Bloco 6 Um homem sem profissão · Capítulo 6 de 20
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Bloco 6

Uma febre de curiosidade tomou as famí- Jias, as casas, os gimpos. Como seriam os no­ vos bondes que andavam màgicamente, sem impulso exterior? Eu tinha notícia pelo preti- nho Lázaro, filho da cozinheira de minha tia, vinda do Pio, que era muito perigoso êsse ne­ gócio de eletricidade. Quem pusesse os pés nos trilhos ficava ali grudado e seria esma­ gado fatalmente pelo bonde. Precisava pular. Uma grande emprêsa canadense estabele­ cia-se em São Paulo — a Light. Meu pai, que era vereador, trazia notícias e pormenores do ífe f ,I V I li 8g OSW ALD DB A N D R A D E grandioso empreendimento. Construíam nma represa e uma usina na pequena cidade de Parnaíba — por onde antes passávamos na direção do santuário do Bom Jesus de Pira- Câmara Municipal fora convidada a conhecer os trabalhos da Li^ht. Pronuncia­ va-se '‘Laite’’. E uma manhã, Seu Andrade, com seus companheiros de vereança, partiu para ver o oue se fazia. Dona Inês e eu ouvimos no dia seguinte as proezas da excursão. Meu pai contava que atravessara, sem se curvar, por dentro de ca­ nos enormes por onde passaria a água repre- sada. Um mistério esse negócio de eletricidade. Ninguém sabia como era. Caso e que funcio­ nava. Para isso as ruas da pequena São Pau­ lo de 1900 enchiam-se de fios e de postes. O fato público mexera com a opinião. Ha­ via os favoráveis, os que previam um grande progresso para a Capital com a aquisição da energia elétrica. Mas havia também os que cheiravam negociata na vinda de capitais es­ trangeiros para cá. Não se tratava ainda do capital colonizador, mas já se conhecia al­ guma coisa da exploração colonial de nossas possibilidades pelos países mais avançados. — Êsses políticos são uns vendidos! Que­ rem é gorjeta! Eu sabia, de conhecimento próprio, que nem todos os vereadores eram honestos. Pois não havia lun colega de meu pai trabalhado ít t g a Câmara e conseguido derrubar um projeto do vereador José Oswald, que pretendia doar à cidade um parque a ser construído no Mor­ ro dos Ingleses? A desapropriação do local magnífico, dando deserto sôbre a cidade, cus­ tava apenas quatrocentos contos de réis. To­ do 0 Morro dos Ingleses. Mas, o pro-homem que se opunha a meu ]>ai era arrendatário, ou sócio, ou empregado da empresa que man­ tinha 0 Parque da Água Branca e não queria saber de concorrência. Sacrificava assim os pidmões da cidade obtendo o contra da maio­ ria da Câmara. Meu pai lutara ardorosamente pelo seu projeto. Mas o homem era de fato impor­ tante. Tinha o nome emplacado numa das ruas da cidade. E a Antártica era a Antár­ tica. Ao povo chegavam esses e outros rumo­ res de interesse pessoal ligado aos cometi­ mentos públicos. De modo que a vinda da Light provocou em muita gente a idéia de que não poderia ser de graça o interesse a ela fa­ vorável por parte de muitos camaristas. Meu pai, desassombradamente, colocara-se ao lado da emprêsa. A êle que fora mn abridor de bairros, que possuíra no “ encilhamento” todo o Brás, todo o Cambuci e a Glória, com­ prando e vendendo imóveis, não escapava o que seria a condução fácil e rápida para o desenvolvimento de São Paulo. E como não tinha rabo-de-palha, não sentiu hesitação al­ guma — estava ao lado da Light. Quando se votou o projeto, a casa da Câ­ mara encheu-se. E muitos vereadores so­ freram mna imensa vaia por parte do pú­ blico. Seu Andrade levantou-se e votou. A favor. Debaixo do maior silêncio dos especta­ dores. IssQ tudo desdobrava-se em casa com o entusiasmo animoso de D. Inês, de tios, ami­ gos e parentes. — Respeitaram Seu Andrade! Ninguém vaiou! O projeto aprovado, começaram logo os trabalhos da execução. E anunciaram que numa manhã apareceria o primeiro bonde elétrico. Indicaram-me a atual Avenida São João como 0 local por onde transitaria o veí­ culo espantoso. Um amigo de casa informava: — O bon­ de pode andar até a velocidade de nove pon­ tos. Mas, aí é uma disparada dos diabos. Ninguém agiienta. É capaz de saltar dos tri­ lhos ! E matar todo o mundo... A cidade tomou um aspecto de revolução. Todos se locomoviam, procuravam ver. E os mais afoitos queriam ir até à temeridade de en­ trar no bonde, andar de bonde elétrico! Naquele dia de estréia ninguém pagava passagem, era de graça. A afluência tornou-se, portanto, enorme. No centro agitado, eu desci a Ladeira de São João que não era ainda a Avenida de hoje. Fiquei na esquina da Rua Libero Badaró, olhando para o Largo de São Bento, de onde devia sair a maravilha mecânica. A tarde caía. Todos reclamavam. Por que não vem? Anunciava-se que a primeira linha cons­ truída era a da Barra Funda. — É prá casa do Prefeito! O bonde deixava o Largo de São Bento, entrava na Rua Libero, subia a Rua São João. LTm murmúrio tomou conta dos ajunta­ mentos. Lá vinha o bicho! O veículo ama­ relo e grande ocupou os trilhos no centro da via pública. Ilm homem de farda azul e boné o conduzia, tendo ao lado um fiscal. Uma ala­ vanca de ferro prendia-o ao fio esticado, no alto. Uma campainha forte tilintava abrindo as alas convergentes do povo. Desceu devagar. Oritavam : — Cuidado! Vem a nove pontos! Um italiano dialetal exclamava para o fi- Ihinho que puxava pelo braço: — Lá vem os bonde! Toma cuidado! O carro lerdo aproximou-se, fez a curva. Estava apinhado de pessoas, sentadas, de pé. Uma mulher exclamou: — Ota gente corajosa! Andá nessa ge­ ringonça ! Passou. Parou adiante, perto do local onde se abre boje a Avenida Anbangabaú. Houve um tumulto. Acidente? Não andava mais, gente acorria de to­ dos os lados. Muitos saltavam. — Rebentaram a trave do lado! Não é nada! li llf- r >f V i Tiraram a trave quebrada. O veículo encbeu-se de novo, continuou mais devagar ainda, precavido. E ficou pelo ar, ante o povo boquiaberto que rumava para as casas, a atmosfera dos grandes acontecimentos. Nas ruas, os acende­ dores de lampião passavam com suas varas ao ombro acendendo os acetilenos da ilumina­ ção pública. A Vila Cerqueira César tinha sido aber­ ta pelo esforço de meu pai. Êle a arruara, transformando-a da Chácara Água Branca dos Pinheiros e do Sítio Kio Verde num bair­ ro urbano, onde conseguiu fazer penetrar, nos primeiros quarteirões da Kua Teodoro Sam­ paio, 0 bonde da Light. Foi uma festa fabulosa essa, com os san­ duíches deliciosos do tempo, de bisnaga e fiam­ bre e mais cerveja e gasosa. TJma banda de música estrondou na ma­ nhã, quando o veículo vermelho apontou nos trilhos virgens, descendo a pequena ladeira no meio do povo que se juntura. Meu pai, de preto, e chapéu coco, tendo ao lado o motorneiro, era quem conduzia o bonde com os seus pró­ prios braços. Dona Inês olhava do portão da casa do compadre Antenor, à Rua São José, atual Os­ car Freire, onde armara seu quartel-general, junto à esquina da Teodoro Sampaio. Num dos regressos a São Paulo, soube que se abrira mii grande colégio aristocráti­ co, entregue aos monges beneditinos, rosados alemães, muito mais simpáticos que os mirra­ dos franceses que eram os maristas do Carmo. Pui em 1903, com treze anos, matricula­ do no Ginásio de São Bento, onde passei a estudar todas as disciplinas, entregues a pro­ fessores civis, entre os o,liais figuravam o peralta Batista Pereira, genro de Biii Bar- b W T “o dr. Afonso d’Escragnole Taunay, filho do Visconde de Taunay, autor de ‘'Ino­ cência”, tão liorrivelzinha e tão célebre. In­ ventaram que eu devia estudar música com o Professor Sorriso. Imediatamente pensei em aprender violino. Aliás, numa das car­ tas que troquei com o generoso espírito de meu tio Inglês de Souza, eu clamara esta fra­ se: — Ah! Meu violino que eu não tenho! Mas na seleção dos componentes da orques- trinha do ginásio, acharam que eu tinha jeito não para violino e sim para viola que era um instrumento rombudo e sem graça nem la­ mentos. Isso pôs por terra meus sonhos de virtuose. Dei-me satisfatòriamente nos primeiros anos do novo ginásio, que logo conquistou fa­ ma em São Paulo. Era abade do mosteiro do Largo de São Bento, a'figura importante de Dom Miguel Kruse que diziam ter-se conver­ tido e tomado o hábito depois de uma grande vida de aventuras no Peru e em outras Re­ públicas da América do Sul. i ■ffk 4 O reitor do Ginásio era Dom Pedro Egge- rath, gordo, vermelho, ativo e risonho. O gi­ násio tinha salas amplas e claras que me lem­ bravam o ambiente da Escola Modêlo Caeta­ no de Campos. Enfim, era outra coisa estudar ali do que ficar no amontoado de promiscui­ dade e sujeira do Ginásio do Carmo. Apesar disso, fiquei sendo logo o engraçado da turma e muito embora tenha passado nos exames para o terceiro ano, fui em breve parar entre os últimos da classe. No quarto ano, produziu-se a crise espe­ rada. Encontrei pela minha frente um profes­ sor teutônico, pré-nazista, de peito emproado, purista e autoritário. Sua figura marcial in­ vadira o ginásio e tomara assento em todas as posições. Era professor tanto de português como de alemão ou grego, de geografia e ma­ temática. Chamava-se Carlos Augusto Ger­ mano Knuppell e era um produto da Faculda­ de de Direito, de que fazia os mais elevados elogios. Para êle, ser bacharel pela escola do Eargo de São Francisco traduzia um incal­ culável penhor de saber e de caráter. A violência da entrada dêsse homem na vida docente do ginásio repercutiu mal na mi- mha casa. Meu pai tivera uma questão judi­ cial em que o “ Doutor Kinipel” tinha sido pa­ trono do seu adversário. Prevenção minha ou não, verifiquei que o homem me olhava du­ ramente e mais duramente ainda me tratava. Vi-me logo condenado a repetir o quarto ano. j i' ameaça que êle fêz abertamente em classe. Se­ ria de fato difícil a promoção de quem caís­ se no seu desagrado, pois êle lecionava em pes­ soa a maioria das disciplinas e substituía com facilidade todos os lentes. Diziam que era um grande tomador de café e einbirrava supina- mente com a sujeira de meus dedos e a desor­ dem dos meus cabelos. Aproximando-se os exames do fim de ano, meu duelo desigual com 0 ‘‘Doutor Kinipel” atingiu o auge. Êle tinha nas mãos possantes e hostis quase todas as bancas. O primeiro exame em que eu 0 defrontei foi o de Corografia do Brasil, de quê êle era catedrático. Durante o ano to^do nos ensinou a decorar nomes de cidades, lagos, montanhas e rios, pouco interêsse mos­ trando por qualquer idéia de cartografia. Os mapas fugiam de suas aulas sêcas. Foi tal o esforço decorador que eu fiz a fim de apazi­ guar 0 monstro, que até hoje minha memória guarda em ordem alfabética o nome das cidades do Estado do Pará: Alenquer, Bragança, Bre­ ves, Cametá, Cintra, Gurupá, etc... Na hora em que eu ia ser oferecido em sacrifício à ferocidade do professor, a sala de exame se encheu de colegas. Todo raundo que­ ria assistir ao sádico espetáculo. Tirei o pon­ to. “ Portos de vSegunda Ordem-’. Sentei-me aterrado diante da banca onde ladeavam o catedrático os professores: Ba­ tista Pereira e gamara Lopes. Procurava lem­ brar-me dos nomes em ordem alfabética dos i i I I portos (Í6 segunda ordem, quando Kinipel gritou : — Não senhor, não quero nada de cor! O senhor vai realizar uma viagem estranha! Vai subir mun navio num porto do Estado do Rio Grande do SÍü e desembarcar na Bahia. Exi­ jo apenas uma condição para aprová-lo : que não entre nesse percurso em nenhum porto de primeira ordem. Vamos! Comecei timidamente por Torres, toquei em Florianópolis que apesar de ser capital do Estado de Santa Catarina era um porto de segunda ordem. Esbarrei em Paranaguá e penetrei em águas de meu Estado, o Estado de São Paulo. — Iguape, Cananéia. Ia ine- vitàvelmente entrar em Santos, mas, me reti­ rei a tempo. Passei para São Sebastião, Uba- tuba, Parati, e não achando meio, na minha pobre e mal exercitada memória car­ tográfica, onde pôr o pé, exclamei: — Rio de Janeiro! Foi uma gareralhada geral. Era o que êle esperava. Gritou : — Rio de Janeiro! A Capita! da Repú­ blica, pôrto de segunda ordem! Vou expul­ sá-lo da banca! Mais morto do que vivo, eu respondi: — Desci para ir de barca a Niterói! O estrépito da classe atingiu o delírio. Vermelho, ^ ‘Kinipel’’ gesticulava: — Ponha-se daqui! Os dois outros lentes riam, gozando. A classe levantara-se e tomara conta de mim, erguendo-ine nos braços e levando-me assim em triunfo pelos corredores do ginásio. Acabara o exame e um monte de meninos acumulou-se ante a porta fecbada, onde se produzia a classificação das notas. Eu me açoitara a um canto, sem nenhuma esperança. A porta abriu-se, leram-se os nomes, o meu vinha no fim. Eu tinha sido aprovado, sim­ plesmente, grau 1. “ Contra o voto do profes­ sor da cadeira’\ Houve uma modificação que se tornara necessária nos quadros docentes do Ginásio de São Bento, nesse bom ano de 1906, quando, reprovado em mais de uma cadeira, fui obri­ gado a repetir o á."" Saiu “ Kiniper^ com desafogo de todo o colégio e entraram diver­ sos professores novos, dentre os quais duas figuras de exceção: João Ladislau Péter que vinha lecionar latim, grego e alemão, e o por­ tuguês exilado Gervásio de Araújo que vinha reger a cadeira de literatura é ensinar-nos nossa língua. O primeiro era comprido e calvo e usava óculos dourados, o segundo, grosso e baixote sob uma desgrenhada cabeleira gri­ salha. Talvez porque eu repetisse, tomei-me um dos melhores da pequenina classe que, se não me engano, tinha apenas nove alunos.

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