Bloco 19 Um homem sem profissão · Capítulo 19 de 20
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Bloco 19

Literatura bestíssima do Sarti: “ a Ala­ meda do Sonbo” , o “ balo do passado” etc. Ferrignac satiriza-o. Aspecto da Editora Monteiro Lobato que produz o primeiro furor livresco em São Paulo: “ Na salinba da Revista do Brasil, metralhada de estalidos da Remington, Lo- í P il bato tira talões de recibo e berra para o Caiu- bi: 10 Uriipês, 30 Sacis, 40 Mulas-Sem-Ca­ beça, nacionalismo, comércio, o país que lê” . Creio que o datilógrafo é o futuro dono da Editora Nacional, que abiscoitou judaicamen­ te a falência do Lobato. Passeio de barco à reprêsa de Santo Ama­ ro com Sarti, papai, Kamiá, Nonê e a criada Elisa que é tantã. Olbo o inútil cenário de beleza. “ Falei com Ciclone pelo telefone. Está impossível” . i' I Carta de Deisi: I “ Doce amigo Mando-te um pedaço de vida. Desta mi­ nha vida de interior rústico e sossegado. Fui às 4 horas ao médico para me ser feita uma injeção. Voltando toda dolorida, tendo o bra­ ço inerte e doente, tive de suportar o imper­ tinente primo fazendeiro” . Continua a pôr fantasmas no meu ciúme mas declara: “ Nunca te amei tanto, isto é, nunca tive tanta confiança no meu amor e em mim contra fascinações roceiras” . Conta que lê Tbsen e Balzac que lhe dei. “ Não imaginas que dia feio faz aqui. Um dia de pijama, um dia de almofadões listados e lâmpadas acesas... um dia de alcova’^ ^ sa em ti a Miss. Por ti, Joao Miramar, a Miss tem mais profundos os ollios e a cabeça bizarra mais revolta”. O covil da Rua Libero agoniza. Visito atrizes francesas no Hotel Carlton. O Pedro chega furioso de Tatuí. Traz uma sentinela. É delegado! Léo Vaz está com reumatismo. Inventa-se na faculdade de Direito uma caravana de es­ tudantes para falar no interior. Resultados da campanha nacionalista de Bilac que eu modes­ tamente acolitei. Arranjo para ir a uma ci­ dade qualquer perto de Cravinhos. Não me lembro mais. É Tijucópolis no diário. Gruilherme de Almeida deixa este auto­ grafo: “ Cavalheiro do Acaso e da Fortuna — nova denominação dos homens que ainda que­ rem viver Anoto: “ Deisi continua a fazer literatura cravinhense: “ Todas as horas são roxas, a 202 OSW ALD DE AJSTDRADE tarde é cinza-roxa. Morrem rosas, morrem almas. Miss Branca é mais pálida que a lua” . I C 1 ii I i 1 i r C H fi f f M t Um episódio importante: ^^Miramar no entanto, pelo seu último amor sério, foi a Tijucópolis, trezentos e mui­ tos quilômetros de trilhos! Pretexto. Uma conferência nacionalista, promovida pela Fa­ culdade de Direito. Eecebeu-o na gare, Aris- tides, diretor úmido do Grupo — Que o es­ perava desde ontem! Sim, mas é que ontem, quando o trem parou na estação de tijolo de Tiperári, êle revi­ ra a Senhorita Tufão. Conhecem? Está mais carnuda e sem a mecha. Apresentou-o com precipitação, onde havia isto de angústia, ao senhor de Costignac e sua senhora, a melhor das sogras. Costignac é o búfalo ibero de cal­ ças listadas de brim. Tem um punho notável! No hotel, onde Miramar se banha, há um palhaço tomando café. Não, positivamente não há quartos nesse hotel. Dia inquieto. Quem será Costignac? — É 0 melhor dos pais, explica Tufão- zinho. Deslumbrei-o. Fará por mim tudo. Apenas se souber que me seduziste com pro­ messas levianas... — Arcabuza-me! — Morremos. Eu também porque morre a minha vida. Êle a enlaça no silêncio do quarto rude que a fantasia dela alegrara de travessuras. w Um mosquiteiro virgiuiza o pequeno leito, a parede do fundo reproduz de um lado a deco­ ração do Retiro de Libero Street. Miquelân- gelo além. Baudelaire arrancado do volume. E, em recortes de jornal, Miramar e Eerrig- nac. Um móvel esquisito, de madeira e bronze, suspende uma biblioteca onde bá Ibsen junto de uma brochura da ^ ‘Vingança da Morta” . Almoço. Costignac acentua para Mira­ mar a sua figura de fundibulário. Mede flo­ restas para venda, avalia toros, faz escritas de fazendas. Na casa, a mesa é farta e bom 0 linho. E a noite desce sobre Tiperári. Eles tem um grande passeio no escuro, sob arvores, bri­ gando. Voltam. E a conferência'? Miramar empalidece. Tijucopolis o espera com a ban­ da do Vitorino, ávida de dobrados. Precisa fazer a conferência. Tufaozinho o auxilia. Até 1 hora, ante a lâmpada implacável, que ela barrou de vermelho, os dois fabricam a encomenda nacionalista, enquanto pressentem que na sala alguém vela. É a boa senhora, a mãe triste e sorridente. So se retira, só se deita quando viu a filha deixar o quarto on­ de escreviam. Miramar ficou no leito^ dela. Ela irá passar a noite com os iimãozinhos. Mas voltará quando todos dormirem, promete no último beijo. Miramar adormeceu depois de esperá-la muito. Madrugada velha. Al­ guém a seu lado, no roupão roxo. E Costig­ nac poderá levantar-se. Verá as portas ape­ nas cerradas. E a luz implacável de Tiperári N m I I I I i f. r i que não se apaga, que não diminui. Costignac desfechará o arcabuz boca de sino. Segundo dia. Rabona matinal. Gare. Costignac acompanha Miramar. Miramar é o seu hóspede. De Tiperári a Tijucópolis duas horas. Na gare principal do caminho, abordam Mi­ ramar que desceu um minuto. É um menino têso e loiro, de luvas, de capa, de malas. — Colega no dever e colega na viagem! Como'? A Tijucópolis? — Não. Um pouco adiante. A Fundi- nho. A Pátria o exige. Quer um cigarro? O trem corre de novo. O nacionalista de­ sapareceu. Agora é um deputado que viaja ao lado de Miramar. Enriquece dia a dia. É presidente de bancos, de companhias, de sindi­ catos e diz mal de tudo. — Caminhamos para o protetorado, ami- Chegada a Tijucópolis. Aristides, Padre João Emerenciano, de nariz triste. — Adiantamento? — Algum. Assim, assim. — Moral? — Um pouco anarquizada nos costumes. Miramar recebe o programa dos festejos. Conferência e sessão cívica às três. Jantar de gala às cinco e meia. Espetáculo no cinema, com discurso às oito. Miramar reage: — Não pode ser! Deve fazer outra conferência, em outro lugar a essa hora, a quarenta quilôm.e- tros. Exige mesmo condução. — Não pode! w — Mas já saiu no jorn al... — Não. Exijo em nome do Dr. Steidel, do Dr. Thompson e do Dr. Lessa! Mobiliza­ ção de Tijucópolis. Conferência e sessão cí­ vica às dez. Se quiserem. O sacristão e os dois fiscais distribuem boletins improvisados. E, como Miramar sobre o almasso deceiia e reúne períodos, na mesa central da grande sa­ la do Grupo, Aristides vai e vem, esfrega as mãos. — Não sei se será a banda ou as meninas que executarão o Hino! E explica que a banda do Vitorino brigou com o Rubião do cinema. — O doutor fala uma bora ? — A Liga determinou apenas doze minu­ tos para cada conferencista. Miramar, de rabona, guindado entre flo­ res, tendo por fundo a tela encardida. Rebu­ liço. Padre João ia despencando da escada. Também, a escada! Embaixo, o tout Tijucópolis fremente das preynières de Max Linder, com o Grupo nas primeiras filas, uma centena de estuprinbos espevitados e de branco. Lá longe, a porta, a porta que conduz a Tiperári ! Pssit! Silêncio! Ovação do Grupo Es­ colar com estalidos prolongados de palmas. Aristides levanta-se. Está comovido. Eala. Berra. Miramar ao lado escuta. — A Liga de Defesa Nacional teve a bonra de mandar até a nossa cidade, o ilustre conferencista Dr. Os­ valdo Cruz ! Sensação. Osvaldo Cruz é aquê- 'flB M tn t Æ i I J i s le moço gordo, de rabona, que espera com a aima de condenado, a hora de semear a boa palavra. Aristides prossegue: — Vêde O exemplo! Este conbecido con­ ferencista sai de seus lares, percorre doze ho­ ras de trem, deixa o conforto da Capital para pregar patriotismo. Vêde a lição, a lição para vossos filhos, oh mães; para os vossos carís­ simos alunos, oh professores ! Sobre a alma vexada de Miramar desce uma súbita melancolia de coisas puras e sãs. Vem-lhe a gana de gritar ali, num escândalo de contrição, o remorso vesgo do Abbé Jules na igreja. Mas Aristides terminou e lhe deu a pala­ vra num gesto. Miramar de rabona, fala. Está quase co­ movido. Quase treme. Precipita, engole, jo­ ga períodos. Estaca. Terminou. Tijucópolis hesita. Aristides hesita. Mas Miramar sen­ tou-se. Então despenca sobre êle a mais bem entoada das salvas de palmas. Acabou-se a festa. Tijucópolis dispersa, tristemente, aos bandos, amassando o barro grosso das chuvas. Agora é a condução. Miramar encontrou felizmente como diretor da linha de automó­ veis de Tijucópolis, um parente rebarbativo. É 0 Nogueira, de óculos e cara empinada no grande vulto. — Doutor! O senhor falou no Eui Bar­ bosa e eu lhe trouxe o Rui! O Rui é um Hupmobile 30 H., “ o prín­ cipe das alturas” . Miramar não se lembra de ter falado em Rui. No carro que Yoa pela estrada aberta no verde das infinitas culturas, vão Nogueira, o Toniquinbo, o filho, “ que não tem medo de na­ da”, e 0 Léo de Tijucópolis. Sim. Miramar constata que é o Léo, o Léo sem a cabeça de bossas verlainianas, sem “ os peixinhos” mas mudo como o Léo, professor como o Léo, aten­ cioso como 0 Léo. Entre derrapagens lama­ centas e bruscas passagens com o susto da bu­ zina roufenha, por lerdas boiadas e porteiras de pau preto. Nogueira eruditiza a viagem. — Aquele discurso do Rui, aquele da Bahia, aquele do estado de sítio, aquele em que acha­ tou o Azeredo — “ Não leio os seus jornais! ^ Léo aprova molemente com expressão adu­ ladora. Para Miramar, Léo abicha a viagem de graça. Chega a murmurar: “ colossal o R ui!”, êle tão calado. As primeiras ruas da cidade de permeio. É ali que Léo fica. E enquanto Miramar es­ pera o trem que o leve novamente a Tiperá- ri, passeiam os dois pelo deserto das lajes de­ siguais ou sentam-se nos jardins calados. — Lê Mantegazza? — Leio. — Admirável o Mantegazza. E que tí­ tulos! “ A psicologia do silêncio” . Léo sus­ pira ainda que São Paulo é adorável. E emu­ dece até a partida demorada de Miramar. A u i' I K i E de novo Tiperári. E de novo os bra­ ços morenos de Miss Tufão! Miramar ficou. Ab,l noites de Maupas- sant com alvoradas de Shakespeare! Desa­ fiando a guarda rude de Costignac, no rou­ pão roxo, ela veio, ilustração esguia. Ela veio para realizar com êle o milagre do riso no amor. “ Eu em ti, tu em mim, nós dois em Tiperári’^ , que deixaram riscado na cama minúscula, presente do fulo tio Pontes. A passagem do Tomás Lessa, o leito do Pontes! Ao cair da última noite, envolvido na for­ ça do idílio, Costignac esqueceu-se ao piano em cantares de velha alma coimhrã. Obriga­ do, Costignac, murmurou recolhidamente Mi­ ramar. Tu, como TijucÓpolis, cumpriste o teu destino na minha vida sensacional! TijucÓ­ polis poderá prosseguir lerdamente a sua exis­ tência parada de burgo brasileiro. Padre João Emerenciano amassará por vinte- anos inú­ teis a lama vermelha das suas ruas quietas. Outros Aristides virão fazer outras sessões cí­ vicas sem resultado algum. Ficar-lhe-á, porém, a bênção da minha viagem, pelo amor da Miss Tufão! De ti, Costignac, que me deste vigí­ lias de assassinato entre braços adorados, levo a melhor saudade. E veio a madrugada da partida. E pela grande largura sinuosa dos campos mal plan­ tados, 0 céu idílico, o sol idílico, a vida idílica !’’ Estamos no fim do ^ ‘Perfeito Cozinheiro das Almas dêste Mundo” . De Deisi, que tam­ bém usara o pseudônimo de Gracia Lobe, res­ ta bem pouco, apesar de ter deixado uma di­ fusa e numerosa literatura. Se, nas minhas peregrinações, eu não tivesse perdido as suas “ memórias” inteiramente fantásticas, ela tal­ vez tivesse sido a precursora do conto policial que hoje tão bem cultiva meu amigo Luís Coelho. Nas suas notas do diário da garçonière como em suas cartas, resultava muitas vezes um sentimento iniludível de doença, de morte e de frustração. Na carta, escrita em roxo, que fecha o livro, ela fala: “ De saúde vou indo bem mal, não sei se será reação das in­ jeções. Há dois dias que não as tomo por me sentir mal disposta!” Pergunta pelo nosso amor e acrescenta: “ É preciso velar por êle, muito, muito! Consola tua pobre amiguinha! Como me sinto morrer ! E isto sem gesto tea­ tral e olhos em alvo. . . ” De volta de Cravinhos, eu desfaço o Ke- tiro da Rua Libero. Nessa carta roxa, ela exige tudo — a almofada verde, a peluda, a pele de tamanduá que estava na parede sob um florete, o meu retrato, o reposteiro claro, os tapêtes macios e os Di e Malfatti que possuo. Num trecho literário que conservo, talvez dos seus quinze anos, ela narra que “ numa tarde de Novembro” assistiu à morte de Deisi, ‘^uma linda criança de 17 anos!’^ , junto á “ úmidas violetas’’.

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