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Capítulo 14 · Chamas Celestes

Capítulo 14

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Sírius passou seis noites dormindo no topo de árvores. A cada dia, subia mais a parede de pedras, mas, ao final da tarde, tinha que caçar para poder se alimentar. De manhã, sentava e esperava a água cair das folhas das árvores para encher novamente sua bolsa. E tinha que, mesmo com o enorme esforço corporal despendido, tentar fazer durar o alimento e a água, pois sempre poderia ficar sem um ou outro.

No segundo dia, Sírius olhava para o alto e não imaginava de onde havia saído aquela parede, se era natural ou se fora feita por alguém. E, se fora feita, há quanto tempo? Quais e quantos seres haviam feito algo tão alto?

Sabia que o muro não era visível pelos céus, porque as copas das árvores eternas chegavam aos céus, quase tocando as nuvens, e que, para chegar até ele por terra, demandaria muitas semanas de caminhada, adentrando muito fundo na floresta, o que seria impossível para alguém que não quisesse ser atacado pelos têntri. Então, concluiu que somente ele sabia sobre aquele muro e, claro, a linda elfa dentro dele.

No terceiro dia, acordou de muito mau humor, pois havia caído durante o sono e acordara ao bater o torso no galho abaixo, agarrando-se a ele e arranhando o corpo, braços e pernas para se manter ali. Ficou bem machucado e teve um galho fincado em um dos músculos do braço. A sorte foi que tinha medicação para não ter infecções. O problema foi que teve que usar a água para lavar os ferimentos antes de passar a pomada, e o que sobrou foi pouco para o restante do dia, subindo e forçando o corpo.

Então teve que poupar energia e se mexer o mínimo possível durante aquele dia. Ao fim do dia, forçou-se a se levantar e fazer mais algumas armadilhas para pegar pássaros tirones ou pequenos náviles que pululavam aqui e ali naquele horário, em busca de insetos e outros animais menores. Deitou novamente e esperou até ouvir os

pequenos sinos que havia colocado nas linhas das armadilhas e, por milagre ou não, os três sinos tocaram com um intervalo pequeno de tempo entre um e outro, indicando que havia pego algum animal. Sírius levantou e olhou o próprio corpo. Toda a extensão dele estava ralada, cortada e com manchas que estavam se tornando da tonalidade de um roxo escuro. A parte perfurada era a pior, assim como o torso, que foi onde bateu com todo o peso do corpo.

Ia se curar, mas sabia que mais vagarosamente do que se tivesse uma alimentação completa e regular todos os dias. Não morria de fome, mas não fazia as cinco refeições diárias e diversificadas como quando era rei. Ainda mais para um da sua espécie e para o seu animal. Um leão de mais de dois metros de altura em pé, como ele, plenamente transformado, precisava de seis a oito quilos de carne por dia. Também comia outras coisas, mas a carne era seu principal alimento, e não consumia nem uma fração de um quarto disso.

Era muito pouco para sua constituição física. Seu físico era supermusculoso, mas muito magro. Não havia gordura corporal nenhuma para, por exemplo, manter o calor do corpo à noite. Por isso, por todos esses fatores, tinha que se transformar apenas parcialmente à noite, para não morrer de frio nem fazer o seu leão sofrer com um corpo mal alimentado e maltratado. Foi devagar até as armadilhas e tirou os pequenos animais delas.

Limpou e assou os três, se alimentando totalmente deles daquela vez, sabendo que precisaria muito daquela comida para sua regeneração. Resolveu que deixaria as armadilhas por mais uma noite. A quarta armadilha não havia sido mexida e, quem sabe, com mais quatro animais aumentaria um pouco mais a aceleração de cura do corpo. No quarto dia, conseguiu pegar mais água e mais animais, que, para sua surpresa, eram bem grandes. Havia colocado, dessa

última vez, uma semente de Fruta da Lua e descobriu, agradavelmente, que esse era o petisco preferido de um animal que nunca imaginou conseguir pegar, ainda mais com o corpo debilitado pela fome: um timtê, um animal de mais ou menos cinco quilos que pulava pelas árvores em busca de sementes. Assou o pequeno grande ser e, pela primeira vez, se deliciou e se sentiu um pouco cheio.

Comeu devagar para não correr o risco de colocar tudo para fora, bebeu sua água, passou novamente água fresca nos ferimentos e cobriu-os de pomada. Arrumou todas as coisas nas costas antes de recomeçar a escalada. No quinto dia, Sírius já havia se recuperado um pouco e saía da rede mais rápido do que antes. Subiu em uma das pedras no muro e começou a escalar.

Quando chegou o meio do dia, já estava com os músculos retesados de tanto esforço e resolveu caçar novamente, montando as armadilhas em três pontos diferentes. Deixou mais das sementes da lua em dois e, no outro, a fruta comum das árvores que vinha deixando antes. Precisava de mais alimento para que o buraco que o galho fizera em seu braço se regenerasse logo. Tinha hiper-regeneração, mas, por causa da falta de alimentos regulares, não estava regenerando de forma normal para o seu organismo.

Isso o irritava um pouco, mas tinha consciência de que era o resultado das próprias ações. Se não houvesse enlouquecido de ódio e desejasse vingança pela morte de sua família, se estivesse ainda no castelo, se cuidando, juntando forças e planejando as excursões para eliminar Borag e os têntri, e se tivesse tido mais paciência, não estaria assim.

Aqueles dias em que estava escalando a parede, junto com a queda, o tinham feito pensar que seu corpo estava no limite havia muito tempo e que precisava de muito mais do que aquilo para destruir Borag e seus têntri. Precisava estar em seu máximo potencial. O sexto dia amanheceu chuvoso, para sorte de Sírius.

Preparou suas bolsas de pele rapidamente para aproveitar e captar o máximo de água possível. Andava com apenas uma bolsa cheia havia tempos, tendo, assim, que racionar sua hidratação o tempo todo. Então precisava da chuva mais do que nunca. Sentado embaixo de algumas folhagens, com frio e tremendo, Sírius observava a água entrando rapidamente nas bolsas, escorrendo de algumas folhas enormes. Pensou novamente sobre a elfa de cabelos brancos e longos. Ela conhecia Borag, mas até que ponto o conheceria?

Saberia ela que ele nada mais era do que um assassino sádico? Será que sorriria para ele ainda se tivesse presenciado o assassinato de seus pais e de outras pessoas, não só do seu povoado, mas dos povoados em que esteve até os feiticeiros conseguirem isolar as aldeias e bani-lo para longe? Será que ela compartilhava de sua extensa maldade? Ou talvez fosse apenas inocente. Talvez não soubesse de nada do que ele era ou fizera. Talvez apenas estivesse tentando sobreviver a Borag.

Conseguiu se alimentar bem e bebeu bastante água. Empacotou suas coisas e amarrou as bolsas pesadas nos quadris, já que carregava os outros pertences nas costas. Caminhou pelo galho grosso até a parede próxima e reiniciou a subida. Passou por várias partes do muro onde havia plantas se imiscuindo por entre as pedras e, em alguns locais, algumas pedras faltavam, como se as plantas tivessem empurrado as pedras e derrubado-as conforme cresciam.

Finalmente, não encontrou nada para segurar, então só lhe restou impulsionar o corpo com as pernas. Quando alçou o corpo mais para cima, viu o topo do muro. Subiu e sentou-se na beira. Olhou em volta, respirando rápido e ruidosamente, extremamente cansado pelo último esforço. O muro seguia aparentemente tão infinitamente quanto os olhos alcançavam, o fazendo constatar que era tão largo quanto

alto e comprido. Ficou parado por vários minutos, até que puxou as pernas para cima e as esticou de lado. Deitou-se e ficou olhando para o céu. Nuvens passavam tão perto que, se ele se levantasse, entraria dentro delas. Olhou para a esquerda e, por fim, se levantou. As pedras continuavam como num calçamento de uma rua ou ponte e se estendiam por alguns metros de largura. Sírius chegou até o outro lado e olhou para baixo.

Bem lá embaixo, viu muitas árvores, talvez frutíferas, pois via algumas pintadas de vermelho e amarelo. Viu um lago do lado direito do terreno, o início de uma casa ou cabana e o restante incrustado no início de uma montanha. Viu um solário todo envidraçado, cheio de plantas, e, ao lado do solário, uma plantação de alguma coisa, muito bem planejada em fileiras. A visão que tinha do local era pouca, de tão alto que estava, e só podia imaginar que tudo o que achava que via era aquilo mesmo.

Sírius resolveu montar as armadilhas e o acampamento ali em cima e vigiar por alguns dias o que acontecia lá: se Borag visitava a elfa todos os dias; se não, em quais dias costumava ir; ou, se não tinha um padrão, deveria ficar mais atento para não ser pego nem por ela e muito menos por Borag. Precisava ser esperto, mais do que nunca.

Chamas Celestes

Sinopse

Em um mundo marcado por guerras antigas, pactos esquecidos e poderes que jamais deveriam ser despertados, as chamas não nascem do fogo, nascem da escolha. Quando sinais de um desequilíbrio voltam a surgir, reinos inteiros entram em alerta. Dragões desaparecem, portais são abertos nas entranhas das montanhas e forças que haviam sido seladas começam a se mover nas sombras. No centro desse caos está um segredo capaz de mudar o destino de todos: um poder ancestral ligado às Chamas Celestes, cuja existência foi apagada da história. Entre alianças frágeis, traições silenciosas e conflitos que atravessam raças e territórios, personagens são forçados a confrontar não apenas inimigos externos, mas também aquilo que carregam dentro de si. Uma decisão cobra um preço. E a verdade revelada ameaça incendiar todo o mundo conhecido. Chamas Celestes é um romance de fantasia que combina intrigas políticas, magia antiga e tensão crescente, conduzindo o leitor por um universo onde o passado insiste em retornar — e onde nem todos sobreviverão ao despertar das chamas.

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