Bloco 5
 saída, no fim do dia, ia encontrar meu pai, sempre vestido de escuro, com seu guarda- chuva e 0 chapéu coco sentado na venda de um português que abria suas duas portas mo destas, face ao colégio. Aí, entre as mercado rias comuns do negócio, notei que havia um feixe de varas de pescar. Meu pai, uma tar- If 1 llf'lf de, comprou uma vara e levou-a para casa, on de a guardou num canto. Mais uma ou duas vêzes surpreendi-o comprando as tais varas de pescar. Hoje, sinto que eram sinais da sua frustração. Frustração de homem do campo, de rapaz criado na largueza de Minas G-e- rais, entre pescarias e caçadas e que tendo um negócio a liquidar esperava para seus últimos dias a graça de voltar ao silêncio grandioso dos rios. Isso torna-se evidente, pois com a existência urbana a que êle se votara na transformação em bens do dote de 50 contos 01ie Ibe trouxera D. Inês, era-lhe completa- mente vedado qualquer regalo campestre, com exceção das romarias a que já aludi. Nessas, nas romarias, minha mãe conseguia um des- recalque espetacular, engurgitado do crescen te sentimento religioso que a empolgava. As varas de pescar de meu pai ficaram em minha memória como um símbolo de frustração an siada, que êle confirmou quando, no último ano de sua existência, manifestou a vontade de, liquidados os negócios, mudar-se para a cidade de São João del-Rei. Comecei então a me agarrar com mamãe para sair do ginásio. Estudaria em casa. Im provisei em professora uma senhora idosa que se chamava D. Matilde Kebouças. E tanto fiz e bordei que consegui que me retirassem do edifício feio e triste da Rua do Carmo, para passar os dias fazendo exercícios caligráficos e praticando poucas letras em casa de D. Ma tilde que morava na própria Rua de Santo Antônio. Sozinho num gabinete silente, eu me sentia muito melhor e mais feliz do que em meio da canzoada do colégio, nos seus recreios poeirentos e ruidosos, nas suas au las pálidas e inexistentes. Essa época e a suhseqüente, em que fui matriculado no Ginásio de São Bento, que também se fundara em São Paulo, viram-se entrecortadas de viagens a Minas, Estado de meu pai. íamos a Lambari para o Grande Hotel Melo e a Caxambu, onde morava meu avô paterno ainda vivo e uma penca de tias idosas e solteiras. Não sei dizer como me alfabetizei. Sei que tive um professor de desenho que nada ■me ensinou. Dos livros que conheci na mais afasta da infância, lembro-me de '‘As Espumas Flu tuantes” de Castro Alves, que meu pai me deu. Não entendi nada mas gostei. Já na Rua de Santo Antônio, minhas preocupações foram outras. Li deslumbrado "Carlos Mag no e os doze pares de França”, que fiz ques tão de emprestar a todo mundo, cozinheiras, amigos da família. A única pessoa que re cebeu bem esse meu proselitismo literário foi um parente moço e pobre, chamado Zèquinha, que era guarda-noturno de uma grande casa de tecidos na Rua da Quitanda. Ia vê-lo de pois do jantar, que se servia às quatro horas, í 1 II i im e falávamos longamente das façaiihas de Rol dão e Olivério, de princesas e sultões. Pas sei já grandinho para Júlio Verne, que foi meu mestre-piloto no maravillioso dos doze anos. A ''Ilha Misteriosa” encheu minha vi da, povoou meus dias e minhas noites. Água rais Água rais Quem vem atrais! Água quente Água quente Quem vai na frente! Os carrinhos de pau improvisados em casa desciam ruidosamente a ladeira de Santo Antônio. Em Junho frio, contavamos os halões no céu. Havia fogos e fehres. Champayiha de abacaxi em casa. Macarrona- das de Madania Paula. Quem deu o cuf Be noite. Um primo. '( Na primeira viagem que fizemos a Lam bari, lembro-me da chegada do trem, no co meço da noite, sob um penacho de fagulhas, sobre um barranco de onde, embaixo, se des- cortinava o Hotel Melo. Desembarcados, mi nha mãe incumbiu um garção alto de me le var até o Parque, onde havia a fonte de água mineral, ainda aberta. A água jazia num poço, em recinto fechado. Atirava-se uma caçam ba de prata, a recolhiam e enchiam-se os co pos brancos de asas. Foi para mim lun des lumbramento. Nos dias subseqüentes, levei meia dúzia de tombos de um cavalo manso e aprendi a montar. Meu pai, na sua velha saudade de mato, levava-me por atalhos, morros e cami nhos perdidos, onde havia rastro de onça. Eu me admirava de sua calma e o seguia sem medo. Voltávamos ao hotel. Esplendia Lam bari na manhã de cristal. IJm carro de bois cantava nas ruas, exprimindo a alma do vila rejo rústico entre hotéis, montanhas e cruzei f Em Caxambu eu encontrava o panorama familiar. Ali tinha ficado o restante de minha gente paterna, os Nogueira de Andrade, de Baependi. Creio que foi o meu 5.° avô, Tomé Rodrigues Nogueira do Ó quem emigrou de São Paulo, no século X V III. Era êle casado com uma Leme, o que me fazia passar para o rol dos descendentes dos vicentinos desem barcados nos primórdios da descoberta. Era assim que eu me incluía entre os paulistas de quatrocentos anos e figurava no volume genea lógico do racista Silva Leme. um I lit Tomé Rodrigues fez pequeno bandeirismo pois sua sêde de conquista de terras não foi além de Baependi, onde construiu um solar. A família prosperou com grande escravaria negra, sendo que meu avô veio, por circuns tâncias já referidas, a se arruinar e deixar o latifúndio. Tenho uma vaga lembrança de minha avó, seca, velha, de óculos e grande leitora. Aliás, atribui-se a ela a origem de meu nome Os- wald sem o O final. Ela teria lido “ Corinne”, de Mme de Stãel, quase sua contemporânea, o que me parece espantoso no fundo provin ciano de Minas Gerais. Apresentado o nome no batizado de meu pai, na Igreja de Bae pendi — a igreja de Nhá Chica — o vigário teria declarado que aquilo não era nome de gente, exierindo um prenome que foi José. Meu pai ficou sendo José Oswald, tendo mi nha avó Antônia Eugênia feito questão da inexistência ão O final. Nessa culta Minas que vinha da Incon fidência, nem meu pai nem seus irmãos con seguiram estudar. Ainda nos temnos da pros peridade, meu pai fora “ troneiro” . Este qua lificativo que aqui em São Paulo nouco ona- lifica, era um adjetivo nobre em Minas. Tro peiro era o senhor moço, filho do latifundiá rio que conduzia as tropas de burros para ne gócio. através da Serra do Picu. na direção do Rio. Meu pai tomava a si êsses encargos feu dais, acompanhado de escravos nretos. E na da mais sabia fazer, isto é, fazia versos. Li lii' diversas vezes quadrinhas suas em números antigos e perdidos do jornal “ O Baependia- no’\ Com a desgraça da família, meu avô ten tara inútilmente ser hoteleiro, auxiliado por toda a família, em Caxambu, que a cinco qui lômetros de Baependi se abria como estação de águas. Contaram-me que o velho chorava hu milhado, vendo as filhas servirem a mesa de hóspedes. > Conheci meu avô de barba branca, sem bigodes, nessa época de Caxambu, e soube com espanto que êle não fugira de um cachorro louco, tendo calmamente vindo buscar uma arma em casa para atirá-lo. O casarão de Caxambu era próximo à estação e dava para abrigar nós todos. Aí falecera meu irmãozinho de dois anos — o Inglesinho. O ambiente familiar era de saraus. Ha via um bisonho tocador de valsas ao piano, cha mado Seu Minão, que se fazia rogar. — Ora, Seu Minão, toque! Toque Seu Minão! Êle torcia o nariz deformado e negativo e era preciso que as moças tôdas o assaltassem, para vir sentar-se, sorridente e esquálido ao banquinho diante do teclado. Eu tinha pri mas e primos. Passeávamos no quintal e no bosque da Estação de Águas, na encosta do morro que tendo a forma de um tambor bár baro — Caxambu — dera o nome à cidade. TTma figura curiosa da família era tio Gui lherme, retirado naqueles ermos, depois de agitada mocidade em São Paulo, onde ligado ã aos meios acadêmicos, fora grande e celebra do boêmio e parece que versificador. Casara corn uma francesa, tia Alice, que conbeci gor da e velhota, mas devia ter sido elegante e bonita. Nesse assunto, meu tio Guilherme abriu picada para ricos e grã-finos. Em torno da celebrada visita de Sarah Bernhardt a São Paulo, membros tanto da família materna como da paterna se celebri zaram. Foi meu tio Marcos Dolzani, grande aluno da Faculdade de Direito e depois advo gado andejo, o que atribuía a ser “ homem de idéias’^ , quem saudou em francês a grande atriz. Tio Guilherme teria sido o rapa2: que primeiro invadiu o palco num fim de ato. Em face da artista teria tirado a casaca e de joe lhos estirou-se no palco, gritando: — Pise aqui, madame! Nesse momento o pano tor nou a subir. A presença de Deus era lun fato, na vida de meus pais. Meu velho pai insistia conti- nuamente sobre as “ saídas secretas”, a “ Pro- ' vidência” e outros dínamos da fé que o tinham acompanhado e salvo nos roteiros da existên cia tribulosa que tivera. Moço, e estando cer ta manhã numa canoa, vestido e de botas, enfiou 0 varejão na barranca e em vez da em barcação se mover foi êle erguido no ar onde deu uma viravolta tendo caído de comprido dentro da própria barca. Se caísse fora, adeus Seu Andrade! Evidentemente, nesse momento a Providência piscou para o Destino e 0 'milagre se deu. Um dos fatos que minha mãe apontava como documento da existência de Deus, deu- se quando solteira e filha de viúvo, foi solici tada para casamento por imi rapaz do interior. Êsse sujeito apareceu blindado da melhor re comendação que podia ser exibida a meu avô. Um mestre do Direito, amigo íntimo do ve lho, professor e jurisconsulto, além de tudo che fe de numerosa família, escudava a pretensão. Minha mãe nem sequer foi ouvida. A evolu ção dos costumes nestes cinqüenta anos, faz que hoje não sejam os pais sequer consultados. Naqueles tempos, era o contrário. Determi nava a família e a moça casava sem ver com (piem. Assim foi com aquela moça do Norte que se chamava Inês e depois veio a ser mi nha mãe. Sem conhecunento ou opinião da da, foi amarrada a um desconhecido que no próprio dia do casamento a conduziu à cidade- zinha onde morava no interior. Aí chegada e recebida pela gente do ma rido, viu êste desaparecer depois do jantar. Esperou-o a noite toda no quarto nupcial. Êle não veio nem deu satisfação alguma. No dia seguinte surgiu atarantado, desculpou-se com um caso importante que tinha a resolver e sumiu de novo. A noite se passou como a an terior. A moça mandou um emissário imedia tamente ao pai que veio ver o que se passava com 0 estranho casamento. vifl J I Iir T rí .1 I Dava-se apenas isto — o lioniem tinha uma amásia terrível que não lhe permitia con sumar o ato conjugal. O velho Desembarga dor trouxe a filha vexada e em lágrimas para S. Paulo, passou uma tremenda descompostu ra no jurisconsulto responsável pelo enlace, mandou que as sumidades médicas locais cons tatassem a virgindade da filha e munido de documentos rumou pessoahnente para Euro pa. Foi atrás da anulação do casamento. Eo- ma examinou o caso e anuiu. Ora, tudo isso se tinha passado graças à intervenção de Deus. Êsse Deus que deixara o jurista amigo trair a confiança do velho, deixara que a cerimô nia do casamento se realizasse à sua vista na Igreja e apenas não pudera, nos seus recôndi tos fins, conter os ciúmes assassinos da rús tica amásia. Nessa era pré-ginecológica, o exame pro movido pelos honrados mestres da medicina ]3aulista custara à minha mãe três horas de desmaio. Era essa a santa moral que presidia aos destinos da família e da prole. Mas Deus existia e acabou-se! Existiam e agiam também os santos. Santo para tudo. Nas trovoadas. Santa Bárbara e São Jerôni- mo, esse terrível asceta da alta Idade Média. Santa Luzia para o mal dos olhos. Santa Cla ra contra a meteorologia etc. Quando uma ])arata surgia no soalho, gritava-se por São Bento. São Bento protegia contra as feras. ri Todo êsse dicionário do totemismo órfico presidiu e explicou o mundo ante meus olhos infantes. E estava tudo certo para meus pais que mantinham relações com o infinito. A Pro vidência Divina agia sempre. Por que negar a importância terapêutica de toda religião? E particularmente a da prece? Quando Seu Andrade orava, sentado no grande leito, diante do cheiro do café, nada mais fazia do que hau- rir forças para a luta áspera de seus dias. Anunciou-se que São Paulo ia ter bon des elétricos. Os tímidos veículos puxados a burros, que cortavam a morna da cidade pro vinciana, iam desaparecer para sempre. Não mais veriamos, na descida da Ladeira de San to Antônio, frente à nossa casa, o bonde des cer sozinho equilibrado pelo breque do condu tor. E o par de burros seguindo depois.