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Capítulo 39 · Chamas Celestes

Capítulo 39

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Kaeidh e Saphyre desceram para a biblioteca novamente. Leram, desta vez, sobre as raças que existiam no continente primitivo. — Oh, isto é muito bom! Lobos… homens-lobos. — disse Ambhar. — Metamorfos? Nós temos aqui! — falou Kaeidh. — Não são metamorfos. São homens que têm uma fera dentro de si. Eles se transformam apenas em noite de lua cheia. Completamente claro. Porque, querendo ou não, o lobo… a fera… sempre está à espreita.

A descrição é: “como se fossem duas almas em um corpo, lupino e humano; ambos coexistindo em uma existência longa e feroz”. Inacreditável. — Olhou para Saphyre. — São lobisomens, Saphyre. Lembra que ouvíamos sempre sobre isso nas lendas do nosso planeta? — Sim! Mas, no nosso planeta, eles são puro instinto… se alimentam de pessoas. Aqui seriam assim também? — Não faço ideia. Nunca ouvimos falar disso. Não assim. — disse Kaeidh. — Temos muitas raças novas para você conhecer e catalogar, então. — comentou Ambhar.

— Eu me ofereço para catalogar todos, caso precisem, claro. — ofereceu-se Kasphio, ainda em sua forma de tamanho grande, sentado ao lado de Ambhar. Ambhar sabia que o rapaz iria tentar a sorte. Ficara ainda mais claro que ele gostava dela, principalmente depois de ontem. Ela o viu esmorecer ao conhecer Fayne. Mas, logo de manhã, ele já estava animado para ler junto com eles. Ambhar o viu assim que saiu do quarto: abriu a porta bem devagar e o visualizou no degrau abaixo do seu. Ele subia e descia,

ensaiando algo, como se estivesse falando com alguém. No início, Ambhar achou que ele conversava com alguma dríade, então espiou… e viu que ele falava sozinho. Subia, dizia algo, sorria e oferecia o braço; depois fazia que não com a cabeça, descia o degrau, falava de novo, voltava… até que, enfim, pareceu tomar coragem e subiu. Ambhar entrou novamente no quarto para não o constranger e esperou. Ouviu batidas tímidas na porta. Contou até cinco e abriu. Ele sorriu. — Bom dia, senhorita Ambhar.

Gostaria da minha companhia para descer ao salão de refeições? — Ele falou e olhou bem dentro dos olhos dela. Ambhar percebia que ele estava nervoso. Kasphio era uma fada muito atraente, e seu sorriso e altura eram seus melhores traços. Ela reparou no cabelo liso jogado de lado, bem penteado; nos olhos azuis-escuros, pequenos; e no perfume. Ela aceitou, deu a mão a ele, que logo a acomodou na curva do braço. — Bom dia, Kasphio. Claro que gostaria de tomar o café da manhã com você. Obrigada por me convidar.

O sorriso dele se ampliou e Kasphio tropeçou, andando e olhando para ela. — Opa… cuidado. Não vai cair. — Não tenho muito costume de andar, como sabe. Raramente fico nessa forma. Mas, na verdade… é a sua beleza que me distraiu, senhorita Ambhar. Você é muito linda. — Oh… obrigada, Kasphio. Você também é. Desceram e se encontraram com o restante do grupo. Saphyre olhou os dois e sorriu. Puxou Ambhar para irem buscar algo. — Ambhar… você foi sincera com Kasphio? Porque tivemos uma conversa ontem, eu e ele.

Ele está claramente interessado em você.

— Eu sei. Falei ontem que estou apaixonada por outra pessoa, e logo que vi Fayne ele percebeu que era ela. — Sim… falou que não tinha como competir com ela, pois ela era deslumbrante. Que você nunca olharia para ele. Eu falei que não se trata de competição, que é apenas gostar. Mas estou preocupada… não sei se ele entendeu bem. Você gosta só de fêmeas, não é? — Eu sou bi… aparentemente gosto mais de fêmeas do que de machos. Mas sempre serei bi. Machos também me atraem, só que… é a pessoa que me atrai, sabe?

Não o sexo. — Ah, Ambhar… sempre achei que você gostasse só de fêmeas. Desculpe a ignorância, irmãzinha. Amo você, sabia? Como foi a conversa com Fayne ontem? Quer me falar? — perguntou Saphyre. Ambhar a abraçou. — Também te amo. Vou resumir. Ela me acusou de estar praticamente nua, de novo. Falou que eu sumi e não disse nada. Eu disse que já tinha dito tudo e ficou por isso mesmo… que ela claramente não se importava. Ela disse que foi atrás de mim porque se importa, como se “importa”, não é?

Eu falei que se importar era diferente disso. Disse que conhecia Kasphio há dois dias e que ele se transformou para ficar perto de mim — e isso é difícil para uma fada. E ela disse que Kasphio estava ali porque eu estava nua, com meu corpo à mostra, e que ele não era nada bobo. Chamei ela de machista. Disse que não queria mais vê-la, que me arrependia de tê-la conhecido… só era grata por ela ter me salvado, mas apenas isso. Que nossa amizade terminou ali.

Eu entendo que ela amou o companheiro com quem se casou e que não tinha espaço para mais ninguém, mas que ela vivesse com outra pessoa essa vida de gente descartável. Saí e deixei ela lá. Só isso. — Sinto muito, irmã. Eu estou aqui, tá? — Saphyre abraçou Ambhar.

— Eu sei. Sempre esteve. Eu estava com saudade disso… de nós duas. Tenho saudades da nossa família junta. Papai, mamãe e Em… Acho que estou carente, sabe? Do amor de vocês. E com medo por papai, mamãe e Em. Onde será que eles estão? — Não sei, Amb… não sei. Queria muito eles com a gente também. Suspiraram e caminharam para o grande salão de refeições. — Vamos comer… já estão nos encarando. Os gulosos já comeram três pratos enquanto a gente falava. — As duas riram e voltaram para a mesa com os pratos cheios.

Comeram bem e voltaram para a mesa que ficara intocada na biblioteca. Era surpreendente, esse mundo novo em que estavam. Saphyre ficou olhando seu amor enquanto ele lia. Kaeidh passava os olhos pelas letras; apoiava o livro na mesa e, com uma das mãos, virava as páginas… enquanto a outra, de repente, migrou e segurou a coxa dela por baixo da mesa. Ele tinha percebido o olhar dela. Então Saphyre deslizou a mão também. Ambos se acariciavam sem que ninguém visse.

De vez em quando ele lançava um olhar travesso; e ela, às vezes, mordia o lábio quando a mão se aproximava da virilha. As carícias faziam redemoinhos de eletricidade na pele. Os olhos dela percorriam as palavras e, sempre que se surpreendia com algo, virava para mostrar a ele. Comentavam com o grupo. Iam anotando tudo que achavam importante. — Vocês poderiam se ausentar um pouco e voltar depois, não acham? — falou Faleey para Kaeidh e Saphyre. Os dois riram. — Tem razão, Faleey. Já voltamos, pessoal.

— disse Saphyre, pegando a mão de Kaeidh e puxando-o para o quarto deles. Todos olharam para Faleey, sem entender o que acontecia. O que ele tinha visto que eles não viram?

— Eles estão distraídos. Melhor resolverem logo o que precisam… e depois voltam mais tranquilos. — explicou ele. O grupo ficou perplexo; ninguém havia percebido nada. — Não tenho culpa de ser observador! — Faleey levantou as duas mãos. Riram. — Faleey, você precisa arrumar uma namorada. — brincou Tarwin. — Concordo… mas conheço todas as fêmeas desta ilha. Não me interesso por nenhuma. Fui ao festival também pensando nisso. Já tenho uns bons séculos de vida e estou um pouquinho cansado de dormir sozinho.

— desabafou. — Você pensa em nos acompanhar na viagem? — perguntou Leigh. — Eu não acho que você deveria ir… não com Sorag, Leigh. — disse Tarwin. — Você irá, Tarwin? — ela perguntou. — Sim. Obviamente. — respondeu ele. — Então… — Leigh virou de frente para ele, passando o dedo no rosto dele. — Teremos nossa primeira briga? — Olhou nos olhos de Tarwin, atentamente. — Porque, queira você ou não, eu irei. — Não teremos briga nenhuma, meu amor. Mas saiba dos perigos. — Perigo que você também vai passar, não é? — Sim.

Mas eu sou forte. — Você não me conhece. Quando Kaeidh voltar, se informe com ele sobre as minhas habilidades, meu amor. — Leigh deu um beijinho no nariz dele. Voltou-se para Faleey. — Desculpe, Faleey… você dizia o quê mesmo? Faleey olhou para Kasphio e Ambhar, que também acompanhavam a conversa. Os dois seguravam o riso. Ele disfarçou o dele. Mal podia esperar por embates assim… e por escapadas como a de Kaeidh e Saphyre.

— Eu penso que deveria, sim, me aventurar… depois de tanto ficar aqui estudando, lendo e dando aulas. Preciso aproveitar essa jornada, e tenho certeza de que será fonte de mais conhecimento, não é? — Claro. Penso o mesmo. — disse Kasphio. — Gostaria de acompanhá-los, se me permitirem. Acho que seria de grande ajuda, pelo conhecimento que tenho guardado. Quem sabe… Vocês me permitiriam? Senhorita Ambhar? — Claro. Será uma alegria ter sua companhia, Kasphio. Tenho certeza de que todos concordarão também.

Saphyre e Kaeidh voltaram nesse momento, com expressões de satisfação e divertimento que todos perceberam. — Voltaram os enamorados. — comentou Faleey. — Estamos falando que eu, Leigh e Kasphio iremos acompanhar vocês nesta jornada ao desconhecido. O que acham disso? Tarwin já deixou de lado a ideia de que Leigh não deve ir. E ela já disse que você, Kaeidh, deve informar ao rei Tarwin sobre as especialidades dela… quando ele disse que era forte e ela não, por ser fêmea. — Ah, meu amigo Tarwin… um grave erro.

Grave, grave erro. Leigh luta — não uma, mas várias lutas — e é especialista em arco e flecha e espada longa. E quando digo especialista, digo no nível de medalhas. Você se manteve afastado, nunca soube disso, não é? Precisa conhecê-la melhor! — Kaeidh disse, rindo. — Eu terei tempo para isso… e vou aproveitar muito. Desculpe, meu amor, por subestimá-la. — disse Tarwin, sincero. — Desculpo, Tarwin. Eu fiquei muito sozinha e usei meu tempo livre para o que quisesse fazer.

Então optei por coisas que seriam úteis em algum momento e que gastassem minha energia acumulada. Mas vamos aprender um com o outro quem somos. Não se preocupe. — respondeu Leigh. — É o que eu mais quero. — Tarwin devolveu. — E lá vamos nós de novo… — Faleey comentou, rindo. — Esta viagem vai ser interessante, não acham?

— Sim… ainda mais pelos lobisomens. Sou apaixonada por filmes de lobisomens. Eram os meus preferidos. — disse Ambhar. — Se eles forem como os dos nossos filmes de terror, que comem pessoas, eu não vou gostar, não. — comentou Saphyre, com um arrepio. — Ah, sim… mas espero que esse pequeno detalhe desagradável eles não tenham! Você tem que ver, Kasphio. No meu planeta, temos filmes que passam em telas — parecidos com o que fazem as joias da memória, sabe? Mas não é vida real: é uma encenação.

E tem atores que fazem os lobisomens. Eles correm atrás das mocinhas… geralmente pegam os canalhas e os comem, mas é aterrorizante. Acho que vocês iriam gostar disso. — explicou Ambhar. — Ah, sim… iriam mesmo. Era divertido. — disse Saphyre. — Mas vamos voltar aos livros. Precisamos fazer uma rota, pois eu estava falando com Kae e pretendemos chegar descansados, de preferência. Porque, se por ventura houver perigo, estaremos bem para lutar. O que acham? E outra coisa: devemos levar quem mais conosco?

— Zarin e Zenit irão com certeza. Talvez Zoltark. Precisamos planejar muito bem. Precisaremos de mantimentos, então levar os dois dragões será uma necessidade. Eles levarão cestas nas costas e nelas cabem tudo: barracas e suprimentos. Podemos pescar e caçar, mas seria bom levar frutas e legumes, mesmo os em conserva, pois não sabemos como é o local. Pode ser só um deserto… ou plantas tão antigas que não teremos de onde colher alimentos lá. — argumentou Kaeidh.

— O ideal seria fazer um voo de reconhecimento, não acham? Temos que ver quanto tempo dá para chegar. Mandamos primeiro o reconhecimento e depois partimos com elas. — sugeriu Tarwin. — Boa ideia. Sugiro irmos para as ilhas flutuantes, arrumar mantimentos e barracas, todas as coisas que precisaremos numa excursão dessas. Ver o roteiro, marcar o local mais perto que

conhecemos… acampamos ali, enviamos a equipe de reconhecimento, esperamos notícias e, de lá, partimos — já sabendo o que enfrentaremos. — propôs Faleey. — Sim, seria o ideal. — Então será assim. — Vou chamar Àsgar agora. Vamos ver o que ele tem a nos dizer. Eu falo todos os dias com ele e com minha armada. — disse Kaeidh. Tirou o espelho de mão do bolso e chamou Àsgar com um toque mental. Ele apareceu na tela. — Olá, Kae. Como vão as coisas por aí? Vejo que estão na famosa biblioteca novamente.

Leram muito esses três dias? — falou Àsgar. — Olá, amigo. Estamos, sim. Lembra-se de que lhe disse sobre Kasphio e as coisas que ele se lembra? Então… acho que completamos a profecia. E agora estamos olhando os mapas que mencionei. Estamos pensando em ir até aí antes de partir para lá. Faleey deu a ideia de marcarmos a rota e, entre ela, acamparmos no local mais próximo. De lá, enviar uma armada especializada para reconhecimento antes de irmos. — Acho uma excelente ideia. Vou ver com os meninos qual deles vai…

tanto para fazer reconhecimento quanto para entrar no local de fato junto com vocês. — explicou Àsgar. — Seria bom se fosse reconhecimento aéreo, não? — comentou Faleey. — Sim… seria o melhor, penso eu. — concordou Àsgar. — Tudo bem, então. Vá avisando os batedores para se prepararem. E, se Zarin e Zenit puderem nos acompanhar, seria excelente. — disse Kaeidh. — Direi. Tenho notícias de Sírius e Tamany. Eles entraram em contato com a elfa que está presa atrás do muro.

Ela vive em um oásis de beleza e funcionalidade, criado por Borag para ela. Tamany voou até ela e se falaram rapidamente. Tamany ficou de

voltar no dia seguinte. Ela é quem está levando as informações para Sírius…

Chamas Celestes

Sinopse

Em um mundo marcado por guerras antigas, pactos esquecidos e poderes que jamais deveriam ser despertados, as chamas não nascem do fogo, nascem da escolha. Quando sinais de um desequilíbrio voltam a surgir, reinos inteiros entram em alerta. Dragões desaparecem, portais são abertos nas entranhas das montanhas e forças que haviam sido seladas começam a se mover nas sombras. No centro desse caos está um segredo capaz de mudar o destino de todos: um poder ancestral ligado às Chamas Celestes, cuja existência foi apagada da história. Entre alianças frágeis, traições silenciosas e conflitos que atravessam raças e territórios, personagens são forçados a confrontar não apenas inimigos externos, mas também aquilo que carregam dentro de si. Uma decisão cobra um preço. E a verdade revelada ameaça incendiar todo o mundo conhecido. Chamas Celestes é um romance de fantasia que combina intrigas políticas, magia antiga e tensão crescente, conduzindo o leitor por um universo onde o passado insiste em retornar — e onde nem todos sobreviverão ao despertar das chamas.

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