Bloco 2 Um homem sem profissão · Capítulo 2 de 20
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Bloco 2

Feliz de meu tio! Tão cercado de mere­ cidos carinhos e de prestígio. Devo-lhe tanto! Para a época de literatura anêmica do comê- ço do século, era justa a sua alta reputação. Não li seus contos de que minha mãe falava entusiàsticamente. Seu talento era para dar mais do que deu. Mas seus enormes encargos profissionais e sociais não permitiram que se dedicasse somente à literatura. Tinha dez filhos. A lancha ^^Marina’Vdo Guarujá me trou­ xe esse buquê de imagens da minha família materna. Devo a um equívoco os benefícios oriundos de meu tio Herculano para a minha carreira literária. Sendo êle um literato, não soou mal essa palavra em casa, quando, muito cedo, eu me declarei também disposto a escre­ ver. O literato que êle era dobrava-se do gran­ de advogado, do autor de nosso Código Comer­ cial e do político, pois faleceu líder da banca­ da federal do Pará, donde era nativo. Ser li­ terato não constituía, portanto, no seio de mi­ nha gente, vergonha nenhuma nem compro­ misso algum com a existência em carne viva que tem fatalmente que ser a de quem escre­ ve. Eu tinha por trás de mim, para manter as esperanças de minha mãe, a retaguarda fi­ nanceira dos terrenos da Vila Cerqueira Cé­ sar, de que meu pai ficara dono, depois de numerosas transações imobiliárias. Também foi importante a influência de meu primo Seu Paulo, filho de tio Herculano. pois também êle ia ser literato e numa via­ gem que a família do Kio fêz a São Paulo, me comunicou que estava escrevendo suas Obras Completas’’. Tínhamos então onze anos, sendo êle pouco mais velho do que eu. b i T s V Coiitou-me também Seu Paulo o enredo de um conto seu, intitulado '‘O Fantasma das Praias”. Tratava-se de mna moça que havia morrido do peito em São Vicente. Agora, à noite, ela aparecia para seu noivo, ao longo da praia deserta. Essa história me desliun- brou de tal modo que, quando Seu Paulo par­ tiu para o Pio, eu sorrateiramente me apro­ veitei do assunto e escrevi “ O Fantasma das Praias” . É esse plágio o marco inicial de minha vida literária. Logo depois de deixarmos o Guarujá, sou­ bemos que se incendiou o Hotel de La Plage. Houve um susto póstumo e mais nada. No lo­ cal, ergueram outro que ainda hoje é o centro de turismo e batotagem mais importante do Es­ tado de São Paulo. As lembranças que me restam dessa fase foram as filtimas que tive da grande casa de esquina da Rua Barão de Itapetininga com a atual Dom José de Barros, que naquele tem­ po se chamava Onze de Junho. Ali está ainda hoje, o mesmo prédio de minha meninice, trans­ formado em farmácia. De suas janelas atual­ mente muradas, eu, pela primeira vez, espiava a vida. São Paulo era uma cidade pequena e ter­ rosa. Pouca gente. ITm ou outro sobrado de um só andar. Em frente à nossa casa havia um açougue que nos acordava pela madrugada com o ba­ rulho da machadinha picando a carne. Morava do outro lado o Manuel, inolequinlio italiano,, filho da viúva Madama Paula, que minha mãe recolhia para vir brincar comigo em casa, nos salões dos quartos. Nenhuma condução mecânica. Carros e tílburis que se juntavam no Largo da Sé, em frente à igreja, muito mais próxima do que a atual catedral e muito mais bonita. Aí den­ tro consumavam-se grandes cerimônias, onde apareciam dezenas de cônegos, de vermelho. Cantavam grosso. No teto havia uma espécie de litografia monumental. Um guerreiro, apea- do de um cavalo branco, olhando o céu que se abria. Me explicaram ser a ^ ‘ Conversão de São Paulo” . A Eua Barão de Itapetininga era pacata e doméstica. Aí moravam famílias conhecidas' de casa, o velho dr. Freire, diretor do Ginásie do Estado que ficava longe, na Luz, em frente à estação de trem de ferro. O dr. Seng, médico de barbas. Seu Figueiredo, do Banco. As pessoas ficavam conversando nas janelas e sentadas nos jardins. O viaduto mirrado, de ferro, ligava o bair­ ro onde morávamos ao centro da cidade, à Bua Direita, por onde se ia à Sé. Por debaixo da es­ treita ponte, floriam canteiros de lírios na chá­ cara enorme da Baronesa de Tatuí. Havia estudantes no Largo de São Francisco, onde se erguia um casarão conventual que era a Faculdade de Direito. Os ^hirbanos” do policiamento apitavam- nas noites sossegadas. M Com a ruína de minha família paterna, afazendada em Minas, meu pai viera tentar a vida aqui. Um cunhado lhe dera uma pas­ sagem de presente. Como, na fazenda de ou­ tro cunhado em que morava, tinha criado cin­ co galinhas, vendeu-as realizando a soma de cinco mil-réis. Durante a viagem gastou três mil e quinhentos em frutas, sobrando-lhe mil e quinhentos no desembarque, numa noite, na Estação do Norte. Hospedou-se em casa^ de tio Nogueira, casado com sua irmã Alzira. E encontrando em S. Paulo ambiente para trabalhar, fêz mudar-se o resto da família pa­ Meus avós paternos tinham falecido e estavam enterrados com meu irmãozinho no túmulo familiar de Caxambu. As tias trou­ xeram a escravaria que restava. E foi do aluguel de escravos que a família se alimen­ tou e manteve por algum tempo. Meu pai aproximava-se dos quarenta anos quando, conseguindo um sócio chamado Sá, abriu um pequeno escritório de corretagem. Apelidaram-no de Sá e Andrade, e, com esse nome, êle foi encontrado por meu avô, o de­ sembargador que, sendo viúvo, se casara rico em Santos e precisava de um homem de negó­ cios. Meu pai foi, assim, corretor do desem­ bargador Marcos Antônio Eodrigues de Sou­ sa e cedo a êle se impôs. Sentindo-se doente e velho, meu avô, já com bastante intimidade com 0 seu corretor, chamou-o certa noite à razão. Por que não se casava 9 Meu pai te- ria respondido que era o chefe de uma famí­ lia numerosa e pobre. Mas o velho foi-se abrin­ do. Tmha formado todos os filhos. Tendo ca­ sado uma filha e vendo que outra adoecera e morrera, preocupava-se com o destino da lil- tima, Inês. Quase pedido em casamento, Seu Andra­ de apareceu à minha mãe pela primeira vez, através de um buraco de fechadura. E pa­ receu-lhe elegante, se bem que não tivesse fei­ to a barba. E foi assim que, da apresentação à intimidade, ê,le se tornou o esposo de D. Inês. d Na casa da Rua Barão de Itapetininga, apareciam algumas visitas que falavam da re­ volta da Armada, que o Marechal Floriano abafara e da Questão dos Protocolos, que fa­ zia na cidade a chacina de italianos e brasi­ leiros. Havia um parente importante de meu pai -chamado dr. Raul. Vinha meu tio Luís, ir­ mão de papai, que estragara sua vida e seu emprego numa luta de funcionários contra 0 diretor da Central do Brasil, onde êle era chefe de trem” . Alto, espadaiido e célebre por suas façanhas físicas, contava que dera uma rasteira num preto desaforado, no Lar­ go de São Francisco, em frente à Faculdade de Direito, cheia de estudantes. Várias ve­ zes esvaziou a tapa trens de romaria onde se fazia balbúrdia. A origem feudal de minha família pa­ terna explica bem isso. Grande afazendo do em Baependi, Minas, meu avô Hipólito Jo­ sé de Andrade tivera terríveis lutas com es­ cravos. E arruinara-se, parece que em gran­ de parte devido a uma tragédia de ciúmes, pois tendo êle tido uma aventura com uma D. Águeda, minha avó — uma autêntica Nogueira — abandonara toda a assistência que lhe dava nos trabalhos da fazenda e isso o teria des­ controlado. Contava-se também que, numa es­ critura de terras, êle fora roubado pelos pró­ prios irmãos. Meu pai uma vez, querendo chicotear um neí?ro, o Ambrósio, êste o ata­ cara de faca. Saltou diante do homem. Ten­ do sofrido para mais de trinta golpes, apenas um 0 atingiu na mão. Era o sinal para uma revolta de escravos, logo abafada. Meu tio Luís, de quem guardo uma co­ movente recordação, me punha no colo, para ensinar as horas do relógio. O caso que o inu­ tilizou na Central do Brasil fora uma fanfarro- nada. Os funcionários levantados contra o di­ retor faziam tudo para que êste fôsse posto para fora. Mais um caso na Estrada e o ho­ mem seria alijado. Meu tio foi incitado a criar o caso. E criou, êle, honestíssimo, dando um pequeno desfalque. Teve que fugir e acoitou- se depois em Jacareí, onde a família vivia. Desmantelou-se assim para sempre. Mais tar­ de, um de seus filhos, chofer de praça, fita­ va-o dizendo: — Velho bêsta! Epitáfio do herói que êle fora. O paganismo de certas festas religiosas en­ levou longamente minha infância. Até poucos anos, enquanto a saúde me permitiu, fui fre- qüentador das festas do Bom Jesus de Iguape. Naquela época, Pirapora e a Aparecida cons­ tituíram o refúgio místico da família. Na Aparecida do Norte que hoje se ergue, ao lado da Rodovia Dutra, como um burgo medieval de um encanto espetacular, me vi muitas ve­ zes ao lado de meus velhos pais. Até hoje n§o me esqueci de meu pai narrar ter ouvido da Santa, numa noite de hotel, estas palavras proféticas : — Teus negócios vão se arranjar ! Mas. ela nronunciou tão lenta e demoradamen- te essa frase salvadora oue até hoje, mesmo com o auxílio de Santo Exnedito, e mais tar­ de r>om 0 de grandes advogados como o Rao, 0 Marcondes e o Luís Lopes Coelho, tudo tem- se reduzido a sohicões de emersréncia oue afi­ nal narece que vão terminar agora. Termina- rao? Uma procissão no camno, saída da Ca- pelinha de Santa Luzia na Vila Cerqueira Cé­ sar, que meus pais ajudaram a construir, fi­ cou badalando em minha memória entre ban­ deirolas, opas vermelhas e foguetes. Mas, Pirapora constituiu para mim o me­ lhor regalo da infância. Hoje atinge-se esse santuário do Bom Jesus creio que numa hora de automóvel. Naqueles tempos era uma via­ gem que lembrava o século X V I. Saíamos muito cedo. Descíamos do trem na estação v íV de Barueri e aí vinha nos buscar uma es­ tranha condução que se compunha de carros de boi e cavalos. Eu ia de carro de boi com mamãe, papai a cavalo e o séquito de coma­ dres, compadres, parentes e servidores, de qualquer modo. Interrompia a marcha da caravana uma parada em Parnaíba e daí lon­ gamente atingíamos Pirapora. Meu pai alu­ gava uma casa, pois nos demorávamos às ve­ zes mais de uma semana e não havia hotel. O hulício festeiro, as danças no barracão, os leilões de prendas e as solenidades da Igre­ ja, era tudo luna série ininterrupta de mú­ sicas e cantos que deslumbravam os olhos num renovado espetáculo popular. O rio mira­ culoso, onde fora encontrada a imagem do Bom Jesus, espraiava sua verde toalha en­ tre pedras que os romeiros partiam a fim de levar para casa como amuleto. Havia uma ponte que me parecia enorme e que mais tar­ de, para minha visão de homem, diminuiu e ficou do tamanho de um brinquedo. Minha mãe trazia do Norte o comunica­ tivo, 0 animoso e a festividade que faziam jun­ tar em casa e nas romarias todo um inexpres­ sivo séquito feudal, incapaz, habituado e vivido na frieza paulista, de fazer ecoar aquele cora­ ção amazônico. No entanto, ela insistia nos Natais de ceia, nos presépios e lapinhas, nos aniversários onde exibia a baixela e os cris­ tais da família. E infringindo todas as pos­ turas e todos os costumes daqui, encomendou certa vez uma caveira de boi com chifres cur- VOS, amarrou-a a imi jacá e enfiou dentro desse estranho involucro um copeiro mula­ to, desdentado e magro, que se chamava João Justino da Conceição. Soltou-o na tarde da Rua de Santo Antônio para fazê-lo dançar o “ Bumba-meu-boi” . Berrávamos da janela: — Chifra João! Os italianos que passavam de guarda-chu­ va, como caricaturas típicas de Juó Bananere, e um ou outro turco de matraca e lata nas cos­ tas, paravam, hesitavam diante do mudo e tímido monstro carnavalesco. — Chifra! O fracasso foi a tal ponto que nunca mais ela se lembrou de reproduzir, na capital friul, as alegrias tropicais do folclore pernambu­ cano. Era de Pernambuco, de Recife mesmo, que mamãe trazia seus costumes festivos pois, enquanto meu avô percorria na sua as­ censão de magistrado do Império as diversas etapas da carreira, ela permanecera anos em Recife, morando em casa de parentes. Recor­ dava-se muito bem dessa época e mesmo se lembrava do longínquo Amazonas, onde nas­ cera no pequeno pôrto de Óbidos. Aí, ela que trazia no sangue o aventurisme da estirpe por­ tuguesa, aprendera a nadar criança nas águas do Amazonas. Contava preciosas histórias em que aparecia mergujbando sob os grandes bar­ cos encostados, tendo, certa vez, topado na mar­ gem com a figura severa do pai, que fôra avisado. I I V i f í - No rio selvático, ela e um grupo de crian­ ças nadavam com jacaré à vista. Quando a fera mergulhava feita na direção do bando, todas se acolhiam à margem, escapando à sua perseguição. Uma vez, porém, um jacaré apon­ tou sobre uma criança de dois anos que ficara sentada na margem brincando com os pés ná- gua, e carregou-a nas fauces entreabertas pelo rio. O alarma estendeu-se ao vilarejo. Os pais tomaram um bote e voaram sobre a fera que fugia. Espancaram-na inutilmente, sen­ do preciso oue, encostando mais a embarca­ ção, a mãe lhe vazasse os olhos com os dedos para obrigá-la a devolver o pequeno cadáver.

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