “ Otelo” de Grasso entusiasmou não so a mim mas à própria crítica londrina. Era de fato, uma maravilha passional e moura. M I A volta a Paris, pelo canal da Mancha, me fez dar de cara no Consulado, com meu ex-amigo Osvaldo Pinheiro. Passei-lhe uma descompostura inútil num bar. Voltei com Kamiá a Milão a fim de visitar Landa Kos- bach. Aí criou raízes um drama de ciúmes que daria mais tarde tremendos aborreci­ mentos. Kamiá percebeu na menina uma sé­ ria rival. No cenário nativo de Catânia fui rever Grasso. Estive em Acireale e nos arredores do Etna. Toda essa região de terremotos, cuja calrna paisagem faz parecer tudo assen­ tado e imutável. O próprio Etna deu-me a impressão dum fundo de quadro, parado na luz maravilhosa, com um fio de fumaça bran­ ca imóvel. O colorido dum só azul no mar contrastava com o verde dos laranjais da costa. Na Calábria, no fundo do grande mar triste e silencioso, o sol estava envolvido de roxo como um Cristo de Semana Santa. E dos desmaios violetas dispersos em re­ dor, criou-se um momento uma figura de mu­ lher céu acima, alongou o braço fantástico, chamou. Pensei em mamãe. I Era preciso voltar ao Brasil. Resolvi “trazer comigo Kamiá, que se mostrava afável e prestimosa. Embarquei com ela em Trieste, a bordo do ^ ‘Oceânia”, da mesma companhia do ^ tha Washington” . Padres cantavam no tom­ badilho. Kamiá também cantava. E eram canções brejeiras de Montparnasse. ^^Les femmes des étudiants Sont cJimides comme de la braise Quand elles n’ont pas d’amants Elles prennent les barraux de chaise Et l’on s’en foîit La digue, digue, daine! Et l’on s’en fout La digue, digue, don!” Paro para perguntar: — Por que gos­ tava eu mais da Europa do que do Brasil? Os meus ideais de escritor entraram grande­ mente nessa precoce tomada de posição. Ti­ nha-se aberto um novo front em minha vida. ISTunca fui com a nossa literatura vigente. A não ser Machado de Assis e Euclides da Ounha, nada nela me interessava. A vida estudantil não existia para mim, tal o arrai­ gado e sábio desprezo de que me tomei pela Eaculdade do Largo de São Francisco, pelo Direito Romano que eu muito bem supunha responsável pela legislação reacionária, pela chamada Filosofia do Direito de que era de­ tentor com exclusividade e monopólio o bonzo r i! j 1 I I j K i J Pedro Lessa. Conhecera outro professor de Filosofia dali, mas minhas relações com êle se fizeram através dos juros altos que êle cobrava sobre títulos meus e de meu pai. Era usurário e morreu assassinado, não sei se por isso. A Europa fora sempre para mim uma fascinação. Talvez Osvaldo Pinheiro com suas pobres melenas, seus pardos olhos tris­ tes, tivesse contribuído para criar em mim êsse complexo. Era, sem dúvida, a existência livre de artistas, com amores também livres, a boêmia de Indalécio em grande que eu aprendera a admirar na ^ ‘Boêmia” de Puccini, a Única ópera que suportava. A irregulari­ dade, a contravenção para que eu nascera e para a qual agora escapava, fugindo também ao cálido e envolvente agasalho materno. Na Europa, eu me encontrara encontran­ do a paisagem, encontrando o macarrão. O vinho também era uma intensa novidade. A revelação de um grande vinho popular da Italia do Sul, o Frascati, dei Casteli Eomani, me fez cair de bêbado em Nápoles, na pri­ meira tratoria que encontrei. Senti no meu corpo e apertei contra meus braços a terra quente da Italia. Eu tinha tido, aliás, a ini­ ciação do vinho italiano no Rio, anos antes, quando na mesa do Hotel Avenida, o único hotel decente que existia, no mesmo prédio de hoje, o garção colocou para a surprêsa de meus olhos uma garrafa onde estava escrita no rótulo branco a palavra Canelli. Barbera Oanelli. Evidentemente, nunca mais encontrei na vida um Barbera assim. Nmna volta a Nápoles, antes de Paris^ com Osvaldo Pinheiro e meu primo Rogério, também conheci o amor. Uma das garôtas^ da Vila Chiaia me endoideceu. Passamos uma noite em Santa Terezela degli Spagnuo- li, no coração popular de Nápoles. Acordei. Três horas da madrugada. O luar entrava numa golfada pela única janela. Da rua, uma voz clara de napolitano se elevou, cantou, me- adormeceu num meio sono de outra vida. Certa noite, saindo só, encontrei um cego que pedia esmola na rua. Diante da moeda que lhe dei, abriu os olhos claros e perfeitos: — Vuole una signorinaf Essa pergunta não me era estranha. Não havia ainda automóveis, andava-se de carro. E toda vez que penetrávamos num coche- aberto, puxado por dois cavalos, o cocheiro- discreto se voltava e indagava se queríamos uma moça. O cego levantou-se e eu acompanhei-o por ruas estreitas e vielas. Não tinha medo por­ que estava armado. Chegamos a uma casa aparentemente familiar. Subimos uma es­ cada. Um velho sentado lia um diário napoli­ tano, uma velha costurava. Disparei pela escada abaixo, fugi. Mas o velho deixando os óculos saiu correndo atrás de mim, aos gri­ tos: í: 1 m "íii S f I — F ' qui! Venga! Voltei tranqüilizado e, na cama inteira­ mente conjugal, deitei despida uma garota gordinha e linda. Sete liras. Tudo isso vinha confirmar a idéia de liberdade sexual que doirava o meu sonho de viagem, longe da pátria estreita e mesquinha, daquele ambiente doméstico onde tudo era pecado. Quando “ Serafim Ponte Grande”, recém- .chegado a Paris, dizia que agora podia tre­ par, exprimia o meu desafogo. Meu pai me avisara de que as mulheres eram fáceis. Mas, no Brasil tudo era feio, tudo era compli­ cado. Sem sombra de dúvida, atribuo o nú­ mero imenso de crimes sexuais aqui pratica­ dos pelos ditos “ tarados”, dois mil e tantos em cerca de dois anos, a essa contenção man­ tida pela nossa mentalidade colonizada, pelo país sem divórcio e onde, apenas nas classes altas, se esboça um movimento de liberdade de idéias correspondente à evolução moral do mundo. O “ tarado” é filho da falta de divór­ cio. N’a Europa, o amor nunca foi pecado. Não era preciso matar para possuir uma mulher. Não havia lá, sanções terríveis como aqui pelo crime de adultério ou sedução. En­ fim 0 que existia era uma vida sexual satis­ fatória, consciente e livre. Os contos de Mau- passant já tinham me elucidado a esse res­ peito. O fato histórico do bárbaro Genserico, depois de convertido ao cristianismo, ter man- í 1 dado fechar os cabarés de Cartago, elucida bem êsse ardor do cristão novo pela moral adotada. As reações do júri brasileiro eram nheias dessas lições. Um salafra dava dezoi­ to facadas na esposa suspeita e era absolvido unânimemente, tendo a gente que apertar- lhe a mão sangüinária no trem diário dos ne­ gócios. Sentia-se que êle estava perfeita- mente tranqüilo com a absolvição oficial. O Brasil adúltero apresentava-se chatís­ simo e cheio de perigos. Por outro lado, o bordel não me contentava. Eu romantizava imediatamente meus furtivos encontros de botina e cincão. A Europa civilizadamente negava isso tudo. Lá não era crime nenhum amar. Além do desrecalque trazido pelo súbito desaparecimento da contenção materna, eu encontrei logo campo para exercer atividades normais de homem de barba. E as exerci. Outro aspecto que me prendeu aos assim- tos da Europa — o social. Eu sempre fora um rebelado, um estranho leitor de Dostoie- vski, que ligava à prepotência de Nietzsche. Esses dois gênios tinham presidido à minha formação intelectual. Em Londres, fui encontrar vivas nas ruas, duas novidades — o assalariado e a su- fragete. Esta era representada por mulheres sêcas e machas que se manifestavam como se manifestava o operário. Ordenadamente, às vistas da polícia, mas protestando contra um estado de coisas de que minha ignorância mal I i il I ítí/ií-í MI suspeitava. Eu

1/1
Menu

Fazer anotação