Universo da obra
Universo da obra
Ali, naquela barraca, aquela elfa de cabelos cor de cobre pegando comida para o meu sobrinho Sorag… é a minha irmã Leigh. — apontou Kaeidh. — Logo virão se juntar a nós. — falou e voltou-se para Kasphio de novo. — A rainha Alanda havia mandado procurarem por você, mas não haviam te encontrado em nenhum lugar de Filanthopia. — Sim? Que coincidência. Esquecida, você disse? Há uma profecia sobre isso… Mas voltando ao assunto: eu vim diretamente para cá em busca de conhecimento.
— falou mais baixo, em tom de conspiração. — Eu estava em uma biblioteca em Filanthopia e vi um livro com uma marcação. O livro era antigo, feito de papiros, e me deixou extremamente curioso. Nem as bordas eram aparadas. Na marca, em dourado, havia uma menção à biblioteca de Satiriant. Fiquei intrigado. Fui pesquisar nos mapas: nenhum deles tinha absolutamente nada sobre Satiriant. Passei dois meses em buscas nos fundos da biblioteca e, por acaso, achei um mapa antiquíssimo, que guardei na memória.
Tenho memória fotográfica… sabem o que é? — Todos pararam para pensar e fizeram que não. — Eu explico! É a habilidade de olhar algo e a imagem fica guardada como uma tela pintada em sua mente, para sempre. Então, sempre que eu quero, eu apenas volto a pensar na imagem e a vejo nitidamente em minha memória. Não sei se isso é algo só meu ou algo referente à minha descendência. Mas nunca saberei: meus pais foram assassinados e eu estava apenas começando a aprender os ofícios de bibliotecário.
Então eu simplesmente, usando minhas técnicas de memória, voei imediatamente para cá. Para aproveitar a maravilhosa e exuberantemente rara coleção do Reino Fauno de Satiriant. Um reino praticamente não conhecido pelos nossos povoados, se não
me engano. E estou há mais de três meses aqui e não li nem uma ínfima parte desses livros valiosíssimos. Kaeidh olhou rapidamente para Saphyre e Tarwin. Todos já com entendimento sobre o que ele estava pensando. — Então, se perguntarmos a você sobre seus estudos primários, você se lembraria, Kasphio? — perguntou Saphyre. — Obviamente, meus caros. Eu até os recitaria e reescreveria em algum lugar. Por quê? — falou Kasphio.
— Porque talvez você tenha em sua memória coisas importantes de histórias que foram destruídas e nunca mais recuperadas. — falou Tarwin. — Assim como meus pais… — falou Kasphio, de cabeça baixa. — Sim, assim como seus pais… e talvez como os meus pais e os de Ambhar. — Saphyre comentou, com lágrimas nos olhos. — Seus pais foram mortos?! — falou Kasphio, surpreso. — Não temos certeza. Eles e nossa irmã estão desaparecidos desde que viemos para seu planeta, após uma explosão em nosso lar.
Caímos em um portal que nossos pais escondiam debaixo de nossa casa. — explicou Ambhar. — Portais! Li sobre isso. Então vocês não são daqui? Vieram de onde? — Viemos do planeta Sart. — E por acaso algum de seus pais são elementais? Porque, pelo que eu saiba, apenas os elementais — e Borag, claro — podem abrir portais. — Borag pode abrir portais?! — falou Kaeidh, surpreso. — Sim, mas ele abre apenas porque… — falou bem baixinho — …bebia o sangue dos elementais. Todos ficaram estarrecidos. — Bom, ele matou a todos.
Vocês nunca se perguntaram por quê? E também o porquê de todas as outras raças criarem um muro gigantesco para nos proteger dele? Uma sociedade inteira de vários seres escondida atrás de muros?
— Deuses… você nunca mencionou isso a ninguém. Por quê? — perguntou Tarwin. — Eu era o único parente de um bibliotecário, e eu estava vivo. Eu estava preso embaixo da sala de minha mãe. Eles tinham um subsolo na casa; lá guardavam livros pessoais da família. Meus pais já tinham escutado os rumores das mortes de bibliotecários e estavam em casa empacotando coisas para sair da cidade, após a biblioteca deles ser incendiada.
Estavam afobados juntando os livros que nos eram importantes quando ouviram os gritos dos tentri. Minha mãe me colocou dentro do subsolo, falou para eu ficar em silêncio, não importava o que eu ouvisse; desceu a porta e baixou o tapete e o sofá em cima. Eu ouvi quando Borag destruiu a porta de entrada da nossa casa numa explosão. Quando Borag apareceu com os tentri, meu pai tentou negociar, dizendo que podia ajudá-lo de alguma forma. Ele não quis… Eu simplesmente fico, até hoje, aterrorizado com isso.
— E como você conseguiu sair? — perguntou Tarwin. — Ouvi os gritos de meus pais. E depois o silêncio. Após poucos minutos, fiquei invisível e saí de lá. Havia ainda um pequeno portal. E fiquei aterrorizado com tudo que presenciei após sair. Meus pais estavam mortos. Ouvi um estalo e, do portal, saiu uma bola de fogo flamejante em direção à nossa casa. A bola explodiu imediatamente ao tocar a parede. Pulei no subsolo e fechei a porta no último segundo.
Fiquei ali até não ouvir mais barulhos de fogo e, sentindo que as paredes já estavam frias, tomei coragem e saí em busca de ajuda. — E você ouviu mais alguma conversa entre seus pais e Borag? — Não. Eu fiquei alguns meses em um abrigo infantil com outras crianças. Eu não disse de onde vim nem quem eu era. Estava com medo de ser perseguido por Borag e seus tentris. Fiquei muito doente. Tive muitas queimaduras, muitos traumas, e estava fisicamente incapaz. Eu só dormia, mal me alimentava. Acharam
que eu morreria. Mas sobrevivi. E fiquei me escondendo pelo resto da vida. Somente ano passado eu resolvi… na verdade, minha curiosidade e necessidade me fizeram entrar novamente em uma biblioteca. Parece que fui feito para ela. Tenho sede de conhecimento. É um… chamado, entendem? Todos ficaram horrorizados com o relato dele. Leigh caminhou para perto deles e se manteve em silêncio, apenas ouvindo. — Sentimos muito, Kasphio. — disse Saphyre. — Esta é Leigh, a que estava na barraca de comida, e este é Sorag. — Olá.
Como estão? Sou Kasphio. — Estamos bem, obrigada. E você? É um prazer conhecê-lo. Você foi muito corajoso. Não se engane: aquelas coisas, os tentri, são horripilantes. Fez bem em se proteger. — disse Leigh a ele. — Sim. Eu fui perseguida por um, logo que cheguei. A minha sorte é que Ciana estava lá para me ajudar e me colocou para dentro do muro de proteção justamente quando ele ia me alcançar. Fiquei horrorizada… e depois, ao saber de tudo que eles causam…
E você tem razão: minha mãe é elemental, meu pai um elfo, e eu e minhas irmãs somos a mistura dos dois. — contou Saphyre. — Uma mistura? Interessante… que eu me lembre, não era permitido misturas de elementais com qualquer outra raça, pelo poder descomunal que pode vir a ter o filho. — informou Kasphio. — Sim, já ouvimos de Faleey algo parecido. — replicou Tarwin. — Inclusive havia uma profecia que falava sobre isso. Havia muitas profecias, mas esta era a que não tinha acontecido ainda… sobre a Esquecida.
— Ah, sim… o que você sabe sobre isso? — Não muito. Vou recitar para vocês a parte que aprendi: “Ela seria a primeira, de muitas que viriam, as doze especiais. Dela, a Esquecida, o poder despertaria, a força surgiria para os povos libertar.
Mas por ser Esquecida, o âmbar que a seguiria, sua memória retornaria. A pedra verde é a terceira, de uma força que explodiria, e o resto acordaria para a maldade acabar…” — E depois disso a minha aula acabou. Foi no dia seguinte que Borag invadiu minha casa. — terminou Kasphio. — Eu preciso escrever isso. Vamos à biblioteca? — falou Kaeidh. — Vamos! — disseram todos. Foram andando e acompanhando Kasphio, que ia voando na frente e mostrando o caminho.
Entraram por um corredor enorme e largo, e a primeira porta à frente era a que Kasphio havia usado. Passaram por ela e ficaram boquiabertos com o esplendor da biblioteca. Ela era inteiramente — do teto ao chão — repleta de livros. Aos lados, em cima e embaixo, havia estantes e estantes completamente lotadas. No meio da biblioteca, bem na parte de baixo, existia uma escada larga, que se abria para os dois lados e subia ao primeiro mezanino — e mais alguns lances que levavam até o sexto.
No teto, todo entalhado em desenhos rebuscados e bordado nas bordas em dourado, havia pequenos ganchos; deles desciam cordas que seguravam, nas pontas, vários sofás suspensos, espalhados por todos os cantos da biblioteca. Alguns estavam completamente ocupados por seres deitados, lendo confortavelmente. — Isso é incrível! — disse Saphyre. — Nunca vi nada tão extraordinário! — Realmente… o fauno rei Faleey não mentiu. Essa é a mais perfeita biblioteca que já vi na vida. E olhe que eu viajei por muitos lugares…
Inclusive, Kasphio: realmente não existe, nos mapas oficiais, nada sobre esta enorme ilha. — disse Tarwin.
— Eeu pretendo que isso se mantenha assim. — falou o rei Faleey, vindo atrás deles. — Em caso de guerra, eu vou proteger meu povo a qualquer custo. Concordam? — Obviamente concordarei com você, Faleey. — falou Kaeidh. — E acho que Tarwin, Àsgar e todos os outros também concordarão… apesar de eu não ter poder de fala sobre isso. O reino é seu, e você, juntamente com seu povo, são os únicos com poder de decisão. — Estamos encantados de ser convidados para lhe acompanhar até aqui, rei Faleey. Muito obrigada.
— falou Leigh. — E eu tive o prazer de achar um livro e um mapa escondidos na biblioteca de Filanthopia. Acho que o mapa estava tão escondido que ninguém nunca iria achar… só eu mesmo, que sou muito curioso. — Rá! Se não fui eu mesmo, na juventude, que deixei isso. — falou Faleey, rindo. — Escondi no mais recôndito local da biblioteca de lá, quando fui em busca de estudos recentes sobre as carruagens. Nunca tive visitas… daí achei que havia escondido demais.
— Sorte minha que sou muito curioso e não descansei enquanto não achei. Aliás, foram dois meses de procura. Cheguei a dormir por lá. Agora quero dormir por aqui. Saí para comer um pouco e encontrei esta linda dama de cabelos surpreendentes. — apontou para Ambhar. — Ainda estou encantado com a cor. São vermelhos escuros, quase mogno, mas mais claros… difícil entender. Realmente encantado. — Obrigada, Kasphio. Você também é encantador! — Ambhar ficou vermelha.
Eles foram na frente, falando sobre a biblioteca e os locais de estudo. Ambhar, Saphyre e Leigh ficaram para trás, conversando baixo. — Ei… você sabe que fadinhas podem ficar invisíveis e também podem crescer, não é? Kasphio realmente ficaria bem alto
se resolvesse que você vale o esforço de ficar da nossa altura. — falou Leigh para Ambhar. Ambhar arregalou os olhos. — Nunca imaginei! Que encantador! Mas não… se ele me falasse algo, eu diria que já estou apaixonada por alguém. — Ambhar explicou a Leigh. — E está? — perguntou Leigh. — Sim… por… por Fayne. Mas ela não quer compromisso sério, então… eu preferi ficar sozinha. Não saberia o que fazer em um relacionamento aberto. — Ela te pediu um relacionamento aberto?! — falaram Leigh e Saphyre juntas, baixinho.
— Sim! Nós tivemos uma noite… no início, maravilhosa, mas depois trágica. Mas é isso: ela quer um relacionamento em que eu não interfira na vida dela e nem ela na minha, porque somos de raças diferentes e ela acha que isso é um pouco complicado. — Ela perdeu o companheiro dela há muitos anos. — falou Leigh. — Depois disso, nunca mais deixou ninguém chegar perto. Muito me admira que tenha ficado com você. — Um companheiro… macho? — perguntou Ambhar. — Sim. Fayne é bissexual. Ela não lhe contou? — perguntou Leigh.
— Não! Não conversamos muito na noite passada. — Ambhar ficou completamente vermelha. Saphyre riu e a abraçou. — Não se preocupe, vai dar tudo certo. Ela gosta de você. Não tira os olhos de você quando está no recinto. Não acha, Leigh? — Sim… na verdade, nunca a vi olhar mais de dez segundos para alguém. Ela gosta de você. Tenha paciência. — Leigh pegou a mão de Ambhar. — Era ela que você achou que viria? — Sim… mas não fez questão, não é?
Eu esperava realmente que ela viesse, mesmo depois da nossa conversa sobre relacionamento aberto. Uma conversa que não deu muito certo.
— Sinto muito, Ambhar. Quem sabe ela muda de ideia, não é mesmo? — Espero que sim. — Aqui está, pessoal: papel e caneta para todos. Anotem o que precisarem, mas nunca, nunca escrevam ou anotem algo nos livros. A biblioteca é mágica: ela lhes dá os livros por si só, mas ela também castiga quem tenta destruí-los. Podem pedir todos os livros que vocês quiserem; eles irão aparecer na sua frente. — Sim! Isso que eu ia falar! Esta biblioteca é mesmo surpreendente.
Em um mundo marcado por guerras antigas, pactos esquecidos e poderes que jamais deveriam ser despertados, as chamas não nascem do fogo, nascem da escolha. Quando sinais de um desequilíbrio voltam a surgir, reinos inteiros entram em alerta. Dragões desaparecem, portais são abertos nas entranhas das montanhas e forças que haviam sido seladas começam a se mover nas sombras. No centro desse caos está um segredo capaz de mudar o destino de todos: um poder ancestral ligado às Chamas Celestes, cuja existência foi apagada da história. Entre alianças frágeis, traições silenciosas e conflitos que atravessam raças e territórios, personagens são forçados a confrontar não apenas inimigos externos, mas também aquilo que carregam dentro de si. Uma decisão cobra um preço. E a verdade revelada ameaça incendiar todo o mundo conhecido. Chamas Celestes é um romance de fantasia que combina intrigas políticas, magia antiga e tensão crescente, conduzindo o leitor por um universo onde o passado insiste em retornar — e onde nem todos sobreviverão ao despertar das chamas.
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