Bloco 13 Um homem sem profissão · Capítulo 13 de 20
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Bloco 13

Guardo de memória algumas quadrinhas. de Emílio: ''Morreu depois de uma sova E como não tinha campa Duma orelha fez a cova E da outra fez a tampa’\ "Morreu o Pinto da Rocha Ardem as velas em torno Diz uma tocha à outra tocha Isso é higode ou é corno f (Senhores, isto é o cúmulo Parece um caso de duendes Com a testa Comuto Mendes Ergueu a pedra do túmulo^’. Suas piadas correram mundo mas nunca foram editadas. Nem seus versos satíricos e- pornográficos. Como lhe oferecessem pela manhã contí­ nuos aperitivos e o que êle tinha era fome, per­ guntava : — vocês querem que eu coma o copo Do período boêmio que Coelho Neto fixou no seu único livro viável, Conquista’’, Emí­ lio narrava que o grupo do qual faziam parte Bilac e Paula Nei o incumbira de arranjar restos de frios no bar de um alemão. Era para J.rif um cachorro que não tinha o que comer em ca­ sa. O alemão punha pedaços de fiambre e quei­ jo e Emílio cada vez pedia mais, alegando que o animal crescia. Um dia, enquanto o harman preparava o farnel, extasiou-se diante de um boião de conservas e não se conteve. Quan­ do 0 homem veio, suplicou: — Ponha dois pepininhos! O alemão berrou: — Como? Sua gachorre come picles? Não havia solenidade científica ou literá­ ria, em S. Paulo, onde Emílio de Meneses não procurasse meter o bedelho. Recitava sonetos de circunstância, que levava preparados. Fre- qüentava Washington Luís, então prefeito, o qual até hoje lamenta nada ter feito a seu fa­ vor. Quando realizava conferências, passava bilhetes a tudo quanto fosse figurão. Certa tarde me convidou a levá-lo até a casa do poeta e magistrado Vicente de Carvalho que não tinha lun braço. Tomámos um táxi que ficou nos esperando em frente ao portão da casa, onde éramos recebidos numa biblioteca de numerosas estantes de livros encaderna­ dos e limpos. Antes de falar sobre as duas poltronas que queríamos lhe empurrar, Emí­ lio se desfez em elogios à literatura do poeta santista. Surpreendido e grato com a visita Vicente nos perguntou: — Vocês me conhe­ cem picaresco? Foi a uma gaveta e trouxe j iü .iii I Ï Î de lá um maço de originais inéditos que se pôs a ler. Era um conto chamado ‘‘Zé Eidélis” . Vendo-nos abancados e sorridentes, passou a novo capítulo e depois a outro. Emílio olha­ va-me aterrado fazendo-me sinais sobre o táxi que lá embaixo aumentava de preço. Como a demora se tornasse imensa, Emílio tirando o relógio de ouro do bôlso do colete pôs-se de pé e exclamou: — Doutor Vicente, eu tenho hora marcada para ver um amigo num hos­ pital. Voltaremos à noite, para continuar a gozar essa delícia. Saiu furioso, gritando no táxi: — “ Fale-me você de novo em poetas! Quando ele falava em João Felpudo, eu pen­ sava em Washington Luís, que me prometeu 0 teatro!’^ Substituiu-se êle por muito tempo às mi­ nhas primeiras ligações jocosas e marginais, lodalécio de Aguiar, o poeta caipira Cornélio Pires e o pintor Osvaldo Pinheiro. ii Entreguei-me ao inimigo, aderi vencido à fé de meus pais. Como adere um prisioneiro no fundo de uma masmorra. Procurara anos antes, criança ainda, inú- tilmente obter de um padrinho que diziam ri­ co, que me fizesse estudar Filosofia em Pa­ ris. Inútilmente quisera me dedicar à medi­ cina. Não havia ainda a Faculdade daqui. A Escola do Largo de São Francisco era o sim­ ples bastião colonial destinado a transmitir às gerações dominantes o vírus do Direito Jus- tiniano, trazido para a livre América pela rea­ ção portuguesa. A sabedoria patriarcal do V I século romano! Eu sentia o enorme antago­ nismo que separava disso meu instinto de ho­ mem livre. Um dia fui preso. Saindo do “ Diário Popular” antes do meio-dia, vi uma briga na rua, diante do jor­ nal italiano “ Eanfulla” , que era perto. Dois policiais tratavam de impedir que um homem trajando macacão tomasse a sua bicicleta. Cor- ri sobre o grupo, meti-me no meio e fiz o desconhecido partir. Os soldados me detive­ ram. O fugitivo era Oreste Kistori, o anar­ quista. O totemismo e a autoflagelação campeiam no cenário desolado de minha existência sem norte. Kaniiá deixara de ser Paris, para atrair as atenções interessadas dos literatelhos de “ O Pirralho” . Estudo filosofia de Louvain com Monsenhor Sentroul. Nesse momento. Landa Kosbach chega da Europa, escorraçada pela guerra que devasta a Itália. Tem dezesseis anos. 'Éuma flor de car­ ne musculosa e doirada. Com a velha atrás, cheia de vidrilhos. É uma marginal da socie­ dade de bem, e isso excita meus compromissos para com a maruja revoltada do ano 10. O marinheiro chibatado ergue no topo rebelde de sua nave a pequena bandeira triangular e ver­ melha. É a segunda frente que se reorganiza ao fulgurante calor da beleza e da vida. Ela me detinha desde os primeiros dias marinhos do “ Martha Washington” . t Mudáramos para um sobradinlio da Rua Augusta onde hospedamos Landa e Mme ScMndelar. Papai e Kamiá receberam-nas bem. A dançarina pela manbã desce para fa­ zer ginástica, seguindo a disciplina escolar do Scala de Milão. Diz a velha que seu marido, 0 americano Schindelar, é preposto do milio­ nário Farqhuar, cartaz do dia, que pretende sacudir a modorra econômica do Brasil, cri­ ando mercados e entrepostos e promovendo empreendimentos que atingirão tanto a bacia do Amazonas como os pantanais fecundos de Mato Grosso. O piano alugado, donde Kamiá tira inú­ tilmente as mesmas escalas inertes, serve agora para os exercícios de Landa que ensaia um programa onde fulge a “ Morte do Cisne” de Saint-Saêns. Os seios róseos e nascentes da dançarina pulam facilmente do corpinho. Suas coxas alvas e redondas estacam numa calça minús­ cula de elástico, precursora dos tapa-cus de Bikini. Landa, uma manhã, abre o roupão e mostra-se inteiramente nua para meus olhos. Sinto que meu pai e Kamiá reagem vagamen­ te contra as duas hóspedes. Levo Landa e a velhota às redações e aos fotógrafos. Apre­ sento-a com orgulho como a pequena campeã de natação do Flamengo. Ela dança todas as expressões do romantismo europeu — da “ Dan­ ça das Horas” às “ Ruínas de Atenas” de Bee­ thoven. Executa passos e volteios, seminua. na penumbra onde claudica ao piano Madaine Sclnndelar. E, uma noite, conta-me que não é filha da velha que é sua avó e forjicou papóis. Conheceu sua mãe, desgraçada, na Alemanha. A velha diz-lhe: Você terá príncipes em sua cama! O amor assume o papel cavalheiresco que honrou a tradição dos servidores medie­ vais de Dulcinéias. Meu pai que fora sempre meu grande amigo, é um aliado natural de Kamiá, que o apanhou na orfandade septuagenária, lhe co­ locou no pescoço um cachecol para o frio, e lhe preparou à moda da França vitela ao mo­ lho branco. Não serão os meus amigos de “ O Pirralho” que corvejam enamorados em torno da francesa, já disponível e livre, que to­ marão meu partido para salvar uma criança da escravatura branca. Eu luto só. Meu pai, do fundo de seus setenta anos impolutos, levanta-se com a fúria dos vinga­ dores do Patriarcado contra aquele romance simples. A existência de um neto, filho de uma mulher afável e prestimosa, é o argu­ mento definitivo que se levanta contra meu sentimento justo. Eu não tinha compromis­ sos com Kamiá. Avisara-a, já na Europa, que não nos casaríamos. Ela conhecia a direção de meu afeto. Afinal que poderia eu desejar mais, votado à literatura, do que fazer mi­ nha vida com uma linda criança devotada a arte e à dança? Que monstruosidade havia nesse sonhado casamento ? Minha mãe me fal­ tou nessa hora terrível. Tinham acordado in- ll teressadamente todos os complexos feudais e religiosos de meu pai. Se eu me unisse a uma dançarina, êle não me entregaria os resultados de seus ‘‘setenta anos honrados’’. Acolhido a uma casa alugada na praia de São Vicente, para onde êle costumeiramente partia aos pre­ coces arrepios do primeiro inverno, tendo a seu lado Kamiá e a criança, meu pai trovejou como um herói clássico contra essa temeridade de eu ligar os meus dias a “ uma cômica”, a uma “ mulher de teatro”. A sua oposição su­ biu e percorreu tôdas as ameaças, mesmo a da suicídio. Se fosse necessário, êle denunciaria pelos jornais a minha vileza e a minha indig­ nidade. E se mataria. Eu não tinha, no entanto, só direitos mas meios para realizar meu sonho justo. Possuía intata minha herança materna. Era a metade dos terrenos da Vila Cerqueira César que ti­ nham tido anos atrás uma fabulosa oferta da Citv. Ê verdade que a guerra viera afetar os negócios em geral mas, se quisesse, eu liquida­ va na hora o mais que necessário para amparar minhas pobres ambições de escritor, ligadas ao desejo de ter uma artista ao meu lado. Mas nem de lonsre ousei nensar em reclamar o que era meu. Nossa vida continuava a ser a dos velhos e disciplinados sentimentos feudais. Meu pai nem sequer fizera o inventário de D. Inês. Naquele ambiente de confiança insta­ lara-se o dissídio. Eu preferia, é claro, mor­ rer do que tocar de longe no espinhoso assunto da minha herança. Tinha ao lado um homem que foi depois uin grande advogado — Vicen­ te Eáo. Vivo, honesto, clarividente. Mas êle não se fizera ainda na vida profissional e com certeza, penso, teria apoiado meus nobres sen­ timentos de renúncia. A gestão dos negócios era intocável e exercida por meu pai. Kamiá finge docilidade no infortúnio. E Landa me diz de repente: — Tenho três amo­ res com 0 teu. Possui os filtros da negaça, hesita, aparece a mim como Lady Macbeth re­ coberta pela fala de Ofélia. Faz-se sentir nessa hora o erro financei­ ro de 1911. A guerra produz a baixa, a desva­ lorização dos terrenos, talvez a ruína. Não se pode viver das letras de câmbio descontadas com 0 grã-fino Décio de Paula Machado que abre uma banca à Rua Direita para cobrar três T>or ceuto e mais ao mês. A dívida hipotecária vai se vencer. Eu recorro a Júlio Mesquita, diretor d’^ tado”. Vou à sua fazenda em Louveira e êle me apresenta ao corretor Estanislau de Ca- marsro Seabra, com escritório à Praça da Sé. Êste delineia um contrato de locação de servi­ ços de que resultou a gorda comissão da venda de três quadras para a Sociedade Hípica Pau­ lista, realizada exclusivamente por mim. Mas êle age na reforma da hipoteca dos terrenos à Economizadora. Consegue a prorrogação do prazo do empréstimo com um aumento de trin­ ta contos de réis. Nos contatos que tive com os diretores da Companhia, tomo o pulso do capitalismo. Eu f ia iíP r I y 6 niGii ]33iij liiuTiildGs d,GV6d.orGSj GspGravciinos horas na antG-sala da Praça da Sé. Apare­ cia 0 Arrudão quG Gra o advogado. ConvGr- sa vai, convGrsa vGm, niGii pai lançava, para ainansá-lo, a noticia dc qiiG Gn, pobrG g rGlap- so GstudantG dG DirGito, prGÍGndia SGguir a car- rGira dêlG. ÊIg rGtrucava ÍGchando o tGinpo g a cara: — Isso não é possível. Não sou sò- niGntG bacharel, sou doutor! Isso h o j e . .. Ke- niexia a beiçorra, querendo significar Lasciã- te ogni speranza, .. O mais duro de nossos credores era, po­ rém, Guilherme Eubião, frio, implacável para com a velhice inerme de meu pai. A demora da solução do nosso negócio, que angustiou a casa durante meses, tinha nas suas^mãos um sentido de guilhotina: — Se vocês têm pressa, é melhor não fazermos... Uma madrugada, batem estranhamente à casa que habitamos então, também na Eua Au­ gusta, mais abaixo. Acordando, corro a ver. Antônio Define surge esgazeado, de fraque, tirando tragadas quilométricas de um cigar­ ro. Eecebo-o. Fora assaltado por um negro desconhecido de noite na Eua 15 de Novem­ bro. E tivera que entregar ao assaltante um dinheiro que trazia no bolso para fazer um pagamento de seu pai. Visto-me imediata­ mente. Deixo Define com Karniá e meu pai e corro à polícia, onde vou denunciar o as­ salto e pedir providências. Dias depois, o de­ legado me chama e avisa: — Foi um assalto simulado. O seu amigo passou essa noite num clube de jogo e aí perdeu o que tinha e o que não tinha. É um jogador! O carro de Laio atravanca a minha es­ trada. Meu pai atira-se contra mim num ím­ peto que nada tem de senil. E grita : — Podes ir, mas no rumo da família Schindelar não levas as minhas bênçãos ! Ê um fantasma bem vestido pelo século X IX . Vejo tudo possível — tribunais, cadeias e mais coisas absurdas. Para salvá-la estou disposto a tudo. Sobe uma velha vontade de me explicar, de me discutir. Quero tribunais ! Tudo isso e maior drama nada seria se a imagem tranqüilizante que me imbecilizara de amor no início não começasse a oscilar.

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