Bloco 10 Um homem sem profissão · Capítulo 10 de 20
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Bloco 10

Entretanto, minha família ia se diziman­ do. Primeiro, faleceu tia Carlota que chamá­ vamos de tia laiá. Morreu em Santos, em casa de tio Chico, que logo depois se mudava para São Paulo, alugando casa na Rua Jace- f I guai, enquanto construía suntuosa residên­ cia na esquina das avenidas Paulista e Luís Antônio. Tio Chico, o comandante da famí­ lia, mostrara uma grande atividade na fun­ dação de casas comissárias de café, em Santos. Infelizmente morreu moço, deixando o único filho, Juca, estudante na Inglaterra. Sua viúva. Cândida Leitão, conseguiu bater o re­ corde da palhaçada trágica, casando-se com um dr. Peruche, noivo da própria filha, Hen- riqúéta. Enquanto a outra, Noêmia, casada com um tal de José Mário, batia outro recorde — o da avarice. A morte de tia laiá veio liquidar o curio­ so gabinete de meu tio, o desembargador Domingos Alves Bibeiro, que mantinha pela monarquia um saudosismo fervoroso. Seu pequeno escritório, além de ter nas paredes fotografias de líderes do Império, se empape­ lava de gravuras recortadas da “ Illustration’^ particularmente referentes à exposição uni­ versal realizada em Paris em 1900. Aí apren­ di a conhecer a silhueta esguia da Torre E if­ fel. Frequentavam o gabinete de meu tio figuras notáveis da monarquia como Joa- quim Nabuco e Eduardo Prado. Era uma espécie de “ Cabinet des Antiques” de Balzac, onde meu pai fazia às vezes sua modesta e democrática aparição. Grande amigo de meu tio era o monarquista Dinamérico Bangel, que já referi. Um careca esquelético que recusara, por brio, a aposentadoria na Bepú- blica e por isso passava muito mal de vida. 1 ‘1 il I i t í H fll n I1 Nessa desaparecida São Paulo, perma­ neceram duas velhas mulheres, primas nos­ sas, mandadas buscar de Recife, pela família, por terem ficado sós e sem amparo. Tinham morrido todos em sua casa, mãe, irmãos, pai. A família unira-se no propósito de fazê-las vir para o Sul. Como deixar longe aqueles rebentos virgens dos Soriano, dos Brito e dos Sousa“ No Rio, fora incumbido de tirá-las de bordo 0 mais boêmio de meus primos, o Lulu. Não havia ainda cais na Capital da Repú­ blica. Os navios atracavam fora. Êle indo a bordo e indagando delas, deparou com dois bichos felpudos e mal postos. Fugiu horrori­ zado. Com o pouco dinheiro que tinham elas alugaram uma barca e vieram aportar direta­ mente na enseada de Botafogo, onde tio Her- culano morava. No terraço da casa suntuosa, estavam meninas e rapazes quando, por pura piada, Marina, vendo aquêles dois monstros acompanhados de moleques e de malas, gri­ tou: — Oilá as primas do papai! Eram de fato elas, pois imbicaram para 0 portão da vivenda. A mais moça trazia um rolo na mão. O retrato a óleo de um avô que- fora grande na Corte. A casa rica não pôde conter aquelas duas figuras analfabetas e bárbaras que vinham escapadas de uma tragédia edipiana. Magras e mal vestidas, com os cabelos soltos pelas costas, elas foram imediatamente .recambia­ das para São Paulo, onde tia laiá as hospe- dou. Estava salva a virgindade trintenária de ambas. Tratava-se de mn caso de inconformação fidalga. Os pais eram nobres de nascença mas não tinham padrão financeiro para sus­ tentar a família. Apenas possuíam uma casa de moradia e o pai, sem habilitações, obtivera um emprego modesto. Mas a mãe era filha de uma aia da Imperatriz. Não podendo edu­ car os filhos em bons colégios, fecharam-nos em casa. Dos homens, um morreu tubercu­ loso, 0 outro saiu para o hospício. As ume­ ninas” continuaram enclausuradas. A mãe morreu. O pai, semilouco, tentou contra a honra da filha mais nova. Era nesses ter­ mos que se narrava o caso. Completamente abandonadas com o seu falecimento, laiá' e Inesinha apelaram para os parentes do Sul. Agora achavam-se instaladas na Rua de San­ to Antônio, em casa do Desembargador Do­ mingos Alves Ribeiro, ou melhor, na janela de sua sala de visitas, olhando a rua. Afinal olhavam a rua. E na rua passou um bonde da Light guiado por um motorneiro portu­ guês. Era Artur Alves de Sousa. Namorou- as. E alegando que deixara a profissão de motorneiro para vender uma pomada para calos que inventara, pediu a menos velha em casamento. Deflorou-a não se sabe onde nem como. Casou-se e vendo que ela não trazia um tostão furado, deu uma surra nas duas e abandonou-as numa noite de chuva. I Voltaram ambas à janela do Desembar­ gador, mais velhas e abatidas. Os motornei- ros passavam sem lhes dar atenção. Inesi- nha faleceu, tendo eu tomado parte no enterro com a mulher desdentada do engenheiro que reaparecera. laiá morreu de sífilis numa en­ fermaria da Santa Casa de Misericórdia. Fui vê-la quase na agonia. Tinha qualquer coisa de amoroso e quente nas mãos esquálidas. Em 1911, faleceu também tio Chico qua­ se que repentinamente, deixando bem casada Noêmia que, longe do marido, mostrava como em criança decidida inclinação por mim. Desmanchava-se assim o núcleo dos Inglês de Sousa, que por tantos anos se instalara em São Paulo. Meu tio, o Desembargador Domingos mudou-se para o Rio com sua filha Sara. O Marcos, herdeiro de uma porção de terrenos no Paraíso, casou-se com a filha de imi negociante, o capitão Roberto de Figuei­ redo. Apertei minha mãe no corredor da casa, coberto como ela de lágrimas ardentes e fui acompanhado por meu pai e alguns amigos até 0 cais do porto de Santos. Aí entrei pela primeira vez num transatlântico. Era o ^ tha Washington” que me levava à Europa. Vi meu pai, o último do grupo, desapa­ recer num dos intervalos dos grandes arma­ zéns de zinco que fechavam o cais. Deixei a baiaustrada do tombadilho e me pus a andar. O movimento da gente que me cercava — passageiros de casquete, carrega­ dores, visitantes e curiosos — me enervou. O atraso do navio me impedia de deixar meus amigos no mesmo momento em que largasse a terra. Por causa do carregamento de café que não fora terminado, o ^^Martha” só par- tiria dentro de uma hora. E o grupo de ín­ timos que me acompanhara de São Paulo, tivera de despedir-se para não perder o últi­ mo trem. Parei do outro lado do tombadilho — o que dava sobre o mar. Vi na palidez da tarde^ o canal, as colinas verdes da costa e notei adiante um pequeno e velho forte. ' Desci para buscar meu casquete na ca­ bina. Propus-me adivinhar os meus compa­ nheiros de viagem e finalmente parei para olhar a fila de trabalhadores que carregava. Eram cerca de cinqüenta homens sujos e fortes, de camiseta e calça. Subiam curva­ dos sob o peso dos sacos de café, por uma larga tábua que tremia, atiravam-nos ao po­ rão do navio e repartiam para buscar outros no armazém aberto. Como o dia terminasse, encerraram o serviço. Marinheiros mostraram-se, fecha­ ram os porões cheios, recolheram os guindas­ tes aos mastros. Na ponte, apressavam-se os adeuses. Havia gente comovida. E calmos oficiais de marinha advertiam os retardatá­ rios. A escada de bordo foi ocupada pela I descida dos visitantes. Depois os marinhei­ ros a recolheram , lentamente. Havia grupos de pessoas no cais já es­ curo. Os viajantes olhavam do tombadilho. E imperceptivehnente o navio se destacou. lUeia nora aepois, em plena noite, o “ Martha’^ se afastava do porto, tóó, no tombadilho, dis­ tingui ainda as luzes de íSantos. Ouvi a fan­ farra que tocava embaixo, no salão, onde se jantava. E chorei. A parada no Rio, depois de uma noite

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