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Capítulo 9 · Chamas Celestes

Capítulo 9

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As ondas gigantescas de luz e fogo azuis se dispersaram no abismo abaixo da ilha. Saphyre caiu de joelhos nas gramíneas verdes e desmaiou, exausta com a intensidade de seus poderes. As pessoas correram, algumas gritando ordens, outras pegando baldes de água para tentar apagar o fogo que pegou em alguns locais da ilha, antes do castelo. Kaeidh estava se vestindo quando a sensação da existência dela saiu de sua mente, como um apagão. Ficou desesperado e correu rapidamente, fazendo o mesmo caminho que ela.

Quando saiu, viu todos apressados, apagando focos de fogo azul aqui e ali, e vários pontos de incêndio. Chamou por ela, avisaram onde estava, e ele foi até lá. Chegou perto de uma Ambhar desesperada, enquanto ela apagava o fogo de Saphyre com panos úmidos, os olhos preocupados e vermelhos de chorar. — Saphyre! Kaeidh se abaixou ao lado dela, colocando a cabeça dela em seu peito para saber se estava respirando. — Ela está inconsciente, mas respira. Graças aos deuses! Saphyre, tarine? Me ouve?

Ela continuou desacordada. Apenas seus olhos se mexiam rapidamente. — Kae, Sidarta está aqui. Deixe-a ver se ela está bem? Kae fez que sim com a cabeça, os olhos marcados de preocupação. Saiu para o lado e deu espaço para Sidarta examiná- la. Silenciosamente, Sidarta, a dragão branca, médica dos dragões, chegou e passou as mãos por cima do corpo de Saphyre, de olhos fechados. Suas mãos passaram de cima a baixo como se estivessem flutuando sobre o corpo de Saphyre. Então, abriu os

olhos. — Ela está bem. Está apenas com acúmulo de poder dentro dela. Por isso a explosão. Ela passou por algo que teve que controlar, fora o fogo? — Sim. Ela é minha âme sœur. Estamos no ponto de conexão. Ambos tentamos parar. Todos os presentes olharam uns aos outros, com entendimento. — Ah, sim. Isto é mesmo uma grande força, ainda mais aliada às emoções fortes de ambos. Vocês terão que tomar cuidado daqui pra frente. Não é muito fácil para uma elfa sem treinamento algum controlar o fogo como ela está fazendo.

O poder dela é imenso. Sugiro que alguém veja para onde ela enviou a maior parte dele, pois o que vejo aqui — apontou ao redor, os focos de incêndio e algumas coisas demolidas — não é nem uma pequena parte dele. Talvez vocês tenham que mandar uma equipe para averiguar — falou para o rei Àsgar. — Pode deixar, Àsgar. Iremos agora mesmo — disse Fayne, e pulou da beira da ilha. — Então posso levá-la sem medo de que tenha alguma fratura? — perguntou Kaeidh a Sidarta. — Não precisa levá-la. Vou medicá-la para que acorde.

Tirou um vidro de uma bolsa, abriu e pingou três gotas na boca de Saphyre. Esperou alguns segundos e Saphyre acordou de supetão, assustada. Tossiu. — O que houve? Alguém… se feriu? — falou preocupada, olhando para todos os lados e arregalando os olhos quando viu os incêndios apagados e as coisas demolidas. — Me desculpem! Não fiz por querer. Eu estava... — olhou Kae. — Eles sabem. Eu disse a eles. Não se preocupe, eles compreendem. Sabem o que a conexão faz. E não houve feridos. Os dragões são muito fortes.

Raramente se machucam. — Não se preocupe, Saphyre. Se já estiver bem, será bom que

vá logo começar o treinamento. Fayne não estará lá agora, mas outros professores estão à espera — disse Àsgar. — Sim, estou! Quanto antes eu aprender a controlar isto, melhor para todos. Levantou-se, batendo nas roupas para tirar o pó e as gramíneas grudadas. — Meus deuses, não acredito que eu explodi de prazer, Kae. Isso é muito perigoso — falou a ele em pensamentos. Ele a olhou e respondeu: — Sim. Vou pedir um quarto separado a partir de hoje. Não podemos arriscar mais. E a senhorita trate de se comportar.

Eu não irei me aproximar muito e espero o mesmo de você. Precisa se dedicar em tempo integral. Só assim podemos ficar juntos novamente. — Será duro, Kae — suspirou. — Sim, será, meu amor. Mas isso é importante. Eu não me queimo, mas você queima outras pessoas. — Tenho medo de nunca conseguir controlar isso. Ou de nunca me lembrar ou descobrir o suficiente. Medo de nunca mais tocar em você — aspirou o aroma dele no ar de novo — ou nunca poder ficar perto novamente. Já sinto seu cheiro! — Vamos.

Talvez os estudos e as práticas do treinamento nos distraiam. Iremos na carruagem. Foram até o campo de pouso, onde estava a carruagem em um galpão gigante, e subiram. Kae ligou a engenhoca e planaram, deslizando devagar, a poucos centímetros do chão. Quando saíram do galpão, ele fez a curva para a esquerda e subiu vertiginosamente. Alguns minutos depois, avistaram outra ilha flutuante. Esta tinha uma cachoeira caindo de cima de uma montanha, a única do local, bem do lado esquerdo da ilha.

O restante do terreno tinha espaços muito abertos, com várias criaturas treinando em obstáculos e alvos. Em alguns locais havia elevações de terra

seguidas de grandes depressões, com lama em algumas delas, ou apenas água. Arcos enormes em cima de postes erguidos, nos quais alguns jogavam bolas de fogo com a boca. Ao longe, viu que Ambhar pousava com alguém a quem ela ainda não havia conhecido formalmente. Havia tantos treinando que não dava para contar. Olhou Kaeidh e a esperança surgiu em sua mente. Queria muito conseguir controlar seu fogo. Das duas qualidades. Pousaram e Ambhar veio ao seu encontro.

— Saphyre, este é Thornay, o professor das artes do fogo, assim como Fayne. Ele é muito bom no que faz, irmã. Vamos. — Bom dia, Saphyre. Você é quem explodiu em poderes agora há pouco? — Sim — disse ela, com vergonha. — É normal. Nós, dragões, quando crescemos, não sabemos lidar com nossos fogos também. Muitos colocam fogo até em si mesmos. Eu coloquei fogo em meu cabelo após espirrar uma bola para o alto, deitado de barriga para cima. Ela caiu na minha cabeça e cabum!

Explodiu o meu belíssimo penteado dracônico, do qual eu tinha muito orgulho. Eu ainda era adolescente, imagine minha irritação. Todos riram e acompanharam Thornay. Kaeidh sentou-se em um banco próximo e ficou quieto, olhando para elas. Thornay gesticulava para ambas, mostrando alguns movimentos e gestos com as mãos. Levou as duas até algumas piras organizadas em fileiras, a um metro de distância cada, e falou algo, e elas ficaram olhando atentamente.

As duas inspiraram, olharam as piras, estenderam os braços acima delas, olharam suas mãos, concentradas, e o fogo surgiu, assim como no salão de jantar na noite anterior. Ficavam olhando das mãos para as piras e voltavam a olhar novamente. Nada aconteceu.

Etentaram, tentaram e tentaram, até se cansarem. Ambas estavam desanimadas. Estenderam as mãos; o fogo estava escasso agora. Estavam exaustas. Thornay se apressou em levar as duas, conversando bastante, até a mesa em que Kaeidh estava sentado. Sentaram todos. Saphyre o olhou com um muxoxo, e Kaeidh reparou que ela fazia um biquinho com o lábio para baixo quando estava chateada. — Temos tempo. Não se preocupem. Estamos só no início da primeira fase. Vamos almoçar e vamos descansar.

Logo chegaram várias bandejas de alimentos frios e quentes. — O treinamento continua à mesa. Vocês terão que aquecer esses — apontou para as tigelas. — Vamos? — Oh! Acho que isso eu consigo! — disse Ambhar, acendendo o fogo na palma de suas mãos. Pegou a tigela e aqueceu a sopa até ela borbulhar. — Muito bem, Ambhar! Agora, sua vez, Saphyre. Saphyre se concentrou. Sua chama saiu tímida; ela olhou um pouco chateada. Então Kaeidh viu quando ela apertou os olhos com determinação e pegou a sopa da bandeja.

Colocou em cima de sua palma e mordeu o lábio inferior, concentrada. Seu pequeno e tímido fogo foi aumentando, aumentando, até a sopa borbulhar dentro da tigela. E ela sorriu, feliz. Parou de aquecer e riu, satisfeita. Thornay as parabenizou. Comeram e tomaram seus caldos. Havia sucos dracônicos de plantas cerylias. Eram super nutritivos e restauravam a magia. Ao final da refeição, voltaram para seus postos em frente à pira e ali se passaram mais quatro horas. Não conseguiram acendê-la sem pôr suas mãos no carvão.

Cansadas, foram arrastando os pés até sua mesa. — Finalizamos por hoje, Kae. Nos leva para o castelo? Estamos exaustas! — disse Saphyre, chateada. Nos despedimos de Thornay e fomos até a carruagem. Subimos, puxei um assento embutido em frente aos nossos para

Ambhar, e ela se sentou, cansada. Foi difícil ver as duas tristes e desanimadas. — Não se preocupem. Vão acender a pira, mais dia ou menos dia. Tenho fé em vocês. — Obrigada, Kaeidh — disse Ambhar. — Vocês vão conseguir — ele repetiu, olhando Saphyre. Ela torceu os lábios. Kaeidh via em seu olhar o descontentamento. Não precisava nem ouvir seus pensamentos, mas ouviu: — O que estou fazendo de errado para não conseguir aquilo que quero? Qual o caminho em minha mente para controlar isso logo?

Quase matei pessoas com minha explosão, e ainda causada por minha excitação. Muito perigoso. Não posso pôr a vida das pessoas em perigo porque quero transar com meu... Falou em voz alta e não percebeu: — Namorado? Olhou para Kae de soslaio. — Kae, somos namorados? — perguntou. — Podemos dizer que sim? É o que eu seria se estivéssemos em seu mundo? O mundo de onde vocês vieram? — Sim, seria. Só que a única diferença é que no meu mundo não temos âme sœur.

Então, podemos nos separar definitivamente e namorar outras pessoas. — Entendi. E vocês faziam muito isso? — perguntou Kae, curioso. — Não. Não eu, Kae. Eu preciso sentir algo a mais, sabe? Não somente atração. E eu sinto muito mais que isso por você. E você? Teve algo que não envolvesse sentimentos? — Não, também não. Não tive muito interesse nisso. Ambhar olhava de um ao outro. — Então quer dizer que você basicamente explodiu de tesão, irmã? — gargalhou alto. Ficaram envergonhados, mas riram.

— Ei, não se acanhem. Eu dou risada, mas acho sensacional. Quem dera eu ter alguém pra me fazer sentir isso e eu fazer a pessoa se sentir assim também. Saphyre segurou sua mão e apertou. Desceram e logo foram para as mesas. Sentaram ao lado de Àsgar, Zenit e Zarin. Ambhar cumprimentou Fayne e Sora logo que elas entraram. As duas estavam com aparência de cansadas. — Temos notícias — disse Fayne. — Não aconteceu nada com ninguém. O fogo que você soltou caiu na água, Saphyre. Olhamos toda a faixa de terra abaixo de nós e não achamos nada. Está tudo bem. — Nossa, que alívio! — disse Saphyre. — Eu não sei o que faria se alguém tivesse se ferido. Obrigada, Fayne e Sora.

Chamas Celestes

Sinopse

Em um mundo marcado por guerras antigas, pactos esquecidos e poderes que jamais deveriam ser despertados, as chamas não nascem do fogo, nascem da escolha. Quando sinais de um desequilíbrio voltam a surgir, reinos inteiros entram em alerta. Dragões desaparecem, portais são abertos nas entranhas das montanhas e forças que haviam sido seladas começam a se mover nas sombras. No centro desse caos está um segredo capaz de mudar o destino de todos: um poder ancestral ligado às Chamas Celestes, cuja existência foi apagada da história. Entre alianças frágeis, traições silenciosas e conflitos que atravessam raças e territórios, personagens são forçados a confrontar não apenas inimigos externos, mas também aquilo que carregam dentro de si. Uma decisão cobra um preço. E a verdade revelada ameaça incendiar todo o mundo conhecido. Chamas Celestes é um romance de fantasia que combina intrigas políticas, magia antiga e tensão crescente, conduzindo o leitor por um universo onde o passado insiste em retornar — e onde nem todos sobreviverão ao despertar das chamas.

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