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Capítulo 40 · Chamas Celestes

Capítulo 40

40 de 40 ≈ 29 min de leitura

Voltaram às ilhas flutuantes no dia seguinte. Levavam consigo muitas informações e todos os mapas antigos dos locais. Alguns diziam que seria ao norte de Balahad; em outros, viram que o local estava ao sul de Citadelly, o que era muito estranho, pois ficavam em regiões distantes. Então resolveram fazer duas rotas e, a partir disso, enviar os batedores para investigação. Àsgar deu mais notícias a respeito de Sírius.

Disseram que a elfa que vivia ali, atrás dos muros que Borag levantou, era noiva dele — claro que não por sua própria vontade. Disseram que ele ficaria uma semana sem visitá-la, mas que deviam tomar cuidado, pois ele sempre a vigiava; ela não sabia como. Então, Tamany sempre ia até ela na forma invisível. E o sinal de que Tamany estava ali eram sons de pedrinhas caindo no lago.

Elas se comunicavam com lápis e papel, já que a elfa os tinha para desenhar e escrever; em alguns casos, falavam com sussurros, no escuro da noite, antes de ela ir dormir. Por enquanto, perguntaram apenas as coisas mais prementes. Ela disse se chamar Yamine. Sírius estava realmente preocupado com ela e queria tirá- la de lá. Mas ela disse que não podia, pois não sabia dos pais. Tinha que descobrir sobre os pais dela.

Saphyre e Ambhar ficaram achando que ela era Emeraldy, mas, quando falaram que ela disse que se chamava Yamine, desistiram. Então Kaeidh e o restante do grupo foram preparando suas malas, e os suprimentos seriam levados apenas no dia exato de sair para que não estragassem, apesar de fazerem feitiços para manterem a comida por mais tempo. Colocaram cinco barracas cuidadosamente dobradas no fundo das cestas, os cobertores

dracônicos e muitas outras coisas de que precisariam em meio a uma floresta e sem possibilidade de nenhum tipo de civilização. Durante a arrumação, sempre se sentavam juntos e conversavam sobre estratégias de luta — se precisassem — e de sobrevivência em locais extremos. Levariam todo tipo de medicação também. — Faleey, teria algum livro sobre feitiços antigos em sua biblioteca? — perguntou Àsgar.

Àsgar deixou Faleey sabendo do problema do feitiço de escravização que Filanthe sofria, e ele resolveu tirar mais um exemplar raro de magia de sua biblioteca. Deu a Àsgar para que levasse para Filanthe. — Este é o mais antigo e mais completo livro de magia antiga. Aí temos magias e elementos também. As meninas, Saphyre e Ambhar, copiaram algumas das páginas cuidadosamente com a ajuda de Kasphio. Use-o com cuidado. Talvez tenha consequências ao quebrar o feitiço… para a parte que enfeitiçou, obviamente.

Este é um livro muito, muito raro. Repare na capa: isso me faz crer ser um Leabhar Hecate — contou Faleey. — Teremos cuidado. Preciso retirar a menina de Filanthe do castelo primeiro. Temos que bolar um plano para sequestrá-la sem ela perceber. Felizmente, já temos duas fadas invisíveis dentro do castelo. Àsgar prometeu devolver o livro logo que o usasse, comprovando ou não sua eficácia. Teria que voar para lá agora, depois do café da manhã.

Como sempre, levaria as refeições de Filanthe e também falaria com ela sobre os pirims que estavam no castelo. Colocou o livro em sua bolsa, amarrou tudo junto da cesta e levantou voo. Chegou, como sempre, próximo à cabana de Filanthe e observou ao redor. Hoje estava tudo silencioso demais. E ele sabia o que isso queria dizer: havia algum tentri por ali.

Àsgar ficou esperando, escondido e imóvel. Viu o tentri passar resfolegando e arranhando o chão com suas patas gigantes. Ele parou e farejou. Virou para o lado contrário de onde veio. Andava devagar, o corpo abaixado e atento, pronto para pular. Suas costas musculosas tremiam, os pelos eriçados. Salyan saiu detrás de um arbusto. O tentri bateu os dentes próximos ao rosto dela. Ela se ajoelhou e falou: — Por favor, Borag… me deixe voltar, querido.

Eu juro que não te atrapalharei e não falarei mais sobre nos casarmos. Me deixe voltar! Àsgar teve pena da pobre bruxa. Completamente enfeitiçada. Sofrendo por um amor que nunca seria verdadeiro. O tentri olhou a bruxa; seus olhos ficaram leitosos. Uma voz saiu de seus lábios animalescos: — Eu já lhe disse: pare de me atormentar, Salyan. Se quiser gozar da minha presença novamente… obedeça! — Por favor, estou sofrendo sem você! — É claro que sofre, querida. Meu feitiço necessita que você me beije e me satisfaça.

Só não lhe matei ainda porque você é muito linda e útil, mas, se me irritar, posso transformar você em tentri. Agora eu tenho os meios para fazer isso e muito mais. O sangue de Mona é muito potente. Infelizmente, tenho que guardá-la e tratá-la bem para que fique saudável, para usar seu sangue. Não fosse por isso, eu já teria muitos tentri elfos, century e outros… Àsgar arregalou os olhos. Mona! Será que ele teria Sátio também? — Eu sei, Borag. Você é muito poderoso. Eu te amo. — Eu sei disso.

Continue assim, que conseguirá voltar. Agora vá para sua casa — ou qualquer cabana que chame de casa — e me deixe em paz. Estou trabalhando e não tenho tempo a perder com bruxas choronas. Ah… ache mais dwarfs para mim e prenda-os do jeito que te ensinei. Seja boazinha, Salyan. O tentri voltou ao normal e correu pela floresta novamente.

Depois de um tempo, Salyan saiu da posição em que havia ficado e levantou-se. Àsgar iria ver com Filanthe se não havia algo para quebrar o feitiço dela. Pobre garota: seu corpo estremecia sem parar. Suas lágrimas eram reais e abundantes. Precisava ajudá-la. Quem sabe não quebrava o feitiço dela e a tirava da floresta? Àsgar havia entrado em contato com todos os nomes das bruxas que Filanthe e Kaliophe haviam escrito numa folha. Estavam a um passo de engrossar suas fileiras.

As bruxas haviam lhe dito a verdade; usara o gás clitiun em todas, e os resultados haviam sido efetivos. Havia prometido uma das ilhas para elas, e uma equipe já estava construindo as casas como elas preferiam, acima das árvores. Àsgar esperou e ouviu mais um pouco ao redor da floresta. Acompanhou Salyan até a casa de Kaliophe, que a encontrou e a acarinhou. Depois, ele levantou voo e foi direto à casa de sua mulher. Não era sua mulher… não ainda, ao menos. Ou era, mas ela apenas não sabia.

Não querer é diferente de não ser. Porque ele era dela desde o momento em que seus olhos a viram. Tarwin havia lhe confessado que foi de Leigh há tempos, mas nunca estiveram juntos; somente agora haviam descoberto que ele era seu âme sœur. Antes disso, ele havia sofrido enormemente, pois ela tinha outro âme sœur. E Àsgar não imaginava o que seria para ele nunca estar com Filanthe por tanto tempo quanto Tarwin ficara sem Leigh.

Amando sozinho, quando só gostaria de levá-la com ele para onde fosse e viverem juntos, dia a dia. Àsgar nunca se apaixonou, nunca amou. Sexo era livre em sua raça, e na maioria das raças era tido como algo natural após jovens adultos. Era algo normal e não havia nenhum tipo de tabu, já que as dragões fêmeas escolhiam quando ficar férteis. Elas decidiam quando engravidariam e de quem, e sua fertilidade tinha um

cheiro distinto. Todo dragão macho sabia quando uma fêmea estava fértil. Então não havia nenhuma possibilidade de algum dos dragões não querer o bebê dragão ou não saber que o filho era dele. A criaturinha já nascia com a mistura das duas cores, e seu cheiro era a mistura dos cheiros dos dois pais. Todos sabiam de quem era a criança. Já as bruxas… Àsgar não fazia ideia de como seria.

Precisava ler sobre isso, já que não podia perguntar diretamente a Filanthe, com medo de ela interpretar mal e não querer mais se encontrar com ele. Afastá-lo agora seria, para ele, como se lhe arrancassem a alma. Queria mais que tudo protegê-la, e seu idílio era tudo o que ele tinha dela. Por enquanto. Esperava que tivessem mais; que tivessem tudo. Queria olhar naqueles olhos díspares para sempre. Chegou próximo à cabana dela.

Olhou e viu, ao longe, que ela já estava à sua espera na varanda, tomando sol, que já ia pleno no céu. Algumas coisas já estavam postas na mesa de fora, para tomarem o desjejum. Ela estava com um top e uma saia — ao menos, ele achava que era uma saia — de cor terrosa; os braços e pernas estavam de fora; os olhos fechados, aproveitando o calor na pele. Àsgar sabia que ela não usava roupa interior por causa das correntes, e isso o deixava louco.

Pensava nela todos os dias, e odiava a hora de voltar para casa e deixá-la. Chegou à varanda e pousou lentamente, suas asas batendo e levando uma lufada de ar ao rosto dela. Ela abriu os olhos e encarou os dele com aqueles olhos maravilhosos de cores diferentes. Sorriu e suspirou. — Estava te esperando. Ele sorriu para ela, se abaixou em um joelho só, sem nenhuma palavra. Colocou a cesta e a bolsa com o livro no chão de madeira.

Passou os braços por suas costas, trazendo o corpo dela mais para frente no assento da cadeira, se aconchegando em seus braços.

Encostou o rosto no pescoço dela, cheirou seus cabelos; aquilo era o que queria. Ela o abraçou e encaixou o rosto no pescoço dele. O tempo pareceu parar — e, por um momento, nada mais importou além do toque, do calor e da fome mansa que sentiam um pelo outro. Beijaram-se, e a urgência os conduziu para dentro da cabana, até que o mundo lá fora se resumisse a silêncio, respirações e promessas ditas sem palavras. Quando voltaram à varanda, ainda ofegantes e com a pele quente, Filanthe se acomodou de novo na cadeira.

Àsgar sentou ao lado dela, colocou as coisas na mesa e lavaram as mãos em uma bacia de água que estava ali para esse propósito. Então ela o olhou, séria. — Eu tenho notícias sobre sua filha. Kaly se encontra bem. Ela, aparentemente, apenas estuda magia — para ser mais claro. Borag é surpreendentemente bom para ela. Não sei se pelo poder, ou pelo fato de ela ser carinhosa com ele. Os pirims que estão lá dentro já mandaram seu primeiro relatório ontem à noite.

Quis te chamar para te falar, mas você havia acabado de dormir e não quis te acordar. — Oh… ele se apegou a ela, então. Eu imaginei que isso aconteceria. Ela é uma menina adorável. — Tentaremos levá-la para algum local em que possamos buscá-la sem que ela saiba. Pensei em enfeitiçá-la para que durma. Temos medo de ela avisar Borag sobre nós. O que opina? — Acho que é o mais acertado. Obrigada. Àsgar pegou de sua bolsa o livro. Filanthe arregalou os olhos, mastigando um pedaço de pão doce. — Doce mãe da vida!

Um Leabhar Hecate! De onde você tirou isso? Ela pegou o livro reverentemente, abrindo com cuidado, com medo de ele se dissolver em suas mãos. A capa era feita com as mais diversas peles de seres, costuradas umas às outras, e, ao

passar as mãos nela, rangeu e gemeu — sentindo o poder aprisionado. O livro se abriu rápido; as páginas flutuaram em sua frente até pararem no ar. Filanthe recebeu um choque de energia que vinha do livro. Ela disse em voz alta, mas uma voz que não era dela: — “Terrificante! O teu poder me domina, grande poder que fascina… Sua liberdade terá. Hecate te presenteia: tua liberdade receba agora!” Um estrondo se deu no peito dela, saindo em ondas visíveis, balançando as árvores ao redor até perder de vista.

Àsgar se levantou ao primeiro estampido e se colocou a postos para voar e levá-la com ele, caso a cabana desabasse. Mas não houve nada. O livro caiu na mão dela. Ela o olhou, perplexa, os corações disparados. — Ela… o livro… ou algo que está no livro… não sei o quê… me libertou. Me escolheu. — Não pode ser! Você disse que, se isso acontecesse, Borag saberia. Que você estremeceria toda a terra com seu poder acumulado. O que aconteceu? — O livro me restringe. Ele controla meu poder. Ele me deu seu poder.

Eu controlo tudo: o meu poder e o poder que o livro contém. Deuses… Ela levantou a perna, e as correntes não existiam mais. — Suas correntes sumiram, Filanthe! — O que acontece se ele vier? Vai ver que minhas correntes sumiram. Preciso das minhas correntes de volta! As correntes apareceram na hora. Eles ficaram assustados. — Deuses, Filanthe… você tem todo o controle sobre isso? — Não quero minhas correntes. As correntes desapareceram de novo. — O livro me deu o controle de vários feitiços. Eu já ouvi falar disso.

Mas Borag queimou e destruiu muitos livros e bibliotecas… não acho que haja alguém com vínculo com nenhum Leabhar

Hecate. Não atualmente. Este é um livro raro. É cheio de magia e poder. Eu nunca imaginei que isso poderia acontecer. Nunca comigo. — E agora… o quê? — E agora tenho que continuar a ser cautelosa. Ele ainda tem a minha filha. Os olhos dela se encheram de lágrimas. — Eu não estou mais aprisionada… mas Kaly está! — A voz falhou. Àsgar se sentiu aliviado e culpado ao mesmo tempo. Puxou o corpo dela para o colo e a embalou como uma criança. — Sim. Mas vamos tirá-la de lá. É questão de tempo.

Agora que temos gente nossa lá dentro, estamos mais perto de libertá-la do que jamais estivemos. Me desculpe por trazer o Leabhar Hecate. Eu não sabia que isso aconteceria. Ela se ergueu e segurou o rosto dele, olhando em seus olhos. — Você não poderia saber. De onde o trouxe? Como isso ainda existe? — O rei Faleey me trouxe da sua ilha distante… com seu castelo, biblioteca escondida. A biblioteca é mágica e esconde os livros. É realmente incrível. Meu pessoal voou para lá.

Temos duas elementais que precisavam ser educadas e uma profecia a ser desvendada. Faleey apareceu na reunião em minha casa e os levou até sua ilha. — Eu gostaria muito de conhecê-lo e agradecer. Eu não poderei mais devolver seu livro. O que faremos? Àsgar sentiu uma emoção atravessá-lo. Ele poderia levá-la até sua casa… e trazê-la antes do fim da tarde. Queria que ela o acompanhasse. — Posso levá-la até lá. Na verdade, gostaria muito de levá-la ainda hoje. Agora. Vamos? Ela o olhou.

— Deuses… eu posso sair. Finalmente… Mas tenho que estar de volta aqui antes do anoitecer. — Prometo que a trarei. — Não sei se ele virá esta noite. Apesar de ter dito que não viria por uma semana, eu não confio na palavra dele. Talvez venha hoje. E preciso estar aqui, com as correntes devidamente presas aos meus pés. — Sim, claro. Estará. — E tenho que arrumar um jeito de esconder o livro dele. Ele cheira o poder. Sabe como achá-lo. O livro, como se estivesse vivo, abriu em cima da mesa em uma página. — Oh… sim.

Um feitiço de ocultação. — ela falou como se estivesse falando com o livro. — Entendo. Está feito! Ela abriu os olhos, como se tivesse pensado em algo. — Um feitiço contra outro feitiço de amor… você teria, Leabhar? Ele revirou as páginas novamente e abriu em uma. Ela olhou e piscou. — Sim… seria isso mesmo. Filanthe olhou para Àsgar. — Poderíamos passar na casa de Kaliophe na ida para sua ilha flutuante? Tenho o feitiço para libertar Salyan. — Deuses, Filanthe… Kaliophe vai adorar você pelo resto da vida!

— Pretendo usar Salyan para tirar minha filha da montanha, e preciso dela afiada com seu poder e com a mente limpa e fria. Não faço apenas por bondade. Ela levantou e, com um movimento de mãos, fez tudo que estava bagunçado sumir num piscar de olhos — inclusive o livro — o que deixou Àsgar boquiaberto. Fez desaparecer as correntes. Entrou na cabana e colocou uma calça ajustada na cintura e nos tornozelos, calçou sapatos e uma blusa.

Enquanto Àsgar apenas a olhava, admirando sua bruxa plena de poderes, ela caminhou na direção dele e o segurou pelo pescoço. — Vamos? Precisamos lutar contra um desgraçado… e eu estou pronta para começar a minha parte. Ela o beijou. Àsgar segurou a cintura dela, caminhou até a varanda, fechou as portas e voaram para a casa de Kaliophe. Algum tempo depois, pousavam do lado de fora da porta de entrada. Filanthe se aprumou e bateu. Salyan veio abrir e arregalou os olhos ao vê-los. — O que…? Ela se calou.

Filanthe colocou um dedo na testa de Salyan e puxou algo que saiu de dentro dela, se contorcendo e sibilando. Esmagou a criatura, que se desintegrou em suas mãos. Salyan imediatamente deu um gritinho. Kaliophe veio correndo ao ouvir o grito e, quando olhou Salyan e Filanthe, percebeu que o feitiço havia sido quebrado. Salyan recuperava sua vivacidade e beleza; seu poder irradiava — o que ela logo controlou. — Graças à deusa, mãe vida! Mas como?! — falou Kaliophe, em lágrimas. Abraçou Salyan. — Mãe… me perdoa.

— Não, filha. Não é sua culpa. — Respondendo à sua pergunta, Kaliophe… eu me vinculei a um Leabhar Hecate. — informou Filanthe. — Incrível… Mas esses livros não estavam extintos? — perguntou Salyan. — Achava que sim. Àsgar trouxe de muito longe. — Filanthe sorriu. Kaliophe olhou Àsgar.

— Obrigada. Não temos como agradecer. — Na verdade, têm, sim. — Filanthe ergueu o queixo. — Vocês irão me ajudar a reaver minha filha. Depois passo para lhe dizer o que deve fazer. Ela respirou fundo. — Mas o mais importante é que Borag não pode saber. Você terá que encenar estar apaixonada por ele, Salyan. Consegue fazer isso? — perguntou Àsgar. — Saberei. Se eu tiver a minha vingança, eu farei qualquer coisa. Será um prazer salvar sua filha das mãos dele. — Então nos veremos amanhã. Até lá.

— Filanthe se voltou mais uma vez. — Ah… além do feitiço quebrado, ainda coloquei um em que ele — ou qualquer outro a mando dele — não pode mais te enfeitiçar. E outro para que ele não saiba que você já não está mais sob a magia dele. Até amanhã. — Até. Obrigada. — disseram mãe e filha em uníssono. — Até amanhã. — despediu-se Àsgar. Ele abraçou sua bruxa e voou em direção à ilha flutuante. Os olhos dela brilhavam; um riso escapou de sua boca.

Ela o abraçou mais forte e olhou todo o mundo que não via — que nunca viu — não daquela forma, e nunca daquela altura. Muito menos nos braços de um dragão… o seu dragão. A esperança — ou o Leabhar Hecate — cobriu seu corpo de uma energia tão cálida, tão forte e tão sublime. Pensou que também estivesse sentindo assim por estar nos braços dele. De Àsgar. De tudo.

Kaeidh, Saphyre, Ambhar, Tarwin, Faleey, Leigh, Kasphio, Zenit e Zarin estavam na sala de reuniões conversando sobre o trajeto até o continente quando Àsgar chegou, trazendo ao seu lado Filanthe. Todos olharam a magnífica figura de cabelos encaracolados e ruivos, olhos díspares, de mãos dadas com Àsgar.

— Boa tarde, pessoal. Esta é a bruxa Filanthe. — apresentou Àsgar. — Olá! — disse ela a todos os presentes. — Estes, como você já conhece, são Zenit e Zarin. Estes são Saphyre e Ambhar, as elementais. Leigh, irmã do rei Kaeidh. Rei Tarwin, Kasphio e rei Faleey, que foi quem me trouxe o livro. — Olá. É um prazer conhecer todos. Zarin reparou nos tornozelos dela. — Ela não estava presa à cabana dela, com correntes nos dois pés? — Sim… e, por causa do livro que Faleey me deu, ela está livre. — Àsgar olhou para Faleey.

— Mas tenho que lhe informar que o livro se vinculou a ela, rei Faleey. Não poderemos devolvê- lo. — Oh… eu já esperava por isso. Li algo sobre esse acontecimento. Que bom que a biblioteca encontrou alguém para cuidar do Leabhar Hecate. Senti que ambos estavam lutando um com o outro naquele edifício. Muito bom. Então conseguiu se livrar do feitiço. — Sim. E olhem… quero minhas correntes. As correntes apareceram. Todos olharam para os pés dela. — Não quero mais essas correntes. As correntes sumiram. — Uau…

você ficou superpoderosa. — comentou Zarin. — E o melhor: eu uso os poderes do livro e ele usa os meus. Nos controlamos e completamos muito, muito bem. Àsgar puxou uma cadeira para Filanthe. — E agora, sente-se, Filanthe. Ela se sentou. Àsgar virou-se para sua cadeira, sentou também e falou: — Vamos aos negócios. Borag tem a filha de Filanthe em seu poder. Ela cresceu com ele e o chama de papai. Aparentemente —

pelo que os pirims apuraram — ele, surpreendentemente, a trata realmente como se ela fosse sua filha. Ela não sabe que Filanthe é sua mãe e que ela foi roubada dela. Acha que Filanthe é má e que roubou ela de Borag; que sua mãe morreu e que ele a salvou ao reencontrá-la. Àsgar respirou fundo. — Filanthe e eu temos um trunfo: Filanthe retirou a magia de sangue do amor que prendia Salyan a Borag, e agora ela quer vingança pelo que ele lhe fez.

Vai fingir que ainda é apaixonada por Borag, entrará no castelo novamente e trará Kaly para fora — e nós a tiraremos de lá. Este é o plano inicial. Temos que elaborar muito mais. Kaeidh cruzou os braços. — Sim, não podemos esquecer que não é só a filha de Filanthe que está no castelo dele e é vítima de seus feitiços. Existem escravos. Temos que tirá-los de lá também. Não sei como faremos isso. — Sim… não podemos nos esquecer da princesa Yamine, que está presa lá e que tem os pais como reféns. — falou Saphyre.

— E temos que pensar isso tudo enquanto arquitetamos um plano para ir até o continente onde a montanha de Toiseach Beatha está… ao norte de Balahad e ao sul de Citadelly… talvez. Não se sabe ao certo. — Temos que focar, cada um, em seus objetivos. Mas precisamos planejar como tiraremos todos da montanha sem que Borag perceba. — concluiu Kaeidh. Filanthe ergueu uma sobrancelha. — Pensei em darmos uma tremidinha básica na terra. Já que minha filha herdou os meus poderes, talvez Borag pense que ela fez isso e não eu.

Àsgar assentiu. — Sim. Mas vamos por partes. Primeiro, um dos pirims — ou Salyan, mais provavelmente Salyan — levaria Kaly até lá fora, de

algum jeito, para colher ervas pra feitiços. Ao mesmo tempo, nossos pirims tentarão soltar os prisioneiros… e isso tem de ser durante o dia. Borag estará dormindo, e os tentri não poderão sair e fazer absolutamente nada contra quem estiver fugindo. Desceremos eu e mais alguns dragões com nossas cestas, onde colocaremos o máximo de reféns dentro. Ele apontou para um mapa na mesa. — Enquanto isso, algum de nós vai pegar Sírius, Tamany e Yamine do outro lado da montanha.

Mas isso no último segundo, pois, se os pais dela ficarem presos, sem conseguir sair de lá, Yamine não aceitará deixar o local — e, se deixar, Borag usará os pais dela para que ela volte. Temos que ter tudo ou nada. Depois, Filanthe… você pode sacudir tudo que quiser nesta montanha. — Achei a ideia excelente. — falou Kaeidh. — E nós iremos para as ilhas, nos dividiremos e nos encontraremos no meio ao final da excursão dos batedores. Lá veremos para onde iremos de verdade. E assim fariam.

Sírius recebeu as mensagens de Àsgar. O planejamento para retirada de todos os escravizados, prisioneiros e reféns estava feito. Agora avisariam Yamine e logo a resgatariam, se desse tudo certo. Se não desse certo — e não conseguissem tirar seus pais — ela não iria embora, Sírius tinha certeza. E ele ficaria com ela, em qualquer circunstância. Saphyre estava apreensiva por causa dos planos de retirada de todos da montanha. Pensava que seus pais ou sua irmã poderiam estar ali, ou em casa.

Se estivessem em casa, talvez tenha sido somente alguma explosão em algum local da casa ou da região que tenha causado isso. Mas qual a explicação para o portal? Existiam muitas lacunas que ela precisava encaixar. Agora mesmo, estavam se preparando para uma viagem que talvez desse retorno e talvez não desse. Pensou que, se sua irmã e

seus pais estivessem prisioneiros de Borag, teriam uma chance de escapar… e que ela queria estar ali. — Kae? — Sim, tarine? — respondeu ele, levando algumas coisas para a carruagem. — Gostaria de participar amanhã do resgate. Kae parou e colocou uma caixa no chão ao lado dela. — Gostaria? Por quê? — Eu acho… posso estar errada, claro… mas acho que meus pais e minha irmã estão na montanha, presos. Queria ter a chance de averiguar. Você me acompanha? — Pode ser muito perigoso, e você não tem o treinamento suficiente.

Caso aconteça algo errado e ele consiga te prender… você é uma elemental. Ele será imediatamente atraído por você, Saphyre. — De longe, Kae. Preciso me certificar. Se você não vier comigo, eu irei sozinha. Crio asas como você, assim como criei guelras e barbatanas. Eu sei que você quer me proteger, mas eu preciso disso. E tenho meu fogo também. Não é possível que dê tudo errado. Se der, nos comunicamos de imediato com todos. Kae pensou. Suspirou. Ela não iria mudar de ideia.

Estaria a postos com ela até o fim do resgate. Ela precisava dele, e ele estaria ali por ela. Iriam à primeira investida real de guerra contra Borag: ele e Saphyre. Ele pediu aos deuses que conseguissem, porque, se perdesse ela — de qualquer forma — não iria sobreviver desta vez. — Iremos. Vou avisar Àsgar. E os planos mudaram. Saphyre havia resolvido ir, e Àsgar avisou a ela e Kaeidh para ficarem em um local de difícil acesso para os aliados de Borag e fácil de sumir com a carruagem. Então resolveram que a melhor

estratégia seria se posicionarem em cima do muro, junto de Sírius e Tamany. Foi o que fizeram. Ambhar não ficou sabendo disso, já que Saphyre sabia que podia ser perigoso o que faria e não queria que a irmã corresse esse risco também. Então eles simplesmente foram, e o restante da turma foi avisado que teriam mudado a data para o dia seguinte. Toda uma frota de dragões e a armada de Zoltark já estava lá quando chegaram. Kae já foi dizendo para Zoltark proteger Saphyre, caso necessário.

Eles estavam todos com as armaduras que Àsgar havia desenvolvido. Todos muito bem protegidos. Olharam ao longe: movimentos na base da montanha. Avistaram uma ponte móvel que desceu por cima do rio de lava, dando passagem a alguns seres que foram andando em uma carroça até passarem e entrarem no cânion. Depois, avistaram uma segunda movimentação. Viram três seres saírem pela porta de pedra e caminharem em direção ao bosque. Uma delas retirou o capuz e jogou os cabelos: era Salyan.

E esse era o sinal de que ela estava com Kaly — mas havia mais um acompanhante não planejado com elas. Salyan andou mais alguns metros dentro do bosque e, pegando uma pedra no caminho, bateu com força na cabeça da terceira acompanhante. A segunda, que estava de capuz, não viu o que houve; Salyan fingiu assustar-se, como se a terceira pessoa tivesse apenas desmaiado, virou e pediu ajuda à segunda.

Quando a segunda se agachou ao lado das duas, Salyan soltou uma rajada de feitiço que saiu em ondas verdes de suas mãos e fez a segunda pessoa cair, desmaiada. Receberam o sinal de que deveriam retirá-las de lá. O que fizeram imediatamente. A primeira parte estava concluída. O portão havia ficado aberto. Só havia escravos enfeitiçados, e eles recebiam ordens: o feitiço causava apenas estupor no ser.

Então praticamente não tinham vontade própria. Por isso, ninguém ordenou que fechassem os portões — e, obviamente, ninguém o faria. Àsgar se preparou para entrar. Saphyre estava suando ali em cima. Sírius estava descendo ao local com Zoltark. Eles demoraram. Kaeidh viu, de cima, com a luneta que levaram, que ele falava com a elfa; ela concordou, e eles ficaram sentados à espera. Saphyre sentia o estômago embrulhar e as pernas tremerem.

Estava dentro da carruagem, mas sentia uma euforia e um nervoso tão imensos que não conseguia nem pensar no alívio que seria quando tudo acabasse. Torcia para que todos ficassem a salvo. Àsgar avisou que Kaly e Salyan haviam conseguido escapar e que já estavam a caminho de um local seguro. Os pirims haviam trancado a porta de Borag para atrasá-lo e haviam encontrado duas centurys tentri e alguns outros seres parcialmente transformados no fundo da montanha, no último local onde davam as escadas subterrâneas.

Acharam que era o lugar onde Borag fazia os experimentos. Infelizmente, todos estavam mortos. Alguns pirims estavam presos no andar de cima. Era o local onde Borag mantinha aqueles que mais o interessavam pelos poderes. Havia uma fêmea — não sabiam se era bruxa — e um macho elfo, congelado em um feitiço. Filanthe entrou com Àsgar nas celas. Tocou o elfo e o tirou do torpor do feitiço. Os olhos dele eram puro ódio. A companheira estava fraca demais e havia desmaiado — ou estava adormecida.

Nos braços dela, viam-se marcas de cortes seguidos. — Sou Sátio, e esta é minha esposa. Não podemos partir: nossa filha está presa em outro local, do lado de fora da montanha. Se formos, Borag nunca a deixará. — disse o elfo, desesperado. — Sua filha se chama Yamine? — Não. Minha filha se chama Emeraldy.

— Não achamos ninguém assim. Nosso rei Sírius está com uma elfa… ela tem cabelos platinados e pele castanha. É ela? — Sim! — Pois então venham. Ela está apenas esperando que vocês estejam em segurança para também sair daqui. Me dê sua esposa. Rápido. Saíram todos: os pirims, alguns elfos que Filanthe libertou do feitiço e das correntes. Estavam na boca da caverna e avisaram que estavam carregando os pais da elfa que estava com Sírius. Imediatamente, Zoltark subiu com Sírius e Yamine em suas costas.

O restante dos elfos e outros seres escravizados, que mancavam ou se encontravam feridos demais para andar, foram carregados pelos centurys e dragões em sua meia forma. Eram dezenas de seres: alguns mutilados; outros, tão machucados que se viam irreconhecíveis. Filanthe sofria ao ver aquilo. Pela forma em que estavam. Ela iria vingar a todos. Seu poder em ebulição quase transbordava de dentro de si. — Senhor… há um century tentri. Ele está transformado, mas mantém sua consciência, senhor.

— informou um elfo que trabalhava na estrebaria externa. — Infelizmente não podemos levá-lo. Borag tem olhos para ver por ele. Ele está perdido para nós. — Vamos! Vamos, todos! — disse Àsgar. Os primeiros dragões já haviam ido embora. As bruxas das florestas já tinham sido removidas, e os dwarfs já estavam de sobreaviso para que governassem dentro dos muros de proteção. Zoltark passou por Kaeidh, e Kaeidh subiu atrás dele. Tamany já voava velozmente à frente deles, junto a Zoltark. Saphyre soltou um suspiro.

Não havia visto ninguém. Ouviram um grito estrondoso: era o grito de Borag — e mais e mais gritos dos tentri, que, presos, tentavam sair e se queimavam.

Filanthe se posicionou e começou a flutuar. Suas mãos faziam movimentos como se estivesse esmagando e prensando algo extremamente duro. A montanha tremeu, gemeu e estalou. Uma avalanche se fez. Tudo desabou. Filanthe olhou satisfeita para a pilha de pedras destruídas. O som das patas dos tentri e os gritos cessaram.

Prólogo

Um portal foi aberto nos fundos da montanha. Um corpo foi puxado para dentro dele, e um rosto conhecido de Borag sorriu cruelmente ao ver o filho que havia fugido. Levantou a cabeça e sentiu o cheiro do poder do lugar de onde Borag saiu. Agradou-se do cheiro. Ele queria esse poder.

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Chamas Celestes

Sinopse

Em um mundo marcado por guerras antigas, pactos esquecidos e poderes que jamais deveriam ser despertados, as chamas não nascem do fogo, nascem da escolha. Quando sinais de um desequilíbrio voltam a surgir, reinos inteiros entram em alerta. Dragões desaparecem, portais são abertos nas entranhas das montanhas e forças que haviam sido seladas começam a se mover nas sombras. No centro desse caos está um segredo capaz de mudar o destino de todos: um poder ancestral ligado às Chamas Celestes, cuja existência foi apagada da história. Entre alianças frágeis, traições silenciosas e conflitos que atravessam raças e territórios, personagens são forçados a confrontar não apenas inimigos externos, mas também aquilo que carregam dentro de si. Uma decisão cobra um preço. E a verdade revelada ameaça incendiar todo o mundo conhecido. Chamas Celestes é um romance de fantasia que combina intrigas políticas, magia antiga e tensão crescente, conduzindo o leitor por um universo onde o passado insiste em retornar — e onde nem todos sobreviverão ao despertar das chamas.

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