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Capítulo 30 · Chamas Celestes

Capítulo 30

30 de 40 ≈ 22 min de leitura

Àsgar deixou a ilha ao amanhecer, carregando mais uma cesta — agora um pouco menor do que a que havia levado anteriormente — e com porções de comida menores. Esperava que ela gostasse de tudo. Queria vê-la alimentada e forte para o que viria. Estava levando também alguns livros sobre quebra de maldições antigas, como parecia ser o caso dela. Passara a noite na biblioteca e acabou dormindo sobre os livros. Teve que procurar as seções corretas, pois a biblioteca não era tão grande quanto a de outros locais e não tinha um bibliotecário havia muito tempo.

Talvez por isso a falta de tantos livros necessários para estudos de todas as artes. Mais coisas que precisaria providenciar. Sobrevoando a floresta novamente, Àsgar ouviu um rebuliço em algum lugar que não conseguia ver. Planou lentamente e pousou em um galho; caminhou por ele sem fazer barulho e foi descendo por outros para ver o que estava acontecendo. Ainda estava amanhecendo, então talvez encontrasse algum têntri atacando alguém. Ouviu uma conversa e alguma gritaria.

Uma bruxa mais velha falava com outra, bem jovem, com vestes sensuais. — Eu disse a você para tomar cuidado com Borag, que ele faria de você uma escrava. Eu lhe avisei diversas vezes que ele não queria joias e muito menos metal. Você sabe que eu digo a verdade, queira eu ou não, Salyan. — Mãe, ele me ama! Ele me disse que quer viver comigo! — Ele está mentindo, Salyan. Ele te machucou, torceu seu braço e feriu seu rosto, não vê? Não vai viver com você, sua tola. Ele mantém prisioneiros.

Você será apenas mais uma escrava para ele. Você não ouviu falar? Não viu o novo centry que ele transformou em têntri? Não confie nele. Me ouça antes que seja

tarde demais, Salyan! — Não! Eu vou para a montanha viver com ele! Já tomei minha decisão! — Eu não entendo… Você só pode estar enfeitiçada. Por favor, filha… — Me esqueça, mãe. Eu estou indo. Serei a rainha dele. E, por favor, não fale sobre absolutamente nada para ninguém! Você sabe que, se Borag se irritar com você, talvez seja você que vai se arrepender, e não eu! A bruxa jovem saiu pela floresta e sumiu em meio a uns arbustos. A mais velha chorou ali, em pé. Àsgar teve muita pena.

Ela estava certa: Borag só fazia uso dos seres e depois os descartava. Àsgar esperou até não ouvir mais nada em volta e desceu ao chão, em frente à bruxa em prantos. A bruxa se espantou e recuou, tropeçando numa raiz elevada do solo e caindo de costas. Abriu a mão, formando um círculo com luzes verdes em letras e palavras na língua wicca. — Não se aproxime! — ela falou. — Se acalme. Não me aproximarei. Vim em paz. Sou o rei Àsgar, dos dragões. — O que quer aqui? Veio nos expulsar da floresta agora?

Não temos mais para onde ir! — Não. E não fomos nós que expulsamos as bruxas: foram nossos ancestrais. E nunca mais faremos algo assim. Na verdade, pretendo acabar com isso. Com as proibições. Ela franziu a sobrancelha, olhando para baixo, pensativa. O escudo em suas mãos foi se fechando. Àsgar estendeu a mão para ajudá-la a se levantar. — Aqui. Eu lhe ajudo. Ela aceitou e se levantou, limpando a terra da roupa com pequenos tapas. — Vejo que você tem motivos para não seguir Borag.

Eu ouvi sua discussão com sua filha. E sinto muito. Precisamos de aliados,

por enquanto, para vigiá-lo o mais de perto possível. Posso confiar em você? — Ele está enganando minha filha. Ela é a única filha que tenho. Não posso perdê-la. Ele é maléfico. Mês passado, ela chegou em casa com o braço todo roxo e o rosto esfolado. Disse que se machucou na floresta, mas sei que foi ele que fez isso. Eu preciso dela viva. Você vai me ajudar a tê-la de volta? — Farei o possível. Prometo. — Terá minha total lealdade. Farei o círculo de confiança entre nós. Concorda? Àsgar a olhou, surpreso.

A honestidade daquela bruxa era incrível — e não tão esperada. O círculo de confiança era algo dado por lealdade. Se uma das partes pensasse em trair a outra, a outra era avisada; e, no tribunal de bruxos, era uma ofensa gravíssima. Além de causar dor extrema ao traidor, o tribunal colocava os traidores na prisão astral. — O tribunal ainda funciona? — perguntou ele. — Aliás… como é seu nome? — Me chamo Kalíophe. E, sim, o tribunal funciona. E meu poder é o dom da verdade.

Então, se você ouviu a minha conversa com minha filha, tudo o que eu disse a ela era a verdade. Penso que ela está enfeitiçada. Àsgar arqueou as sobrancelhas. — Então, independentemente do que eu lhe perguntar, você me dirá apenas a verdade? — Sim. Não é um dom muito útil. Mas eu sei quando alguém mente. As pessoas geralmente não querem saber a verdade sobre si mesmas e nem sobre seus relacionamentos. Não sou muito famosa por aqui. Quem engana é. — Pelo contrário. Seu dom será extremamente importante para nós.

Não necessito fazer o círculo de confiança. Encontre-se comigo amanhã, aqui mesmo. Concorda? Ela afirmou com a cabeça.

— Vou trazer algo para nos comunicarmos. — Concordo. — Não fale nada a ninguém sobre isso. Não podemos arriscar. Mas pedirei que coloque num papel os nomes de quem é confiável e quem tem algo contra Borag nesta floresta. Todas as bruxas e os outros seres que você conhecer. Iremos até eles. E prepare-se para que, a qualquer momento, eu retire você daqui. Deixe separadas as coisas mais importantes para você. Talvez precise. — Me prepararei e esperarei por você. — Mais uma coisa…

só por curiosidade: qual é o dom da sua filha? — Ela é vidente. — Em que nível? — Apenas para perguntas específicas. — Então temos que saber o que perguntar. — Sim. É isso. A maioria não recebe as respostas que queria. Ele a usa para achar dwarfs. Pobres pequenos… Não consigo entender como ela faz isso. Sempre foi uma garota bondosa. Ele a enganou no começo, depois disse quem ele era. Apesar de morarmos aqui há muito tempo, a maioria de nós nunca esteve com ele. Vemos apenas seus têntris correndo pela floresta.

Ele é um homem muito bonito. Seduziu e enganou minha filha. Tenho certeza disso. — Tenha calma. Se ele a usa, não fará mal a ela… eu acho. Não por enquanto. Amanhã, mesmo horário e local. Até lá. Ela assentiu. E Àsgar subiu voando em direção à casa de Filanthe. Passou pela floresta rapidamente, planando com o vento. Chegando perto da cabana de Filanthe, visualizou Borag saindo de lá. Desceu até uma árvore e ficou ouvindo o que acontecia.

Ele disse para Filanthe se manter boazinha, pois sua filha estava bem, que era agradável… e simplesmente montou em um têntri — o que Kalíophe havia mencionado: o pobre centry transformado — e

voou por cima da floresta em direção à montanha. Àsgar teria que ficar mais atento ao vir antes do sol estar pleno no céu. Quase trombara com Borag. Sua vontade era soprar e queimá-lo até sobrar apenas cinzas, mas não sabia muito bem os poderes que ele tinha, nem por que todos haviam se isolado dele… Não era possível que fosse fraco em nenhum aspecto. O desgraçado tinha a filha de Filanthe e a filha de Kalíophe. Provavelmente havia sequestrado filhos de quem eles nem conheciam ainda. Precisava ser cauteloso.

Em todos os sentidos. Após olhar em todas as direções, esperou até que o sol pleno saísse de trás da planície e banhasse a frente da varanda da cabana de Filanthe. Ela abriu as portas e sentou-se numa cadeira confortável ao lado. Ele ficou ali, estarrecido com a beleza dela. Totalmente iluminada pelo sol — como ele nunca a tinha visto. Ela era deslumbrante. Àsgar deu um passo no tronco, saindo de trás das folhagens que o cobriam, e ela o viu.

Os olhos dela se fixaram nos dele: os dela brilhando com lágrimas reprimidas; os dele, incompreensíveis pela mistura de sentimentos. Ele levantou voo e pousou silenciosamente em frente a ela, na varanda. Chegou perto e abaixou com um dos joelhos no chão. Colocou a cesta no chão ao lado. Segurou as mãos dela. — Como você está? — Com muita raiva. Sinto meu poder se revolvendo dentro de mim. Essa prisão me consome, mas, ao mesmo tempo, está potencializando o meu dom.

Temo que, quando eu me libertar disso — se um dia eu me libertar —, não poderei estar perto de ninguém… a não ser de Borag. Por isso preciso ter muito cuidado. — Elrony me disse que você derrubaria a montanha de Borag. — Eu nunca uso meu poder… não de verdade. Só faço amuletos, fundindo os ingredientes numa pedra perfeita, como se estivessem ali calcificados. Mas eu posso destruir pedras até virarem pó, ou forçar o pó a se transformar em pedra. Ou

montanhas. E agora acho que posso destruir tudo de uma só vez. — Eu trouxe alguns livros antigos da biblioteca da ilha flutuante. Talvez você encontre algo que a ajude. Se não quebrar o feitiço, ao menos algo para controlar seus poderes. Ela olhou a bolsa que ele lhe entregava. Sorriu. — E, se não servirem para nenhum dos dois, será uma distração para mim. Passo muito do meu tempo sozinha. Obrigada por vir e ficar ao menos por um instante. — É um prazer estar aqui. Ele virou e pegou a cesta. — Trouxe isto.

Em menor quantidade desta vez. Espero que esteja tudo a seu gosto. — Sei que estará. Não canso de dever a você. — Eu… nós… os reis e rainhas é que devemos a vocês. E não o contrário. — E então, quando tudo isso se resolver, se eu ainda estiver viva e tudo estiver bem, posso agradecer a você. Ou… talvez… comemorar com você. — Poderemos fazer o que quisermos. Ficaram se olhando. — Vamos comer. Aqui mesmo — disse ela, apontando para a mesa ao lado. — Este é o meu lugar preferido. Amo as alturas.

Me encanta olhar de cima e ver essa imensidão de céu e terra se encontrando. Não imagino como deva ser para você voar e morar num lugar muito mais alto do que eu jamais cheguei na vida… ou chegarei um dia. Ela abriu os pacotes de comida e foi comendo aos poucos: pães e muitas variedades de carnes, frutas e cereais. — Eu a levaria até lá quando isso tudo acabar e seu feitiço for desfeito. — Seria maravilhoso… mas eu não acredito que eu vá sobreviver a isto. Quero que saiba… Ela o olhou nos olhos.

— Eu pensei muito durante esses dias. Se você e os outros reis e rainhas entrarem mesmo a sério numa guerra… eu estou pronta para arriscar minha vida por minha… ela. Você sabe quem. — Estamos. Fizemos uma reunião, coloquei os fatos em relatório, tudo foi mencionado e não houve outra opção, nem para mim nem para os outros. Apenas uma rainha não se interessou, mas isso é o de menos. Nós iremos atacar. E você não vai precisar dar sua vida. Eu quero lhe garantir isso. — Mas eu vou… se houver necessidade.

Quero que saiba disso. Nada é mais importante para mim do que ela. Nada. — Não haverá necessidade. Eu vou me assegurar disso. Àsgar ficou emocionado diante da simples ameaça de perdê- la. — Prometo que não precisará. Fitou-a comovido. — Eu faria qualquer coisa. Eu… Ele respirou fundo. — Eu quero que saiba que eu o admiro muito pelo que está fazendo, arriscando sua vida por pessoas que nem conhece… E em outras circunstâncias eu talvez… Só que eu preciso focar apenas…

Não posso ter mais alguém com quem me preocupar no momento. — Infelizmente eu não posso dizer que não quero ter alguém com quem me preocupar. Eu não consegui controlar nada disso. Ele se levantou da cadeira. — Seria bom se eu conseguisse esse feito. Se houver um feitiço que faça isso, por favor… eu pagarei por ele uma quantia bem alta. É só você me dizer, Filanthe. — Me desculpe por isso — disse ela, com a voz trêmula. — Esqueça que tivemos essa conversa. Eu me manterei longe.

Deixarei sua cesta aqui nesta mesa todas as manhãs e só a chamarei se for extremamente importante. E você pode deixar algum bilhete na mesa se precisar que eu fique, ou para me falar alguma coisa. Tem minha palavra.

Virou as costas. — Preciso ir. Apenas faça uma lista das bruxas e seres que você tem notícias de que são bons e que podem nos ajudar de alguma forma. — Não vá… não agora. Não assim. Por favor, Àsgar. — Eu não posso ficar. — Fique. Àsgar parou. — Você me disse o quê? Quero que seja literal e clara. Eu não estou exigindo nada de você, apenas que me explique… porque eu não entendi. Você percebeu como eu me sinto a seu respeito desde que te vi pela primeira vez.

Eu nunca iria me impor a você, Filanthe, se você teme que eu faça isso. — Eu não quero ter mais um motivo… Ah, deuses… eu não sei o que falar, não sei o que pensar! Eu estou muito cansada de lutar! Mas eu preciso. — Você não está mais sozinha, Filanthe. Mesmo que você não queira, ou que você me rejeite, não me importa. Eu estarei aqui. Eu preciso que você leia estes livros. Eu passei a tarde, a noite e a madrugada lendo, tentando encontrar algo adequado ao seu caso. Encontrei várias possibilidades, mas sou leigo.

Eu não entendo muito de magia. Eu sou um dragão. — Você passou a tarde, a noite e a madrugada pesquisando em sua biblioteca? — Sim. — Por quê? Àsgar hesitou. — Você não quer saber disso. Ambos ficaram quietos. Ela baixou os olhos. — Obrigada. — Quero lhe perguntar sobre duas bruxas… uma chamada Kalíophe e a outra, Salyan. Você sabe de quem se trata? — Sim. Não confie em Salyan. Ela está enfeitiçada. Mas a mãe

dela, Kalíophe, não está. Você pode confiar nela. Ela não aprova que a filha ande com Borag. No início, Borag a seduziu e falou que era outro alguém. Quando ela descobriu quem ele era, ele a enfeitiçou. Ela estava apaixonada… Agora, acho que, se quebrar o encanto, talvez ela mate Borag. — Mais um motivo para que você analise esses manuscritos e livros. Eu encontrei Kalíophe hoje antes de chegar aqui. Tive uma conversa com ela. Está do nosso lado. Quer salvar a filha.

Disse que Borag torceu o braço dela e feriu seu rosto há algumas semanas. — Pobre Kalíophe… ver isso e não poder fazer nada. — E, quando as vi discutindo, era porque Salyan foi embora da casa da mãe para viver com Borag. Filanthe arregalou os olhos. — Ele não vai gostar muito disso. — Isso é um problema? — Será se a raiva dela consegue quebrar o feitiço de paixão que ele fez. — E temos como quebrar esse feitiço sem ela perceber? Colocando algo na bebida ou comida dela?

Talvez Kalíophe coloque em algo sem ela perceber. — Teria um modo, mas é arriscado. Envolve a bruxa que fez o feitiço. Teríamos que pegar a receita exata que ela usou para fazer um contrafeitiço. — E você sabe que bruxa foi essa e onde ela vive? Talvez eu envie alguém até ela para comprar um feitiço igual. — Sim. Quem faz essas coisas para Borag é a Troilla. — Você acha que o seu feitiço foi ela também que fez? — Não. Não acho. — Acha que foi Borag? — Sim.

— Então teremos que pegar o livro ou manuscrito dele em algum lugar da montanha. Isso seria útil? — Sim… mas é impossível.

— Não é impossível. E eu tentarei. — E se… — Não se preocupe. Tenho meios seguros de fazer isso. Mas pode ser que eu não consiga achar o local que ele guarda, então talvez não dê certo. — É muito perigoso. E se alguém ver? — Não verão nada… se o espião estiver invisível. — Oh. — Por enquanto, vamos focar nos livros e manuscritos que temos aqui. — Tudo bem. Venha se sentar na poltrona que é mais confortável. Eu também me sentarei. Leremos juntos. — Se preferir, eu vou embora. — Eu não prefiro que você vá embora.

Àsgar fez que sim com a cabeça e entrou na cabana. Sentou-se na poltrona almofadada de um lado da lareira; ela, na do outro. Abriu a bolsa com os livros, deu um a ela e ficou com outro nas mãos. A cada coisa que lia e achava que poderia ser proveitosa, mostrava a ela — ficando assim praticamente com as cabeças juntas, se tocando. Àsgar estava tendo dificuldades de concentração como nunca tivera antes.

Lia as palavras, mas qualquer movimento que ela fazia captava o olhar dele e o fazia reparar em pequenas coisas: em como os cílios eram vermelhos como os cabelos e na sombra que faziam nas bochechas. Nas pequenas sardas espalhadas pela pele, sumindo por dentro da roupa. Ela só usava vestidos por causa das tornozeleiras; então, Àsgar imaginou que talvez ela não usasse mais nada por baixo. Àsgar fechou os olhos e se remexeu desconfortável com a posição… e com a ereção que surgira com aquele pensamento.

Puxou o ar devagar. — O que houve? Você se sente mal? — ela perguntou, chegando mais perto. — Não foi nada. Apenas um breve desconforto.

— Oh… essa poltrona deve estar pequena para você, não? Venha. Use a minha. Era do meu marido e eu me acostumei a me sentar nela depois que ele faleceu. Mas troque comigo. — Não precisa. Por favor. Eu estou bem. Já passou. Ele sabia que não havia passado, mas não se levantaria e a deixaria constrangida com a prova de que seus pensamentos estavam indo longe — para um lugar que não deveriam. — Tem certeza? — Sim, Filanthe. Vamos voltar aos livros, por favor? — Claro. Tudo bem. Vou pegar algo para bebermos.

Quer beliscar algo? Está com fome? Sim, ele queria beliscar ela toda. — Não… ou talvez sim. Qualquer coisa. — Estamos há algumas horas pesquisando. Talvez, se eu colocar as coisas que você trouxe aqui na mesa baixa, podemos fazer disso um almoço. O que acha? — Seria genial. Ela sorriu. — É o que farei, então. Filanthe começou a se mexer pela cabana, pegando uma coisa aqui e outra ali, se inclinando para pôr na mesinha baixa.

Passou alguns minutos fazendo isso e, quando voltou e finalmente sentou, foi no chão, em frente a ele, cruzando as pernas. A saia caía e deixava os tornozelos e os pés de fora. Os cabelos longos, trançados de lado e puxados para frente, estavam em seu colo. — Venha. Desça para o chão. Fica melhor para você comer sentado igual a mim do que em cima dessa poltrona. Àsgar suou. Seria péssimo levantar, mas também seria cômico insistir em ficar na poltrona e se curvar para alcançar a comida.

Pensou no que seria mais embaraçoso para ele… e para ela. Hesitou. — Àsgar… o que houve? — Vou ser sincero. Eu estou com uma baita ereção. Não queria

dizer isso. E eu sei que você está tão constrangida quanto eu, mas você não me dá escolha. Me desculpe. Ele se levantou. Filanthe puxou o ar. Os olhos bem abertos, olhando direto para a direção que ele não queria que ela olhasse. — Minha deusa Tríplice… Deusa-mãe… — Me desculpe — disse ele, sentando rápido e puxando uma pequena almofada que estava na poltrona para se cobrir. Ficaram em silêncio. Então Filanthe falou: — Está tudo bem… Eu… vamos comer. Com certeza isso vai passar.

Pegou qualquer coisa e colocou na boca. Mordeu e Àsgar olhou intensamente os lábios dela. Levantou-se novamente, com a almofada na frente. — Eu preciso ir. Amanhã eu trago mais comida fresca. Obrigado por… por tudo. Até amanhã. Ele respirou, apressado. — Ah… eu trouxe isto. Entregou o pequeno espelho de comunicação para ela. — Me chame quando quiser falar comigo… ou para o que precisar. Desculpe. Saiu rapidamente pela porta da varanda. E ela ficou sozinha, com os pensamentos sobre ele.

Àsgar estava furioso consigo mesmo. O que diabos havia com ele? A constrangeu e a envergonhou. Ela mal tivera palavras. Já havia dito mais cedo que não queria nada com ele, e ele faz aquilo. Fica se distraindo com as pequenas pintinhas que desapareciam pelo decote recatado do vestido. Olhando os pés e imaginando que ela estaria sem roupas íntimas. Nunca passara por aquilo. Não tinha coragem de voltar lá. Era isso o que faria: voaria até a casa de Elrony e pediria para que ela voltasse a levar comida para Filanthe.

Não. Não podia colocar a vida de Elrony em risco.

Teria que dar um jeito. E não queria enviar ninguém que não fosse ele. Essa era a verdade. Ele não queria mais abrir mão de vê-la. Precisava olhar o rosto dela, se certificar de que estava bem e cuidada, alimentada. Queria ser o motivo do riso numa conversa. Queria ser quem segurasse as mãos dela quando ela não estivesse bem. Queria ser quem daria forças. E teria que tomar cuidado, porque queria muito mais do que isso. Queria amá-la e ser querido por ela. Ele estava apaixonado, mas não deveria demonstrar.

Não deveria falar sobre aquilo, nunca. Deveria tentar esquecer e focar apenas no que tinha que fazer. Amanhã, voltaria à casa dela, deixaria as coisas lá, falaria apenas o suficiente e voltaria para casa. Simples e eficiente. Só deveria cuidar dela e levar alimento. Nada mais do que isso. Filanthe observou da porta da varanda Àsgar voar para longe. Sabia o que ele estava sentindo. Sentia-se assim também, mas não podia se envolver com ele. Não era justo com ele. Quem sabe quando tudo isso acabasse…

Talvez ele nem a quisesse mais. Ele era um rei e com certeza quereria uma fêmea da mesma espécie para ter filhos e ensinar sobre as coisas de dragão. Ela nunca teria asas, nunca voaria como ele e talvez nunca pudesse ter um filho dele. E ele, com certeza, gostaria de ter um. Sentou-se em frente à pequena mesa. Comeu porque tinha muita fome e porque precisava estar forte para a batalha que, com certeza, lutaria assim que se livrasse daquela corrente maldita.

Terminando, juntou tudo, colocou na pequena caixa e desceu-a até o rio gelado para manter a comida resfriada e não estragar. Fez as outras tarefas: limpou, varreu, leu mais livros e alguns manuscritos. Deitou. Precisava dormir. Não dormira desde a noite

anterior, quando Borag foi até a varanda com o pobre centry transformado em têntri e pousou pesadamente. Ela se assustou, viu que era ele e tentou fechar os olhos e pensar na filha. A pequenina gorduchinha que nunca mais abraçaria, nem cheiraria os cabelos com cheiro de sabão infantil… porque agora tinha se transformado numa mulher. Ele roubou aquilo dela. Mas, como uma boa bruxa, ela se vingaria. Ficou divagando sobre o que acontecera durante o dia: as coisas que Àsgar fizera, falara e compartilhara com ela.

O coração acelerou quando ele disse que precisaria de um feitiço para não sentir. Deixou subentendido que sentia algo por ela e, mesmo tendo mudado de assunto, o coração dela permaneceu acelerado. Visualizou-o excitado e constrangido. O volume era digno do tamanho dele. Ela nem queria saber como seria quando ele fosse um dragão formado. Lembrou como sempre fora fascinada por dragões e como a mãe a levara para ver um adormecido quando ela tinha dezessete anos. Achara incríveis as escamas; como brilhavam…

e como ela queria tocá-las. A mãe avisou que não podia, pois eles se transformavam em homens. Filanthe disse que não se importaria de se apaixonar por um. A mãe falou, pacientemente, que eles nunca ficariam com uma bruxa. Porque elas eram párias para todas as raças, só porque algumas bruxas haviam se aliado a Borag e todas levaram a fama de más. A mãe disse que talvez Filanthe nunca tivesse ninguém na vida — não romanticamente, não por amor. Talvez só carnal. E a mãe estava errada. Ela conheceu o marido elfo.

Foi o âme sœur dele. Ele a amou de verdade, e ela o amou. Fazia tanto tempo… parecia um sonho. E agora ela conheceu Àsgar. E ele tinha desejo por ela. Isso ficou completamente claro. Talvez… se ela pudesse ter somente algo carnal com ele… Havia muito que não tinha sexo com ninguém. Sentia falta. Às

vezes, sozinha, se dava o direito de algum alívio, mas com alguém como Àsgar seria diferente. Talvez. Não. Não podia dar chance de se apaixonar. Mas uma única vez não seria nada demais… seria? Sentou e olhou para o espelho que ele havia deixado. E se o chamasse? Ele viria? Ou diria que estava ocupado? E se viesse… a beijaria? Como seria fazer sexo com ele? Devagar ou impetuoso? Rápido, só para ter prazer… ou se preocuparia com o prazer dela também? Com calor, resolveu tomar banho. Aqueceu a água e colocou aos poucos na banheira redonda do quarto. Quando chegou na temperatura certa, entrou e tentou relaxar.

Chamas Celestes

Sinopse

Em um mundo marcado por guerras antigas, pactos esquecidos e poderes que jamais deveriam ser despertados, as chamas não nascem do fogo, nascem da escolha. Quando sinais de um desequilíbrio voltam a surgir, reinos inteiros entram em alerta. Dragões desaparecem, portais são abertos nas entranhas das montanhas e forças que haviam sido seladas começam a se mover nas sombras. No centro desse caos está um segredo capaz de mudar o destino de todos: um poder ancestral ligado às Chamas Celestes, cuja existência foi apagada da história. Entre alianças frágeis, traições silenciosas e conflitos que atravessam raças e territórios, personagens são forçados a confrontar não apenas inimigos externos, mas também aquilo que carregam dentro de si. Uma decisão cobra um preço. E a verdade revelada ameaça incendiar todo o mundo conhecido. Chamas Celestes é um romance de fantasia que combina intrigas políticas, magia antiga e tensão crescente, conduzindo o leitor por um universo onde o passado insiste em retornar — e onde nem todos sobreviverão ao despertar das chamas.

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