Bloco 3
Aventuras de sucuris que esmagavam homens bêbados, de onças passeando à noite na fo lhagem do cacaual, de jacarés defendendo seus ovos, de negros fugidos que voltavam de ma drugada para assaltar as senhoras, enchiam minhas noites da Eua de Santo Antônio. Ou tros casos, também de mato, vinham da narte de meu pai que, menino ainda, nas caçadas peri gosas, era incumbido de cutucar com um bani- bu as onças que se acolhiam às árvores sob a canzoada em delírio. De Minas vinha tam bém, nas histórias das criadas, das tias e das crianças, um resto de folclore místico, com sacis, assombrações e mulas sem cabeça e muito caso de escravo. Do Amazonas tudo de saparecia ante a selva e suas feras. De qual quer lado, para onde girasse minha curiosidade de criança, alimentavam-na do mais rico ma- terial da imaginação e da realidade bra sileira. No dia-a-dia de meus estudos e do meu primeiro futebol, São Paulo contrastava gelado com aquele fabulário familiar. Meus avós, de um e outro lado eram per sonagens de lenda, capazes de afrontar sem medo todos os perigos. O desembargador ma terno se honrara em lutas cívicas pela morali dade e pelas causas liberais. Juiz de San tos, fizera apurar direito uma agitada elei ção, dando ganho à facção antigovernista que era o l^artido Liberal. Incendiaram o edifí cio da Câmara a fim de destruir as atas elei torais mas êle anunciou que estavam a salvo, pois as guardara na sua própria moradia. O ódio do partido governista cresceu contra o magistrado impoluto. Foram os conservado res à Corte e conseguiram trazer uma pro moção punitiva que o tirava do cargo e da ci dade. Sem ter tempo contado nem méritos oficiais, êle se via guindado ao cargo de desem bargador. Mas devia exercê-lo em Mato Gros so. Minha mãe contava com grande ânimo o episódio da ida do velho ao Rio, onde pediu uma audiência ao próprio Imperador. Expôs a D. Pedro o que se passava, dizendo-lhe que não aceitava a sua promoção para Mato Grosso, pois não merecia ser castigado por ter jul gado retamente os resultados de uma eleição. Levantando-se, o magistrado teria dito que preferia vir a ser carroceiro e puxar nas ruas da Côrte o queixo de um burro do que aceitar H I 0 exílio que lhe ofertavam sob a capa de uma promoção. E saíra da sala sem meneios. O re sultado não se fez esperar. Foi indicado para a própria Capital do Estado de São Paulo^ onde veio integrar, realmente promovido, a turma de juizes do Tribunal de Justiça, a mai& elevada possível na carreira. Um fato que veio transformar a nossa vi da foi a mudança da família de minha tia Carlota, irmã de mamãe, do Rio para São Paulo. Ela era casada com um viúvo, o de sembargador Domingos Alves Ribeiro, velho monarquista impenitente. Com êle tivera um filho, meu primo Marcos. Moravam juntos sua enteada Sara e seu enteado Odilon, üm outro enteado, o Dominguinhos, ficara mo rando no Rio, onde era funcionário do Minis tério da Guerra. Trata-se do escritor anar quista Domingos Ribeiro Filho, autor de um romance intitulado cravo vermelho” . Co nheci-o pouco. Minha tia, na chegada, instalou-se à Rua Bráulio Gomes, tendo depois arrastado mi nha mãe para morar junto a ela, na Rua Santo Antônio. Meu pai vendera o prédio da Rua Barão de Itapetininga para comprar os terrenos do que chamou depois de Vila Cerqueira César. Sei que êle se sentia inuti lizado, devido a uma doença que lhe atingira uma costela. Era recatado, vivia para o lar de Dona Inês, onde eu brilhava sozinho. Contaram-me que no meu primeiro aniversá' rio a casa se encheu de bulício e de festa, tendo funcionado a Banda Alemã que era a primeira de S. Paulo. O que deveras me interessou na í?í‘nte recém-chegada do Rio foi uma nuvem de ne- grinhos, filhos da cozinheira Rosa, que ga nhava trinta mil réis por mês. Eram eles o Lázaro, já grande, a Sabina, o Fábio e a Marcela. Era com eles que eu encantava meus dias no quintal da Rua Barão de Itape- tininga, onde havia uma ameixeira e uma figueira. Meu vprimo Marcos me aperreava de tal modo que, uma manhã, atirei sobre êle uma facá de cozinha que espetou no chão a meio metro de seus pés. Dessa época, resta ainda a reminiscên cia da primeira escola. Aos seis ou sete anos, fui matriculado na Escola Modêlo Cae tano de Campos, no mesmo prédio de hoje, à Praça da República, sem o último andar que, sob os olhos idiotas dos “ Amigos da Cidade’^ , estragou a harmonia arquitetônica do conjunto, edificado por um engenheiro italiano. Tive como professoras, D. Orminda da Fonseca que chamávamos “ perna fina e coxa sêca’’ e que me dizem que ainda está viva, e mais D. Isabel Ribeiro. Excelentes mestras. Depois passei pára a aula do professor Seu Carvalho, que era um ateu danado. Tanto que deu origem a uma salvadora denúncia que levei imediatamente à minha mãe. Êle tivera a audácia de afirmar em aula que Deus era a Natureza. Fui logo retirado da quele antro de perdição. O que eu detestava não era o apressado e teso spinozista Seu Car valho. Eram os meninos que me chamavam de “ curumiro”, porque eu denunciara um que por pouco não esmagava meu dedinho no por tão de ferro. Era da ginástica que eu fugia, gordinho e refratário. Eram as solenidades e as festas agitadas e intérminas, onde uma vez quiseram me obrigar a recitar um poema à professora, feito em meu nome, por um poetastro do Nordeste que se hospedara em casa de minha tia e vivia espreguiçado numa cadeira de balanço. Eram os horários cheios de oue eu conseguia escapar com ânsias de vomito na saída matinal para a aula. — Oswaidinho está doente! Lá ia eu para a cama em vez de ir para a escola. Mas alguma coisa ficou de imenso em minha alma de criança, daquele edifício lim po, branco, higienizado. Foi o canto dos alu nos que me embriagava. As vozes claras cantavam confusamente a palavra Liberdade. E diziam: “ Das lutas, na tempestade. Abre as asas sobre nós’’ Êsse clarão presidiu até hoje a toda a minha vida. Como poucos, eu conheci as lutas e as tempestades. Como poucos, eu amei a palavra Liberdade e por ela briguei. Meu pai, ensaio de homem público, tra balhou para que a passagem pelo Viaduto do Chá fosse livre. Chamavam-no assim por que tinha havido ali, na chácara da Baro nesa, uma plantação de chá. E cobravam até aí alguns vinténs do passante. Êle e outros denodados munícipes conseguiram libertar o Viaduto daquele tributo. Falou-se então que haveria, à noite, uma manifestação pública que viria saudar entre outros, meu pai. Com prou-se cerveja. E esperou-se pela larga noite a manifestação que não veio. Na casa da Eua Barão de Itapetininga, ficara a lembrança da doença de meu pai, operado sem anestesia. Um carro parava muito tempo diante do jardim. Agora a mu dança para a Eua de Santo Antônio, no alto da ladeira, onde se abre hoje o Viaduto 9 de Ju lho, trazia uma cabal transformação de ce nário. Eu teria oito, nove anos. A casa era de dois lances mas muito inferior à outra. Dava a impressão de que tínhamos empobre cido. A família de minha tia aloiou-se na casa vizinha. Ambas tinham um extenso e inculto quintal que dava para a atual Avenida 9 de Julho, onde esplendiam, na tarde, arbustos t h selvagens de maravilha. E assim, iniciaram as irmãs nortistas uma vida em comum, onde eu seria atirado aos maus bofes de dois primos, 0 Marcos, que já referi, e o Wolgrand, recém- chegado de Minas. Era filho da irmã de meu pai, tia Alzira. Magro, desdentado, curvo, êle era um demônio autoritário contra meus dias. Juntava-se com o Marcos, gordo, risonho, e ambos faziam de mim uma sofrida peteca. Enfiavam-me na enorme açafata de roupa suja, chamavam-me de “ nufo doido” não sei porque, inventavam, enfim, diabólicas parti das contra minha débil segurança. O recurso era minha mãe que, informada, trovejava duma das janelas laterais do prédio uma ameaçadora descompostura contra os valdevi nos. Havíamos dobrado a esquina de um sé culo. Estávamos em 1900. Eu tinha dez anos, e morava, como disse, no alto da Ladeira de Santo Antônio. Lembro-me que esperei acor dado a entrada do ano e do século, acredi tando que, à meia-noite, qualquer coisa como um sinal metafísico se descobrisse no céu, pelo menos a data de 1900. Mas nada vi e fiquei cabeceando de sono, entre mamãe e as comadres. O que veio, creio que logo depois, foi 0 cometa de Halley, resplandecente no fôrro do céu. Houve uma correria na vizi nhança. Tôda gente foi para a rua e pela pri meira vez ouvi falar em fim do mundo. Minha mãe, atacada de asma, permaneceu anos deitada a um sofá de palhinha, entre al mofadas, na sala de jantar, coração da casa. Dali ela dirigia os serviços simples da vida, me esperava e a Seu Andrade, e rezava pe dindo ao seu Deus impassive,! a solução feliz dos negócios. Falava sempre da família e assim vim a saber que éramos descendentes dos “ Fidal gos de Mazagão” . Lenda ou fato“ ? Não im porta. Há entre ambos a diferença que vai da verdade à realidade. A história da nossa ascendência vinda dos “ Fidalgos de Maza gão” ficou como fundamento de nossa secreta herança de bravura e de estoicismo. A verda de é sempre a realidade interpretada, acomo dada a um fim construtivo e pedagógico, é a gestalt que suprime a disx3ersão do detalhe e a inutilidade do efêmero. — Está no Southey! afirmava um tio meu gordo e careca. Estaria no Southey'? Era a história dos defensores de Maza gão, a última praça portuguêsa em África. Assediados pela superioridade das hostes sar racenas, êsses homens haviam resistido acima dos limites normais da coragem humana. E tinham afinal sido retirados — um troço de infelizes, feridos e famintos, com suas famí lias, para as dependências do paço real de Lisboa. Vendo-os a,li, Dom José I teria pergun tado ao Marquês de Pombal: k i C j íV — Quem são esses esfarrapados? E Sebastião José de Carvalho teria res pondido : — São tão nobres quanto Vossa Majestade. São os homens que por último defenderam as armas lusas no continente africano. Eram os gueux de Portugal. — Dá-lhes 0 Amazonas! determinara o Daí viria a origem amazonense de nossa família. Seria ela uma das poucas que, depois de suportar a guerra africana, atravessaram incólumes as pragas da dádiva real, na beira desconhecida do rio sem cabeceiras. Isso nos fins do século X V III. Meu bisavô conseguira afazendar-se ali com bastante gado e fazia comércio entre Be lém e 0 interior. Menino de 14 anos, meu avô fôra incumbido de ir buscar mercadoria na capital do Pará, numa grande barca, levando consigo trinta contos em ouro. Acompanha vam-no um casal de pretos velhos para os ser viços da embarcação e um preto moço. A bar caça em meio da viagem naufragou nos cal deirões do estuário. Os velhos desaparece ram com ela. O menino e o escravo tinham se atirado à água, tentando nadar com o peso das moedas oue queriam salvar a todo o custo. O ouro arrastava-os para o fundo. Pesolveram largar a fortuna que lhes fôra confiada. A criança resistiu. O negro moço afo gou-se. Durante seis horas, o menino lutou I com as águas infindáveis sem atingir a terra distante. Mas, ao cair da noite, encon trou uma canoinha e, redobrando as energias quase extintas, alcançou-a. Era um morfé- tico que esmolava pelo rio. Recolheu o pe queno náufrago e deixou-o exangue e nu na margem. Minha raça tinha sido salva numa canoa de leproso. Como prêmio desse recorde de natação, meu bisavô determinou que o menino fosse ser soldado raso em Pernambuco. Isso tudo era o que contava a voz vinda do sofá de palhinha. R e a l i d a d e L e n d a ? Meu primo Paulo Inglês de Sousa, que sem pre confirmara a nossa nobre origem, dizendo que pertencíamos a uma dessas famílias a quem Dom José “ dera o Amazonas” em paga do devotamento guerreiro às armas de Por tugal em África, agora tem-se mostrado hesi tante nas suas pesquisas genealógicas, não encontrando uma ligação direta de nossa gente com 0 grupo de exilados. Parece que não há o nosso nome entre os párias do século X V III. Talvez tenha havido uma ascendência femi nina. Seja ou não, foi êsse o suporte moral que nos legou a tradição avoenga. A vocação de fidelidade e de heroísmo vinha do sofá e da voz. A casa era silente e calma porque não tinha crianças. Nisso tal- lí w W J- vez se fundamente a minha contínua vontade de viver afastado de tudo, apesar dos inúme ros raids que fui e sou obrigado a realizar na vigência de minhas lutas infindas.