Bloco 18 Um homem sem profissão · Capítulo 18 de 20
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Bloco 18

Engradados da Pina. Cheguei à noite. ISÍo meu apartamento, Yiruta — que viruteou até muito tarde. Lemos coisas do Sr. Thiollier, montão gástrico de bolo literário. Depois, a- pressadamente oxigenamos nossos cérebros contaminados com a prosa luminosa de Augus­ to de Castro. Boas risadas, tempestuosas gar­ galhadas. Em cima, no segundo andar, uma mulher chorava. Era um lamento abundan­ te e inconsolável. Hélas! Contristados re­ cordámos doloridamente os versos de Samain — Nays et Lidé — virgens de quinze anos que : sanglotent doucement dans le soir infin i.. il Ferrignac faz literatura: ‘AYagner... LTm bocado de infinito. Alemanha de Mar­ garida, na fria névoa das cidades góticas. Sob as estrelas. Satanás — o bom rapaz das sere­ natas — concita as Ciclones loiras e enigmá­ ticas ao Pecado Eubro e Fatal. Agora são rondas de nixes e willis à macia claridade das florestas de legenda. Nas volutas azuis dos acordes abemolados, atrás da poalha d ’oiro das evocações, passam o Dr. Fausto, Lutero, Frederico II, ventrudos bebedores de cerveja, sábios solenes de imensos óculos, re­ gimentos inteiros ao passo ridículo de gan­ A grafonola chia como uma gata asmá­ tica ... Wagner, na ponta da agulha, emu­ deceu — e ^^Mon coeur sent éclore Ce regret attendri qui laisse aux amoureux Un cher parfum qui s’évapore. ff J Ferrignac anota : ‘Wiruta dramático. Pei­ tilho negro. Olheiras até a nuca. Tosse pul­ monar. Quinto ato. '^Je suis le ténébreux, le veuf, le solitaire. Le Prince d’Aquitaine à la tour a h olie...” Carta da Deisi colada à página 67. Conta que rasgou um abscesso no seio. Pedro, de passagem por São Paulo, lite­ ratej a sobre a Ciclone. Refiro-me a uma festa de aniversário na casa de Fuao Pontes, tio da Deisi, onde ela morava. ‘^Em meio da alegria mal-educada daquele mundo de caixeiros, a avozinha, como um remorso prévio, empatando a festa. E, ao lado, a silhueta de mistério, terminando na mecha interrogativa a cair sobre os formosos olhos ingênuos. Quem seria essa estranha criança? Levaram a 'avozinha para dentro. Depois a criança estranha amortalhou em luto a silhueta de mistério. Um ano inteiro se passou, um ano em que fui, apesar de tudo, o menos infeliz de todos os rapazes. Flores para a avozinha.” Ciclone deixa assinalada febre — 381/2- Foge como sempre. “ Chego ainda a tempo de vê-la galgar ligeira o estribo poeirento de um bonde e mergulhar com a lentidão do monstro de fei­ ro, nesse abismo brumoso da várzea que faz supor, para lá do bastidor de crime das vie­ las, a existência de romance em que ela se obstina. Com uma timidez de potache, mur­ murei-lhe, entre dentes, um bom dia idiota. Ela nem sorriu, nem olhou. Partiu. Pela primeira vez, percebi uma coisa séria que ela me faz falta.” Assino; “ Mirabis- mo Guy verseja. Ferrignac comenta: “ Ou­ tro gemido, outro queixume. Guy, pelo teu Deus católico, pelo meu Júpiter pagão, dei­ xa uma piada, uma piada rica para a gente rebolar entre as almofadas do Miramar! Quando voltares, antes de nos ver, entrega o teu luth ao menino do elevador” . m i Edmundo Amaral escreve: ^ ‘Ciclone passou como um tufão, transformando o Garoa em tempestade, o Ventania em brisa do Arquipélago”. O Garoa sou eu, Ventania^ Ferrignac” . A 14 de Julho escrevo: “ Trago Léo Vaz, que deixa isto: “ Eabo de colibri: — Mas pensam assim todos os colibris? — Quase todos... Não têm razão para pensar diferente. A vida era a mesma para Calei-me. O colibri ainda esteve muito tempo ali, pousado, saturno e quêdo como um colibri de museu, enquanto eu, humilhado, não achava conforto que lhe dissesse. De­ pois, voltando-se a mim: — Até logo !... Virei mais cedo ama­ nhã : serei o primeiro a chegar... E nunca mais o vi.” Ferrignac anota: “ IJm céu muito alto e um sol anacreôntico lá fora” . E grita para o Viruta: — “ Por Deus, conserta esse cère- brozinho de avelã” . Colado um pedaço de jornal que traz uma entrevista de Landa Kosbach. “ Agora é que sou feliz e, com franqueza, absolutamente não tenho saudades do meu passado e lhe peço mesmo que uem me fale nele” , diz a ex- dançarina, depois de 19 meses de colégio. ‘ Soissons em mão dos aliados” . Ciclone em mão do bando dos ‘‘gravatas pretas” que- somos nós. 'É June Caprice, Bertini ou Lida Boreli, enfim qualquer coisa de supremo na atitude, agoniza em roxo. Céus! Foi apunhalada ou­ tra vez! Vai morrer! B eijo-a... E ela re­ nasce e é minha. Mas que foi*? Um tiro'?' Ferrignac escreve: “ Escrever coisas de fôlego. Eu e a Ciclone'? Você não se lembra. Miramar imbecil, que eu sou asmático e a Ci­ clone poitrinaire^ O pai dela morreu tisico”. Trabalho também na “ Gazeta” . Vou pa­ ra casa, deixando a redação do “ Jornal do Comércio”, às 3,30 da madrugada. Estou às 7 horas no jornal de Cásper Libero. Ciclone deixa com sua grafia elegante e enorme: “ Cheguei às 9 horas. Ninguém. Te­ lefonei para a “ Gazeta” a perguntar por Mi­ ramar Piadas com a Liga Nacionalista. Kamiá descobre o refúgio. Caricatura de Léo Vaz por Ferrignac, intitulada: ''O Bengala’'. í ih Ferrignac observa; ‘‘Os dois polos da vidinba do Garoa — Benedito de Andrade e Benedito X V .” Levo Deisi a uma miraculosa capelinba qualquer. Ela literateja. Fomos de auto­ móvel. Profética observação política de Ferrig­ nac; “ Ocupação de Oucby-le-Cbateau pelos franco-americanos. A doutrina de Monroe se estende. A Europa... para os americanos.” Cartão do usurário Décio de Paula Ma­ chado que Ferrignac colou no livro. “ A tarde vestida de roxo como a Ciclone na solidão elegante do Jardim América”. A Ciclone declara que vai ao médico fa­ zer uma punção. Depois conta que “ vai fa­ zer uma estação em casa do Pontes” e depois irá para um instituto. A Ciclone voltou à Escola Normal que eursa. Manifestação das colegas. Nota: “ o Américo de Moura, cada vez mais chato e mais encardido, fazendo uma profusa distri­ buição de “ Hinos Nacionais” de sua lavra” . Pedro chega de Tatui. “ Deisi telefonou — já é uma alegria sa­ bê-la de pé. Passei hoje, ao amanhecer, por lá. A casa estava iluminada de um só lado. Fui ver o Pedro. Está pimpão. Voltei como um cão voltaria ao ninho abandonado.” Datada de 3 de Agosto de 18 (não está­ vamos em 17? Nem sei!) uma carta rabis­ cada a lápis pela Ciclone está colada à pá­ gina 127. Ei-la: “ Miramar Imagino o quanto esperaste ontem, pela minha ida. Porém, uma pleurocongestão me retém ao leito desde quinta à noite. vir' Escrevo-te de cama, tendo Graziela e ou­ tra amiguinha como enfermeiras. Até se­ gunda, se Deus quiser, se passar bem. Adeus, Kecebe todo o coração da Ciclone.” Noto: '‘Subi pela tarde enfarruscada a ladeira da Penha. Rezar pela Ciclone” . Estamos a 6 de Agosto de 18. É de 18 mesmo. "Flores para a Ciclone! Ressurrei­ ção provisória para outra provisória ago­ nia ... E de novo há de ressurgir de grandes olhos sob a boina ligeira de estudante — a nossa Ciclone, a nossa mocidade, o nosso sim- bolo esguio.” Viruta acrescenta: "Uma braçada de ro­ sas para a Ciclone, rosas, rosas da vida que Anacreonte prometeu aos justos” . E Ferrignac: "Vida para a Ciclone, cheia de graça, amorável e bendita entre as mulhe- res' Nesse momento vejo a aflição de Léo Vaz» que não encontra emprêgo. Eu tenho dois, o do "Jornal do Comércio” , edição de São Pau­ lo, onde faço "Sociais” e que me dá 250 mil- réis mensais e o da "Gazeta”, donde retiro mais cem mil-réis. Sem hesitar, ofereço o i t ir da “ Gazeta” a Léo, que aceita e passa a ser jornalista, sob as ordens de Cásper Libero. Outro episódio, talvez dessa época. En­ contro no Yelho Viaduto do Cbá um grupo de estudantes, onde estão Jairo de Góis e Ju- linho Mesquita. Digo-lhes qualquer coisa rindo. Quando penetro na Rua de São Ben­ to, para onde vinha, e vou sentar-me para to­ mar alguma coisa, a uma mesa da Leiteria Campo-Belo, vejo aboletar-se em minha frente um dos estudantes. Está agitado. E exige de mim um juramento de segrêdo. Estranho. Mas êle não se convence de que eu ignoro o que 0 fez me seguir. E assim, de chófre, me faz membro da Bucha, isto é, da Buchenschaft paulista, sociedade secreta da Faculdade de Direito que dirige os destinos políticos e fi­ nanceiros de São Paulo e cuja chave é a Festa da Chave. Levam-me a assistir a uma sessão num subterrâneo do Liceu de Artes e Ofícios, na Luz, que está coberto de emblemas e amea­ ças. Há dirigentes mascarados e sem másca­ ra. Entre êles Altino Arantes, presidente do Estado, e outras personalidades. Só sai bes­ teira. Ro documento que assinei para o colega, reseryei-me o direito de não participar das atividades da Bucha. Fui, no dia seguinte, con­ sultar o arcebispo Dom Duarte Leopoldo, sem dizer o nome da sociedade secreta e êle, com certeza, bucheiro também, me respondeu: — r De sociedades secretas que são conhecidas das autoridades não é pecado participar. Mais tarde Paulo Duarte e um grupo de estudantes e depois, na revolução de 30, o ge­ neral Góis Monteiro, puseram a público e às escâncaras a existência e os segredos da Bucha. Um poema horroroso de Paulo Setúbal. Colado de um jornal. Um grave incidente interrompe a vida do retiro da Kua Libero. Ferrignac escreve: “ Ciclone partiu. No retângulo claro do va­ gão, um derradeiro olhar. Coitadinha! Co­ mo a heroina de Samain, soluçou docemente. Lá se foi, rumo a uma esbatida ficção geográ­ fica — Cravinhos.’^ Uma carta a lápis, de Deisi, explica: I Deu-se o golpe. Não o esperava desse feitio. Tia Ziza pediu-me a guia da Escola e, como eu não a tivesse, ela me pôs na rua. Antes, porém, me declarara que eu tinha per­ dido 0 ano. Um horror! Eui chicaneada e maltratada como nunca. Mas pegando na ordem de Ziza, comecei a arrumar a mala para sair e ela me disse que eu tinha de ir pri­ meiro pedir licença à minha mãe para ser independente. Portanto parto hoje à noite, com minha avó, para Cravinhos. Peço-te qne mandes Perrignac à estação (Tu não, porque seria o maior escândalo, desconfiam de ti e o Paulo que me leve toda a roupa que tenho aí na última gaveta daquele móvel nosso). Caso possas, manda-me também o vestido que Luluce me deu. Mas olhe, faça com que os “ gravatas” executem tudo com arte. Eu pre­ ciso falar com o Perrignac e receber o em­ brulho do Paulo, sem que meus megeros des­ confiem. Eu não ficarei lá. Voltarei dentro de um mês. Naturalmente ficarei o resto de Agosto. Quero que me escrevas para Cravi­ nhos, ao cuidado do Sr. Inácio Costa. Eu responderei para “ A Gazeta” pois o nosso re­ tiro já é conhecido. Caso possa telegrafarei da primeira estação. Guarda as memórias contigo. Adeus. Beija a cabeça da pobre Ciclone” Todos declaram que amavam a Ciclone. An­ damos atrás do telegrama dela. lí Escrevo: “ Um pedaço de 1917 — Volta Miss Ciclone de minha fantasia! Vem inun­ dar de loucura o coração que tímido te aguar­ íf I I I “ No século 20, na impossibilidade civi­ lizada das b.emoptises, a b dô BoJi6'iïi6 tem um 5.° ato, com o apito estraçalbante de um trem na noite tumultuosa do cais da Luz e, para encobrir as lágrimas do epitáfio na ga­ re, Ferrignac diz que ela partiu com uma velhinha pestanuda como nos contos cautelo­ sos dos Irmãos Orinim, deixando timidamente satisfeitos oito sujeitos macilentos de bigodi- nho e uma quarentona espigada e de boá. E como Miramar continua aniquilado no fundo do táxi que arfa em demanda do covil deserto, “ irá fatalizar a vida do Quinquim da botica’'. Literatura e latim de Sarti Prado que reaparece. Em minha casa está sempre. É grande amigo de Kamiá e de papai. i1 M l Chegam as primeiras cartas de Deisi. Lobato deixa um autógrafo dizendo que é preciso salvar Ferrignac para que Ferrignac salve São Paulo. Ferrignac nota o anatolismo de Léo Vaz. “ O Léo ficou no século 19. Acredita em Pe- nan e lê o France”. Monteiro Lobato é festejado com um grande almoço no Parque Jabaquara. Na pá­ gina 172, bá um artigo grudado, de sátira ao ágape nacionalista. Termina assim: ‘‘Ainda bá quem não compreenda que “ Urupês” é um formidável livro de combate ao atraso nacio­ Carta da Ciclone: “ Cravinbos 24 — Agosto — 1918 O Viruta me escreveu mas não falou de amor. Infelizmente. Ficou com dó de ver o Eça em minbas mãos. Estou triste. O céu aqui é muito lá em cima, muito azul, maior que esse daí. A terra é de escarlate mas não bá mãos reais de unbas perfeitas. Quando muito umas mãozinbas avermelbadas com montanbas de calos, unbas torturadas, comi­ das de um lado.” Manda saudades a todos e o livro que o Edmundo Amaral reclama.

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