Bloco 3 Um homem sem profissão · Capítulo 3 de 20
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Bloco 3

Aventuras de sucuris que esmagavam homens bêbados, de onças passeando à noite na fo­ lhagem do cacaual, de jacarés defendendo seus ovos, de negros fugidos que voltavam de ma­ drugada para assaltar as senhoras, enchiam minhas noites da Eua de Santo Antônio. Ou­ tros casos, também de mato, vinham da narte de meu pai que, menino ainda, nas caçadas peri­ gosas, era incumbido de cutucar com um bani- bu as onças que se acolhiam às árvores sob a canzoada em delírio. De Minas vinha tam­ bém, nas histórias das criadas, das tias e das crianças, um resto de folclore místico, com sacis, assombrações e mulas sem cabeça e muito caso de escravo. Do Amazonas tudo de­ saparecia ante a selva e suas feras. De qual­ quer lado, para onde girasse minha curiosidade de criança, alimentavam-na do mais rico ma- terial da imaginação e da realidade bra­ sileira. No dia-a-dia de meus estudos e do meu primeiro futebol, São Paulo contrastava gelado com aquele fabulário familiar. Meus avós, de um e outro lado eram per­ sonagens de lenda, capazes de afrontar sem medo todos os perigos. O desembargador ma­ terno se honrara em lutas cívicas pela morali­ dade e pelas causas liberais. Juiz de San­ tos, fizera apurar direito uma agitada elei­ ção, dando ganho à facção antigovernista que era o l^artido Liberal. Incendiaram o edifí­ cio da Câmara a fim de destruir as atas elei­ torais mas êle anunciou que estavam a salvo, pois as guardara na sua própria moradia. O ódio do partido governista cresceu contra o magistrado impoluto. Foram os conservado­ res à Corte e conseguiram trazer uma pro­ moção punitiva que o tirava do cargo e da ci­ dade. Sem ter tempo contado nem méritos oficiais, êle se via guindado ao cargo de desem­ bargador. Mas devia exercê-lo em Mato Gros­ so. Minha mãe contava com grande ânimo o episódio da ida do velho ao Rio, onde pediu uma audiência ao próprio Imperador. Expôs a D. Pedro o que se passava, dizendo-lhe que não aceitava a sua promoção para Mato Grosso, pois não merecia ser castigado por ter jul­ gado retamente os resultados de uma eleição. Levantando-se, o magistrado teria dito que preferia vir a ser carroceiro e puxar nas ruas da Côrte o queixo de um burro do que aceitar H I 0 exílio que lhe ofertavam sob a capa de uma promoção. E saíra da sala sem meneios. O re­ sultado não se fez esperar. Foi indicado para a própria Capital do Estado de São Paulo^ onde veio integrar, realmente promovido, a turma de juizes do Tribunal de Justiça, a mai& elevada possível na carreira. Um fato que veio transformar a nossa vi­ da foi a mudança da família de minha tia Carlota, irmã de mamãe, do Rio para São Paulo. Ela era casada com um viúvo, o de­ sembargador Domingos Alves Ribeiro, velho monarquista impenitente. Com êle tivera um filho, meu primo Marcos. Moravam juntos sua enteada Sara e seu enteado Odilon, üm outro enteado, o Dominguinhos, ficara mo­ rando no Rio, onde era funcionário do Minis­ tério da Guerra. Trata-se do escritor anar­ quista Domingos Ribeiro Filho, autor de um romance intitulado cravo vermelho” . Co­ nheci-o pouco. Minha tia, na chegada, instalou-se à Rua Bráulio Gomes, tendo depois arrastado mi­ nha mãe para morar junto a ela, na Rua Santo Antônio. Meu pai vendera o prédio da Rua Barão de Itapetininga para comprar os terrenos do que chamou depois de Vila Cerqueira César. Sei que êle se sentia inuti­ lizado, devido a uma doença que lhe atingira uma costela. Era recatado, vivia para o lar de Dona Inês, onde eu brilhava sozinho. Contaram-me que no meu primeiro aniversá' rio a casa se encheu de bulício e de festa, tendo funcionado a Banda Alemã que era a primeira de S. Paulo. O que deveras me interessou na í?í‘nte recém-chegada do Rio foi uma nuvem de ne- grinhos, filhos da cozinheira Rosa, que ga­ nhava trinta mil réis por mês. Eram eles o Lázaro, já grande, a Sabina, o Fábio e a Marcela. Era com eles que eu encantava meus dias no quintal da Rua Barão de Itape- tininga, onde havia uma ameixeira e uma figueira. Meu vprimo Marcos me aperreava de tal modo que, uma manhã, atirei sobre êle uma facá de cozinha que espetou no chão a meio metro de seus pés. Dessa época, resta ainda a reminiscên­ cia da primeira escola. Aos seis ou sete anos, fui matriculado na Escola Modêlo Cae­ tano de Campos, no mesmo prédio de hoje, à Praça da República, sem o último andar que, sob os olhos idiotas dos “ Amigos da Cidade’^ , estragou a harmonia arquitetônica do conjunto, edificado por um engenheiro italiano. Tive como professoras, D. Orminda da Fonseca que chamávamos “ perna fina e coxa sêca’’ e que me dizem que ainda está viva, e mais D. Isabel Ribeiro. Excelentes mestras. Depois passei pára a aula do professor Seu Carvalho, que era um ateu danado. Tanto que deu origem a uma salvadora denúncia que levei imediatamente à minha mãe. Êle tivera a audácia de afirmar em aula que Deus era a Natureza. Fui logo retirado da­ quele antro de perdição. O que eu detestava não era o apressado e teso spinozista Seu Car­ valho. Eram os meninos que me chamavam de “ curumiro”, porque eu denunciara um que por pouco não esmagava meu dedinho no por­ tão de ferro. Era da ginástica que eu fugia, gordinho e refratário. Eram as solenidades e as festas agitadas e intérminas, onde uma vez quiseram me obrigar a recitar um poema à professora, feito em meu nome, por um poetastro do Nordeste que se hospedara em casa de minha tia e vivia espreguiçado numa cadeira de balanço. Eram os horários cheios de oue eu conseguia escapar com ânsias de vomito na saída matinal para a aula. — Oswaidinho está doente! Lá ia eu para a cama em vez de ir para a escola. Mas alguma coisa ficou de imenso em minha alma de criança, daquele edifício lim­ po, branco, higienizado. Foi o canto dos alu­ nos que me embriagava. As vozes claras cantavam confusamente a palavra Liberdade. E diziam: “ Das lutas, na tempestade. Abre as asas sobre nós’’ Êsse clarão presidiu até hoje a toda a minha vida. Como poucos, eu conheci as lutas e as tempestades. Como poucos, eu amei a palavra Liberdade e por ela briguei. Meu pai, ensaio de homem público, tra­ balhou para que a passagem pelo Viaduto do Chá fosse livre. Chamavam-no assim por­ que tinha havido ali, na chácara da Baro­ nesa, uma plantação de chá. E cobravam até aí alguns vinténs do passante. Êle e outros denodados munícipes conseguiram libertar o Viaduto daquele tributo. Falou-se então que haveria, à noite, uma manifestação pública que viria saudar entre outros, meu pai. Com­ prou-se cerveja. E esperou-se pela larga noite a manifestação que não veio. Na casa da Eua Barão de Itapetininga, ficara a lembrança da doença de meu pai, operado sem anestesia. Um carro parava muito tempo diante do jardim. Agora a mu­ dança para a Eua de Santo Antônio, no alto da ladeira, onde se abre hoje o Viaduto 9 de Ju­ lho, trazia uma cabal transformação de ce­ nário. Eu teria oito, nove anos. A casa era de dois lances mas muito inferior à outra. Dava a impressão de que tínhamos empobre­ cido. A família de minha tia aloiou-se na casa vizinha. Ambas tinham um extenso e inculto quintal que dava para a atual Avenida 9 de Julho, onde esplendiam, na tarde, arbustos t h selvagens de maravilha. E assim, iniciaram as irmãs nortistas uma vida em comum, onde eu seria atirado aos maus bofes de dois primos, 0 Marcos, que já referi, e o Wolgrand, recém- chegado de Minas. Era filho da irmã de meu pai, tia Alzira. Magro, desdentado, curvo, êle era um demônio autoritário contra meus dias. Juntava-se com o Marcos, gordo, risonho, e ambos faziam de mim uma sofrida peteca. Enfiavam-me na enorme açafata de roupa suja, chamavam-me de “ nufo doido” não sei porque, inventavam, enfim, diabólicas parti­ das contra minha débil segurança. O recurso era minha mãe que, informada, trovejava duma das janelas laterais do prédio uma ameaçadora descompostura contra os valdevi­ nos. Havíamos dobrado a esquina de um sé­ culo. Estávamos em 1900. Eu tinha dez anos, e morava, como disse, no alto da Ladeira de Santo Antônio. Lembro-me que esperei acor­ dado a entrada do ano e do século, acredi­ tando que, à meia-noite, qualquer coisa como um sinal metafísico se descobrisse no céu, pelo menos a data de 1900. Mas nada vi e fiquei cabeceando de sono, entre mamãe e as comadres. O que veio, creio que logo depois, foi 0 cometa de Halley, resplandecente no fôrro do céu. Houve uma correria na vizi­ nhança. Tôda gente foi para a rua e pela pri­ meira vez ouvi falar em fim do mundo. Minha mãe, atacada de asma, permaneceu anos deitada a um sofá de palhinha, entre al­ mofadas, na sala de jantar, coração da casa. Dali ela dirigia os serviços simples da vida, me esperava e a Seu Andrade, e rezava pe­ dindo ao seu Deus impassive,! a solução feliz dos negócios. Falava sempre da família e assim vim a saber que éramos descendentes dos “ Fidal­ gos de Mazagão” . Lenda ou fato“ ? Não im­ porta. Há entre ambos a diferença que vai da verdade à realidade. A história da nossa ascendência vinda dos “ Fidalgos de Maza­ gão” ficou como fundamento de nossa secreta herança de bravura e de estoicismo. A verda­ de é sempre a realidade interpretada, acomo­ dada a um fim construtivo e pedagógico, é a gestalt que suprime a disx3ersão do detalhe e a inutilidade do efêmero. — Está no Southey! afirmava um tio meu gordo e careca. Estaria no Southey'? Era a história dos defensores de Maza­ gão, a última praça portuguêsa em África. Assediados pela superioridade das hostes sar­ racenas, êsses homens haviam resistido acima dos limites normais da coragem humana. E tinham afinal sido retirados — um troço de infelizes, feridos e famintos, com suas famí­ lias, para as dependências do paço real de Lisboa. Vendo-os a,li, Dom José I teria pergun­ tado ao Marquês de Pombal: k i C j íV — Quem são esses esfarrapados? E Sebastião José de Carvalho teria res­ pondido : — São tão nobres quanto Vossa Majestade. São os homens que por último defenderam as armas lusas no continente africano. Eram os gueux de Portugal. — Dá-lhes 0 Amazonas! determinara o Daí viria a origem amazonense de nossa família. Seria ela uma das poucas que, depois de suportar a guerra africana, atravessaram incólumes as pragas da dádiva real, na beira desconhecida do rio sem cabeceiras. Isso nos fins do século X V III. Meu bisavô conseguira afazendar-se ali com bastante gado e fazia comércio entre Be­ lém e 0 interior. Menino de 14 anos, meu avô fôra incumbido de ir buscar mercadoria na capital do Pará, numa grande barca, levando consigo trinta contos em ouro. Acompanha­ vam-no um casal de pretos velhos para os ser­ viços da embarcação e um preto moço. A bar­ caça em meio da viagem naufragou nos cal­ deirões do estuário. Os velhos desaparece­ ram com ela. O menino e o escravo tinham se atirado à água, tentando nadar com o peso das moedas oue queriam salvar a todo o custo. O ouro arrastava-os para o fundo. Pesolveram largar a fortuna que lhes fôra confiada. A criança resistiu. O negro moço afo­ gou-se. Durante seis horas, o menino lutou I com as águas infindáveis sem atingir a terra distante. Mas, ao cair da noite, encon­ trou uma canoinha e, redobrando as energias quase extintas, alcançou-a. Era um morfé- tico que esmolava pelo rio. Recolheu o pe­ queno náufrago e deixou-o exangue e nu na margem. Minha raça tinha sido salva numa canoa de leproso. Como prêmio desse recorde de natação, meu bisavô determinou que o menino fosse ser soldado raso em Pernambuco. Isso tudo era o que contava a voz vinda do sofá de palhinha. R e a l i d a d e L e n d a ? Meu primo Paulo Inglês de Sousa, que sem­ pre confirmara a nossa nobre origem, dizendo que pertencíamos a uma dessas famílias a quem Dom José “ dera o Amazonas” em paga do devotamento guerreiro às armas de Por­ tugal em África, agora tem-se mostrado hesi­ tante nas suas pesquisas genealógicas, não encontrando uma ligação direta de nossa gente com 0 grupo de exilados. Parece que não há o nosso nome entre os párias do século X V III. Talvez tenha havido uma ascendência femi­ nina. Seja ou não, foi êsse o suporte moral que nos legou a tradição avoenga. A vocação de fidelidade e de heroísmo vinha do sofá e da voz. A casa era silente e calma porque não tinha crianças. Nisso tal- lí w W J- vez se fundamente a minha contínua vontade de viver afastado de tudo, apesar dos inúme­ ros raids que fui e sou obrigado a realizar na vigência de minhas lutas infindas.

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