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Capítulo 38 · Chamas Celestes

Capítulo 38

38 de 40 ≈ 19 min de leitura

Saphyre e Kaeidh desceram ao salão logo cedo, no dia seguinte. Leigh havia buscado Sorag cedo, antes das oito da manhã. Estava com uma aparência cansada e preocupada. Saphyre e Kae não perguntaram nada para ela, pois ela contaria se necessitasse. Alimentaram-se com o restante do grupo e migraram todos direto de volta à biblioteca. Dessa vez, subiram ao terceiro andar, onde havia uma mesa maior, com muito mais espaço para os livros que iriam ler, e com sofás e poltronas mais confortáveis. Iriam passar o dia por ali.

Kaeidh, Saphyre, Ambhar, Faleey, Tarwin, Leigh e Kasphio estavam debruçados, cada um, em seus livros. Kasphio estava totalmente empolgado por conhecer duas fêmeas mistas de elemental com elfo. Falou que ouvira falar sobre elementais há muito tempo, mas que fazia muito mais tempo ainda que não ouvira sequer qualquer menção a eles, nem mesmo em livros. Ambhar logo contou a ele sobre seu sangue. Ele ficou absolutamente encantado e logo se alojou ao lado dela. No horário do almoço, desceram em turnos.

Metade ficou lendo e a outra metade foi ao grande salão. Comeram rapidinho, comentando sobre as coisas que haviam achado nos livros e que nunca haviam nem ao menos visto nas bibliotecas das outras cidades. Incrível como Faleey manteve tal tesouro completamente seguro ali. Ele contou que grande parte disso era pelo fato de que o castelo era encantado e que a biblioteca, ao menor sinal de ameaça, escondia os livros num plano astral do qual ninguém sabia.

Pensavam que era como se fosse um bolsão no espaço-tempo, que guardasse os volumes mais valiosos possíveis.

Após comerem, Saphyre subiu junto com Kae, Ambhar e Kasphio. Leigh e Tarwin desceram com Sorag, que logo alcançou o novo amiguinho que conheceu na biblioteca. O garotinho fauno e sua mãe estavam estudando e, logo ao terminarem, a faúna Sanri convidou Sorag para brincar na praia com o pequeno Nacid. Faleey indicou que deixassem, que era muito seguro, e Sanri era uma excelente mãe.

Então Leigh deu a permissão para que Sorag fosse e informou a Sanri que estariam na biblioteca; que, logo que ela voltasse, enviasse Sorag lá para cima. — Muito obrigada, senhorita Leigh, por permitir que Sorag vá conosco. Meu filho é muito tímido; até fiquei surpresa por os dois fazerem amizade tão rápido. Levarei eles para brincar na praia e logo para jantar; aí trago Sorag em segurança de volta à biblioteca. — Sim, Sorag também é tímido; acho que por isso se deram bem. Até mais tarde.

E obrigada você por proporcionar uma diversão dessas. — Até mais tarde, então. Saíram do salão de refeições, as duas crianças saltitando na frente. Tarwin olhou Leigh. — Gostaria de ir ver os anciãos? — Antes de voltar para a biblioteca? — Sim. Já esperamos muito tempo por isso. Preciso saber, e não iremos demorar mais que trinta minutos. — Está bem. Eu também quero saber.

Desceram as escadas em um jardim gigante que circundava todos os prédios principais e se mesclava com as florestas em todas as direções que olhassem. Tarwin foi segurando a mão de Leigh. Os dois se olhavam a todo instante e estavam com as respirações, às vezes, em suspenso; outras vezes, rápidas. A excitação era tanta que Tarwin tinha as mãos suadas. Passaram por locais lindos, que a Tarwin lembravam as noites em que se conheceram e se encontraram: a última semana de plena felicidade de sua vida.

Esperava ter mais disso a partir de hoje.

Esperava que ela o aceitasse. Mas mantinha uma pontinha de medo de ela não querer mais, depois de tanto tempo. Eles viram o portal ali, a dez passos deles. Leigh parou, olhou para ele. — Eu quero que saiba que, independentemente do que for dito lá, eu… Se você quiser… quero estar com você. Mas terá que ter paciência. Porque eu não posso mudar todo o meu mundo de uma vez. Tem Sorag e… Ele olhou para ela, abraçou seu corpo fortemente. Puxou o ar profundamente, sentindo o cheiro do cabelo dela, de sua pele.

Apreciando o calor do abraço dos dois. O toque dela em seus cabelos, as mãos passando pelas costas, os braços, abraçando-o de volta. Suspirando com a cabeça aninhada no peito dele. A sua pequena. Sua. — Meu… — ela falou, num suspiro. — Seu… — ele confirmou. Soltaram-se delicadamente e deram as mãos novamente, olhando um para o outro, emocionados. Caminharam até o portal. Leigh parou em frente e chamou: — Antúrio, Balery, Sucintoh e Rossini, anciãos etéreos… por favor, lhes peço a palavra.

Os anciãos saíram do portal, um a um. Sorriram aos dois. — Satharth, princesa Leigh. Satharth, rei Tarwin. Tardiamente veio ao nosso encontro, meus filhos. Por quê? Sendo vocês dois destinados? Leigh sentiu seu coração pulsar. Isso era realmente verdade. — Satharth. — falou Tarwin. — Satharth, anciãos. Eu… eu pensei que meu âme sœur era Sharif. — Sim. — falaram todos ao mesmo tempo, suas vozes e seus olhos tempestuosos. Fizeram um círculo em volta dela.

— Ofeitiço foi bem forte… tão forte a ponto de enviar o que a enfeitiçou para a morte. Uma luz saiu de suas mãos. Eles começaram a puxar algo, que foi saindo da boca de Leigh — algo estranho, que praticamente brigava para se manter ali. Leigh flutuou com a força da magia dos anciãos, o peito arfando, os braços e lábios abertos no meio deles, que foram puxando, mais e mais, o comprido verme espinhudo, cheiro de tentáculos, de dentro dela.

Ele lutava e se retorcia, até que eles tiraram aquele ser desconhecido, o congelaram e o minaram até que sumisse no ar. — Isto é magia de um mal muito antigo, feito de sangue. O sangue de Sharif. Pobre rapaz. Tudo por status. Ele conheceria a âme sœur dele poucos dias antes de ser enterrado. Mas agora tudo está acabado. Tanto sofrimento por purismo. Tarwin olhava horrorizado o pequeno, mas comprido, ser que habitara sua mulher. Abraçou Leigh, que arfava. — Purismo? — perguntou Tarwin. — Sim.

Os pais de Sharif o educaram para que acreditasse que o purismo era melhor do que ter seu âme sœur. Eles achavam que era uma raça especial, a melhor raça de Kalimares, e achavam que Leigh era a melhor fêmea que seu filho encontraria. O educaram assim… e morreram por isso. — Como? — perguntou Leigh, horrorizada. — O feiticeiro cobra um preço, e, quando ele acha que o preço pago foi pouco, ele toma mais e mais. O feiticeiro achou que era muito pouco, pois você era uma princesa que deu um herdeiro a Sharif.

Então, cobrou a dívida adoecendo-os, assim como o filho Sharif, e roubando suas almas. Eles aceitaram isso no pacto. — Deuses! Meu filho corre algum risco? — Não. Ele, por ser uma alma inocente, não tem nada a ver com o acordo do pai e dos avós paternos. Não se preocupe. — falou Antúrio.

— Agora acabem com as tristezas de ambos e vão viver o amor que vocês merecem ter, um com o outro. Olharam nos olhos de Leigh e de Tarwin. — A criança já vê em seu coração o rei Tarwin como um pai. Leigh teve os olhos repletos de lágrimas. — Satharth. — Satharth e obrigada. — disse Leigh. — Satharth. Obrigado, anciãos. — agradeceu Tarwin, segurando a mão de Leigh e puxando-a para ele. Os anciãos retornaram ao portal, um atrás do outro. Todos com sorrisos bondosos.

Tarwin subiu os jardins junto com Leigh, caminhando abraçados, sentindo-se leves. Havia sido tirado um peso de cima deles. Todas as dúvidas e medos foram retirados, juntamente com o verme de sangue. Sentiam-se livres. — Você vai contar algo para alguém? — Gostaria de manter isso do feitiço entre família apenas. E não gostaria que Sorag soubesse disso. Seria horrível para ele. Podemos falar para Kae, Saphyre e Ambhar, mas, de resto… eu contaria apenas que nos reencontramos agora e que você é meu âme sœur.

Somente isso. Tudo bem? — Tudo bem, meu amor. Eu… temos muito o que viver ainda. — Sim, muito. Eu não sinto mais culpa alguma. Acho que o feitiço me fazia sentir isso. Entende? — Sim. Ele estava enraizado em você. Chegaram à biblioteca, subiram ao terceiro andar. O grupo estava completamente concentrado nos livros. Kasphio falava uma ou outra coisa. Passavam para os próximos livros, logo que terminavam o anterior. Tarwin e Leigh sentaram, e Kae, Saphyre e Ambhar logo os olharam. — Temos uma notícia.

Não queríamos falar assim, mas… Tarwin é meu âme sœur. — falou Leigh, sorrindo.

Tarwin ficou surpreso e sorriu feliz. Kae levantou e já foi abraçar ambos. — Ah, até que enfim! Estavam apaixonados desde as ilhas flutuantes. Não viu quem não quis! Meus parabéns a ambos. — sorriu para Tarwin e Leigh. — Até o garoto Sorag já sabia que teria um pai. — Parabéns. Vocês merecem a felicidade. — disse Ambhar. — Muitas felicidades. — cumprimentou Kasphio. — Obrigada! Saphyre levantou após Kae abraçar demoradamente os dois. Abraçou os três. Depois abraçou Leigh. Colaram as testas juntas, rindo felizes.

— Torci tanto por você, querida. Parabéns, sis. — falou Saphyre, emocionada. — Ainda posso falar seu nome quando precisar de você? — riu. — Sim, mas, quando eu estiver ocupada, não aparecerei, já sabe. — Leigh sussurrou, e elas riram. — Agora vamos voltar aos livros, queridos. Mais tarde comemoramos apropriadamente. Temos Uszo! — Olá… eu gostaria de Uszo, com certeza! — falou Kasphio, e todos riram. Continuaram a pesquisar. Passaram algumas horas assim, lendo sem sucesso, até que Kasphio falou: — Olhem…

aqui há algo. Parece ser sobre a água vida. Eu acho que é importante ler. — Pode recitar para nós, Kasphio, por favor. — falou Kae. — Aqui diz que, quando a água vida fluiu sobre o nosso planeta, teve em seu leito original, como filhos, doze primordiais, cada um de uma espécie. Eles tiveram seus descendentes, mas o poder da vida não fluiu com a maioria deles. E, quando o poder escolheu um de seus filhos, os filhos deles foram recebendo em seus genes a mesma benção.

Com o tempo, foram nomeados como feiticeiros elementais. Tiveram suas progênies, todos muito

poderosos, e, com suas raças misturadas às outras criaturas, se tornaram mais poderosos ainda. Então, alguns nasceram com tal poder que foram proibidos de se reproduzirem e, inclusive, ficaram encarcerados naquele continente. O poço mais límpido da água vida, o que libertará os poderes reais dos doze elementais, é o que deve ser alcançado para que o mal seja drenado. — Pelo que sabemos, só somos três filhas. — falou Ambhar. — Sim, vocês são três…

mas e se, em outros locais, ou até mesmo lá nesta fenda da água vida, houver os outros nove? Só saberemos se formos ver. Não temos outra escolha. — falou Kae. — Mas primeiro teremos que achar minha irmã… e meus pais. Como iremos para lá sem ela e sem eles? — perguntou Saphyre. — Sim, teremos que encontrá-los. Vamos terminar de ler os restantes dos livros, anotar as partes mais interessantes e voltar para as ilhas flutuantes. Precisamos falar com Àsgar e Alanda sobre isso.

Talvez tenham encontrado algo — as fadas invisíveis da floresta. — Espero que sim. Ficaram o restante do dia na biblioteca. Quando a tarde estava findando, resolveram passear na praia, para esticar as pernas e ir encontrar Sorag. Foram todos. Kasphio pediu que o esperassem e, quando voltou, estava do tamanho de Kaeidh. Todos se surpreenderam. Ambhar também. Ela ficou um pouquinho preocupada pela conversa que teve antes com as meninas e Leigh disse que ele poderia ficar do tamanho dos rapazes se quisesse.

Ele caminhou todo galante, com as asas recolhidas e roupas diferentes das que vestia antes. Ofereceu o braço a Ambhar e sorriu. — Kasphio, você está muito bonito. — falou Ambhar. — A senhorita que é muito linda, senhorita Ambhar. — Kasphio respondeu.

— Obrigada. Kasphio… sabe, eu tenho alguém… Bem, não é que tenho alguém, sabe? Apenas gosto de alguém. — E a senhorita não é correspondida? — Acho que não. Não sei bem. — Que pena, senhorita Ambhar. Mas tudo bem: terei a sua companhia como uma amiga. Posso? — deu-lhe a mão, e foram alegremente, com ele saltitando pela areia da praia. Muitas selkies e dríades se estendiam, aproveitando o calor do final da tarde. Ambas com os seios nus, e via-se ainda mais faunos por ali.

Havia uma faixa de areia logo à frente deles que era funda e formava uma piscina natural, na qual várias crianças nadavam e pulavam. Eles se sentaram ali, olhando o mar e sentindo a brisa. Ambhar levantou e foi em direção ao mar, e Kasphio a seguiu. Ela entrou e sentiu a água morna; surpreendeu-se. — É morna! — falou Ambhar, sorrindo. — Incrível, não é? — falou Kasphio, segurando a mão dela e girando, como duas crianças. — Sim… No meu mundo — ou o mundo onde nasci — a água é congelante. Toda água… e de rios também.

Ela ouviu um burburinho e olhou para onde apontavam. Viu, ao longe, uma mancha gigante rosa-escura sobrevoando a praia. Surpresa, arregalou os olhos e soltou Kasphio, que pulou, se equilibrando, e virou na direção que Ambhar olhava, de boca aberta. — Me diz que você não é apaixonada por um dragão, senhorita? Por esse dragão em específico? — perguntou Kasphio. Ela olhou para ele. Encolheu os ombros. — Temo que sim. Mas não esperava que viesse até aqui. Na verdade, não sei o que ela veio fazer.

— Talvez ela goste da senhorita mais do que a senhorita — ou ela — possam achar? — Não acho que seja o caso. Talvez venha apenas dar um recado de Àsgar para Kaeidh.

Ambhar reparou que Fayne a viu com Kasphio antes de ser vista. Ela deu um rasante sobre eles e desapareceu atrás das árvores. Todos olharam para Ambhar; Saphyre levantou para vir ao seu encontro. — O que houve? — falou Saphyre, sussurrando. Kasphio logo ao lado. — Não sei. Talvez ela tenha vindo avisar algo… algum recado de Àsgar. — Não acho que seja o caso. Àsgar fala com Kae todas as noites. — Humm… é. Não sei, então. Após uns dez minutos, Fayne saiu da mata onde havia pousado e estava devidamente vestida.

Veio caminhando com as asas abertas em meia forma e passou direto por todos e, sem nem mesmo olhar para Kae, Saphyre, Tarwin, Leigh e os demais, apenas falou: — Olá a todos. E, com a licença de vocês, preciso falar com Ambhar. Ambhar a olhou com o queixo erguido, ombros para trás. — Olá, Fayne. Esqueceu de algo? — Gostaria de ter uma conversa com você. Por favor, me acompanhe. — Este é Kasphio, uma fada bibliotecário. Ele está nos ajudando muito. E é meu amigo. — Olá, senhorita Fayne.

— Kasphio estendeu a mão para ela. — Olá. — Fayne olhou ele dos pés à cabeça. Virou para Ambhar e a encarou, reparando no vestido. — Está praticamente nua, você percebeu? — perguntou, com uma das sobrancelhas erguidas. Ambhar se olhou e notou, horrorizada, que realmente suas roupas colavam aos seios e quadris e se moldavam às partes do seu corpo, deixando o tecido praticamente transparente. Mas levantou os olhos e olhou ao redor: as ninfas e as selkies nuas da cintura

para cima. Ergueu os ombros novamente, arrebitando os seios, orgulhosa de si. — Nada que ninguém não esteja mostrando naturalmente. Não vi nenhuma só dríade, selkie ou qualquer outra fêmea aqui constrangida, e eu também não irei ficar. Me desculpe se você estiver. Pode voltar para sua casa, se for assim. Todos ficaram olhando as duas. Fayne bufou e falou: — Não vou voltar para casa. Eu vim aqui e vou ficar aqui. Precisamos falar. — Já nos falamos, e eu não concordo. É simples, Fayne.

Se quer viver uma vida sem compromissos, eu apoio sua escolha completamente, mas que não envolva minha vida. Kasphio e Saphyre ficaram olhando as duas; resolveram se afastar e dar privacidade a elas. Saphyre achou que havia uma mudança em sua irmã: ela estava mais decidida. Ficou muito orgulhosa dela. Ambhar viu que Saphyre e Kasphio saíram de perto das duas e começou a caminhar na direção oposta à que Fayne estava. Fayne começou a andar atrás de Ambhar, apenas a seguindo. Ambhar nem olhou para ela.

Caminhou e caminhou, até chegarem bem longe de todos, numa parte vazia da praia. Subiu e sentou numa pedra alta, com uma outra piscina logo ao lado. As ondas batiam mais fortes, respingando água para todos os lados. Ambhar sentou e ficou em silêncio, olhando o horizonte. — Você está diferente, Ambhar. O que aconteceu? — Você aconteceu, Fayne. Eu te disse que estava apaixonada. Você transou comigo — começou, pelo menos — e falou que preferia… me informou… isso: que preferia sexo sem compromisso.

E eu já disse que apoio totalmente isso, mas eu não quero isso para mim. Eu vou pro Continente Primordial — ou algo assim — em busca da profecia, e quem sabe, no meio disso, eu viva a minha vida e talvez eu me apaixone algum dia por alguém que queira estar comigo em todos os sentidos. Não vou ser passatempo

de ninguém. Quero alguém completa e inexoravelmente comigo, Fayne… e já desencanei de você, sabe? Então, pode viver sua vida e seus amores de uma noite. Não farei parte disso. — Tudo bem. Eu fiquei preocupada porque acordei e você não estava. Te procurei e você havia ido embora. Eu… queria me explicar melhor. — Não preciso disso. Sei que você já teve seu companheiro e que ele morreu, e eu sinto muito por isso.

Mas não posso passar tempo da minha vida com alguém que nunca vai me amar porque amou tanto algum outro que não consegue mais sentir nada por ninguém a não ser desejo. Sinto muito. — Eu vim atrás de você. Isso não te diz nada? — Fayne… eu estou há dois ou três dias aqui — não me lembro mais — e uma fada usou muita da sua magia apenas para caminhar na areia comigo, de braços dados. Sabe? Prioridades, não é? Dois ou três dias…

Tem alguém que eu não enganei: avisei que não estou disponível emocionalmente, por enquanto, e, mesmo assim, ele riu, conversou e brincou comigo na água. — Claro! Ele não é bobo. Você está com seu corpo à mostra. Ele apenas aproveitou a vista. — Que coisa ridícula de se dizer! Sabe de uma coisa? Eu me arrependo de qualquer beijo que tenha dado em você. Você, Fayne, é uma fêmea… mas é um poço de machismo enrustido. Não quero mais falar com você. Por favor: isso foi um erro. Volte para sua casa e me deixe.

Não quero mais te ver sequer. Obrigada por me salvar, mas… nossa amizade acaba aqui. Ambhar se levantou e saiu correndo de volta para a faixa de areia em que deixou o seu grupo. Despediu-se de Kasphio e de todos, subiu ao seu quarto, tomou banho e chorou até dormir. Iria esquecer… ah, se iria! Fayne ficou incrédula, sentada ali naquela pedra por… não sabia quanto tempo. Depois de sentir dor nos músculos das

nádegas por ter ficado tanto tempo na pedra, levantou voo e foi para casa. Saphyre viu sua irmã voltar com a face fria e decidida como nunca a vira. Ela falou com todos, deu boa noite e foi pro seu quarto. Saphyre falou com Kasphio, respondeu algumas coisas que ele perguntou. Reparou que a fada ficou olhando a água, meio entristecido. — Eu nunca teria chances com a senhorita Ambhar, não é mesmo? — Eu acho que não. Não pelo que conheço dela. Não por enquanto.

— Não só por isso, mas como competir com a beleza estonteante da fêmea dragão? — Não é uma competição, sabe? Nós amamos ou não alguém, gostamos ou não. Infelizmente não é uma escolha. — explicou Saphyre. — E você acha, senhorita Saphyre, que, se Ambhar pudesse escolher, ela me escolheria? — perguntou Kasphio. — Eu não faço a mínima ideia, Kasphio. Desculpe! — E a senhorita escolheria o rei Kaeidh? — Sim. Todos os dias da minha vida, Kasphio. — Dá para perceber o amor de vocês de longe.

Eu almejo algo assim para mim um dia. Espero ter a mesma sorte que a senhorita teve. — Ele olhou para longe. — Vou me retirar agora. Amanhã nos vemos novamente. — Kasphio, obrigada por estar nos ajudando. Não sabemos o que seria de nós sem você. Você vai encontrar alguém para você. Tenha fé. — A mãe água vida te escute. Sabe? Por mais que me doa, eu irei com vocês a este continente. Espero viver aventuras ao vivo e não somente lendo. Quem sabe, um dia, eu não seja o escritor de alguns livros sobre essas aventuras.

Boa noite, senhorita.

— Seria um prazer para nós. Vou avisar a todos. Boa noite, Kasphio. Saphyre caminhou até Kaeidh e o abraçou. — Gostaria de falar com ela? Kasphio também ficou arrasado ao ver Fayne, não é? — Gostaria… mas acho que ela não vai querer. Ela prefere tomar banho e dormir quando está chateada ou magoada. Vou tentar bater à porta dela, mas é provável que não atenda. Subiram, e Saphyre bateu à porta de Ambhar. Ela não atendeu. — Amanhã converso com ela. Vamos dormir, Kae. Temos um longo dia pela frente amanhã.

Chamas Celestes

Sinopse

Em um mundo marcado por guerras antigas, pactos esquecidos e poderes que jamais deveriam ser despertados, as chamas não nascem do fogo, nascem da escolha. Quando sinais de um desequilíbrio voltam a surgir, reinos inteiros entram em alerta. Dragões desaparecem, portais são abertos nas entranhas das montanhas e forças que haviam sido seladas começam a se mover nas sombras. No centro desse caos está um segredo capaz de mudar o destino de todos: um poder ancestral ligado às Chamas Celestes, cuja existência foi apagada da história. Entre alianças frágeis, traições silenciosas e conflitos que atravessam raças e territórios, personagens são forçados a confrontar não apenas inimigos externos, mas também aquilo que carregam dentro de si. Uma decisão cobra um preço. E a verdade revelada ameaça incendiar todo o mundo conhecido. Chamas Celestes é um romance de fantasia que combina intrigas políticas, magia antiga e tensão crescente, conduzindo o leitor por um universo onde o passado insiste em retornar — e onde nem todos sobreviverão ao despertar das chamas.

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Chamas Celestes

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