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Capítulo 27 · Chamas Celestes

Capítulo 27

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Os onze meses se passaram lentamente. Os dias se arrastaram, os estudos não distraiam sua mente; o trabalho, sim. Portanto, trabalhou o máximo que podia, geralmente carregando peso e fazendo coisas que exigiam muito esforço. Sempre saía das casas onde moravam temporariamente e procurava, nos locais de ajuda e estudo, os piores e mais cansativos trabalhos. Isso, além de fazê-lo gastar energia, era o melhor sonífero, pois, ao deitar, acabava apagando de cansaço. E assim retomava o dia seguinte.

Kae havia perguntado o que havia ocorrido com ele, se tinha algo que queria desabafar, mas ele dizia que não; que só estava querendo experiências diferentes e pronto. Não sabia se Kae acreditava nele ou apenas respeitava a decisão de não dizer nada. Passaram pelos mais longínquos vilarejos. Descobriram milhões de coisas e chegou o dia de voltarem. Estavam muito longe e ainda teriam que parar numa cidade próxima para transportar um outro amigo.

Tarwin ficou à espera, na carruagem, e Kae chegou com um pacote que lhe foi enviado pelos pais. Saíram com o amigo Sarth e foram até Kaliz. Era quase primavera de novo, e a paisagem era quase a mesma do ano anterior. Foram direto para os seus aposentos, pois estava muito tarde. Kae se despediu de Tarwin e entraram, cada um em seu quarto. Tarwin deitou na banheira e transformou sua cauda para relaxar. Estava tão cansado que dormiria ali mesmo.

Forçou seus membros a funcionarem, transformou sua cauda em pernas e, caminhando nu, deitou-se em sua cama. Dormiu. Acordou com um barulho estranho no quarto. Estava deitado de barriga para cima. Estava muito escuro e não conseguia enxergar nada. Sentiu algo se mexendo em seus lençóis. Pulou e

pegou o intruso, pulando em cima dele e o prendendo com o corpo, tão rápido que só percebeu o arrepio do toque tardiamente. Ouviu um gritinho assustado. Gelou. Era Leigh. Seu corpo respondeu ao dela e ele pulou da cama como um maluco. Estava bravo. Acendeu as luzes e, mesmo nu, não se importou. — O que você está fazendo aqui?! — falou Tarwin. Leigh, ainda de costas, com o corpo apoiado nos cotovelos, estava com os lábios entreabertos e os olhos arregalados.

Estava descabelada e de roupas de dormir: um vestido curto e um robe aberto. Tarwin ficou paralisado com a visão dela em sua cama. Leigh o olhou nu, enorme e bravo. Não sabia o que falar; havia esquecido tudo o que pensou dizer. Ela só via Tarwin: o homem mais lindo que já tinha visto. Seus músculos eram ainda maiores do que ela se lembrava e, meus deuses, o que era aquilo? Ela morreria se ele a penetrasse, das duas formas, pensou. De todos os homens que conheceu, ele era o mais alto.

E impressionante não só na altura, mas no corpo todo. Tarwin forçou-se a se mexer, puxou uma calça de sua mala e vestiu. Virou-se para Leigh. — O que pensa estar fazendo entrando no meu quarto sorrateiramente, Leigh? E ainda nesses trajes… Estou vendo suas partes íntimas. — falou bravo, sussurrando. Ela imediatamente se cobriu e se levantou. — Desculpe! Oh, deuses! Eu só queria me desculpar… Não sabia que você estava nu! — sussurrou de volta. — Eu me caso amanhã. Eu… só vim me desculpar e me despedir. Me perdoe!

Ela correu do quarto, deixando Tarwin sem chão. Ele não dormiu mais. Ao amanhecer, Kaeidh veio falar que seus pais haviam enviado o convite e convocado os dois antes do casamento, mas, como estavam muito longe, a carta só chegou na última cidade em que ficaram — a cidade onde haviam parado para buscar o amigo Sarth. Era este o pacote que Kae tinha em

mãos. Tarwin se sentiu obrigado a ir ao casamento. Sentou-se na última fileira, na clareira onde foi montada a cerimônia, e viu a elfa que queria para si prometer-se a outro. A tortura foi tanta que se levantou nos primeiros minutos e teve que se retirar rapidamente; fazendo um esforço enorme para não ser visto, foi em direção a algum arbusto e vomitou o que havia conseguido comer durante o dia.

Caminhou de volta ao castelo, escreveu uma nota para Kaeidh e sua família, agradecendo a todos pela acolhida e parabenizando Leigh e Sharif pelo casamento. Deixou com o secretário do rei e voltou para o mar Filórdico, para sua casa e seu refúgio. Passou alguns dias viajando até chegar à sua enseada e, nos quatro dias que durou a viagem, Tarwin se alimentou apenas automaticamente. Mal se mexendo durante toda a travessia, fez apenas o necessário, o que necessitava fisiologicamente.

Parou numa caverna que haviam transformado em castelo em frente ao mar, lançou-se na banheira de água quente ao chegar e tomou algo que nunca havia bebido: uma bebida fermentada que costumava tirar os sentidos de quem bebia. Desfez-se de suas roupas terrestres e as guardou no armário do quarto. Passou alguns dias por ali, alternando entre a cama, a banheira e a bebida. Não conseguia ir à biblioteca; os livros e o cheiro deles a traziam de volta à sua mente. — Ah… lá está, de volta à minha mente!

Por que pensei isso?! De volta à minha mente, Leigh! Sendo que você nunca saiu um instante dela… como estaria “de volta”? Eu queria… nunca ter te conhecido! Agachado no chão, ele chorou. Pela primeira vez depois de adulto, pela primeira vez depois que ela o deixou, ele chorou — e foi a coisa mais triste. Passou mais alguns dias assim: acordava, comia o que encontrava, e o castelo vazio era o refúgio perfeito. Sabia que

deviam estar procurando por ele em algum lugar, mas não tinha vontade de falar ou se explicar para ninguém; só queria sofrer em seu luto. Para ele, seria como se ela tivesse morrido. Ele queria sentir isso, pensar isso, acreditar nisso, porque corria o risco de se envergonhar: de ir até lá e pedir para viverem os três. Na sua cultura, isso era normal, mas na deles não. Não seria aceito. Não. Ele teria que se separar desse sentimento se quisesse continuar a viver.

Ao fim de um mês, depois de muito chorar e muito beber, Tarwin se arrumou e guardou seus pertences mais caros: os que tinha trazido das viagens, as lembranças de tudo que aprendeu, e as pequenas coisas que ganhou de um ou outro dos povoados. Pessoas gratas lhe deram uma muda de árvore da Lua, assim como todo tipo de sementes de flores, e ele queria plantá-las ali. A árvore da Lua seria plantada no espaço por onde caía chuva, mas que não era aberto o suficiente para penetrar o sol. Pensando bem…

faria isso agora mesmo. Queria sentir o cheiro das flores e dos frutos quando chegasse o tempo. Abriria as portas de vidro completamente para ter seu próprio show de polinização e receberia os spiorads com festa e felicidade. Mas não teria o sorriso de covinhas. Olhou em volta, para seu castelo. Aquele era o seu castelo. Estava em seu nome e ele pensava que seria o lugar ideal para ele e Leigh viverem. Ficava na encosta rochosa de frente para o mar. Caminhou por ele: era feito de pedra dura e brilhante.

Andando pela encosta, escalando-a, viu que era cheio de pequenos e grandes côncavos onde existia terra. Plantaria as flores hysterias ali e, quando crescessem, encheriam a frente do castelo de microflores em pêndulos, como uma chuva de pétalas multicoloridas. Plantaria também num caminho que ia do grande salão principal, descendo até o fundo do castelo, que dava numa piscina submersa iluminada por placas luminescentes do mar. O caminho, que até então era só pedra, ficaria maravilhoso com flores nas

paredes e nos cantos do chão. Queria cobrir o castelo de flores, deixá-lo perfumado e enfeitado. Isso lhe traria felicidade: as cores, o cheiro e a beleza, a delicadeza das pétalas. Faria isso e esqueceria — nem que por algum tempo — o pouco tempo que viveu plenamente. E depois disso faria o mesmo dentro do mar: plantaria seus recifes, que seriam os maiores e mais coloridos. Os animais marinhos viveriam, se reproduziriam e se alimentariam ali. Ele queria ser produtivo.

Iria a festas da verdade e dançaria nos bailes que seus pais dessem em dia de maré plena. Convidaria os amigos para uma festa de polinização e dançariam pelos jardins que criasse com as próprias mãos. Estava animado e, depois de mais um mês planejando e plantando, resolveu descer e mergulhar pela primeira vez. Algumas plantas já estavam com dez centímetros, e ele só queria dividir isso com alguém. Tirou as roupas e desceu até o subsolo do castelo por uma rampa.

Lá embaixo, com a água já pela cintura, ele se transformou e mergulhou. Passou pelos túneis, abriu a escotilha de proteção, atravessou e a fechou. Mergulhou mais e mais. Depois de algum tempo nadando devagar e aproveitando cada pequena coisa que o deixava saudosista, viu ao longe as luzes do castelo acesas. As paredes brilhavam como pérolas, mas eram feitas do casco do tartoh gigante, achado apenas em profundezas escuras. Brilhavam no escuro e eram fáceis de ver.

Tarwin encostou as mãos em uma das paredes, agradecendo por estar ali. O povoado, a essa hora do dia, devia estar recolhido para o almoço, e Tarwin só ouvia o burburinho dentro das casas. Entrou e encontrou o caminho limpo, mas muito deserto. Aumentou a velocidade do nado. Não sabia o que estava acontecendo, mas achou tudo muito estranho. Parou na porta do grande salão e viu Mênadie falando com as pessoas. Ela o viu e nadou rapidamente até ele.

— Onde você estava? Eu mandei mensagens para você. Todo mundo está te procurando! — Desculpe… o que houve? Eu estava no castelo da encosta. — Quase nos matou de susto. Kae destacou uma comitiva para buscar você no caminho até aqui. O que aconteceu com você?! — Não quero falar sobre isso. Só saibam que estou no castelo da encosta. Meus pais estão bem? — Sim. Só preocupados. Foram descansar, estavam exaustos. — Ela olhou para ele com a cara feia e apontou o dedo. — Escuta aqui, garoto: eles são meus tios também.

E você é meu melhor amigo na vida! Eu mereço, no mínimo, a dignidade e a tranquilidade de não me preocupar com você porque você simplesmente se deu ao luxo de desaparecer. — Ok, Mênadie. Não farei mais isso e, um dia, te conto o que houve comigo. Vou ver meus pais e avisarei aos outros — e ao Kae — que estou bem e em casa. Desculpem mesmo por ter preocupado a todos. Não vai mais acontecer!

Chamas Celestes

Sinopse

Em um mundo marcado por guerras antigas, pactos esquecidos e poderes que jamais deveriam ser despertados, as chamas não nascem do fogo, nascem da escolha. Quando sinais de um desequilíbrio voltam a surgir, reinos inteiros entram em alerta. Dragões desaparecem, portais são abertos nas entranhas das montanhas e forças que haviam sido seladas começam a se mover nas sombras. No centro desse caos está um segredo capaz de mudar o destino de todos: um poder ancestral ligado às Chamas Celestes, cuja existência foi apagada da história. Entre alianças frágeis, traições silenciosas e conflitos que atravessam raças e territórios, personagens são forçados a confrontar não apenas inimigos externos, mas também aquilo que carregam dentro de si. Uma decisão cobra um preço. E a verdade revelada ameaça incendiar todo o mundo conhecido. Chamas Celestes é um romance de fantasia que combina intrigas políticas, magia antiga e tensão crescente, conduzindo o leitor por um universo onde o passado insiste em retornar — e onde nem todos sobreviverão ao despertar das chamas.

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