Bloco 16 Um homem sem profissão · Capítulo 16 de 20
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Bloco 16

Era evidente que ir ao hotel, antes dela ter chegado, seria a pior das gafes. Um xe- mU reta, uni penetra inominável, lun madruga­ dor de festins. Rodei desarticulado pelas vizinhanças. A fria madrugada paulista anun­ ciava-se quando me tomei de coragem, a cora­ gem dos suicidas, e me dirigi à portaria da Rôtisserie Sportsman. — Madame vous dit de monter! Rocei os dedos na porta indicada, ela tal­ vez já estivesse dormindo e discretamente eu me retiraria. Mas o quarto estava aceso e ou­ vi risos lá dentro. Antes assim! Dumesnil abriu a porta, me acolheu. Dis­ se duas besteiras à deusa de verde que sorria no maxilar índio. Sentei-me e notei, a um canto da ante-sala onde estava, uma mesa posta com dois lugares, tendo no centro lun halde onde gelava champanha. Quem seria o feliz con­ viva de Isadora Duncan? Com certeza, o pró­ prio pianista. Quando já estava disposto a despedir-me depois da discreta aparição que fizera, Dumesnil levantou-se, disse-nos adeus, saiu para o corredor e para fora. Estávamos sós, eu e ela. Isadora então fêz-me sentar à mesa da ceia, tocou a campainha, chamando o garção para servir. Entre os frios e o primeiro prato, ela mo­ vimenta um pequeno gramofone. Levanta-se esgalga, a cabeça alta, um xale ao ombro na penumbra que o quarto ao lado indiretamente ilumina. É um tango que ela desenvolve nu­ ma estatuária louca. Entre a Vitória de Samo- trácia e o primitivisme arcaico de Moore. O T I tabu majestático me dissolve. O Tabor plás­ tico me anula. Recolhi-me volutuosamente à dimensão negativa do meu ser. O rneu estado de humilde angústia diante do gênio me faz esquecer a mulher. E do fundo do meu ser enamorado por outra, sobe a esperança de que ela possa salvar Landa prisioneira, possa fazer Landa realizar-se como ela. Com o champanha a minha gafe atinge o paradoxo. Landa. O meu drama reflui como o sangue sobe ao coração. Tiro do fundo de um bolso uma fotografia amarrotada da dan­ çarina do Catete. Isadora tem um gesto alti­ vo de ombros. — Que idade — Dezesseis anos... — Há dez mil como essa pelo mundo! Minha rata tocou o paroxismo kirkegaar- diano. Sinto que me emporcalhei. ^ São três horas da madrugada. Só há uma coisa a fazer — sair. E sair depressa. O barco da vida des­ ceu, bate no lamaçal do fundo. Estou de novo entre prédios, na rua pen­ teada pela garoa paulista. Ando. Ando. Vão comigo as taras da negatividade e do fracasso. Caminha em frente minha estrela, negativa. Isadora e eu nos tornamos os maiores ami­ gos do mundo. Como seria linda a vida se a compreensão, a inteligência e a sensibilidade dominassem as relações humanas! Tornamo- nos duas crianças. A ponto tal que, tendo a minha família tornado de São Vicente, Ka- miá internou-se, graças aos desvelos de Irmã Úrsula, num quarto xDarticular da Santa Ca­ sa, onde foi se tratar de uma crise de salpin- goovarite. E todas as noites Isadora Dun-

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