Bloco 17
Ela me diz: — Precisas te habituar a me ver assim. Vou ser freira. De fato, cada dia mais se aparta de nós a possibilidade de uma reconciliação, ou melhor,, de uma ressurreição. É inútil todo esforço. Amávamo-nos demais! Guilherme de Almeida batiza o seu pri meiro livro, 0 ^^Eós” . Di de padre, Eao a ma drinha. Escrevo em letras garrafais em meu diá rio íntimo: “ Introdução ao episódio de Miss Ciclone. Reqiíiescant Landa et Miramar! Cho rai por eles!” Em minha casa calma da Eua Augusta, a professora de piano de Kamiá, uma moça chamada Antonieta que mora ao lado, na Kua Olinda, traz para o almoço uma pri ma esquelética e dramática, com uma mecha de cabelos na testa. Chamavam-na Deisi. Pa rece inteligente. Convido-a cinicamente a amar-me. Ela responde : — Sim, mas sem pre- meditação. Quando nos encontrarmos um dia. Pergunto-lhe que opinião tem dos homens. — Uns canalhas! — E as mulheres ? — Também! Tenho um episódio violento na sala da redação do Jornal do Comércio” . São três horas da tarde. Estamos fora de qualquer horário de trabalho. Eu entro de chapéu na cabeça, a fim de procurar qualquer coisa em minha mesa. O gerente português que se chama Matos e implica com todos nós me interpela violento: — Tire êsse chapéu da cabeça! — Vem tirar! Espanco-o, caio, levanto-me. Êle está no telefone, gritando: — Chama um polícia! Sou suspenso por três dias. A briga fí sica me trouxe um grande desafogo. Como repórter, vou a uma festa no Con- sen^atório Dramático e Musical. O dr. Sor riso que é 0 Elói Chaves, Secretário da Jus tiça, faz ali uma conferência de propaganda dos Aliados. Quem o saúda é um aluno alto, mulato, de dentuça aberta e de óculos. Cha ma-se Mário de Andrade. Faz um discurso que me parece assombroso. Corro ao palco para arrancar-lhe das mãos o original que publicarei no ^Mornal do Comércio” . Um outro repórter, creio que d ”‘0 Estado” , atra ca-se comigo para obter as laudas. Bato-o e fico com o discurso. Mário, lisonjeado, tor na-se meu amigo. I .t Cavações para Di Cavalcanti ficar em São Paulo. Conheci-o uma noite, na reda ção, trazendo-me um cartão de Amadeu Ama ral. Era um menino esquelético e triste. Chora o dia todo numa água-furtada. Estreitam-se as minhas relações com Dei- si que chamamos de Miss Ciclone, acentuan do na primeira sílaba. É órfã de pai. A mãe, casada de novo, mora no interior, em Cravinhos. Ela estuda na Escola Normal e mora na casa da prima, à Kua Olinda. Alugo uma garçonière, à Rua Libero Ba- daró, nos fundos de um terceiro andar. Es tamos no ano de 17. Dessa época, do ano de 18 e até 19, componho com os freqüenta- dores da garçonière e com Deisi, que se tor nou minha amante, um caderno enorme que Nonê conserva. Chama-se — uma idéia de Pedro Rodrigues de Almeida — “ O Perfei to Cozinheiro das Almas dêste Mundo’^ A roda é outra, bem diversa da de “ O Pirralho’\ Sumiram Dolor de Brito, Volto- lino e Antônio Define que vai abrir banca de advogado no interior, em Penápolis. Aparece o estudante Sarti Prado que passa a frequentar a minha casa. Tem es critório com um caipirote esperto e advoga. I.ti É Aparecem na garçonière três futuras ce» lebridades das letras pátrias. São Monteiro Lobato, Menotti dei Piccbia e Léo Vaz. Gui lherme de Almeida e o desenhista Ferrignac (Ignácio Ferreira), acompanhados às vezes de Edmundo Amaral, estreitam relações co migo e vêm sempre. Pedro Eodrigues de Al meida é o único que fica firme. Inicia a sua carreira de autoridade policial no interior mas está sempre em São Paulo. Deisi anima a turma toda. Aliás, em 1917 como já referi, um encon tro com 0 estudante Jairo de Góis, meu velho amigo de “ O Pirralho”, decide de meu di ploma de bacharel em Direito, pela velha Fa culdade do Largo de São Francisco. Em 1912, quando fui à Europa pelo ''Martha Washing ton”, já estava matriculado no 3.° ano. A voz de minha mãe chega à minha memória. Dei tada no eterno sofá de palhinha em que se in validaram seus últimos anos, ela me recomen da que tenha um diploma. Posso precisar dêle na vida. Sua confiança na fortuna que me darão os terrenos da Vila Cerqueira Cé sar não é cem por cento. Muito menos a que decorre de minha vocação literária. O episódio trágico da gripe amortalha a cidade. Chamam a doença de espanhola. To mou conta do mundo. Caiu também sobre São Paulo enlutando tudo. Seis semanas lí vidas, intérminas. Sinto que a peste é pior do que a guerra, pois chega quieta e tira o sen tido de orientação para qualquer defesa. A gente não sabe donde vem o obus silencioso. A cidade mobilizou médicos, hospitais, en fermeiras. Os enterros povoam as ruas. Gran des coches fúnebres atravancam o Centro. Inú meros caixões desfilam pelos bairros. Lembro-me de um encontro cauteloso e furtivo com a Ciclone, na garçonière, por um dia. Levo-a ao Rio, também já assolado pela gripe. O mesmo trágico espetáculo. Em casa, ninguém sofreu nada. Perdi três dúzias de conhecidos e amigos. A doen ça foi como veio. Pedro Rodrigues de Almeida escreve do começo ao fim do diário: “ Muito de arte en trarão nestes temperos, arte e paradoxo que fraternalmente se misturarão para formar, no ambiente colorido e musical deste retiro, o car dápio perfeito para o banquete da vida” . Diante dessas páginas que Pedro vitaliza, muito me admiro de êle ter sido o maior e talvez 0 mais trágico fracassado de sua gera ção numerosa. Era o oposto do marginal, co municativo e sedutor, sem nenhuma marca de talento agreste ou solitário, antes escrevendo o médio do bom gosto, cultuando atitudes ca tólicas e tradicionalistas, relacionadíssimo em seu meio, tudo indicava a facilidade de altos postos para suas razoabilíssimas pretensões. Nada disso, no entanto, aconteceu. U “ Primeira receita. Nos casos de amor, à Dulcinéia prefira-se a Dulce nua” . É de Maio- 30 do ano 17 e escrita pela minha letra. Há logo abaixo uma severa observação da Ciclo ne: “ Ri devagar”. Pedro escreve: “ Em torno da mulher, os homens formam duas correntes completamente diversas e opostas : uns procuram materializá- la, cultivando-lhe a carne e abafando-lhe a al ma ; os outros anseiam por espiritualizá-la de mais, eriçando-a de complicações psíquicas. Como são raros os trânsfugas dessa genera lidade bipartida que compreendem bem que ela, a fútil e gloriosa herdeira de Eva, é com posta de corpo e alma, só esses são capazes de plasmá-la completamente no grande sen tido, fazendo-a integral, forte e tranqüila. Honra a êles!” Assina João de Barros, é o pseudônimo comedido que adota. Como se vê, êle é o perfeito académicien. Curioso con traste. Um tal conhecedor do eterno femini no casou-se com a primeira caipira brava que encontrou na sua primeira delegacia de car reira. I A l.° de Junho, anoto: “ Manhã só, ma nhã triste. O Sr. de Kubelick, pálido e cabe ludo, tropeçando no tapête, chega e toca Ru binstein para eu ouvir. Lá fora briga-se por causa do Cônego Valois. Ontem entrevistei Pavlowa. Ela tem marido, cachorro, frio e boceja como qualquer de nós’’. A garçonière tem uma pequena fonola e alguns discos. Anoto: ‘‘ Some Sunday morning’ música americana. “ Pedro ri literatura. Estivemos na mis sa de São Bento e à vista dos últimos tele gramas, pensamos na derrota da França. Os alemães bombardeiam Paris. Ferrignac com prou mn papa-capim. Nadje, que tem cabe los de bronze, um cunhado de ferro e uma frágil alma de cristal, mandou-me um cartão com isto, litografado sobre imia paisagem de folhinha: “ A tua ingratidão me mata” . O meu nome é Miramar. Passam por São Paulo celebridades. Levo Nijinski à casa do Maestro Chiafarelli, de bonde. Creio que êle já está doido. E eu também! Durante o trajeto Nijinski não disse uma palavra. Parecia também não pensar nada. Estava doido mesmo. Viagem de volta de Ferrignac à Europa com a italiana gorda. Pina, modista com quem vive. Êle afirma que a Pina “ es de vidrio!” F Jíli III ft í Pedro declara que “ A Ciclone é um de senho moderno. Ela sozinha basta para en cher um ambiente intelectual de homens do quanto êle precisa de feminino, para sua ale gria e para seu encanto. Ela é multiforme e variável na sua interessante unidade de mu lher moderna.” Anoto entre ‘‘reflexões sobre Deisi” : “ Se a Ciclone estivesse entre os ventos da tempes tade clássica de Virgilio, Enéas não escapava.” “ Trocadilho paradisiaco de Adão (o pri meiro da terra) — É preferivel ser pente a ser mulher” . A Ciclone também escreve. Declara: “ O passado ser-me-á sempre a grande chaga” . “ Viva a Bacanal de Glazunov!” “ O cisne desliza agonizante na fono,la. Es tá tudo azul, 0 céu, a vida, a tinta. Até logo. Vou ver se os alemães tomaram Paris” . Notas sobre a literatura do Pedro que fala do ^^Jiinterland da maleita e do sentimen Meu otimismo voltou depois de encerrado o caso Landa Kosbach. “ Trago rapadura de ■cidra e uma alma pré-liomérica cheia de pin ga com limão. Positivamente amanhece na “ Lobato esteve aqui e esqueceu as pro vas dos seus “ Urupês” sobre o sofá” . líJii F H l h h “ Viva a Mimi Pinson de Chicago!” A Ciclone escreve atribuindo a Viviano (Edmundo Amaral) : “ A Ciclone é a esfinge do deserto do Brás” . Ela passou a morar no Brás, na casa de uma tia professora, tendo dei xado a Rua Olinda onde a conheci. f Anoto: “ Emilio de Meneses morreu ontem no Rio. Uma época morreu com êle” . “ Os amores da Ciclone infelizmente não têm somente sergents de ville, têm também cambrioleurs^^ É que há qualquer mistério que minha amante vagamente refere. Um sujeito esquisito do Brás. Caricaturas, minhas, de Deisi, de Jeroly, de Viviano, de Guilherme e de Rao enchem páginas do diário. São de Eerrignac. A “ A fonola convida à dança pela magia persuasiva de Karl Maria Weber. Depois é Isolda que entrega a alma ao criador, numa arcada de violino. Depois, o capricho pode roso de Eubinstein que agita um teclado onde segue a melancolia patriótica de Chopin. Sem isso também, que seria a v id a f’ Ferrignac escreve: “ Minueto” de Boche- rini. Como rola triste a \dda no covil de Mi ramar! Encontrei discos novos, indícios mui vivos de grossas transações de terras. Cer- queira César, a Sion, a Meca, as terras tri gueiras de Canaã de todos nós!” Ainda Ferrignac: “ Momento Musical” de Schubert. Volto do guarda-comida. Que miséria! Na vastidão da segunda prateleira, uma bojuda lata de manteiga dorme o seu sono de sebo; ao lado uma altiva garrafa de mel açucarado chora saudade do tempo em que foi líquida. Indícios mui vivos de magras tran sações de terras” . Continuo a trabalhar no “ Jornal do Co mércio”. Fui à redação do jornal. Encontrei lá um retrato para mim. É de Ana Pavlowa. Trouxe-o para cá. Na primeira parede, à en trada da garçonière, a dançarina ergue-se ligeira num fundo negro entre reproduções Î célebres e loucuras do Di. Sê bemvinda, Pav- lowa, no retiro musical onde, no desconforto das noites longas, fazem ronda o pálido Kube- lick, Beethoven e Rubinstein e ressoa em tí mida surdina, para que o vizinho não acorde, a trompa profética de Lohengrin”. Derrota italiana do Caporeto. De Ferrignac: “ Sol enfim! Céu de fain- ça hispano-árabe. “ Momento Musical” de Schubert que é a minha morfina. Depois, caninha com limão. Mais caninha com limão. A mucama do Guy, alegre como um canário, desafoga a alminha das coisas sem nome que nela tumultuam... Nada de Viruta. Fadi gas amolecidas das rapaziadas de ontem. Céu de faiança hispano-árabe. . . ” Ciclone desaparece por um mês. Todo mundo reclama. Versinhos do Guilherme. “ Deisi reapareceu numa nuvem de agasa lhos, de luvas e heret, ilustração fugidia dêste inverno de três graus. E como veio, partiu, ill sonho fugaz, alnia trotinante da rua, litera tura, busca-pé de meu São João sentimental!” Notícias da guerra na Itália. A Ciclone voltou ao Brás. f J 't i Há 0 sinal de um grampo enferrujado na página 57. Ferrignac escreve : Entre as al mofadas amarrotadas, sobre o matelas de cretone claro, encontro este grampinho. De quem será? Da Amélia-Turca? Daquela se nhora de buço preto que o Viruta aqui trouxe ? Ou este gancho caiu da mecha fatal da Ciclone Tôda-Poderosa ?” Ciclone não veio. Da sua última visita, tumultuosa, incoerente, me ficou a última frase: “ Não acredites mais num homem para que não fiques sabendo que existe mais um cão sobre a terra.” u Uma nota da Ciclone, com sua grande le tra: “ Miramar, estou seqüestrada, que hor ror! Não saio mais à rua sozinha! Socor Ventania, pseudônimo de Ferrignac, es creve: “ Ontem estive em Santos, vestíbulo encardido da decadente Europa. Complica- ções na duana, fonte inesgotável de inintias amarguras. Malas da Pina. Caixas da Pina.