Bloco 20 Um homem sem profissão · Capítulo 20 de 20
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Bloco 20

Em 1918, estou como disse, no 4.° ano da Faculdade de Direito, ao lado de Jairo de Góis e no “ Jornal do Comércio”, onde faço o salário de 250 mil-réis. Trabalho também na “ Gazeta” de Cásper Libero que me paga cem- mil-réis. Vendo Léo Vaz recém-chegado, sem em­ prego, desfaço-me, como referi, do da “ Gaze­ ta”, onde êle me substitui. Deisi e a garçoniè- re são as minhas preocupações, com o filhinho que cresce em casa. Meu pai, dado o sacrifí­ cio de Landa, serenou. Define desaparece. Deve ter-se mudado para Penápolis, onde mais tarde iria morrer moço de trauma político. Quem o substitui na intimidade de nossa casa é Sarti Prado, a cara deformada pela feiúra, serviçal para com Kamiá e papai. i If I Vem 0 fim da primeira guerra mundial. O armistício. Uma agitação frenética por um episódio cuja significação ninguém atin­ ge. Antes, em 17, outro fabuloso aconteci­ mento — Lenine e a vitória da revolução so­ viética. Esta, todos compreendem que é uma ameaça à ordem estabelecida. Eu mesmo, como orador do Centro Acadê­ mico, vou urrar contra o bolchevismo de que não entendo nada. Como os outros. m Ao atravessar da meia-noite que separa os anos de 18-19, Seu Andrade, como de costu­ me, faz 0 reveillon religioso. Magro, ósseo, ora de joelhos diante do Oratório onde fulge a Custódia de prata. Eu cheguei a tempo, vin­ do da cidade. Ajoelho-me também e oro com êle e os criados. Estranha desapariçao de Kamiá que saiu com Sardine. É como ela chama Sarti Prado. Chegam afobados no meio da prece. Ajoelham também, oram tam­ bém. Depois são os votos mútuos de mútua felicidade para o trágico ano que nasce. Meu pai parece satisfeito, vendo-me ba­ charelando e eleito primeiro orador do Cen­ tro Acadêmico Onze de Agosto. Politicagem do Jairo. Além disso, eu abordara na Eua de São Bento, o astro em ascensão no mundo dos ter­ renos, Cláudio Monteiro Soares. Êle se in­ teressa por uma combinação sobre a Vila Cer- queira César. Tem dinheiro e habilidade. Pode ser um ótimo sócio. Mas na madrugada do primeiro dia de Fevereiro, meu pai vem até a minha cama, que aliás é 0 divã de palha trazido da defunta güTçonière. Queixa-se de uma dor violenta do lado. Levanto-me atarantadamente. Provi­ dencio médico. O homeopata Murtinho virá II 212 OSW ALD DE A K D R A D E A doença de papai agravou-se. Pressenti­ mentos me assustam. Ao cair da noite de um dia final de Janeiro, uma enorme borboleta negra e amarela penetrou na nossa sala de jantar, impressionando a todos e aterrando Nonê que fez cinco anos. Debate-se pelas pa­ redes, pelas vidraças, como um agouro. Sai. Outros médicos aparecem. Pala-se na idade dele. Fêz 73 anos. É pouco na minba família paterna. Artériosclérose. Irmã Úr- sula alertada, não deixa a casa. Parentes, ami­ gos. Sarti sempre com Kamiá. Aplicam-se A^entosas nas costas do velbo enfermo. A casa aflige-se. Numa das minhas idas e vindas, venho encontrar Irmã Úrsula debruçada sobre o doen­ te, dizendo-lhe que é preciso deixar um papel. O testamento tinha sido preparado pelo advogado Teodomiro Dias que segue as ins­ truções de Sardine e Kamiá. Não percebo nada do complô, nem o Rao que me assiste. O tabelião compareceu chamado não sei por quem. O documento, que meu pai assina dian­ te de todos, deixa a quarta parte da fortu­ na ao neto, com usufruto para Kamiá. Está dado 0 golpe. A morte de meu pai assombra a minha vida. Antes da agonia, êle me trata de louco, instigado pela dupla Kamiá-Sardine. Eu o cerco de todo carinho. Um padre passionis- ta, da Congregação que êle encheu de terre­ nos, comparece. Uma litania eleva o drama agônico, abre as paredes. Coortes de anjos enchem o ambiente. Quando êle morre, vejo retorcida como uma máscara a cara sinistra e vermelha de Sarti Prado. O mulato está chorando, de joelhos como os outros. Por quê? Conse­ guiu mais do que queria. O transporte do corpo para a câmara funerária armada na sala. Estamos moran­ do numa grande casa de esquina da Rua Augusta. Faço a barba a gilete, sem perceber bem o que se passa. Cornélio Pires e outros ami­ gos comparecem. Padres. Irmãs. A casa se enche de velhos e moços, mulheres, serviçais e senhoras. Sai um grande entêrro. Está findo 0 lar de Dona Inês. Missa de T ."* dia na cripta da Catedral. Mudo-me para imi hotel. A Rôtisserie Sportsman que agora está na esquina do Via­ duto com a Ladeira Dr. Falcão, onde se ergue hoje o prédio Matarazo. Kamiá tomou uma casa na Rua Pedro Taques. Leva Nonê, com meu consentimem to. Sardine é o seu chevalier-servant. Aí nesse hotel, apareceu para me visitar uma senhora com uma filha meninota, dizen­ do-se velha amiga de meu pai, coisa que eu ignorava completamente. Ao sair, ela pro­ meteu mandar a filha de vez em quando me procurar para buscar auxílio financeiro. Tal­ vez a garota tivesse ido mesmo. O inventário é feito por Vicente Rao. 'I I Os recursos com que contamos, antes que se faca qualquer negócio com Cláudio Monteiro Soares, vêm de letras. O Cônego Francisco de Melo e Sousa, vigário da Igreja da Consolação, salta para o primeiro plano. Êsse padre gordo e corado, flácido e abiilico, está reunindo fundos para a construção de seu novo templo (essa bosta arquitetônica que agora ficou pronta, feita pela cultura de Monsenhor Bastos, o sucessor daquele). Meu pai fôra já por algum tempo o endossante de favor do sacerdote. Eu mergulho no senti­ mento órfico tradicional e local. Sou cató­ lico. A ponto de procurar o Cônego, para lhe oferecer o meu endôsso de herdeiro, em subs­ tituição ao de meu pai. Minha vida oficializa-se com Deisi. Facilmente promovo a sua vinda de Cravi- nhos para a Capital. Coloco-a morando com a avó numa casa da Bua Santa Madalena, no Paraíso. r ‘1 A l.° de Março, em escritura, Cláudio Moiiteiro Soares substitui-se à Economiza- dora Paulista, como credor hipotecário do es­ pólio. Fornece algum dinheiro. Como o numerário é curto e o inventário demora, minhas relações financeiras com o Cônego Melo complicam-se. Eu sou o endos­ sante de favor de suas inúmeras letras. Faço isso com enorme displicência, pois confio na honorabilidade da Igreja e de seus ministros. O corretor principal do padre é o mordomo da Cúria, Artur Leopoldo e Silva, irmão do Arcebispo Dom Duarte e funcionário da Câmara Municipal. Chamam-no de Artur- zinho. Sinto-me no direito de tirar para mim um pouco do imenso empréstimo da Igreja da Consolação. Faço uma conta ao lado da do padre. Muito modesta. Deisi está em São Paulo com a avó, uma horrenda portuguesa gorda que me põe para fora da casa da Pua Santa Madalena, pon­ tualmente, às dez e meia da noite. Uma tarde paulista, de garoa, encontro um garotinho na Avenida Brigadeiro Luís An­ tônio, quando vou ver meu amor. Conto a Deisi, que sorri pensando que eu insinuo filhinhos futuros quando nos casarmos. Encontros com Mário de Andrade. Em leiterias. Descoberta de Brecheret, por mim e por Menotti. A nós deve êle a sua apresen­ tação e a defesa de sua arte nova. E ' um moço que parece idealista, bem diverso do avarento sórdido que se tornou depois de mi­ lionário. A exposição de Anita Malfatti, em 17, provocara o coice monumental de Monteiro Lobato, inteiramente ignaro e maldoso. Sou o único a defender timidamente Anita pelo '‘Jornal do Comércio’' com iniciais. Agora em 19, encontro-a com Di, Guilherme de Almeida e outros literatos. Deisi é ainda fugidia mas melhorou muito dos anos esquisitos do comêço. Conto certo casar-me com ela. Eerrignac vindo da Euro­ pa, nos frequenta. Numa manhã doirada da cidade, encon­ tro Deisi na Eua 15, esquina do Largo do Tesouro. Despedimo-nos depois de ligeira conversa. Olho para trás e vejo seu chapéu flutuar descendo a Rua 15. Sigo-a sem saber até hoje por quê. Ela atravessa a Praça An­ tônio Prado, desce a Avenida São João, en­ vereda pela Rua Anhangabaú por debaixo do Viaduto Santa Ifigênia. Acompanho-a de per­ to, agora interessado. Ela pára à porta de uma das casas amarelas e iguais que defrontam o Cassino Antártica. Esbarra num moço que vem saindo. Entra sem olhar para trás. Eu abordo o moço e pergunto quem mora ali. — “ E ’ uma pensão de rapazes’^ Vem o roteiro de minha absurda des­ graça. Deisi é visgo puro. Não tenho a coragem de romper. Ela também não expli­ ca nada, não conta, não se defende. Em Junho, ela me diz que está grávida. De quem? Não pergunto. Ela não fala. Con­ cordamos no aborto. Inicialmente, ela toma uma droga horrenda que não produz efeito. Na casinha da Rua Santa Madalena pas­ sa-se um drama. Uma manhã, conduzo-a à Rua da Glória, à casa da parteira alemã que fez Nonê nascer. Ela entra comigo na Igreja dos Remé­ dios, à Praça João Mendes, que foi hoje de­ molida. Anita Malfatti conta-me depois que nos viu nessa hora decisiva, sem perceber, evi­ dentemente, o que se passava. Espero-a, enquanto se passa num quarto a rápida operação. Levo-a para casa. Â tar­ de, dores. A noite hemorrágica se entragica. Pela manhã, procuro médico. E ’ o meu amigo Briquet quem a faz transportar ime­ diatamente para a Casa de Saúde Matarazzo. Penso que, depois da raspagem feita, tudo se normalize. Venho pela alameda que conduz ao hospital lendo um matutino quando esbarro com Briquet. Êle pára e me avisa que o caso se complicou. Será preciso fazer uma Histeroctomia. — “ Que é isso?” — ^^A extirpação do útero” . vj k l h i V a ISToites hospitalares que nunca mais se apagarão de minha lembrança. As minhus trágicas vigílias se sucedem. Faço vir de Cravinhos, apressadamente, a mãe e o padras­ to. O mal atingiu os pulmões. Ela está tísica. Procuro avidamente Monteiro Lo­ bato, que me arranja uma casa em São José dos Campos. Saio como um louco para com­ prar uma cadeira de rodas. E penso choran­ do que 0 ideal de muita vida pode ser uma cadeira de rodas. Soluço alto nos corredores do escritório de meu amigo Vicente Rao. Uma crise me deixa à noite semidoido. O Dr. Briquet está no Teatro Municipal. ISTum dos intervalos penetro na platéia. Estou no meu pijama de alamares. O médico me vê. Le­ vanta-se e me acompanha. Caso-me in-extremis. Separação de bens. Inútilmente. Dei mais do que tinha aos seus. O casamento se realizou a 11 de Agosto. Alguns amigos. Guilherme, Ferrignac, Lo­ bato. Duas cestas de flores, cujos esqueletos de palha conservo durante anos. O sorriso magoado de Miss Ciclone. Ela cicia nos travesseiros: — “ Que pena!’^ O resto... E ’ a agonia e a morte numa fria madrugada de hospital. A 24 de Agosto. Esfacela-se meu sonho. í UI Sinto-me só, perdido numa imensa noite de orfandade. A amada que me deu a vida partiu sem me dizer adeus. A francesa que trouxe de Paris veie buscar o dinheiro para outro homem. Landa, que foi o primeiro sonho vivo que me ofuscou, tornou-se a estátua de sal da lenda bíblica. Olhou para o passado. Isadora Duncan estrondou como um raio e passou. A que encontrei enfim, para ser toda mi­ nha, meu ciúme matou... Estou só e a vida vai custar a reflorir. Estou só. Faço enterrar Deisi no túmulo familiar da Consolação, vestida de branco. Atiro à rua, de dentro de um táxi, a “ Via Sinuosa^' de Aquilino Ribeiro. Estou com a mãe da morta. Vejo-me soluçante numa garçonière. Dois quartos que aluguei na Praça da Repú­ blica, esquina da Rua Pedro Américo. Duas janelas engradadas para a praça, onde es­ plende Dona Flor Vermelha entre o verde das árvores e da grama. Fui cortado, guilhotinado e tenho medo. Amigos nie rodeiam. A moça japonesa Toiô, que Deisi contratara para a casa da Rua Santa Madalena, passara-se depois da morte para a casa da Rua 13 de Maio, onde estão meus sogros e donde saiu o enterro. Toiô dera uma écharpe a Deisi, com um desenho erótico, trazida do Japao. Vem às I 1 I it vezes à minha gwrçonière. Toma a chave, entra. Eu choro sempre quando a vejo na rápida visita de saudade comum. Saio uma tarde. Volto. Encontro-a des­ pida no meu leito. Não há equívoco possível. Atiro-me como um mendigo para a esmola de um pão. Nunca mais a vejo. Perdeu-se na cidade.

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