Bloco 7 Um homem sem profissão · Capítulo 7 de 20
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Bloco 7

A minha turma inicial, a que entra­ ra em 1903 no segundo ano, pulou para adiante, levando meus primeiros amores pla­ tônicos do colégio. Umas nádegas redondas e plasticamente perfeitas, costumavam inge­ nuamente levantar-se em minha frente, sob calças colantes e curtas. Era Adolfo, o melhor aluno da turma, que diziam ves­ tir roupas vindas da Inglaterra. De fato, seus ternos esportivos tinham gosto diverso dos nossos, eram de excelente linho, de diver­ sas cores e revelavam grossas e perfeitas per­ nas morenas. Surpreendi-me amando esse filho de um líder católico, riquíssimo, que morava num palacete em Higienópolis e era diretor da Companhia Paulista de Estradas de Ferro. Pertencendo a uma velha família católica que daria depois um bispo, Adolfo não admitia a menor brincadeira e quem 0 bolinasse levava Tima boa unhada, além, da queixa ao Diretor. Era uma ferinha elástica e valente. Os gabirus da classe, o italianinho Ponzini, a figura desre­ grada de Lúcio Tmga Filho e eu nunca tive­ mos futuro coin Adolfo. Mesmo os padres, entre os quais o Eeitor que passava por fan- chono, parece que nunca ousaram cantá-lo. O mesmo não se dava com outra beldade do colégio, Francisco de Paula, que se tornou um dos homens mais feios do século. Gor­ dinho, corado, este era sensível aos agra­ dos, mas insinuado por mim, deu uma bofe­ tada pública num bolinador. Apesar de­ le manter acesas minhas primeiras espe­ ranças machas, nunca consegui levá-lo para um passeio solitário ao Ipiranga ou à Penha. Ficava tudo em promessa. Melhor sucedido ïi r nessas aventuras, dizia ser o tipo gozado da classe, 0 que vinha trazendo em suas maneiras de agir o tom utilitário das transformações da época. Bem cedo João ítalo Chile Brasil Ponzini ensinou aos colegas o que era o valor positivo do dinheiro. A chave de seu êxito era ser filho de um vendeiro da Rua Libero Badaró. Aproveitando as distrações pater­ nas, avançava no dinheiro da gaveta que es­ candalosamente exibia em classe, oferecendo sorvetes de carrocinha e sanduíches de mor­ tadela que o mulato Seu Mhiii preparava e vendia num pequeno bar próximo. Gabou-se um dia de ter levado de bonde até o Ipiranga 0 polpudo Francisco de Paula. Não o enche­ mos de pancada, graças ao prestígio de suas moedas. Ponzini era filho de italiano e chi­ lena e nasceu no Brasil. Daí o seu estram­ bótico nome, precedido do pacífico João. Com êle a corrupção ganhava minha clas­ se. Moedas tilintavam no seu bolso. Até notas apareciam. Tanto os meninos modestos do Brás ou do Bexiga como os verdes brotos da raça quadricentenária de gigantes volta­ vam as caras ansiadas. — Paga um sorvete ! Uma sanduíche de mortandelaf Na manhã de uma segunda-feira Ponzi­ ni gabou-se de ter conduzido até o Ipiranga as gordurinhas invejadas de Francisco de Paula. Urdi uma intriga danada. Disse ao visado: — Você só se reabilita se der uma bofetada no Ponzini. Insisti tanto e Ponzi- V Aibsl r lï ïfiii tJiîi P lí' ■'fîti I y ni tanto se gabou que levou afinal o tapa na cara. Um gozo para a classe. J : Wn ff'Müi i l rr h m p ii ISR Mas os métodos capitalistas de persuasão continuaram a fazer de Ponzini lun devasta­ dor das virtudes que nos tinham criado. João ítalo Chile Brasil Ponzini movi­ mentava-se, pequeno, ágil, sardento, sob uma casquete marrom desmesurada. Era a mentalidade bancária que irrom­ pia em nossa moral, quebrando valores que supúnhamos eternos. — ítalo, você me paga uma gasosa? — Depois da aula. Mas me chama de João! Detinha tudo em suas mãos — a cola, a cumplicidade e o reto dos colegas bonitos. Ao descer a Rua Libero na direção de casa, após as aulas, eu fazia parada ha­ bitual na venda do pai de Ponzini. Era um ambiente popular e curioso, freqüentado pelo femeeiro que habitava a rua estreita, de am­ bos os lados. E ’ sabido que antes do alarga­ mento da Rua Libero Badaró, devido a um projeto de meu pai vereador, era ela uma angusta passagem do centro de São Paulo que levava do fim da Rua José Bonifácio ao Largo de São Bento. Nessa viela central, concentrava-se o mulherio da vida que per- rfiíst‘ manecia, da tarde à noite, seminii e apelativo nas janelas e nas portas abertas a qualquer um. Na venda do Ponzini, travei relações com mais de uma prostituta, sobretudo com uma caftina gorda e maternal chamada Olga, que se sentava comigo em torno de uma mesa. Mas não foi aí que perdi minha virgindade, cautelosamente vigiada por mamãe. Conver­ sava com a mãe chilena e o pai italiano do curioso colega. Com êste e alguns amigos rústicos, fui convidado uma vez a assistir num teatro a fita “ Eobinson Crusoé” . Eu conhecia mais ou menos a história desse chatíssimo náufrago clássico e por isso fiquei suspenso e encabulado quando, antes de sairmos para a matinê, ouvi comentários do pai do Pon­ zini e de seus amigos operários sobre o assun­ to do filme, tendo um dêles opinado que devia se tratar da história de um inventor de má­ quinas chamado Kobinson. Ponzini, que se tornara meu amigo, facilitava-me a vida pagando gulodices e teatros. Foi êle quem me deu o cincão necessário para assistir de galinheiro a um espetáculo de Sarah Ber- nhardt, de novo em São Paulo. Fiquei dian­ te dela inteiramente incompreensivo e neutro. Ela exibiu-se no palco do velho Politeama de zinco, existente na Rua São João perto da Formosa. Diziam que Sarah era tão velha que não se mexia na cena para não cair aos pedaços. Depois conduziam-na num carri­ nho para o camarim. Não era tanto assim. I T X i I J AÍ nesse vellio barracão de diversões en tivera, levado por meus primos Marcos e Wolgrand, uma curiosa fase de café-concêrto,, 0 qual exibia coxas, nádegas e seios de fran­ cesas e polacas, na música ligeira do maestro Cianciarulo. Me interessavam muito mais as operetas duma companhia italiana de que era estrela Giselda Morozini, por quem me apai­ xonei de longe. Freqüentava vagamente o cinema, de que tivera conhecimento em criança, indo assistir com meus pais, numa sala da Rua 15 de No­ vembro, a um filme natural. Chamavam aqui­ lo de ‘‘fotografia animada” e causava sensa­ ção 0 espirrar da água que parecia vir sobre a platéia. O cinema Biju existia ao lado do Politeama. Depois, foi a época do íris na Rua 15 e do Royal que precedeu o República, já então de grande público. O professor Gervásio de Araújo veio decidir da minha vida intelectual. Talvez deva realmente a êle ser escritor. Encaminhado como estava em seguir as pegadas de meu tio Herculano, eu me senti caladamente ofendido quando vi que minhas composições escolares sobre incêndios, tem­ pestades e taperas, não causavam o menor efeito em meu professor de português. Batis­ ta Pereira. Ao contrário, me dava notas bai­ xas e exaltava em classe o nome de um colega — Pedro de Alcântara Lopes e Silva. Ba- tista Pereira fazia um espalhafato eom o tal de Pedro, profetizando para êle até uma cadei­ ra nãTâcademia Brasileira de Letras. Isso caía pesadamente sobre mim e meus anseios. Agora mudados a classe e o professor, ouvi com surpresa calorosas referências ao meu nome pela boca do velho Gervásio de Araújo. Êle declarava, mostrando as minhas compo­ sições, que eu possuía uma decidida vocação literária e que, como escritor, saberia honrar meu país. Tomado de estímulo, ampliei minha intimidade com o professor que me aconselhou logo a ler ‘‘Os Miseráveis”, de Vitor Hugo. Isso, aliás, bateu na tecla íntima que eu ali­ mentava em relação à questão social. Comecei a fazer minha tímida biblioteca, onde coloquei um volume de Júlio Hiniz intitulado “ Uma família inglêsa”, que aliás nunca li. Meu pai passando uma época de restrições teve, no en­ tanto, que atender aos rogos de minha mãe que apontava a necessidade de eu ler para vir a escrever. Breve estava comprando na grande livraria da cidade, que era a Casa Garraux, na Kua lõ. Enveredei por tragédias gregas, pe­ ças de Shakespeare e Maeterlinck. Foi aí que conheci, menino de loja, vivo, moreno, de ne­ gros cabelos, meu amigo e editor José Olympio. Por outro lado^ tendo atingido os quinze anos, descobri fora do Ginásio os primeiros amigos intelectuais. Foi meu guia espiritual nesse momento, o estudante boêmio Indalécio de Aguiar que me apresentou o poeta Eicardo Gonçalves, moreno, bonito, de capa ao ombro. m V I i' M il Indalécio tinha a originalidade de ser surdo e usar barba. Com alguns outros, reuníamo-nos à noite num bar amplo e popular do Largo da Sé. Deixávamos de lado o ''Progrédior”, vasto e elegante local que se abria na Rua 15, para onde passara, ampliando-se, a freguesia dis­ tinta da antiga Confeitaria Castelões, na Pra­ ça Antônio Prado, que se chamava então Lar­ go do Rosário. I 1 Indalécio me levou para a primeira crise religiosa que conbeci. Me deu para ler ‘‘A Relíquia” de Eça de Queirós e breve estava comendo com êle bons e sangrentos bifes num restaurante italiano, em plena Sexta-Feira Santa. Crise de catolicismo mais do que de religião, pois tendo da Igreja a pior idéia, nunca deixei de manter em mim um profundo sentimento religioso, de que nunca tentei me libertar. A isso chamo eu hoje sentimento órfico. Penso que é uma dimensão do homem. Que dele ninguém foge e que não se conhece tribo indígena ou povo civilizado que não pa­ gue este tributo ao mundo subterrâneo em que 0 homem mergulha. A religião existe como sentimento inato que através do tempo e do local toma essa ou aquela orientação, este ou aquele compromisso ideológico e confessional, podendo também não assumir nenhum e trans­ ferir-se numa operação freudiana. O Positi­ vismo fez disso uma experiência definitiva. Augusto Comte com todo o rigor materialista e matemático de suas convicções, acabou mís­ tico e metafísico como qualquer Papa. Em vez de sacrificar à Nossa Senhora de Lourdes, sacrificou à Clotilde de Vaux. A êsse instinto que é impossível deslocar do homem chamo, como já disse, de sentimento órfico. Hoje a política, a cena, o esporte, também criam divi­ nizações e mitos. Vide Lenine, Mussolini, Hitler, Stalin, os futebolistas, as estrelas. Apenas, os homens querem ver de perto seus deuses. A quantidade e a qualidade do órfico ca­ tólico que me ofereceram foram fracas e sobre­ tudo mal escudadas pela apologética cristã e por sua absurda e hipócrita moral. Desde cedo me entrou pelos olhos a incapacidade da transformação do homem pelo cristianismo ou de sua ação regeneradora. O número de rezadores pecaminosos e de padres sujos era demasiado para poder iludir mesmo minha desprevenida adolescência. Aliás, os sacrifí­ cios exigidos por mamãe, a abstinência de carne, terços inteiros rezados de joelho, guar­ das chatíssimas de Santíssimo, tudo acres­ centava à antipatia por aquêle culto cheio de sermões horrorosos, missas maçantes e con­ fissões paliativas. Além de Indalécio, foram meus amigos iniciais, vizinhos da mesma idade, o Francis- quinho, fdho dé um monarquista tenebroso que se chamava Dinamérico liaiigel e recusa­ ra O pagamento de sua aposentadoria pela Kepública e vivia por isso em grandes difi­ culdades, com mna penca de filhos, o atlético Fernando Castelo, e o normalista Oswaldo Pinheiro que apelidávamos de ''pintor’', pro­ fissão que de fato adotou. O "pintor” teve grande influência sobre meus rumos, pois, como artista, pretendia viver em Paris, para cujos ambientes de boêmia e de estesia, cedo me chamou a atenção. iS T o colégio, prosseguiram meus triunfos em literatura. Era agora, ao contrário dos primeiros tempos, um dos melhores alunos da turma. Uma experiência de teatro, tenta­ da nas festas de fim de ano, constituiu imi no­ vo fracasso e me fêz compreender que devia abandonar qualquer pretensão de palco. Indalécio de Aguiar me apresentou, co­ mo referi, à sua roda de literatos, que tinha como centro a figura romântica do poeta aca­ dêmico Ricardo Gonçalves. No bar rústico da Praça da Sé, ouvi, pela primeira vez, versos bons. Entre outros poemas, o "Sagramour” de Eugênio de Castro. Nessa roda brilhava Artidoro Flexa, Raul de Freitas e outros que tinham freqüentado o "Minarete” de Mon­ teiro Lobato. Flexa me vendeu alguns livros e me fêz conhecer Nietzsche e Dostoievski. Foi nessa ocasião que nos havíamos mu­ dado para outra casa da mesma Rua de Santo Antônio, esta embaixo, na esquina da Rua João Adolfo. Como sempre, eu iniciava a mudança, cheio do meu sentimento órfico. Antes dos móveis, saía com as criadas levan­ do numa das mãos a Custódia de prata e na outra o pão e o sal. Nessa ocasião meu pai estava reali­ zando a sua linica experiência política como vereador mimicipal. Isso acontecera devido a um convite do líder Cerqueira César, o que originara ter dado êle, em sinal de gra­ tidão, o seu nome aos terrenos que arruara. A eleição de meu pai coincidiu com o primeiro triênio da administração do Conselheiro An­ tônio Prado como prefeito. Poi um período decisivo de transformação da cidade. Duran­ te três triênios renova-se a eleição de meu pai, sempre ao lado do Conselheiro do Impé­ rio que agora prestava seus serviços à São Paulo republicana.

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