Universo da obra
Universo da obra
Todos ficaram calados, ponderando sobre o que Àsgar havia dito. — Acalmem-se, reis e rainhas. Não há necessidade de se alterarem. Por mim, vamos à guerra — disse Soldyn, rei dos Fae. — Por mim também iremos — falou Travalt, rei do povo do Norte. Todos concordaram. Saphyre levantou-se e falou: — Temos mais uma irmã, Emeraldy, além de nossos pais. Morávamos em outro planeta. Fomos criadas como humanas.
Nossa mãe nos enfeitiçou para que nossas aparências fossem de humanos e nossos poderes fossem amarrados, deduzimos eu e Ambhar. Ambhar continuou: — Vivemos nossa infância e adolescência nesse planeta: o planeta Sart. Todas nós, ao completar doze anos, colocamos fogo em alguma coisa. Até que nossa mãe, nessas ocasiões, cantou algo em uma língua desconhecida, segurando nossas mãos, e nunca mais aconteceu. Ela nos assegurou que não aconteceria. Mas nos treinou com gestos e lutas, contra a vontade de nosso pai.
Até que, certa noite, fomos acordadas por eles que, sussurrando, nos fizeram pegar as nossas coisas e nos vestir rápido. Fomos levadas ao porão da casa em que morávamos e que, até então, era proibido para nós. Ficava trancado. Ela nos ensinava a ter sempre roupas, sapatos e algum suprimento de água e proteínas em uma mochila, e apenas as colocamos nas costas. Achamos que era algum furacão mais forte que viria.
“Eles nos empurraram para dentro do porão, com algo parecido com um espelho, mas que brilhava e se movia como um lago de águas azuladas, e trancaram a porta. Não tivemos nem tempo para questionar nada. Ouvimos gritos e brigas, e Emeraldy
e Saphyre, que estavam mais próximas da porta, correram para tentar abrir e ajudar nossos pais, até que uma explosão balançou as estruturas todas da casa. A porta se desfez como poeira e, com o impacto, fomos jogadas dentro desse lago, que hoje sabemos ter sido um portal. “Saphyre foi atingida na cabeça por um pedaço de tijolo. Emeraldy foi jogada longe, então eu não vi mais nada, pois fui arremessada dentro do portal antes delas. Acordei aqui, neste planeta, algum tempo depois de Saphyre.
Aparentemente, fiquei presa dentro do portal por um tempo, enquanto Saphyre caiu diretamente aqui… e Emeraldy e nossos pais desapareceram.” — Pensando agora sobre tudo isso, acho que Borag, de algum jeito, descobriu onde morávamos e como conseguir ir até lá. Acham que ele tem algum poder semelhante ao nosso? — falou Saphyre, sentando-se novamente. — Se ele estava bebendo dos elementais, há uma chance de que tenha os poderes que os elementais têm? De abrir portais, por exemplo. E de fogo e explosão? — falou Zenit.
— É uma possibilidade. Talvez isso explique a explosão. Quando Saphyre explodiu, Fayne foi averiguar e nos disse que onde o fogo pegou parecia que havia algum tipo de pó — falou Zarin. — Realmente, não houve mortes, mas o pedaço onde tinha uma faixa de corais, uma pequena parte, foi desintegrado mesmo. A areia ficou com um pó escuro, como se fossem cinzas — comentou Tarwin, rei do mar Filórdico. — Mas eu e Saphyre fizemos pequenas bombas no treinamento e o alvo não virou cinza — falou Ambhar.
— No treino, os gestos de magia que vocês fazem retiram apenas um por cento dos seus poderes de fogo. Nem isso. Então, quase nada do poder é usado, apesar de vocês sentirem que foi muito esforço. Por ser o início, ainda não chegaram a usar absolutamente nada do poder que vocês têm — explicou Zenit.
— Entendi — disseram Ambhar e Saphyre ao mesmo tempo. — Então, quando vamos preparar essa guerra? Qual seria o primeiro passo? — quis saber Morlond. — Sim, queremos saber o que podemos fazer — falou Alanda, pela primeira vez. — O primeiro passo vai ser a espionagem, e o seu povo, Alanda, é essencial nisso — Kaeidh ponderou. — Somos realmente bons nisso, Kae. De quantos precisam? — falou Alanda, sorrindo. — De quantos você puder dispor.
Principalmente do contingente que você já tem instalado nas florestas — disse Kaeidh. — E você tem um contingente na floresta desde quando, Alanda? — exclamou, surpresa, Grahara, a rainha suplente das ninfas. — Desde sempre. Desde o muro, acho. E muitos não sabem — e fizemos questão de que não soubessem —, mas nós ficamos invisíveis quando queremos. Por isso chegam vários relatos para mim de coisas que acontecem na floresta e que nunca saberíamos se não fossem os meus mini heróis e heroínas.
São eles que ajudam as pessoas que conseguem escapar dos têntris, ajudam nas colheitas e na caça dos que vivem com fome — explicou Alanda, orgulhosa de seu povo corajoso. — E soube algo sobre Sírius em algum tempo? — perguntou Àsgar. — Soube, sim. Ele está vigiando muito próximo à montanha de Borag. Meus pirims não chegam tão longe, mas viram ele subir em uma espécie de muro de pedra. É o que disseram alguns que chegaram perto o suficiente…
mas não foram mais longe do que suas vistas podiam, com certeza, captar: se era mesmo um muro ou só um amontoado de pedras. — Aparentemente, é um muro de pedras. Borag usou escravos do nosso povo para construir. A bruxa Filanthe me informou que havia visto um elfo indo de árvore em árvore na direção de um
muro. E agora você me contando isso… não há dúvidas de que esse muro existe mesmo — concluiu Àsgar. — Um muro… para quê? — falou Faleey, o silencioso e estudioso rei dos faunos. — Intrigante, eu acho. Pensem: para que nosso povo fez um muro? No nosso caso, era para proteger os nossos de Borag. Mas ele reina absoluto na floresta e na montanha, pois toda e qualquer vida que ali se encontra está no poder dele. Os têntris, ele que comanda; são parte de sua alma e sangue. E os sequestrados não têm outra escolha.
Assim como a bruxa Filanthe, acorrentada e enfeitiçada… e, além disso, sua filha está nas mãos dele — falou ele. — Pensem: ele utiliza os entes queridos, os amores de alguém, como garantia de que serão submissos. Quem garante que os pais de Saphyre e Ambhar não estão cativos lá… e que a irmã delas não está sendo usada para controlar sua poderosa mãe elemental? Ele respirou e continuou: — Eu li sobre isso. Os elementais. Todos o olharam, surpresos.
Ele levantou as sobrancelhas e falou: — Eu sou um estudioso, meu povo lê, escreve, inventa e desvenda coisas o tempo todo. Não sei qual a surpresa. É por isso que não aceitamos quase nunca convites: temos muito o que estudar, aprender, criar e inventar. — E não nos contou que sabia algo sobre elementais? — falou Kaeidh, bravo. — Ora, meu caro Kaeidh, não soubemos de nada até ontem. Não tive tempo para ler as missivas. Vivemos isolados em nossa floresta secreta. Raramente recebo notícias de fora.
Vocês saberiam, se tivessem o mínimo interesse por conhecimento e tivessem visitado nossas bibliotecas em nossa cidade. A última visita que tivemos de algum dos seus povos foram dos bibliotecários que foram mortos por Borag. Ah… talvez um esteja lá neste momento. Não sei se já foi embora; o vi raras vezes.
Ele ajeitou os óculos redondos, que escorregavam para a ponta do pequeno nariz. — Obviamente, Borag queria apagar as histórias dos elementais e da profecia, e meu povo não é burro. Nunca falamos nada para nos proteger. Mas agora, ouvindo todas essas histórias, me compadeci de vocês todos. Darei a minha biblioteca para que vocês possam buscar as informações necessárias para esta guerra. Mas minha contribuição será somente isso… ah, e estratégias. Somos muito bons em estratégia de guerra.
Podem contar conosco a esse respeito. Mas, como veem, não somos musculosos e não sabemos das artes das lutas. O conhecimento que temos sobre isso não inclui prática. Faleey levantou-se e caminhou em direção a Saphyre e Ambhar. — E já que vocês são elementais, tenho uma sessão inteira de nossa biblioteca com tudo que vocês precisam saber sobre sua espécie. Estará à disposição das duas. Além disso, tem um livro enorme sobre todas as suas magias e como controlá-las. Feitiços e cânticos.
Virou-se para Àsgar: — Inclusive, suas ilhas flutuantes… foram elementais que fizeram a magia para que elas flutuassem. E, como podem ver, esses feitiços não desaparecem quando seus feiticeiros morrem — finalizou Faleey. — Deuses, Faleey… como vocês são egoístas! Tinham tanto conhecimento escondido de todos! — Àsgar disse, irritado. — Não somos egoístas; somos altruístas com o nosso povo. E foi como você disse antes: nós não sabíamos de nada disso. Não recebíamos visitas de nenhum outro povo.
Vocês nos ignoraram por séculos por nos considerarem entediantes. E nós os ignoramos por achá-los desinteressantes — pelo menos não mais interessantes do que livros. Ele fez uma pausa curta e apontou com o queixo, provocativo:
— E, para provar como nenhum de vocês nem ao menos pensa em nós, lhes pergunto: onde fica nossa floresta? Alguém sabe? Ele encarou um por um, menos Saphyre e Ambhar, que obviamente não saberiam. Ninguém respondeu; apenas se olharam. Quando perceberam que ninguém sabia, Kaeidh respondeu: — Infelizmente, o rei Faleey tem razão. Não temos como julgá- lo. Kaeidh olhou cada ser na sala. — Aliás… não temos como nos julgar, a nenhum de nós. Não fomos nós que fizemos o muro de proteção e expulsamos as bruxas.
Não fomos nós que não erguemos os muros a tempo de salvar o povo elemental. E não fomos nós que matamos, torturamos e escravizamos nenhum povo. Se formos culpados de algo, será somente pela nossa ignorância e inocência em achar que estava tudo bem, já que o muro estava lá. Zenit inclinou a cabeça, com um brilho estranho nos olhos. — Temos agora, que não somos mais ignorantes dos sofrimentos de muitos, que resolver como faremos. Eu aposto que Borag não imagina que atacaremos — disse Zenit.
— E eu mal posso esperar por isso, para dizer a verdade. — Penso que começaremos com a espionagem e a procura de Sírius. Ele seria uma adição valiosa para nós e vai gostar de saber que nos aliaremos a ele — falou Àsgar. — Eu não sei… Será que ele não ficou maluco, perdido, vagando na floresta, vivendo com o mínimo? — falou Grahara, preocupada, mas um pouco sarcástica. — Ele não ficou maluco. Apenas acordou e se indignou bem antes de nós. E tem o agravante de que perdeu sua família toda.
Mais respeito por ele, Grahara. Que eu saiba, você vivia atrás dele quando ele frequentava diplomaticamente o seu reino — falou Àsgar. A rainha Shatir cruzou os braços.
— Evocês, ninfas, têm que parar de maldizer seres só porque eles não se interessam por vocês. Aprendam a deixar passar. Grahara fez uma cara desagradável e respondeu: — Em todo caso, me avisem qual será o próximo passo. Estarei à espera de instruções. Só não me peçam para seduzir Borag. Não tenho estômago para bebedores de sangue — fez cara de asco. — Agora, tchauzinho: vou aproveitar o festival. Ela caminhou em direção a Tarwin. — Gostaria de me acompanhar, lindo e enorme deus do mar?
— falou, sedutoramente, Grahara. Leigh, que a observava, desviou o olhar e passou a fitar as mãos. — Não, obrigado. Tenho coisas importantes a resolver com os reis e rainhas interessados em fazer o necessário para salvar vidas — respondeu Tarwin, sarcástico, sem nem ao menos lançar um único olhar para ela. — Ok. Divirtam-se — falou ela e saiu rebolando da sala. Ninguém deu atenção e voltaram a planejar. — Alanda, você tem contato rápido com seus espiões? — perguntou Kaeidh. — Aqui na minha bolsa.
— Ela puxou a pequena bolsa e dela retirou um espelho. Chamou e, imediatamente, o pirim responsável pelo contingente florestal atendeu. — Olá, Joren. Temos uma notícia. Vou redirecionar você para o espelho maior. Ela voou até o espelho grande e encostou o pequeno espelho nele. A imagem do pirim apareceu imediatamente lá, para todos verem. — Olá, Joren — falou Kaeidh. — Olá, rei Kaeidh. Olá, reis, rainhas, senhoras e senhores. Em que posso ajudá-los? — Joren, vamos entrar em guerra contra Borag.
Preciso que vocês o espionem o mais perto possível. E, além disso, queremos
notícias de Sírius. O que podem fazer a respeito? — Iremos hoje mesmo, rei. Acho que o rei Sírius está por perto. Pode ser que o encontremos rapidamente — falou Joren. — E tem mais notícias? — perguntou Alanda. — Por enquanto, não, rainha. Mas terei em breve. — Obrigada, Joren. Estaremos à espera. Pode me ligar a qualquer hora — tanto você quanto os outros.
Em um mundo marcado por guerras antigas, pactos esquecidos e poderes que jamais deveriam ser despertados, as chamas não nascem do fogo, nascem da escolha. Quando sinais de um desequilíbrio voltam a surgir, reinos inteiros entram em alerta. Dragões desaparecem, portais são abertos nas entranhas das montanhas e forças que haviam sido seladas começam a se mover nas sombras. No centro desse caos está um segredo capaz de mudar o destino de todos: um poder ancestral ligado às Chamas Celestes, cuja existência foi apagada da história. Entre alianças frágeis, traições silenciosas e conflitos que atravessam raças e territórios, personagens são forçados a confrontar não apenas inimigos externos, mas também aquilo que carregam dentro de si. Uma decisão cobra um preço. E a verdade revelada ameaça incendiar todo o mundo conhecido. Chamas Celestes é um romance de fantasia que combina intrigas políticas, magia antiga e tensão crescente, conduzindo o leitor por um universo onde o passado insiste em retornar — e onde nem todos sobreviverão ao despertar das chamas.
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