Bloco 8
Entre os projetos executados pela ini ciativa de meu ]3ai, ficaram o alargamento da Rua Libero Badaró que era mna viela de mulheres públicas e o da construção do Via duto de Santa Ifigênia. Participou também da criação do Teatro Municipal. Depois de três triênios, o vereador José Oswald foi derrotado. A cidade transforma va-se. O Conselheiro Antônio Prado retira ra-se e agora a política era dirigida por Al cântara Machado. Conheci a seu lado um meninão de óculos que veio a ser o escritor Antônio de Alcântara Machado. Retirou-se 'então êle para a vida do lar, apenas reali- i 1 V iu V I I u r é zando as vendas de terrenos da Vila Cerqueira César. Na roda noturna de Indalécio e Ricardo Gonçalves travei relações com o anarquismo, vindo a conhecer o agitador Oreste Ristori, depois meu amigo. Deixei de ser o orador de minha turma por desavença com colegas, tendo recusado minha eleição. No sexto ano do Ginásio, o último, vim a conhecer o professor de Lógica e Filosofia, Monsenhor Sentroul, que dava aulas interes santes e cultas. Prossegui seu aluno na Faculdade de Filosofia de São Bento, onde identifiquei, rís pido e frio, o futuro professor Alexandre Correia. Meu tio Chico, sempre desempenado, me encontrou nmna rua do Centro e deu-me 200 mil-réis que naquele tempo eram uma for tuna. Fui imediatamente comprar livros. Logo depois, partindo em viagem para a Eu ropa, me perguntou o que queria que me trou xesse de lá. Falo-lhe na obra de Anatole Fran ce, meio encabulado do exagero do pedido. Êle me traz inteira, numa edição amarela. São vinte volmnes do “ Mercure de France’’. O meu complexo de rebeldia se alenta com o conto social “ Crainquebille” . Não vou com ‘Lys Rouge”. Gosto de “ Rotisserie de la Reine Pedaiique” . Ao mesmo tempo des cobrira, não sei como. Octave Mirbeau. O iHi: " UM ‘Jardin des Súplices” , crônica da China an- tropofágica, me obceca. Tenho em minha biblioteca Machado de Assis e Euclides da Cunha, cuja trágica mor te acompanhei pelos jornais. Prefiro Fialho de Almeida ao límpido Eça de Queirós. Uma vez formado no ginásio, penetrei no jornalismo. I^os primeiros meses de 1909 fui admitido, a pedido de meu pai, na redação do “ Diário Popular”. Ganhava sessenta mil- réis por mês que religiosamente gastava em presentes a meus pais. O ambiente de jornal era o mais antagô nico e oposto ao de minha casa. Entrecru- zavam-se ali imoralidades e jjalavrões e o se cretário do jornal, um português de bigodes^ contou-me logo que estivera atacado de sífi- iis, a ponto de seus dedos esguicharem pus como bisnagas. Além do velho Lisboa que fundara o jornal, havia, bem pôsto e de barba, seu filho Lisboa Júnior que contava continuamen te farras de Paris. — Pois uma noite a cançonetista afirmou que tinha o cu côr-de-rosa. E mostrou a to dos. Tinha mesmo! Não era essa a Paris que me atraía. Numa viagem ao Paraná e Santa Catarina que fêz o Presidente da Republica, Afonso Pena, fui como representante do jornal, daí resultando os meus primeiros artigos publi cados, sob o título “ Penando” . í I í f ü f' L H Sf i' i iiil Fui matriciilar-me, em Março, no pri meiro ano da Faculdade de Direito do Lar go de São Francisco e aí tive luna das piores decepções de minha mocidade. Os veteranos cercaram a mim e a meu colega Inácio Ta- mandaré üclioa aos gritos: — Bicho! Dan ça, bicho! E fazendo-nos enfiar as calças por debaixo das meias, nos obrigaram a exe cutar evoluções imbecis. Eu trazia outra idéia da Faculdade. Ela dera três grandes poetas ao Brasil. Castro Alves, Fagundes Varela, Álvares de Azevedo. Era a escola de Ricardo Cronçalves e Indalécio de Aguiar. A valen- tona imbecilidade daquele grupo do trote criou em mim verdadeira alergia por tudo que se processe “ debaixo das Arcadas” . Daí talvez se originasse minha briga com os estudantes, quando redigi “ O Homem do Povo”, em 1931. Apesar de todas as oficiais reconciliações e palinódias, guardo um íntimo horror pela mentalidade da nossa escola de Direito. Por instinto e depois conscientemente, sempre re peli esse Direito ali ensinado para engrossar a filosofia do roubo que caracteriza o capi talismo. Aliás, já nesse tempo eu me dechi- rava anarquista. Á noite, depois do espetáculo a que me obrigava a crítica teatral, eu me encontrava com Osvaldo Pinheiro, com quem subia a La deira de São João, até o Largo do Paissandu, onde comíamos pizza napolitana. Bebía mos bom vinho por pouco preço. Isso veio pôr paradeiro às pretensões de minha mãe que queria que, mesmo à meia-noite, de pois do espetáculo, eu trouxesse meus amigos para cear em casa. Aluguei com o pintor um atelier no pré dio da esquina de Dr. Falcão que dava sobre o valdelírios do Anbangabaú. As estátuas que coroam o “ Municipal” erguiam para nós os braços escuros sobre o poente vermelho em gestos parados de apoteose, falando-nos de glória. Comoveu-me um caso passado com uma atrizinlia francesa de uma troupe de mulheres que trabalhava no “ Politeama” . Soube que o empresário a esbofeteara. Fui levar-lhe a minha solidariedade num quarto de pensão que ela habitava no Largo do Paissandu, mas não perdi a compostura e nada se passou. A Faculdade de Direito, com sua bucha visível, para onde me vi forçado a entrar por um equívoco de colega, com seus lentes idio tas, seus velhos alunos cretinos, sua tradição de miserável atraso colonial, me provocava o mais justo dos desprezos. Eu tinha, muito superior, minha roda que partilhava entre In- dalécio e seus amigos e o artista Osvaldo Pi nheiro. Indalécio não sabia escrever mas fa zia terríveis improvisações. Assim foi que criou “ O dia dos anos de Deus” , uma festa go- zadíssimà^no céu. Fazia parte das comemo rações uma conferência de que se incumbiría o próprio Jesus. Ao que, cultivando suas ri validades, Santo Tomás de Aquino teria obje tado que aquilo não era direito, pois ligavam t V | II f l K I t Cristo ao Padre Eterno laços de consan guinidade. Jesus num gesto de mau humor teria dito: — Ora, Tomás! você com essa por ra de filosofia! Nas noites de casa da Rua de Santo An tônio, tive confirmação das novidades sexuais que me trouxera o copeiro João Justino da Conceição. Evangelina talvez não fosse bonita, mas era moça. Uma vez, vencendo resistên cias, a convenci de que devia me mostrar as pernas. Tratava-se da filha da cozinheira, mu lata aça, bem nutrida. As calças das mulheres nesse tempo desciam até o meio das coxas. Ela tendo erguido a saia toda, verifiquei a exis tência do líquido grosso que brotava de meu sexo excitado. Continuava, no entanto, vir gem, não tendo nenhuma vocação para entrar num bordel. Na venda do pai do Ponzini, co- oheci fêmeas francesas, polacas, italianas. Mas nada tive com nenhuma. Aos vinte anos fiz a primeira barba, levado por meu pai, no Salão América, em frente à Igreja de Santo Antônio, onde hoje se abre a Praça do Pa triarca. i i Foi nessa época que, pela primeira vez, fui de trem diurno até o Rio de Janeiro. Hos pedei-me no palacete da Rua São Clemente, onde faustosamente morava meu tio, o escri tor Herculano Marcos Inglês de Sousa. Sen ti que fazia um papel meio pança junto da quelas primas desembaraçadas e bonitas e da- queles primos bem postos que tanta coisa sa biam. Ofereci uma frisa à família para que fosse assistir ao “ Otelo” pelo ator siciliano Giovaimi Grasso. Como crítico teatral do ^^Diário Popular”, eu assistira à estréia entre nós da opereta vienense, de que a ‘‘Viúva Ale- gi*e” e 0 “ Sonho de VaAsa” faziam furor. Conheci pessoalmente a grande atris de mú sica ligeira, Mia Weber, estrela de Viena. E passei a freqüentar as celebridades mun diais que pisavam nosso palco. Giovanni Grasso fazia Indalécio exclamar: — É um jeqüitibá que desaba! Em companhia dele desci até Santos, me impressionando com a cidade de ruas estreitas, o cheiro de café, os armazéns das docas e os navios parados no porto. Aí cometi uma primeira traição ao afago materno. Tendo descido com a troupe no dia de Natal, tomei um pifão e acabei perdendo o último trem para São Paulo. Dor mi numa pensão, de cuja janela se avistava um campanário de ladrilho com um galo de ferro na ponta. Minha mãe mostrou-se sempre compreensiva e generosa com essa e outras fa lhas de meu comportamento. No Kio, assisti à primeira revolução polí tica que 0 Brasil teve neste século — a do ma rinheiro João Cândido. O Marechal Hermes da Fonseca tinha as sumido a Presidência da República num am biente de grande hostilidade. Era um joguete mais ou menos cretino nas niaos do caudilho sulista Pinheiro Machado. Foi quando se es- I 1 y ili ' í M í i it 1 boçou a luta civilista encabeçada pela figura de Kui Barbosa. Uma noite, eu tendo nie demorado numa pensão do Centro, em visita aos artistas de Giovanni Grasso, senti, na madrugada que co meçava, um movimento desusado na rua, on de passou a trote mn piquete de cavalaria. A estranheza do fato cresceu quando ouvi falar a palavra revolução entre gente que se junta va nas esquinas. Revolução? Coisa assombrosa i3ara a se de de emoção e conhecimento de minha moci dade. Indaguei como se passava o caso e apontaram-me o mar. Apressei-me em alcançar o começo da Avenida Central, hoje Rio Branco, no local onde se abre a Praça Paris. Aproximei-me do cais e entre sinais verdes e vermelhos, escutei um prolongado so luço de sereia. Aquele grito lúgubre no mar escuro me dava a exata medida da subversão. Que seria? Fui beirando a enseada escura na direção dos jardins da Glória. Ninguém no cais. Mas, automóveis voavam. De vez em quando pas sava um troço de soldados de cavalaria. Re solvi recostar-me num banco e esperar o alvo recer para ver o que sucederia. Adormeci. Alguém acordou-me, sacudindo-me bruscamen te : — Olha 0 guarda! Era provavelmente um ladrão que me tomava por colega. Adormeci de novo. Acordei em meio duma maravilhosa aurora de verão. A baía esplendia com seus morros e enseadas. Seriam talvez quatro ho ras da manhã. E vi imediatameiite na baía, frente a niiin, navios de guerra, todos em aço,^ que se dirigiam em fila para a saída do porto. Reconhecí o encouraçado “ Minas Gerais” que abria a marcha. Seguiam-no o “ São Paulo” e mais outro. E todos ostentavam, numa verga do mastro dianteiro, uma pequenina bandeira triangular vermelha. Eu estava diante da re volução. Seria toda revolução uma aurora? üm grupo de peixeiros passava na Ave nida Beira-Mar, quando de repente, vi acen der-se um ponto no costado do “ Minas” e um estrondo ecoou perto de mim, acordando a ci dade. Rovo x3onto de fogo, novo estrondo. Um estilhaço de granada bateu perto, num poste da Light. Os peixeiros deixaram cair seus cestos de mercadoria e vieram acoitar-se cor rendo, atrás de uma das estátuas do Comér cio e da Indústria que monumentalizam os jar dins da Glória. Eu também corri para aquele lado a fim de me esconder. Espiando por de trás da estátua, vi que o bombardeio continua va, acordando a cidade. Era terrível o se gundo que mediava entre o ponto aceso no canhão e o estrondo do disparo. Meus olhos faziam linha reta com a boca de fogo que ati rava. Naquele minuto-século, esperava me ver soterrado, pois parecia ser eu a própria mira do bombardeio. Quis convencer meus companheiros de refúgio a fugir, encosta aci ma na direção da igrejinha da Glória. Um só, um rapaz de tamancos saiu em minha frente. Acompanhei-o na corrida, varamos - i1 M í■ I - il uma residência fechada onde uma moça cor reu para nos barrar a passagem. — Aqui não é asilo! — Mas é a revolução! Entra mos, saímos pelo quintal. Quando o bombardeio cessou, saindo os navios em direção do mar largo, eu desci para o Eio que intempestivamente acordara. E tomei uma condução para a casa de meu tio. Ainda estavam todos dormindo, mas eu trazia uma notícia importante demais para não ser conhecida. Acordei meu primo Seu Paulo e daí a algum tempo narrava a tio Herculano, em robe-de-cJimnhre, os acontecimentos a que havia assistido. Trocamos opiniões sobre o que sucedia. Tratava-se da explosão de ódios longamente alimentada contra a ditadura do caudilho Pinheiro Machado, agora reforçada pelo empossamento do Marechal Hermes na presidência da República. Depois do almo ço, fui assistir, no Congresso, à sessão onde se discutiría a anistia aos rebeldes, condição imposta para se renderem e pacificarem... Presenciei a atuação do denutado Irineu Machado a favor dos marinheiros. Outros parlamentares os atacavam. Êles tinham espedaçado a machadinha o coman dante do Minas”, Almirante Batista das Neves, que havia tentado sozinho abafar a sublevação, penetrando no navio-capitâ nia. Isso trazia como fundo de cena a questão da disciplina e da alimentação fornecida aos marinheiros. Era contra a chibata e a carne podre que se levanta- vam os saldados do mar. O seu cliefe, o ne gro João Cândido, imediatamente guindado ao posto de almirante, tinha se revelado um hábil condutor de navios. Quando mais tarde assisti à exibição do filme soviético “ Encou- raçado Potenkin’^ , vi como se ligavam às mesmas reivindicações os marujos russos e brasileiros.