Bloco 14 Um homem sem profissão · Capítulo 14 de 20
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Bloco 14

Meu pai ignora e contra-ataca. Retruca com um retorno de ciúme que desloca Freud. É Eaio quem fere. Joga a contrapartida rai­ vosa do zelo. O enigma reflui. Quem é Jo- casta? Desdobram-se as ciladas do incesto. Conto-lhe a sua história e o comovo. Xo dia seguinte, êle se levanta para amaldiçoar de novo. Kamiá é uma inexistência. É claro que age aziagamente como uma feiticeira de Shakespeare. Ê quem faz despachos, sopra o incêndio, prepara os filtros infernais, açu- la o velho que encontrara nela o refúgio e a substituição materna. Seu Andrade com um instinto terrível sente o meu desligamento crescente da fran­ cesa. E 0 impacto do ciúme êle o atira sobre Landa Kosbach que é mamãe Macbeth nas roupagens carnais de Ofélia. Esta dubla­ gem persiste e se desenvolve numa atração de crime. Eu quero certezas para repicar e so­ mente colho dúvidas e desesperos. Sinto de­ lírios auditivos. Desce sobre mim uma vaia lúgubre. Há grilos fora de casa. Noto num caderno íntimo, na noite si­ lente onde estou, este axioma: gente não se engana sobre a mulher mas sobre seu tipo ideal”. O tipo criado pela reflexologia patriar- calista defendido por todas as cavalarias monogâmicas. É Baudelaire quem depõe: amoureux pantelant incliné sur sa belle A Vair d’un moribond caressant son tom­ beau” O anior que falha me traz o frio de Otelo no peito. As pernas queimam. Há uma sen­ sação física üe cicatnz aberta no coração.. Lágrimas sobem, brutalidades estrangulam- se nos pulsos. E de novo, com uma facilidade estranha, ela se deixa reconquistar. Sonhamos. Ela guiaria o nosso grande carro na Europa, pe­ los caminhos, pelas brancas aldeias. Ouvi­ ríamos a missa dos bons curas. E prossegui­ ríamos por países e países, olhos nos olhos, coração no coração. Meu pai me defronta no começo da noi­ te, à saída da casa. Chegou de Santos. E como tenho um gesto rude, grita: — Quer me bater? u Vou visitá-io na praia. Revejo-o sem­ pre no mesmo terno prêto, o chapéu coco e o guarda-chuva. Está sentado a um banco no velho jardim que rodeia a Biquinha de São Vicente. Tem uma criança linda ao lado. E ’ meu filho. Êle me fala calmo, depois de me fazer perder a hora do trem de volta. Atirava-se ao mar, do rochedo da Ilha Por- chat. Eu me casasse e viesse buscar o seu cadáver. ; , , . , i Chega o Carnaval. Deixo tudo por ela. Alugo um táxi; desses que conduziam pares na capota armada. Embaixo, a velha disfor­ me é um desengonço tendo em frente um enor­ me saco de estôpa, cheio de confete verde até a boca. Nós em cima atiramos serpen­ tinas para o corso que nos aclama. Os auto­ móveis desfilam em delírio. As luzes se acendem, na noite que cai. Nossas sombras avançam sobre o carro, se confundem, nos confundem, nos convidam a um destino comum. No entanto, eu a insulto na chegada à casa. Uma golfada de ciúme diante dos títeres que ela agitara: — Amo um, amo ou­ tro, não sei... sou artista. — Sai de minha vida! Lágrimas e beijos. A reconquista se consolida. Mas dá-se de repente o estouro inevi­ tável. Kamiá e os meus regressam de São Vicente. E apoiada terrivelmente no velho l! 1 :i U i S' iííd i .1 r h I e no filho, ela fêz as duas hóspedes saírem de casa. Conduzo-as prinieiramente para o Ho­ tel Carlon à Rua Libero Badaró. E pro­ curo febril preparar o festival de apresen­ tação a São Paulo da menina dançarina. Mas a própria velha se queima no incêndio amoroso. - ; í IJm belo dia as duas desaparecem de São Paulo. Estão decerto na Pensão Schray, em frente ao Palácio do Catete no Rio. Que acon­ teceu? Terá Landa sido seqiiestrada ? A velha Schindelar rompeu relações co­ migo. É evidente. Sigo para o Rio. Eaço trinta viagens pelo noturno paulista, sem lei­ to, porque o dinheiro falta. Durmo na minha cadeira ou no carro restaurante. You e volto, tonto, trágico. Em Belém, amanhece roxo. Consigo falar com Landa que confirma, pelo telefone, a minha hipótese e me chama. A falsa mãe me recebe na Pensão Schray, convencional, grave e triste. — Tudo isso porque nós encontramos uma carta de amor de Landa para o senhor! Proponho combinarmos um modus-vi~ vendi tolo. Quero ficar de novo só padrinho. Emílio de Meneses esbarrou comigo no Centro e fêz piada. Acha-me sinistro e magro. Telefono inutilmente para a Schray. O padrasto não quer saber de histórias. hTegam- me o menor contato com Landa. Tomo porres de uísque, abordo possíveis amigos comuns. Tudo inútil. Passo e repasso em frente ao Catete. A linda prisioneira me avista, man­ da-me beijos da janela. Decido raptá-la. E cerco-me de dois jesuítas e dois aventureiros. Estes são Solfieri de Albuquerque, romântico, de bigodes, e o hierofante Múcio Teixeira, gor- dinho, vestindo sobrecasaca cinza, de cartola e monóculo. Êle se intitula Barão Ergonte e tem uma casa no Encantado que me oferece para as núpcias com Landa. E ’ um grande imaginoso que disputou o Prêmio Nobel de literatura com um calhamaço intitulado “ Ter­ ra Incógnita”. Sua figura é o oposto da do literato em voga. Yivo entre Rio e São Paulo. Convoco os amigos solidários. Guy. Perrignac. Que fazer? Raptá-la. Rao, o sensato, acha que a única solução do meu caso é mesmo o rapto, a polícia e o pretório. Sem papéis nem nada. Planejamos uma aventura. Na hora do banho do Flamengo, quando ela sair da pen­ são, de maio, ao lado do padrasto americano, nós estaremos à espreita, sobre um caminhão que levará bem visível uma máquina de ci­ nema rodando. Meus amigos ali estarão fin­ gindo filmar. Eu passarei num táxi. Paro junto a êles, prego uns sopapos no americano e a recolho a meu lado. O caminhão vem atrás como se tomasse uma cena de filme. Se o ame­ ricano quiser fazer barulho e chamar por so­ corro, todos gritarão: — É fita! É fita! r WiÉ" k w Mas meus amigos não se animam. Te­ mem nao sei o quê. Volto a São Paulo e rompo com Kamiá que fa z filosofia barata: — Je suis une inu- tile! Começo a perceber cada vez mais as vaci­ lações de Landa. O equívoco recobre o autên­ tico. Em São Paulo recebo uma carta do jesuí­ ta Padre Luís. Êle declara a propósito de Landa: ^ ‘ Suas inclinações não pendem mais para seu lado”. Volto num desespêro ao Rio. Sei que ela está em casa de Coelho Neto. Chamo pelo tele­ fone o bestalhão máximo da nossa literatura. Mudando a voz, finjo de missionário italiano, interessado em obter o concurso da dançarina para Tim festival de benefício. Irei raptá-la no antro livresco do escritor que ela fre- qüenta. Mando-lhe emissários para combi­ nar isso. Solfieri e Múcio voltam dizendo que ela recusa. Ainda acredito que Deus não me aban­ donou. Mas minha desgraça é espetacular. Padre Luís escreve-me do Rio confirman­ do isso. senhor deve aceitar as soluções do céu” . Vou à missa em São Gonçalo. A primeira conflagração mundial estou­ rada em 14, põe seus pés em terras da Amé- rica. Assisto, perdido numa multidão que ovaciona, a partida do primeiro contingente de reservistas italianos que sai de trem da Estação da Luz para ir se bater na Europa. De pé, sobre o arco da ponte transversal, magro e de cartolinha, um orador gesticula. Ninguém ouve uma palavra do que êle diz, afirmativo, reincidindo em gestos enérgicos. Ê a gravura do ridículo que precede às heca­ tombes. A altura de que êle fala e o chiar das locomotivas que o incensam de fumaça não permitem a menor comunicação. O povo si­ lencioso 0 cerca de todo lado. É a imagem coletiva da adesão. O homem quer lutar e luta como lutou na caverna, como lutará no derra­ deiro instante de sua vida sobre o globo. O comboio imenso deixa lentamente a gare sob aclamações, choros e delírios. Desenrola-se coberto de bandeiras, sob a chuva paulista, desaparece nos trilhos. Eesta um elo entre mim e a francesa Kamiá — nosso filho. Estou sozinho em São Paulo. Papai, ela e a criança ficaram \em São Vicente. E a criada Elisa me passaVima manhã pela porta o seguinte telegrama : V'Nonê muito doente, cólicas, vômitos, consulte Murtinho venha An­ drade” . ' Viajo e a primeira pessoa que encontro em São Vicente é um velho charlatão chamado Dr. Jaguaribe que me anuncia que o menino está evacuando sangue mas que agora com W I Í t r água de arroz vai sarar. Soube depois que êle se recusara a ir ver o doentinbo. A chegada à casa da praia, às 6 horas da tarde, foi sob um aspecto de dilúvio em que São Vicente se conservou até a nossa vinda. Uma incrível chuva de junho. Nonê, no colo da ama portuguesa, tinha crises contínuas. Fui imediatamente ver um médico que antes viera e receitara. É um nortista afável que ancorou em São Vicente. Passamos uma noite horrível, acordados, dando os medicamentos de hora em hora. O quarto está escuro e alagado de goteiras. Fora há a chuva ininterrupta e o barulho do mar. Amanhece na paisagem desolada de areia. Ao meio-dia, desfalecimento súbito do menino. Entregamo-nos ao maior dos desesperos, su­ pondo que ia morrer. Pela manhã, insone e descontrolado, eu tinha ido só à pobre igreja colonial de São Vicente, onde soluçara diante da imagem to- têmica da Virgem de Lourdes. Volto e faço um passe de mágica — quero que Kamiá renuncie ao menino que agora se­ rá filho de Nossa Senhora. Ela resiste no seu egoísmo de mãe mas cede ante a certeza órfica do milagre que anuncio. Define chega e sugere a volta imediata a São Paulo. Meu pai é uma sombra atenta na casa. A criança arregala os olhos para os soluços altos, incontidos, de Kamiá. O mé­ dico chamado hesita em nos aconselhar. Mas r i acha que podemos arriscar a viagem. Co­ bra einqüenta mil-réis pelos seus serviços. P i‘ocuramos isair mas não há automó­ veis que cheguem até ali debaixo do aguaceiro. Segunda noite de medicamentos e incertezas. Às cinco horas da madrugada, saio para San­ tos no primeiro bonde em busca de condução. Depois de tomar café no Centro entre chofe­ res que se divertem com palavrões e marinhei­ ros inglêses bêbados, encontro um táxi, às seis e meia. Às sete horas, conseguimos retirar o doentinho da casa da praia. Com Define, a ama e Kamiá iniciamos uma penosa viagem. A máquina velha quase se desmantelava nos solavancos, ao passar pelos alagadiços do ca­ minho. Eu oro fervorosamente. Meu poderoso sentimento órfico reflui para a latitude semi- to-cristã em que fui formado. Repito o salmo de Davi: ‘‘Os anjos te levarão nas mãos para que não ofendas o teu pé em alguma pedra . Nesse momento o táxi atolou. Ficámos para­ dos para mais de um quarto de hora na praia deserta e chuvosa, rodeando a criança. Surge de São Vicente para a cidade uma máquina possante. Saio na chuva, faço-a parar. Três portuguêses conduzem rojões para festejar Santo Antônio. Imploro para que desenterrem nosso carro da areia. ^ Impos­ sível. As rodas estão afundadas até o eixo. Mas os homens aceitam-nos no seu carro. E numa rapidez incalculável, como sobre uma nuvem, chegamos a tempo de alcançar o trem de São Paulo. I t Estamos em casa. O Dr. Jacornino Define, irmão mais velho de Antonio, toma conta da criança que melhora e se salva. Durante a provação e a angústia a minha certeza órfica se i*obustece. A minha confian­ ça no sobrenatural parece definitiva. Essa certeza órfica é uma alavanca presa geralmente à paróquia mais próxima de cada um. A fé que move montanhas. Daí a força das religiões que se contradizem, se batem en­ tre si, mas dominam o mundo humano, tote- mizando a seu modo o tabu imenso que é o limite adverso — Deus. Por isso, não se en­ contra povo primitivo ou nação civilizada sem a exploração sacerdotal desse filão encantado que tece nossa esperança imarcessível. É a transformação do tabu em totem. Sinto-me tranqüilo e tenho notícias mais ou menos positivas da tragédia amorosa que encheu por tanto tempo meus dias e minhas noites. Sinto-me tranqüilo e crente, curvo-me entregando o futuro ao que chamo de ^ tade do Senho^’^ Nova carta do jesuíta continua a me elu­ cidar. Landa não é mais a Landa amorosa que foi. Esfriou, esqueceu-me, mudou de opinião, sei lá ! Tomo o que chamo no momen­ to de ‘^atitude cristã e superior”. Assim, res­ pondo a Padre Luís aceitando a “ vontade de Deus”. Na minha carta ainda mantenho a esperança de que ela se salve. Talvez a ininlia renúncia seja, diante de Deus, o preço disso. Meu pai de novo iinpreca e isso me re­ volta a ponto de pensar em recomeçar a luta.

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