Bloco 12 Um homem sem profissão · Capítulo 12 de 20
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Bloco 12

Não tinha chegado eu ainda às convic­ ções que hoje mantenho, como conquista es­ piritual da Antropofagia, de que Deus exis­ te como 0 adversário do homem, idéia que encontrei formulada em dois escritores que considero ambos teólogos — Kirkegaard e Proudhon. São dois estudiosos da adver­ sidade metafísica que se avizinham da for­ mulação do conceito do primitivo sobre Deus, que é afinal o tabu, o limite, o contra,.. que as religiões todas tentam aplacar com seus ritos e sacrifícios. Dona Inês expirara com um telegrama meu na mão, enviado da Bahia. Durante dois anos carreguei um inútil luto fechado. No dia seguinte ao de meu desembar­ que foi a missa de 7.° dia, na Igreja da Consolação, onde com minha barba rala de Londres me fiz abraçar pela enor­ me assistência que enchia a nave em redor do catafalco. Dali fui conduzido por meu pai ao Cemitério da Consolação, onde' chorei diante do túmulo fresco, raso e revol­ vido. A pequena cruz de mármore que en­ cima 0 jazigo familiar tinha sido desmon­ tada para o sepultamento. A terra estava repleta de coroas. Dali para a casa e para a vida. Estava tudo acabado. Eechava-se bru­ talmente o ciclo maravilhoso que, desde a. primeira infância, defendiam os braços pe­ quenos e gordos da fada de minhas noites e dias. Haviam-se fechado os olhos azuis para cuja aflita vigilância tinham-se aberto os- meus. iííii r A 2 de Novembro, festa de Finados, voltei levando flores ao túmulo da Consola­ ção, já restaurado. Era bem outro agora, es­ se dia rememorativo. Eu não sentia mais o primeiro sol no azul quente da primavera anunciada, quando as cigarras estridulavam em frente à minha casa, nas paineiras de Fer­ nando de Albuquerque. Era outro o sentido dos vasos de porcelana fina que íamos deixar sobre o túmulo da Rua 17, n.*" 17, da necrópole da Consolação. Agora estava ali o que restava de minba mãe. Meus problemas pessoais se tinham subi­ tamente complicado. Junto a mim restava um velho choroso que só falava em D. Inês, eu trou­ xera comigo uma moça de Paris, Kamiá. Ten­ do desaparecido minha mãe, como abandoná- lo ? E como deixar só Kamiá ? Apresentei-os. Resolvemos sair juntos para uma estação de águas. A velha e gorda francesa tia Alice, mulher de tio Guilherme, veio resolver a si­ tuação criada ante os preconceitos ambientes. O casal de tios nos acompanhou a Lambari, passando Kamiá por sobrinha de tia Alice. Tornando a São Paulo, procuramos dar solução ao problema de nossa moradia. Deci­ dimos apelar para os serviços do compadre Antenor e da comadre Maria que puseram a sua casa da Rua Oscar Freire à nossa dispo­ sição. Papai ocupou aí um bom quarto de frente e eu aluguei um chalèzinho novo que dava para os fundos da chácara do compadre Antenor e abrimos uma passagem interna. No chalé, veio a nascer meu filho mais velho, Os- v^ald, apelidado de Nonê, uma síntese de ^ so nenê” com que meus pais me haviam cha­ mado na infância. Êle nasceu à 1 hora da madrugada do dia 14 de Janeiro de 1914. Ka- miá foi assistida por uma parteira alemã que se tornou funesta mais tarde. Meu pai encantou-se pelo garotinho nas­ cido que foi 0 único neto que conheceu. Pas­ samos a ter uma vida regular e modesta en­ tre a casa e o chalé. Recebíamos os amigos para grandes almoços na chácara, aos quais comparecia Emílio de Meneses, tornado meu amigo desde Pirralho”. Com o fracasso do negócio da City, tivemos que hipotecar por cem contos toda a Vila Cerqueira César à Eco- nomizadora Paulista. uQ Pirralho” voltara às minhas mãos. Os arrendatários não puderam realizar a com­ pra. Tinham-se obrigado a resgatar alguns títulos meus endossados por meu pai. Haviam feito isso. Mas, agora, o encorpado mulato Babi recusava-se a me entregar os títulos que­ rendo forçar-me com essa chantagem a lhe vender a revista. Uma manhã^tive com êle uma cena violenta na redação e^ referi- me a um recibo criminoso que êle pas­ sara como dono do jornal, antes de arrenda- lo e que Renato Eopes colhera no Rio. Babi acercou-se de mim como uma fera mas não^me agrediu. Caiu logo num descompassado choro. m il n 1 I I iI exclamando: — Ah I o meu passado! Indo la­ var os olhos numa área ao lado, contou a al­ guém que de noite, na Rua 15, me cortaria a cara a chicote de aço. Êle tornara-se, na mi­ nha ausência, um terrível valentão. Agredia fisicamente as pessoas que detratava. Aos sábados, quando saía o jornal, era quase certa a sua prisão num rolo. Comigo o caso aparentava-se mais que grave. Eu não tinha amigos poderosos. Ti­ nha apenas um revólver Browning que adqui­ rira na Bélgica. Fui ao Secretário da Jus­ tiça, Elói Chaves, a quem chamavam de Di\ Sorriso e, expondo o caso, pedi-lhe porte de arma. Despachou o meu pedido, aconselhan­ do-me hipocritamente a ter calma, pois o que êle queria era a eliminação do mulato. À noite, ó grupo de intelectuais, jornalis­ tas que faziam a nossa roda, reunia-se em fren­ te ao cinema íris, junto ao prédio onde fun­ cionava “ O Pirralho’\ Correra mundo a notí­ cia de que eu seria chicoteado por Babi que nunca adiava as suas ameaças. Tendo colocado no bolso dum sobretudo de Paris a minha arma que municiara com sete balas, uma das quais no cano, não deixei de comparecer ao ponto e à hora do encontro. Cumprimentei os amigos e, sem surprêsa, vi a alta estatura de Babi aproximar-se com a mão também no bolso, onde decerto tinha o chi­ cote. Passou por mim, dando-me um pequeno esbarro provocador. O sangue me subiu às faces mas esperei calmo que êle precisasse o gesto. Nesse momento o estudante Jairo de Góis, que era meu amigo, tomou-me pelo braço e enèrgicamente me arrastou na direção da Rua 3 de Dezembro, onde exclamou: — Es­ tou salvando você düma surra de chicote! Fi­ lo então tocar o revólver que trazia no bolso, tranqüilizando-o. Aos berros histéricos me fez entrar no carro de um tal Castiglioni que ali se achava e circular pelas ruas desertas de São Paulo. No dia seguinte, através de Jairo eu trocava sete contos e quinhentos de letras por um recibo de cem mil-réis. Babi, se me molestou ainda, nunca mais procurou me afrontar diretamente. Editou depois, êle e Rubens do Amaral, o semanário “ O Parafuso”, que foi o pior fla­ gelo publicitário que a sociedade burguesa de São Paulo conheceu. Nesse momento, teve inúmeras cenas de polícia e sucessivas tro- pelias, entre as quais uma briga com rapa­ zes d’“ O Estado”, onde enfrentou um de­ putado conhecido pelo nome de Nhonhô Tro­ voada. O panfletário analfabeto apareceu morto uma tarde, numa cervejaria da Rua Dr. Fal­ cão, onde hoje se ergue o edifício Matarazzo. Correu pela cidade a notícia de seu suicídio. Fui vê-lo no caixão modesto, numa casa tér­ rea e pequena da Alamêda Barão de Piraci­ caba. A execução sumária de Babi é atribuí­ da aos métodos utilizados pela política re­ tardada e feudal daqueles tempos. As classes l r J clominantes não levavam desaforo em vão. Uma só corrente, um só partido, uma só po­ sição era o panorama do Brasil e mesmo da progressista São Paulo. E isso durou até a revolução de 3-0. Babi teria sido um mártir da liberdade de pensamento e expressão, se não fosse um grosseiro chantagista e um per­ sonagem parcial e vingativo. Além disso, nun­ ca soube escrever. Depois dele, apareceu tam­ bém misteriosamente morto no interior de um táxi, ao lado da amante também morta, outro isolado e tenaz oposicionista — Moa- cir Pisa. Êste tinha melhores letras que Ba­ bi e lutava uma luta mais desinteressada. Mas também, mesmo tendo sido reunidos em volumes os seus escritos, nada deu de notável. Veio o declínio da luta civilista pró-Bui, vencido nas eleições por Pinheiro Machado. A primeira guerra mundial deslocou o eixo da vida nacional, envolvida pelos interesses imperialistas. “ O Pirralho” literatizou-se, continuando a publicar coisas mordentes de Emílio de Me­ neses. Nada produziu de sério a não ser um documentário da época, talvez curioso. Nele brilharam Guilherme de Almeida, com quem nunca estive sempre de acordo, Ferrignac ou seja, Ignácio da Costa Ferreira, Define e Pedro Eodrigues de Almeida que fazia ro­ mances naturalistas. Uma espécie de Otávio de Faria sem repercussão nem reclame. Foi ele um dos homens que mais cedo desmorali­ zaram para mim a fé católica. Topava sorrin- s r do pelos belos dentes sob bigodes pretos todo e cpialquer pecado e estava no outro dia co­ mungando para de novo pecar à tarde. Fazia isso sem a menor cerimônia. Quando eu o interpelava sôbre o assunto, me respondia que a carne era fraca e o bomem de natureza pe­ caminosa, mas para remediar isso a graça de Deus agia. Nunca teve, que eu saiba, um ca­ so de consciência. Nada fazia para se emen­ dar. A dialética ritual do pecado e da confissão o tranquilizava perfeitamente. O seu atraso literário era de bons cin- qüenta anos. Nesse ambiente confinado, eu encolhi as linhas da segunda frente que a Eu­ ropa abrira para a minha sede de vida e de ação. Se não influíram sôbre mim, êle e An­ tônio Define, inutilizaram o quanto pude­ ram meus desarmados- anseios. Em quem confiar se nem minha mãe existia mais? Os valôres estáveis da mais atrasada li­ teratura do mundo impediam qualquer renova­ ção. Bilac e Coelho Neto, Coelho Neto e Bi- lac. Houvera um surto de Simbolismo com Cruz e Sousa e Alphonsus de Guimarães mas a literatura oficial abafava tudo. Bilac e Coelho Neto, Coelho Neto e Bilac. Este aparecera com versos frouxos e ar­ dentes que a Corruxa adolescente de Caxam­ bu e com ela tôdas as Corruxas do Brasil re­ citavam gemendo. Mas breve enveredou pa­ ra 0 Parnasianismo que teve seu recorde de consagração na leitura da “ Tarde” pelo pró­ prio Bilac aqui em São Paulo, no extinto Sn- í í lão Germania. Conheci Bilac, principalmente através de minhas relações com Amadeu Ama­ ral, que dominava “ O Estado de São Paulo”. Eu nunca conseguira versejar. A métri­ ca fora sempre para mim uma couraça entor­ pecente. Fizera esforços grotescos para tra­ duzir as ‘‘perfeições” de Herédia. Mas Paris — e aí abriu-se um aspecto da segunda frente — dera-me o espetáculo da eleição de Paul Fort, vate livre, para prín­ cipe dos poetas franceses numa noitada do “ La­ pin Agile”, onde fui cair. Só assim vim a sa­ ber que se tratava, enfim, de desterrar do ver­ so a métrica e a rima, obsoletos recursos do passado. Enganei-me redondamente pensando que isso tivesse qualquer autoridade no Bra­ sil de Antônio Define. Uma aragem de mo­ dernismo vinda através da divulgação na Eu­ ropa do “ Manifesto Futurista” , de Marinetti, cliegara até mim. Tentei um poema livre. Guardo até hoje o seu título. Chamava-se “ O último passeio de um tuberculoso, pela cida­ de, de bonde” . Mas a assuada dos Define me fez jogar fora o poema e com êle qualquer es­ perança de ver nossa literatura renovada. En­ tre velhos e novos não encontrei um só escri­ tor que nessa época me animasse na intenção de renovar letras e artes. Só Emílio podia me interessar porque era um feroz maldizente. Confraternizei com esse baluarte da sátira, apesar de realmente êle nada ter de avançado. Destruía paspalhões e mediocridades, mas era até vagamente católico. Em política, por po- v I I bres motivos, pertencia à facção do ditador Pinheiro Machado. Suas teorias sobre o ver­ so eram ridículas e quando declamava a sério os sonetões desengarrafados de seu empolado parnasianismo, tomava a languidez duma pri­ ma-dona de bigodes. E partia a cara de quem piasse contra a sua impoluta versificação. Não era somente gordo, mas alto e forte. Traço curioso — êle, que espinafrava as repu­ tações, não admitia a menor brincadeira a seu respeito, tendo muitas vêzes metido o benga- lório nos minúsculos e ariscos opositores que encontrava. Com seus belos olhos azuis e seus bigodes brancos em ponta, punha o mundo abaixo diante de qualquer suposto inimigo. So­ fria visivelmente de um poderoso complexo de inferioridade social. Em São Paulo que­ ria refazer-se da fama de boêmio e heher- rão que o cercava no Rio. Machado de Assis, outro complexado, opusera-se resolutamente à sua entrada na Academia Brasileira de Le­ tras. Contam mesmo que certa tarde, discu­ tindo num grupo a candidatura do poeta pa­ ranaense, 0 autor de ^ ‘Dom Casmurro’’ levara alguns amigos até um bar do centro e sem maiores comentários apontara na parede a figura rotunda de Emílio que se comprazia em esvaziar chopes, numa pintura de recla­ me. Como bom prêto, o grande Machado o que queria era se lavar das mazelas atribuí­ das à sua ascendência escrava. Fazia ques­ tão de impor rígidos costumes à instituição branca que dominava. Quando Machado mor- íV I í I -1 reu, foi fácil a Emílio varejar de fardão Silogeii. Aliás, parece que não chegou a to­ mar posse da cadeira para que foi eleito.

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