Bloco 9
A resistência do chamado civilismo con tra a prepotência militar e política que se inaugurava com a ditadura disfarçada de P i nheiro Machado, vinha iniciar uma série de revoluções e revoltas que culminaram na de 1930, onde outro gaúcho, Getúlio Vargas, vi nha inaugurar uma outra ditadura, mas de novo feitio. A revolta de 1910 teve o mais infame dos desfechos. Foi solenemente votada pelo Con gresso a anistia aos rebeldes, mas uma vez entregues e presos, foram êles quase todos massacrados e mortos. Escapou o “ Almiran te” João Cândido e quando, na década de 30, o jornalista Aporelli tentou publicar uma crô nica do feito foi miseràvelmente assaltado por oficiais da nossa Marinha de Guerra que o deixaram nu e surrado numa rua de Copa cabana. Apesar das violências do^ govêmo, en grossava de todo lado o desgôsto contra os métodos e propósitos hermistas. Em minha casa, em meu meio, veio também reper cutir 0 ódio contra Pinheiro Machado. No Bio, na própria madrugada da revolução, eu i H senti não estar ligado aos marinheiros rebel des cujas intenções e propósitos desconhe cia, mas que me exaltavam pelo espetáculo de sua coragem e desobediência. Com meus vinte anos febris, sei lá a que ponto teria in tervindo, se pudesse, na eclosão da revoltu. Meu lugar, eu sentia, não era positivamente aquêle de fugitivo das primeiras balas rebel des, sobrinho pacífico de titio Inglês de Sou sa e namorado de uma pequena atriz da Com panhia Giovanni Grasso. Incriminava-me em monólogos terríveis, por não estar à testa da revolução em que sentia uma luta justa e he róica. Mas, ignorando tudo que se passava e completamente alheio à política nacional, lem brei-me que, dessa vez, não tinha trazido a flauta. A flauta, arranjei-a logo depois. Foi o se manário paulista Pirralho”, que fundei e dirigi sob a égide financeira de meu pai. Ma mãe, com sua imaginação amazônica, pôs le nha na fogueira. Tendo um caricaturista de primeira ordem, Voltolino, e ligando-me a um giaipo de “ literatos” lancei o semanário com êxito. “ O Pirralho” teve sua redação à Pua 15 de Novembro 50B, sobrado. Era uma simples sala ao fundo de um corredor, para onde minha mãe fizera transferir uma escri vaninha, um sofá e parte das cadeiras de casa. Em tômo do “ Pirralho”, juntou-se uma sú cia de poetas, escritores e jornalistas impro- visados, entre os quais apareceram Paulo Se túbal e um mulato, Benedito de Andrade, que se dava ao luxo de usar o apelido de Baby, pronunciado em português: Babí. Êsse mulato, espadaúdo, forte e cabotino, diziam ser um bastardo da família Sousa Queirós, filho de cozinheira e patrão. Era um analfabeto ab soluto mas senhor também duma suficiência absoluta. Apareceu logo êle com originais de uma crônica esportiva que, corrigidos por mim, publiquei na revista. Passou a ser o nosso cro nista esportivo. Aliás, dedicava-se aos espor tes, sendo mesmo apelidado de ^ ‘Maratona”, pois tomara parte numa corrida da cidade. Aos 20 anos eu tivera minha iniciação se xual com duas hóspedes de minha própria ca sa. Eram elas a senhora de um engenheiro que dêle se separara, ficando sem eira nem bei ra, e outra, Guiomar, muito moça, que brigara também com o marido e trazia consigo uma filhinha de dois anos. Minha mãe, se pudesse, açoitaria em casa não só essas duas criaturas, mas todos os destroçados da terra. Antes disso, eu tivera uma curiosa revela ção. Tendo apalpado junto a uma janela uma criadinha mulata que não teria mais que qua torze anos, ela se retirou para seu quarto. Fui atrás e encontrei-a deitada, com a saia com pletamente erguida. Tinha tirado a calça branca de algodão. 100 OSWAL.D DE A K D R A D E I A mulher do engenheiro era mais feia que qualquer demônio da história ou da lenda. Ti nha para la de quarenta anos. Era magia, ós sea, desdentada. Uma noite, por causa de uma harata que ela viera ajudar a matar no meu quarto, senti num aperto que ela tinha um ardor de vinte anos. A primeira oportunida de que tive de me achar com ela sozinho em casa, procurei-a em sua cama, onde ela dizia estar adoentada. Senti-me tocado. Ela mos trou-me que tinha uma toalha dobrada entre as coxas e apossou-se de meu sexo, prati cando 0 que os romanos chamavam de félatio. Foi tão desagradável a sensação que tive que logo retirei o membro dolorido. O caso com Guiomar foi diverso. Eu me levantara muito cedo e percebi que ela estava acordada com a filhinha. Penetrei no cômodo de tabique onde ela se achava e atraquei-a. Ela sentara-se no pequeno leito, desnudada, linda, de camisa e cabelos soltos. Vi que es tava sem calças. Eu não sabia bem o que fazer. Procurei abrir-lhe as coxas mesmo sentada e insinuar-me. Ela disse: — Você quer*? En tão espera um pouco! Colocou a criança aos pés do leito e deitou- se abrindo as pernas redondas e alvas, por sô- bre as quais me deitei. Foi um segundo ma ravilhoso. Ela exclamou: — Parece um galol Encontrei-me ainda irma vez com Guiomar que possuí num quarto fora de casa. Mas, com a mulher histérica do engenheiro nunca mais tive contacto. Diversas vezes no silêncio noturno de ca sa, me encostei no corpo ofegante de nossa cozinheira negra que era moça e se chamava Júlia. Ela murmurava me abraçando: — É gostoso! Caí afinal num bordel da Kua Li bero. Procurava, porém, dourar sempre de ro mantismo minhas visitas noturnas e rápidas. E muito me desgostei quando uma mulher que se desnudara no leito exclamou para mim: — Não precisa de tirar as botinas! Nenhuma experiência tive, no entanto^ de doenças venéreas. Por pura sorte. Pois tinha me atirado às “ fêmeas’^ como todos os rapazes de minha geração. Muitos dêles vi se orgulharem de um cancro duro — pura si- filis. Era um atestado de virilidade pegar uma boa gonorréia. Se escapei disso tudo, no entanto, tive cha tos. Hoje 0 vocabulário bem educado absor veu êsse têrmo que naqueles tempos signifi cava uns incômodos piolhos sexuais que se es palhavam por todo o corpo. Dava trabalho liquidar essa invasão de bichos coçadores com pomada mercurial e grandes banhos. Tudo em segrêdo. Pois a vida amorosa de minha adolescência tinha que estancar diante do ideal punheteiro de São Luís. Tudo que era na tural era porco. 1I Í l i j II I Assisti 0 desnudamento do homem como da mulher no meu século. Esta coitada, ate a minha adolescência, esmagava o corpo en tre espartilhos e barbatanas de cintas fero zes. Era preciso tirar dela os últimos traços do natural. Nada de canelas à mostra, nem braços, nem começos saltitantes de seios. Tu do isso era o arsenal do demônio que atravan cava 0 nosso celestial destino. Esmagada eni seu espírito, como em sua carne, espirrava dela uma mitra de cabelos muitas vezes pos tiços sobre os rostos lívidos que ignoravam o haton e o rouge. Isso fazia a mola do desre- calque das noites de núpcias, de onde muitas vezes as recém-casadas saíam de maca, fu radas de todos os lados pela potência patriar cal em desespêro. O bordel passou a ser um ideal para a mocidade de meu tempo. Das pensões, esca pando à tirania das caftinas, saíram inúme ras senhoras da nossa alta sociedade, pois as profissionais do amor sabiam prender muito mais os homens do que as sisudas sinhás da reza e da tradição. Casadas, as mulheres transbordavam de gordura em largas matinês, o que fazia os maridos, saudosos de carne muscular e limpa, voltarem aos bordéis. Uma vida de simula ção ignóbil, abençoada e retida por padres e confessores, recobria o tumulto das reivin dicações naturais que não raro estalavam em dramas crus. Um pai matava a filha por- t I que esta amara um homem fora de sua con dição. Foi Isadora Duncan quem com seus pés nus pisou pela primeira vez a terra que, atrás de seu exemplo, se desnudaria. O esporte contribuiu imenso para liqui dar com os homens de bigodeira e punhos postiços e as mulheres lacradas, vespas clo róticas que muitas vezes se recusavam dra maticamente a dormir com os maridos, pois não sabiam do que se tratava. Ser bem educado era fugir da vida. As mulheres não podiam sequer revelar a sexua lidade natural que todas têm. Eram logo putas. A vida de “ O Pirralho” tornou-se inten sa e importante no cenário político, onde se lutava pelo civilismo de Rui contra a dita dura de Pinheiro Machado. Eu deixara o “ Diário Popular”. E numa excursão à cida de de Socorro, conheci um dos maiores líde res políticos de São Paulo. Chamava-se Washington Luís Pereira de Sousa, era Se cretário da Justiça e Segurança e fazia-se temido por sua conhecida energia. Suas pala vras sobre minha revista foram de tal modo elogiosas e favoráveis que, sem embaraço, aceitei o convite que me fez de vê-lo em sua Secretaria. Aí espontaneamente êle se dispôs a auxiliar financeiramente “ O Pirralho” que considerava um valor na luta que se desen- i I volvia em torno de Kui Barbosa contra o ber- mismo controlado por Pinheiro Machado. Eu, com a expansão da Capital e a valo rização dos terrenos da Mila Cerqueira Cesai, me julgava um moço rico e não pretendia ex plorar, portanto, “ O Pirralho”, de que pagava, impressão, caricaturista e todas as contas. Foi por essa ocasião que surgiram em S. Paulo as primeiras operações de terrenos da Companhia City. Era um grupo de ingleses que resolvera aplicar atividade e capitais em nossa cidade. Dizia-se que quem a trouxera para cá era o terrenista Horácio Sahino. Fa to é que êsse gríTpo adquiriu dele os terre nos da Vila América, ao longo da K-ua Au gusta, estendendo a operação a uma grande gleba que se seguia na direção de Pinheiros e que parecia um negro atoleiro. Os nossos terrenos, ao lado do futuro Jardim América, que se construiu sobre o lamaçal saneado, so freram imediatamente uma alta considerá vel. Certa manhã, meu pai foi procurado em casa pelo seu compadre, o corretor Basílio da Cunha que lhe ofereceu pela Vila Cer- queira César a soma de dois mil e quinhentos contos. Quem dirigia os negócios da City era o financista Fontaine de Lavelaye, filho de um escritor socialista belga. De modo que êsse nome de Fontaine soou muitas vezes aos- meus ouvidos a propósito da transação. — Fontaine compra, não compra e tc... A ope ração era considerada de primeira ordem. A City oferecia a metade da soma em dinheiro» M t e a metade em ações suas que só se valoriza ram e cresceram. Com uma parte do dinheiro meu pai teria adquirido todas as casas da Hua Direita e se transformado, com um filho só e uma mulher só, num dos maiores milio nários nacionais. Mas não sei porque êle e- D. Inês acharam pequeno o preço, pedindo ao corretor que transmitisse a contra-oferta de seis mil contos. O negócio foi adiado e acabou gorando. No entanto, o ambiente era de prosperidade e, aproveitando-me disso, con segui de minha mãe o que mais desejava na vida — conhecer a Europa. A esse tempo' o pintor Osvaldo Pinheiro obtivera uma bol sa do governo para estudar pintura em Paris, com o apoio do Senador Freitas Vale, dono exclusivo do setor oficial de Belas-Ar tes. Eu fora, em 1910, aprovado para o 2.° ano da Faculdade de Direito e em 11 chegara ao 3.”. Convenci minha mãe de que nada atra palhava a minha carreira de homem de letras a interrupção de meus estudos. Ela, aliás, me declarava que só queria que eu tirasse a carta de bacharel. Somente o pergaminho a interessava, pois um dia poderia valer-me dêle na existência. Tivera tal êxito '‘O Pirralho’' que pude arrendar, por dez contos de réis, a tabuleta, o título e uma mesa. Apareceram diversos interessados, entre os quais Paulo Setúbal e- Babi de Andrade, a quem dei preferência. Comprometeram-se êles a resgatar, na minha, ausência, alguns títulos meus endossados por^ Í I meu pai. Nos seus primeiros cinco meses de vida “ O Pirralho” se impusera pela audácia com que conduzira a campanha civilista, tendo lançado, entre outras coisas, a caricatura de Voltolino. Eu iniciara em dialeto ítalo-pau lista as ‘‘Cartas d ’Abaxo Piques” que encon traram um sucessor em Juó Bananere. Pa recia êle um moço tímido e quase burro mas seu êxito foi enorme quando tomou conta da página da revista intitulada “ O Eigalejo” . Chamava-se Alexandre Marcondes e era pri mo do futuro Ministro do Trabalho. Ia-se acabar a São Paulo dos mascates e dos tílburis. Aquêles, na generalidade sí rios e libaneses, eram chamados turcos por causa do passaporte que lhes outorgava a Turquia. Foram eles os pioneiros da pode rosa colônia oriental que hoje estende seus tentáculos por todo o Brasil, particularmente por São Paulo. Homens ativos e mulheres sadias e mal-educadas, não são mais turcos, são fenícios. Nesse tempo, eram sujeitos pos santes que carregavam nas costas uma lata enorme, verdadeira loja à cata de fregueses pelos bairros da cidade. Batiam matracas de pau para chamar a atenção.