Universo da obra
Universo da obra
Tarwin nem acreditava que iria passar aquele dia com Leigh e seu filho, Sorag. A criança era extremamente inteligente e esperta e se encantava com tudo que ele fazia e dizia. Era participativo e se empolgava com todas as atividades que Tarwin sugeria para se divertirem. Olhando Leigh, percebeu que ela estava mais tranquila e menos irritada do que estivera antes de sair da sala de reuniões, seguir Saphyre e ficar um bom tempo conversando. Queria descobrir do que falaram para que essa mudança ocorresse.
A olhou de soslaio e foi vendo pequenas mudanças na aparência da jovem que conheceu — e que se transformara na mulher de agora. As maçãs do rosto altas e o queixo delicado. As bochechas com furinhos ao sorrir estavam mais magras do que na época em que a viu pela primeira vez, como se ela não tivesse mais prazer em comer e não comesse o suficiente. Ficou imaginando o que ela sentiu ao se ver sozinha com um bebê nos braços.
Sabia que a perda do âme sœur era como a morte para quem teve tempo de ter contato com o amado. E mesmo ela sentindo isso por ele também, provavelmente amava somente Sharif. Havia convivido com ele todo o tempo desde que se conheceram e se reconheceram. Algumas castas dos elfos, algum tempo atrás, consideravam uma aberração um deles amar alguém que não fosse de sua própria raça. Consideravam a procriação e a pureza da raça mais importantes.
Eram os conservadores, que já não existiam hoje, devido às mudanças drásticas e à morte de muitas raças pelas guerras perpetradas por Borag. Os poucos que ainda sobraram foram proibidos de entrar na política ou espalhar suas ideias preconceituosas aos descendentes. O racismo era grave na sociedade em que viviam. Isso havia mudado radicalmente depois
da eleição de novos reis e rainhas e, mesmo assim, como Àsgar havia averiguado, acabaram não percebendo que haviam feito aquilo com as bruxas. Punir o mal era diferente de punir uma raça. Nem todas eram más, assim como nem todos de outras raças eram somente bons. Mas isso iria terminar ali. E quem sabe, se sobrevivesse à guerra que estava por vir, ainda teria uma chance de viver o que restava de sua vida com a mulher que amava desde que haviam se transformado em jovens seres.
Não iria fazer absolutamente nada para tentar conquistá-la. Se ela quisesse algo, teria que ser clara com ele, como sempre fora para recusá-lo. Ele apenas aproveitaria os dias de festival, como já havia planejado fazer antes de saber dela. Há muito tempo, quando eles haviam acabado de deixar a adolescência e embarcado na aventura de serem jovens adultos, seus pais — muito amigos — haviam combinado de enviar os filhos para estudar humanismo, já que talvez se interessassem em ajudar pessoas.
Melyôr, pai de Tarwin, o enviou para a cidade Kaliz, a cidade dos povos ancestrais. Eram os elfos com a linhagem mais antiga e maiores habilidades evolutivas. Tarwin queria encontrar Kaeidh logo; mal podia esperar para viajarem, para servirem e ajudarem, aprender todos os segredos das cidades que iriam conhecer. Seria uma aventura para dois jovens recém-saídos da escola. Era a primeira vez que Tarwin saía do Mar Filórdico por tempo indeterminado.
Até os vinte anos, eles — os tritões e sereias — não podiam passar tanto tempo fora do mar, pois estavam em fase de crescimento e precisavam da água para hidratar as escamas. Então, Kaeidh era levado para uma de suas casas à beira-mar e, quando se conheceram, os pais decidiram manter a amizade dos meninos. Todo ano, nas férias de verão, Kaeidh aparecia para brincar, juntamente com Zarin e Zenit quando fugiam para voar metade dragão após o salto deles.
Àsgar apareceu um pouco depois; ele já estava sendo treinado e não
podia passar férias nas praias. Certo dia, Kaeidh chegou e trazia consigo uma garota. Tarwin se encantou por ela. Nunca havia visto uma garota elfa. Mas ela era muito tímida e correu para dentro de casa. Ele não mais a viu. Quando chegou em Kaliz, descendo da carruagem de seu pai, Tarwin correu para cumprimentar o amigo. E, ao lado dele, a mãe e o pai. Ficou intrigado por não ver a irmã, mas soube depois que ela havia ido auxiliar na Casa do Povo, na vila.
Kaeidh falava sem parar do amigo Sharif, o prometido da irmã, que sempre viajava e nunca ficava com ela. Confessou que o achava estranho: extremamente eufórico quando voltava, mas, quando ia viajar novamente, estava sempre diferente. Ele não estaria presente durante o mês em que eles estariam ali; então, Tarwin não o conheceria. Tarwin e Kaeidh iriam ter uma festa de boas-vindas ao trabalho de assistência.
A festa daquela noite era para ensinar, acima de tudo, como os pequenos seres ajudavam na polinização e que a vida de um ser de Kalimares deveria se basear nisso. Por isso, essas iniciações eram sempre junto com o início da festa de polinização. E, após fazerem a primeira etapa de trabalho em Kaliz — que duraria um mês —, sairiam pelas outras vilas e cidades por um ano. Naquela noite, Tarwin participaria de sua primeira festa fora do mar. A família de Tarwin subiu aos quartos destinados a eles.
Tarwin ficou encantado com tudo, se arrumou, vestiu-se e, depois disso, foi até a varanda. A noite já estava plena e a lua verde estava mais próxima de Kalimares. Seria a primeira vez que Tarwin veria os Spiorads polinizando os jardins, que já estavam repletos de seres — a festa se daria ali. Os Spiorads já desciam da lua e começaram a banhar Kalimares com suas cores e luminescências. Tarwin viu uma pessoa se aproximar da murada: uma elfa, de uma figura estonteante.
Em volta dela, os pequenos Spiorads flutuavam e a iluminavam. Ela sorria e levantava os braços para
tocar os pequenos animaizinhos, que pousavam suavemente neles — em suas mãos e ombros — e depois flutuavam para as plantas do jardim, pousando de flor em flor, levando em suas patinhas o pólen necessário para que as frutas nascessem. O brilho daqueles olhos dourados o fez imaginar ser a irmã de Kae. Os cabelos cor de cobre claro e as covinhas nas bochechas o deixaram de queixo caído. Caminhou até ela lentamente e, quando ela o viu, parou petrificada. O sorriso foi morrendo de seus lábios e ela falou: — Olá.
Sou Leigh. — Eu imaginei que fosse a irmã de Kaeidh, pela cor dos olhos e cabelos. Sou Tarwin — ele respondeu. — Bem-vindo a Kaliz. Desculpe se o incomodei. Meu quarto é este ao lado do seu, e o de Kae fica logo ali. Ele anuiu e voltou seu olhar para ela. — É a primeira vez que vejo os Spiorads fazendo o seu trabalho. É mesmo maravilhoso — falou Tarwin, sorrindo e encarando os olhos dourados dela. Ela sorriu e baixou os olhos, desviando-os para os jardins. Ele concluiu que ela continuava tímida. Estendeu a mão.
— Gostaria de caminhar comigo pelos jardins? Eu não conheço o caminho e não sei como me encontrar com Kae. Ela aceitou a mão dele, colocando a dela levemente na dele. Foi mais do que um toque: foi uma emoção estranha. Um choque que se iniciou da pele de um para a do outro, passando lentamente pelos corpos. Ela arregalou os olhos e prendeu a respiração. — Ei… o que foi isso? Você sentiu também? — perguntou Tarwin, surpreso, com a respiração suspensa. Ela franziu o cenho, tremia e parecia preocupada. — Eu…
preciso fazer algo que esqueci. Desculpe. E entrou pela porta que disse ser a de seu quarto. Tarwin ficou confuso e desceu as escadas, indo até o jardim. Depois de algum tempo caminhando, pensativo, encontrou Kae.
Distraiu a mente por alguns momentos, mas passou praticamente a noite inteira pensando nela. — Kae, me diga: esse âme sœur… como se parece a sensação? É algo específico? Como vocês sabem que é a pessoa correta? — Sabemos porque temos todos os sentimentos normais, mas não temos sentimento de amor, desejo e paixão de uma vez, sabe? É difícil explicar. É como se ligassem um botão no seu cérebro e a energia corresse da pele da outra pessoa diretamente pelo seu corpo… e isso causasse algo, sabe?
É difícil explicar, como eu disse. Mas é algo que você sabe com certeza apenas de olhar pela primeira vez alguém. O toque é só complemento. Eu li que a relação carnal após isso é surreal. Fora isso, é como se houvesse uma simbiose, entende? Há uma real explosão. Mais tarde, se quiser, pego o livro que detalha exatamente como se dá a conexão. Todos almejam isso. É único. E você só sente isso com uma única pessoa. Tarwin ficou intrigado; queria saber tudo. — Eu gostaria, sim, de saber a respeito — respondeu a Kae.
Tarwin estava confuso. A sensação que teve foi a mesma do choque de quando viu Leigh e, quando a tocou, foi mais intensa ainda. Mas o problema é que Kae havia dito que a irmã já havia encontrado seu âme sœur. Então seria impossível eles serem âme sœur… não seria? Passou a noite na festa e nas comemorações. Ele não a viu mais e, por um tempo, trabalhando direto com Kae, iam a todos os locais que precisavam de ajuda para que aprendessem as tarefas necessárias a cada povoado.
Ao voltar, não a via, mas tinha certeza de que ela sempre espiava pela janela. Ele sempre sonhava com ela envolta em luz: o sorriso enorme, as covinhas e o olhar dourado, o rosto levantado sorrindo para um Spiorad que lhe iluminava a face. Sempre acordava com um sentimento de necessidade. Necessitava vê-la novamente. Naquela manhã, após doze dias em Kaliz, desceu até o salão
de refeições e, para sua surpresa, ela estava à mesa. Tarwin aproximou-se e os pais dela se levantaram e o apresentaram a ela. Ela não ergueu os olhos em nenhum momento. Apenas murmurou um bom dia e que era uma honra conhecê-lo. Depois, falando para todos na mesa, levantou-se: — Me deem licença. Tenho compromissos hoje. Até mais tarde. Fez uma graciosa reverência e saiu. — Leigh está muito estranha ultimamente, não acha, Sahara? — falou o rei Philony para sua esposa.
— Pode ser saudades de Sharif — falou para o marido. A rainha Sahara explicou para a mãe de Tarwin, rainha Chiant: — Sharif é o âme sœur de Leigh. Apesar de tão jovens, ambos resolveram se divertir primeiro. Tanto ela quanto ele. Eu acho o correto: ela tem muito a trabalhar, estudar e conhecer antes de se comprometer… e ele também pensa assim. Voltou a falar com o rei: — Talvez tenha acontecido algo que não saibamos, ou ela está preocupada com alguém. Uma hora isso passa. O rei anuiu. — Tarwin, como vão os treinos?
O que estão achando? — perguntou o rei Philony aos dois, Kaeidh e Tarwin. — Excelente, pai. Estamos lendo e conhecendo, na prática, a extensa lista de alimentos que todos os seres comem. E muitas vezes provamos por curiosidade. A próxima matéria será sobre medicamentos e como produzi-los — explicou Kae. — Sim, estamos gostando bastante — falou Tarwin, distraidamente. — Ah, sim, vocês vão adorar a parte de medicina. É muito interessante — falou o rei Melyôr, pai de Tarwin.
— Tenho certeza de que iremos, senhor Melyôr. É muito prazeroso aprender e dividir conhecimentos — falou Kae.
— Está quieto, meu filho. Está cansado? — perguntou Chiant ao filho. — Não, mãe. Só intrigado, pensando nas descobertas que faremos. Não se preocupe — respondeu Tarwin, envergonhado por estar aéreo e pensativo. Estava muito preocupado pelo que havia sentido com Leigh. Mas, pelo fato de saber que ela já tinha seu âme sœur e que, se ele estava sentindo aquilo — e ela também, pelo jeito —, teriam um problema para resolver. Ele precisava ir à biblioteca e pegar os livros sobre isso.
Precisava compreender o que estava acontecendo com os dois. Pelo que Kae havia dito, não existia a possibilidade de um elfo ter dois âme sœur; era único. A raça dele não tinha isso, mas não era mais incomum a miscigenação. E uma elfa poderia tranquilamente ser âme sœur de um tritão — ou vice-versa. Tarwin previa que iria sentir aquilo a vida toda por ela. E, se quisesse entender, teria que pesquisar a fundo. Levantou-se e pediu licença a todos para buscar livros na biblioteca.
Avisou Kae que já se encontraria com ele para irem à Casa do Povo. Saiu a passos largos, esperando achar a biblioteca do castelo. Perguntou a uma elfa que passava por ali e ela indicou o caminho. Havia um bibliotecário em uma mesa à frente. Ele catalogava vários rolos de pergaminhos que estavam em cima de sua mesa. Levantou os olhos, sorriu e disse: — Bom dia, senhor. Sou Filth. O que o senhor precisa? — Gostaria de livros sobre âme sœur. Se puder me indicar onde ficam, serei grato. — Ah, sim.
Eles estão no oitavo corredor aos fundos, do lado direito. Tem uma placa acima da estante. Gostaria que eu o acompanhasse? — Não, obrigado. Eu mesmo acho. Posso levá-los ao quarto para ler? — Claro, senhor. Só coloque o seu nome aqui, que anotarei
quais livros pegou quando for sair — apontou um enorme livro aberto na mesa. Tarwin assinou o livro, agradeceu Filth e caminhou pela biblioteca enorme, passando por várias estantes repletas de livros e pergaminhos enrolados, todos separados por assunto. Entre algumas, pequenos nichos com sofás e pessoas lendo. A oitava estante de prateleiras era a última e, entre ela e a parede, havia um nicho mais reservado do que os outros; portanto, não dava para ver se havia alguém ali.
Tarwin passou os olhos pelas lombadas: alguns livros claramente antigos, outros recentes; havia também muitos pergaminhos etiquetados com o tópico do texto. Procurou o assunto mais específico. “Raridades dos casos de âme sœur.” — Achei — falou baixinho. Abriu na página e foi folheando, lendo devagar, até chegar ao nicho. Ouviu um som de surpresa e levantou os olhos para encontrar Leigh sentada no canto. — Oi, senhorita Leigh.
Eu vim fazer uma pesquisa — disse, tentando esconder o título do livro, mas percebeu que o dela era exatamente igual ao dele. — Que, por acaso, é a mesma que a sua. Ela baixou os olhos e tentou esconder o título do livro com as mãos, claramente desconfortável, assim como ele. Tarwin sentou- se próximo a ela. — Parece que ambos sabemos o que está acontecendo aqui, não é? Ela suspirou e mordeu o lábio inferior. — Sim. Eu não consigo entender. E eu já li e reli praticamente tudo sobre isso…
Foi o tema da minha dissertação no começo do ano, no final do período escolar. Eu… não tem explicação para isso. É impossível! — Então você quer dizer que não está acontecendo? — Tarwin perguntou, com a voz baixa, mas firme. — Pois, para mim, é tudo o que está acontecendo desde que te vi. Você toma noventa e nove
por cento dos meus pensamentos quando estou acordado e cem por cento dos meus sonhos quando estou dormindo. Não importa o que eu faça, com quem eu fale… eu não consigo parar de pensar em você. E a sensação do toque das nossas mãos, ali naquele momento… foi como se tudo se tornasse palpável. Ele respirou, os olhos fixos nos dela. — Está me dizendo que não foi nada para você e que eu estou tendo ilusões? Leigh o encarou, os olhos dourados brilhantes de lágrimas. — Não… Mas nunca houve nada como isso.
Sharif é meu âme sœur. Eu não entendo! Começou a chorar baixinho. Ele se aproximou e tocou a mão dela, como um conforto, mas as ondas de energia perpassaram por eles. E foi magnífico; Tarwin percebeu que vivera anos sem sentir nada de verdade e agora, ali, com ela, se sentia vivo. Leigh prendeu a respiração, fechando os olhos. — Isso — Tarwin falou, segurando as mãos dela. — É o paraíso. Eu não posso negar isso. Você pode? Ela o olhou, as lágrimas escorrendo.
Tarwin levantou uma das mãos, enlaçou o rosto dela e passou o polegar pelo caminho que as lágrimas fizeram. — Mas eu respeitarei sua decisão até morrer. Mesmo que isso me custe não viver mais como vivi antes… sem saber que era uma meia vida. Mesmo que eu nunca mais tenha a sensação que você me causa. Mesmo que eu nunca mais sinta o que é tocar você. Os lábios generosos de Leigh se abriram e o rosto dela se aproximou. Tarwin ficou imóvel; os lábios dela tocaram os dele como pétalas de flores celestes.
Moveram-se devagar: sentindo, tocando, incendiando com doçura. Tarwin se afastou e falou: — Não farei absolutamente nada sem o seu consentimento, Leigh. Por mais que eu morra de vontade. Você quer que eu te beije?
Ela engoliu em seco, puxou um fôlego longo e, quando soltou, falou: — Sim! Tarwin a beijou delicadamente, com total cuidado e atenção. Ela abriu os lábios e, para ele, foi um outro sim — que ele aceitou prontamente. Os corações batendo tão rápido e forte que ambos se perdiam nas respirações um do outro. As línguas se tocando, roçando. Tarwin se aproximou ainda mais, puxando o corpo dela; os braços passando pela cintura. Leigh se deixou levar, entregue. Os torsos colados. As coxas. Os lábios.
A conexão de tudo aquilo era incomparável para Tarwin. E ele não podia imaginar que ela sentisse aquilo com alguém mais. Esse pensamento o fez parar. Afastou-se, mas continuou abraçando-a. — Eu quero ser seu escolhido. E eu não vou te pressionar. Não falarei nada para ninguém. Isso vai ser sua escolha… mas não me afaste, pelo menos pelo tempo em que eu ficar aqui. — Não o farei — ela respondeu, quase num sussurro. — Vamos nos conhecer, tudo bem? Eu quero muito conhecer você. Tudo em você. Leigh baixou os olhos.
— Eu… você me deu meu primeiro beijo. Eu e Sharif não… Ele não fica muito por aqui. E, quando vem, me trata com cortesia e quase não me toca. — Quanto tempo faz que você sabe que ele é seu âme sœur? — Mais ou menos um ano. Tarwin arregalou os olhos. — Faz uma semana que nós descobrimos isso… e eu não quero tirar você dos meus braços. Eu nem sei se Kae foi à Casa do Povo sozinho ou se está me procurando. — Você ia realmente pesquisar sobre isso — ela apontou o livro. — Eu ia.
Queria entender se é possível eu me sentir assim com
alguém que já tem âme sœur. — Eu não sei… Li sobre tudo que diz respeito a isso e não há na literatura — nem nas joias — algo parecido. Porque eu me sinto assim também. Eu acho que tem algo errado, mas não consigo entender o quê. E eu sinto que estou enganando Sharif… Ela se afastou um pouco. Tarwin sentiu uma pontada no peito. — Eu não queria que você se sentisse assim. Desculpe. Depois disso, continuaram a se encontrar escondidos: na biblioteca, nos jardins e onde pudessem.
Mas conversavam a respeito de tudo, inclusive de coisas importantes. Tarwin não a beijou mais. Não queria que ela se sentisse mal depois, então preferiu fortalecer os laços que faziam alguém ficar com o outro: respeito, lealdade, coisas em comum, empatia e amizade. O mês passou rapidamente, e Tarwin partiria com Kaeidh no dia seguinte para outras vilas e cidades por onze meses. Ele tinha medo disso — que a distância a fizesse se decidir por Sharif. Mas não tinha como cancelar tudo.
— Não posso acreditar que você vai embora — ela passou os dedos na lombada de um livro. Estavam sentados lado a lado no canto da biblioteca. Conversavam baixinho para não chamar a atenção do bibliotecário nem atrapalhar quem estudava ou lia. — Sinto muito por não poder cancelar. Eu só teria um motivo para isso… e você sabe que não me escolheu. Então eu não tenho justificativa para não fazer algo tão importante quanto a viagem de aprendizagem. — Eu não sei como fazer isso.
Eu sinto que minha conexão é maior com você, mas a minha lealdade a Sharif… Eu estou mais confusa do que algumas semanas atrás. — Eu sei. Venha mais tarde aos jardins. A terceira lua floresce esta noite. Eu queria dividir isso com você. Para ficar na lembrança até nos vermos novamente. Diga que irá, por favor. Eu esperarei perto da fonte, no jardim de baixo. — Mas você precisa descansar. A viagem será ao amanhecer e
a lua floresce apenas às três da manhã. — Valerá a pena. Eu preciso guardar momentos com você. Talvez eu não passe apenas um ano sem você… e sim a vida toda. Leigh o olhou, pesarosa. — Não vamos falar disso, por favor. — Como quiser. Se despediram. Tarwin foi direto para a sala de jantar, onde todos comemoravam a viagem dos dois. — Demorou, Tarwin. O que estava fazendo? — perguntou sua mãe. — Boa noite, mãe. Boa noite a todos. Estava estudando. Desculpem a demora. Eu me perco nos livros. — Não se preocupe, Tarwin.
Estudar e saber é sempre importante — falou o rei Philony. Leigh entrou naquele instante na sala: cabeça baixa, andando rápido. Logo atrás dela, um rapaz loiro, alto, magro e risonho. — Ah, Sharif! Bem-vindo de volta! Não nos avisou que viria — disse o rei Philony. — Boa noite a todos. Desculpe não avisar, rei Philony… eu simplesmente tenho muito a fazer e não consigo tempo para mais nada — falou, formalmente. — Oh, não se preocupe com isso, Sharif. Um homem trabalhador só tem valor. Sente-se!
Permita apresentar o rei Melyôr e a rainha Chiant, do mar Filórdico, e seu filho, Tarwin. São nossos amigos de infância. — É um prazer conhecê-los. Olá, Kaeidh — disse Sharif, formalmente. Sentou-se ao lado da rainha Sahara e imediatamente se serviu. — Desculpem, mas estou com muita fome. — Não há problema. Pode servir-se à vontade — falou o rei Philony. Tarwin ficou em silêncio. A fome que sentia antes se dissipou. Sabia que Leigh não iria encontrá-lo para ver as flores da lua verde
desabrocharem. Comeu em silêncio e se despediu, saindo logo de lá, alegando estar cansado e que queria se preparar para a viagem. Às três da manhã, saiu pela sacada, desceu as escadas e caminhou no jardim em direção à fonte. Sentou-se no banco em frente a ela e esperou. A lua agora, iluminada pelos Spiorads, mostrava suas flores multicoloridas desabrochando… e Leigh não apareceu. Ele sabia que passaria o resto da vida amando-a. Esperaria por mais um ano. Usaria esse ano para focar nos estudos e na ajuda a quem necessitasse. Voltaria com Kae de viagem para Kaliz, esperaria a resposta dela por dois dias, no máximo, mas depois disso… se ela não o quisesse, faria de tudo para esquecê-la.
Em um mundo marcado por guerras antigas, pactos esquecidos e poderes que jamais deveriam ser despertados, as chamas não nascem do fogo, nascem da escolha. Quando sinais de um desequilíbrio voltam a surgir, reinos inteiros entram em alerta. Dragões desaparecem, portais são abertos nas entranhas das montanhas e forças que haviam sido seladas começam a se mover nas sombras. No centro desse caos está um segredo capaz de mudar o destino de todos: um poder ancestral ligado às Chamas Celestes, cuja existência foi apagada da história. Entre alianças frágeis, traições silenciosas e conflitos que atravessam raças e territórios, personagens são forçados a confrontar não apenas inimigos externos, mas também aquilo que carregam dentro de si. Uma decisão cobra um preço. E a verdade revelada ameaça incendiar todo o mundo conhecido. Chamas Celestes é um romance de fantasia que combina intrigas políticas, magia antiga e tensão crescente, conduzindo o leitor por um universo onde o passado insiste em retornar — e onde nem todos sobreviverão ao despertar das chamas.
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