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Capítulo 5 · Chamas Celestes

Capítulo 5

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Zoltark havia ido até a entrada do complexo após perceber mais conversas. Voltou com outro de sua mesma espécie. — Kae, Caleb veio do vilarejo da ponte de Sayra. Ela tem outra pessoa com ela, uma que também veio das florestas. Também não se lembra de muito, mas procura alguém chamada Saphyre. Seu nome é Ambhar. — Ambhar, sim, minha irmã. — Olhou Kaeidh, os olhos repletos de lágrimas. — Eu me lembro disso. — Kaeidh segurou suas mãos. — Deuses! — A abraçou. — Onde ela está, Caleb? — perguntou Kaeidh.

— Está com Sayra. Está segura — disse Caleb. — Poderia preparar tudo para que ela venha para cá, ou prefere que eu a leve ao palácio? — Você decide, Saphyre — disse Kae, chamando-a pelo nome pela primeira vez. — Temos que encontrá-la e temos que ir à cidade de Nárë, a terra dos dragões, para que você aprenda a controlar seu poder. Ou podemos ir direto para Nárë e enviá-la junto com Caleb até lá. Demoraremos um dia, mesmo com a carruagem, para chegar a Sayra, e dois dias para voar para Nárë.

— Então, em dois dias, verei minha irmã. Kaeidh falou com Caleb e Zoltark, afirmando que deveriam levar a irmã de Saphyre até a cidade dos dragões, e voltou a falar com Cadmy sobre o sonho. Ela disse que o sonho terminou ali mesmo, e falaram do ataque dos têntri. — Eles escavaram por baixo da base do final da ponte. Minhas raízes seguraram a maior parte, mas atacaram abaixo delas também, fundo, até o final delas. Perdi o chão, literalmente — disse ela, desconsolada por ter sido atacada e ferida dessa forma.

— Sim, Kae. Os soldados, a postos, tiveram que estender a

magia por mais uma parte grande diante da ponte. Mas, mesmo ferida, Cadmy se manteve forte. Não houve entradas nem infectados. Já estendemos os cuidados às outras pontes. A maioria delas já foi vistoriada, e vamos vigiar toda a extensão da proteção. Só por precaução. Kae o olhou e agradeceu. — Obrigada, grande amigo. Estamos todos em dívida com vocês todos — disse, olhando a cada um —, da guarda e da magia. Devemos nossas vidas e a segurança de nossas cidades a vocês. — Levantou-se. — Muito obrigada a todos.

Não tenho palavras para agradecer. — Fazemos por todos e por nós também, nossas famílias e amigos — disse Zoltark. Nos despedimos de todos e saímos em direção às escadas, ao ponto de pouso. Dali íamos à cidade dos dragões! Subimos na carruagem, Kaeidh me dando a mão para que eu me apoiasse nele. Nos sentamos, e a carruagem foi subindo. Enquanto Kaeidh dava alguns comandos, ela ia subindo em linha reta, verticalmente. Subindo, subindo, subindo.

Então, a parte de cima da carruagem foi se fechando lentamente, e ficamos protegidos numa espécie de bolha de cristal. Subimos mais e mais. Quando parou, vimos planícies e montanhas, vales verdejantes e floridos por todos os lados que se olhasse, veios de pequenos rios, lagos, riachos e cachoeiras, árvores muito altas, e seus troncos eram muito largos. Tão altas e tão largas que víamos de cima como se estivéssemos perto delas.

Fiquei abismada com o tamanho delas, e ele me explicou que eram árvores ancestrais, muitas vivas de verdade. Algumas tão velhas que haviam aprendido até a cantar canções que ouviram de algum aldeão ou viajante que passou cantando, e as decoraram. Falou que me mostraria e explicaria cada coisa que eu visse durante a viagem. Voamos boa parte do tempo com ele me explicando as

direções e onde dava cada uma, inclusive estradas. Me explicou sobre uma das montanhas que vimos. Ela brilhava, e ele disse que eram diamantes que foram sendo feitos e, conforme passava o tempo e com os tremores naturais da terra, iam saindo sozinhos e acabavam ficando expostos. Mostrou os animais correndo soltos, tranquilos, todos de várias espécies convivendo.

Achei formidável e, após o dia começar a findar, me recostei no encosto confortável, próxima a ele, que puxou, debaixo de nossas pernas, uma extensão de assento. Disse que, se eu quisesse, poderia dormir. Achei que não conseguiria e continuei conversando com ele. Fui me encostando cada vez mais e adormeci. Depois de algum barulho e chacoalhar, acordei nos braços de Kaeidh. Levantei rápido, envergonhada. — Desculpe, dormi em cima de você! — Não tem por que se desculpar. Eu seria um bom travesseiro — brincou.

— E, já que você deslizou para cá, eu apenas a apoiei para que não caísse. — Obrigada! — Olhei em volta. — Onde estamos? — Paramos em minha casa, em Paramar. Amanhã continuamos a viagem e, à noite, chegaremos em Nárë. Por enquanto, entramos e aproveitamos a estadia nesta praia. Se quiser, podemos vir outro dia e ficarmos uma semana. Ajudou-me a descer e me mostrou a paisagem. O sol morria ao fim do horizonte, e não dava para ver de onde vinham as águas. Era imenso, e a faixa de areia era azul e bege.

Fiquei intrigada com a cor, e ele explicou que eram pedaços de pedras e minerais azuis, tais como safira. — Saphyre, como seu nome, tarine. Espero que aproveite o lugar. É um dos meus lugares preferidos. Vamos, temos refeição e um local para nos refrescarmos e relaxar. Descemos uma escada lateral da casa, decorada de pedrinhas azuis, de várias tonalidades. A casa era feita da mesma areia colorida da praia, tornando-se algo como uma continuação do

lugar, como se tivesse escavado a areia endurecida e feito uma casa dentro. Havia janelas e portas arredondadas, com pequenos e grandes arabescos feitos com as pedrinhas maiores em volta. — Sua casa é encantadora, Kaeidh. Estou apaixonada pelo lugar. E este cheiro de mar e flores é divino — disse a ele. — Que bom que gostou, tarine. Se quiser, podemos voltar em outra oportunidade para aproveitar o mar. A água é gelada, mas, em algumas épocas, ela é aquecida e muitos animais vêm até a baía para ter seus filhotes.

Estamos na época em que ela é aquecida. É muito agradável ao toque. Mais tarde iremos até lá, gostaria? — Sim! Adoraria — disse ela, sorrindo, e mais uma vez Kaeidh ficou apaixonado com seu sorriso. Entraram num cômodo com grandes almofadas dispostas como em círculo em volta de uma lareira arredondada. De um lado, no canto da sala, em um local aberto, havia uma árvore frondosa que saía do chão e subia até o topo, passando pelo teto da casa. Em volta dela, um pequeno lago.

Seres de aparência gorducha, com tentáculos dos lados da cabeça, brincavam soltando bolhinhas de ar na água. Um soltava com a boca, e o outro pegava, engolia e soltava outra. — Ah, que coisinhas lindas! O que são? — São axonites, uma espécie de lagarto aquático. Apareceram em um lago de água doce aqui perto, um que faz parte deste aqui por um túnel subterrâneo, e eles vieram morar aqui espontaneamente, vindos de lá. Saem para se alimentar, acho.

Sempre que colocamos algo, e já coloquei muitos tipos de comida para eles comerem, eles não comem. Aí somem durante um tempo do dia e depois voltam. — São preciosos. — Você deve estar cansada. Venha, aqui tem frutas — mostrou algumas árvores com frutas após o lago num corredor largo — e, por aqui — apontou uma porta ao lado de outra, ao fim do corredor — está seu quarto. Pode entrar e ficar à vontade. É o

quarto de minha irmã. Lá tem roupas dela, pode usar a que quiser. Relaxe, se banhe, descanse, faça o que desejar e, após, se quiser, estou nesta porta ao lado. Vou fazer o mesmo. Me avise se for dormir ou me chame quando terminar, se estiver desperta e quiser conversar. — Obrigada. Já nos falamos, então — disse, e entrou no quarto, enquanto o ouviu abrir e fechar a porta do quarto ao lado. Tomei um banho na banheira igual à do quarto em que havia ficado no castelo, atrás de uma parede curva.

Lavei os cabelos e os sequei com uma toalha. Entrei em um cômodo com roupas dispostas em todos os quatro cantos, com sapatos e sandálias confortáveis. Pensei em pôr um biquíni por baixo do vestido branco que coloquei, mas não sabia se Kaeidh iria querer entrar na água comigo, dado que somente eu havia dormido durante a viagem. Coloquei apenas o vestido e uma calcinha simples, sandálias, e saí. Sentei na beira do lago com uma fruta que peguei no corredor e comi enquanto observava os axonites nadarem placidamente.

Estava rindo de um pulinho que um deles deu, quando o outro beliscou com a boca o pequeno tentáculo da cabeça dele, quando Kae entrou. — Uma das coisas que amo em você é quando sorri, mas ouvir seu riso é ainda melhor. O que te fez rir assim? Eu me virei para ele, que estava magnífico, com os cabelos molhados, uma camiseta sem mangas e uma calça curta expondo suas pernas fortes, de chinelos nos pés, e contei o que aconteceu. Ele riu também e comentou: — Eles são muito brincalhões mesmo.

Meu sobrinho, sempre que vem, fica horas tentando descobrir o que eles fazem e onde vão quando não estão aqui. Pegou minha mão. — Vamos ver o que temos na cozinha? — Sim. Vamos!

Acompanhei-o. — Sabe, eu entendo seu sobrinho. Também gosto de desvendar mistérios. Acho que gosto de tentar saber o que vai acontecer ou, ao menos, imaginar como seria. Aí dou o passo seguinte só para desencadear os acontecimentos. Não sei se tem a ver com o fato de que eu não tenho memórias, ao menos não muitas, só as que foram desencadeadas pelos acontecimentos. Mas eu optei, esta semana, por deixar acontecer.

Sem muitas desconfianças, sem me estressar ou ficar irritada por não lembrar das coisas, como aconteceu no início, quando acordei. Eu chorava e me enfurecia comigo mesma por não lembrar e depois dormia, exausta. Durante o dia eu me distraía com os pergaminhos, as pedras, as pessoas, e à noite eu sofria. Não vou mais fazer isso. — Eu não sabia disso. Poderia ter nos falado, a mim ou à minha irmã, que estava assim. Teríamos te ajudado — disse Kae, e me abraçou. — Sente-se e vamos ver o que temos aqui.

Puxou um banco alto para eu me sentar e abaixou na altura de meus olhos. Levantou meu queixo. — Saphyre, quero que saiba que pode contar comigo para tudo, mesmo que seja para chorar apenas. Entende? — Sim, Kae. Obrigada. Ele beijou meus lábios e se afastou, abrindo portas de armários. — Estamos providos, porque eu já havia avisado que chegaria a qualquer momento esta semana. Minha tia Élene, irmã de meu pai, mora há cinco minutos daqui e vem abastecer quando peço.

Temos pães, biscoitos, compotas variadas, doces e patês. O que gostaria? Disse e abriu um compartimento no chão, cheio de água com muitas pedras de gelo. — Ah, você vai gostar muito disso. É uma receita de família — pegou três vidros grandes com comidas. — É salgado. Vou aquecer para você.

— Eu ajudo. O que você precisa? — Temos ali em cima panelas, pode pegar três, por favor? — Claro. Peguei as panelas que estavam ali e levei para ele. Ele abriu os potes e despejou o conteúdo dentro das panelas, separados, e levou ao fogo, que acendeu rapidamente. Logo tudo estava chiando, e o perfume da comida estava de dar água na boca, de tão perfeito. Abriu outro armário e pegou pratos, copos e talheres. — Gostaria de uma bebida diferente? Temos sucos alcoólicos de frutas — disse Kae. — Gostaria de experimentar.

Eles se serviram, e Kae buscou uma garrafa de uma bebida vermelha que era borbulhante. Colocou nos copos e se sentou. Lá de fora soprava uma brisa suave e adocicada. Comeram e conversaram, e Saphyre contou das noites solitárias e inseguras que passou, e Kae contou de quando seus pais morreram e da morte de sua prometida, coisa que ele nunca havia falado antes. — Está disposta? Vamos caminhar na praia? Ela fez que sim com a cabeça, pensativa, e saíram para a praia. Desceram as escadas do pátio.

Kae tirou o chinelo, ela também, e pisaram com os pés nus na areia macia. Andaram de mãos dadas por um tempo, sentindo a brisa marítima. Ela, presa em pensamentos, e ele olhando cada detalhe de seu perfil perfeito. — O que está pensando? — perguntou Kae, mergulhando os pés na água aquecida. — Pensando a respeito de sua prometida. Não imaginava que havia uma. — Sim, houve, mas não nos conhecíamos. Quando a vi pela primeira vez, ela já estava muito doente e nem chegou a me ver pessoalmente ou conversar comigo.

Ele pausou por um instante. — Uma vila sofreu um ataque de têntri. Fomos chamados para

ajudar a lutar contra eles e foi por isso que fizemos as pontes e o muro de proteção. Por causa dos ataques deles, milhares morreram sem acharmos uma cura. Ela foi arranhada e mordida. Chegamos na vila e ela já estava em coma. Eu nem cheguei a conhecê-la. — Então você a encontrou e ela morreu? — Sim. — E nunca mais irá ter âme sœur? — Raramente acontece. — E os beijos que demos, não sentiu nada então? Kae a olhou profundamente, o coração acelerado e a respiração rápida. Hesitou. Viu a expectativa em seu rosto.

— Eu senti tudo — disse com um nó na garganta. Os olhos dela se abriram mais, surpresa. — Eu não sabia... Então você quer dizer que aconteceu com você e comigo? Ele pausou, parecia estar sofrendo. — Se eu disser que sim, você vai se assustar? Sabe... eu não tenho controle algum sobre isso e, se tivesse, eu me sentiria do mesmo modo, mas não quero te assustar e não quero me afastar. Não quero chegar a pensar que você pode rejeitar isso, porque você tem tanto com o que se preocupar e eu...

Ela o segurou no rosto e o beijou levemente, dizendo: — Eu... Beijou novamente. — Quero... Beijou de novo. — Isto. — Está claro ou precisa que te convença? O beijou de novo, um beijo mais longo. — Sente isso, Kae? — Sinto você em toda parte de mim — falou ele, com voz embargada. — Você me encanta e me emociona, Saphyre. Eu

pensei que estava acabado para mim. Meus pais viveram uma vida maravilhosa e plena. Eu os via tão cúmplices e companheiros e queria um dia viver isso. Quando minha irmã encontrou o âme sœur dela, fiquei tão feliz, e quando ele morreu, ver a tristeza dela me fez tão desesperado. Achei que a perderia, e, quando soubemos que ela estava esperando um bebê, tive esperança que ela vivesse. Ela viveu. E então eu achei minha âme sœur. Não a conheci. Não houve tempo para amar, conhecer ou ansiar por ela.

E quando ela morreu pensei que perdi minha única chance de saber o que era isso. Fiquei tão sem esperança. Eu vivia, comia e dormia. Trabalhava, ajudava, e não tinha esperança, até te ver. A Esquecida, sem memórias. Você veio até mim e eu não sabia que iria ser assim até estar aqui com você, conviver dia a dia, me atormentando ao imaginar que podia se negar a estar comigo. Ou por não sentir o mesmo, ou por não querer. — E se fosse assim? — Se fosse assim, eu respeitaria. Sofreria, mas respeito é o mínimo.

— E se afastaria se eu pedisse? — Sim — disse simplesmente. — E chegaria mais perto se eu pedisse? Ele prendeu o fôlego. — Pelos deuses, sim! — Então vem mais perto e me beije, Kae? — Sim! Ele a abraçou e beijou, e ela o puxou para a água. Separou-se dele apenas por um minuto e correu, segurando-o pelas mãos, rindo.

Chamas Celestes

Sinopse

Em um mundo marcado por guerras antigas, pactos esquecidos e poderes que jamais deveriam ser despertados, as chamas não nascem do fogo, nascem da escolha. Quando sinais de um desequilíbrio voltam a surgir, reinos inteiros entram em alerta. Dragões desaparecem, portais são abertos nas entranhas das montanhas e forças que haviam sido seladas começam a se mover nas sombras. No centro desse caos está um segredo capaz de mudar o destino de todos: um poder ancestral ligado às Chamas Celestes, cuja existência foi apagada da história. Entre alianças frágeis, traições silenciosas e conflitos que atravessam raças e territórios, personagens são forçados a confrontar não apenas inimigos externos, mas também aquilo que carregam dentro de si. Uma decisão cobra um preço. E a verdade revelada ameaça incendiar todo o mundo conhecido. Chamas Celestes é um romance de fantasia que combina intrigas políticas, magia antiga e tensão crescente, conduzindo o leitor por um universo onde o passado insiste em retornar — e onde nem todos sobreviverão ao despertar das chamas.

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Chamas Celestes

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