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Capítulo 10 · Chamas Celestes

Capítulo 10

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Em algum lugar da floresta, Borag cavalgava em seu têntri Alazôr, feliz porque seu experimento havia sido um sucesso desta vez! Após encerrar três cativos em sua cela, nas profundezas da montanha que havia tomado para si, conseguiu retirar da fêmea mais velha o sangue necessário para mesclar ao seu e à sua magia, e criar, em um century, o seu cavalo têntri alado. Alazôr era o nome do jovem century.

Havia pensado em lhe dar outro, mas achou que teria mais poder ainda sobre ele chamando-o continuamente pelo nome que seus bondosos e honrados pais mortos o haviam batizado. Riu alto; sentiu, quase, como se escarnecesse deles. Lembrou com carinho como o olhou, surpreso, quando completou a transfusão e o transformou na montaria ideal. Jovem, forte, obstinado e voluntarioso… além de quebrado pelo seu punho até se curvar aos seus desejos. Poder era realmente bom, e Borag tinha sede de poder.

Aproveitara as notícias que seus têntris haviam lhe dado sobre uma luz azul caindo dos céus para cavalgar, voar e testar a velocidade fenomenal de Alazôr. Era magnífica sua criação, a melhor de todas. Agora havia feito um têntri consciente, e não um autômato que ele tinha que controlar. Isso o estava cansando com o tempo e drenava seus poderes; por vezes, tinha que ficar recolhido para se recompor.

Foi atrás da luz azul que havia visto na memória de um de seus têntris e, apesar de olhar em cada local, não havia visto a luz em nenhum lugar. Satisfeito com o têntri Alazôr, voltava para a montanha enquanto pensava. Tentaria recuperar as duas fêmeas que estavam com seus inimigos. Precisaria delas para carregarem seus filhos e também para, talvez, criar mais têntris com o povo fey e seus

sangues misturados. Tinha certeza de que, com os poderes delas, teria o seu império. Voltando para a montanha, enviou mais têntris, simples, mas cheios de magia, para tentar ruir as pontes mais uma vez, ou escavar em algum outro local. E, enquanto isso, também estariam de prontidão para sequestrar as duas fêmeas poderosas que conseguiram fugir na explosão do outro planeta, durante o sequestro que orquestrara e que só deu certo pela metade.

Devia ter imaginado que os dois mais velhos — agora sabia: pais das suas noivas — iriam enviá-las pelo portal. Mas agora que já testara sua montaria, voltaria e brincaria mais um pouco com o sangue da fêmea mais velha, como gostava de fazer com todos os seus escravos. Guardaria a linda fêmea para ser sua primeira esposa, mas antes teria que corrompê-la, torná-la sua, enganá-la e fingir alguma emoção. Riu alto novamente. Seria ela tola o suficiente para crer que havia nele algo tão inferior quanto o amor?

A mantinha como visita em seu castelo, numa parte totalmente separada e à prova de sons, com uma linda clareira rodeada por uma parede altíssima de pedras, após uma parte de floresta fechada e uma falésia que dava para o mar. Uma pequena cachoeira de água termal somente para ela. Ela havia perdido a memória convenientemente. Não sabia nada de nada que ele havia feito. Desmaiada, ele a havia carregado pelo seu próprio portal, junto com seus pais. Eles, amarrados e jogados na masmorra, mas ela…

ele a desejava para si, para ser sua primeira esposa. Ficara encantado com sua pele, diferente das dos elfos e de qualquer fey daquele planeta mágico. Ele a manteria para si, assim: cativa sem saber. A seduziria, faria se apaixonar por ele, a faria mãe de suas proles, depois faria isso com suas irmãs também. Passara anos vigiando os pais delas, depois que um de seus

têntris os viu passarem por um portal e praticar seus poderes na madrugada. O vigiara; o têntri os seguira sem que eles ao menos percebessem. Ele as viu pelos olhos do têntri. Vira o poder escondido e acumulado dentro delas. As desejou, mas a que estava consigo era a mais desejada por ele. Seus cabelos platinados e longos, até os quadris; seus olhos ficavam prata pura sem que ela percebesse. Mas ele via tudo. O potencial daquele poder seria dele e de sua prole.

Proporcionava a ela todo conforto e os suprimentos mais saborosos daquele planeta e do outro, do qual a havia sequestrado. Consumiam-se alguns também do planeta dela, bem como a água. Ele não tocava na água-vida daquele planeta. Ela o machucava. Não sabia o porquê. Queria também descobrir se uma transfusão do sangue daquela família não o faria imune à água-vida. Sempre buscava suprimentos de outros planetas para uso próprio. Estava cansado de não ser o imperador supremo dali.

Queria conquistar cada reino e destruir todos que se opunham a ele. Estava há milênios lá e ainda não havia conseguido quebrar as barreiras daquele reino tão cheio de magia. Queria essa magia. Queria tudo. E conquistaria. Já havia isolado os reinos de si. Eles não lutavam, apenas se protegiam. Não queriam guerras, apenas paz. Tolos! Os esmagaria quando conseguisse quebrar as barreiras mágicas. Caminharia sobre seus corpos… e riria enquanto o fizesse.

Cavalgou calmamente nos últimos quilômetros, satisfeito com seus planos. Tão confiante de si que não percebeu que havia olhos vigilantes na floresta. Sirius, rei dos seres metamorfos, o leão de Valkirhan, estava escondido entre raízes de uma árvore morta e coberto de lama. Usava scenária, uma planta ancestral que, macerada e aplicada na pele, absorvia o cheiro dos elementos biológicos do local, tirando, assim, o cheiro de qualquer ser e tornando-o indetectável.

Estava há anos matando têntris sem que eles o vissem. Estava contaminado pelo ódio e pela vingança, sentimentos horríveis para os de seu reino e dos outros. Não se importava. Queria Borag; ele havia destruído sua família. Andou sorrateiramente atrás dele, levantou sua faca afiada, aprumou-se para pular… até que Borag desceu do cavalo têntri, próximo a uma parede de pedras altíssimas. Com um cetro, encostou na parede, e ela se abriu, revelando uma clareira lindíssima.

E, logo ali, uma princesa de cabelos longos e platinados, pele como ele nunca viu e o mais lindo sorriso que ele já presenciara. Ela olhou para Borag, depois para ele. Seus olhos focaram nos dele; o sorriso morreu. Borag não percebeu. Caminhou até ela, segurou suas mãos. Ela rapidamente o olhou, sorriu novamente, enquanto ele falava: — Olá, Yamine, minha princesa. — Olá, rei Borag. Estava o esperando. Borag caminhou tranquilamente, segurando a mão dela.

Ela o olhou mais uma vez, enquanto Sirius continuou paralisado. Então, a parede se fechou e Sirius perdeu a oportunidade de destruir Borag… e perdeu a oportunidade de visualizar aquela figura que só poderia ter vivido alguma vez em seus sonhos. Sirius olhou para o muro. Tocou as pedras, testando se estavam firmes. Vendo que não se moviam nem com toda força que ele pôde empurrar e puxar, resolveu escalar.

Subiu na primeira pedra e, com a mão esquerda, se apoiou na pedra acima da cabeça, puxando o corpo e coordenando com o impulso dos pés. Vivendo na floresta todo aquele tempo, havia aprendido a subir e descer de árvores, encostas e qualquer outro lugar em que houvesse frestas ou partes em que pudesse apoiar os pés. Passou anos se escondendo dentro de troncos de árvores, em cavernas, em encostas de precipícios, sempre em locais de difícil acesso para os têntris, para que pudesse dormir tranquilo,

recuperar as forças e matar, a cada dia, mais têntris. Seu corpo extremamente forte e musculoso estava apto a suportar as mais primitivas circunstâncias. Havia passado tanto frio, tanto calor e tanta sede e fome que seu corpo já havia se acostumado a sempre dar o máximo de si. Agora que já sabia se alimentar de pequenos animais da noite, não passava mais fome, e a água que bebia da fonte de onde nascia o rio Salutares havia lhe enviado sonhos todas as vezes que dormia profundamente.

A água-vida falava com ele e lhe mostrava uma princesa, bela e inalcançável, de olhos e cabelos prateados, que brilhava como um fogo verde que saía em chamas de seu corpo. Sirius achou que estava tendo delírios por viver extremos e ter se transformado em um ser mal, coisa da qual seus pais e irmãos teriam se envergonhado. Para os povos, matar qualquer ser que fosse era um desvio de caráter grave. Todos os seres eram merecedores de uma vida plena e respeitosa, protegida por todos.

Ele já não era um bom metamorfo como antes. Não era digno de nada bom. Havia matado tanto têntri quanto seres da floresta. Não era mais digno de ser rei, mas faria o que fosse preciso para libertar os povos da tirania e dos ataques covardes de Borag e seus têntris. E agora descobria que a princesa dos seus sonhos estava com Borag! Seria ela a favor do que Borag fazia? Seria má também? Teria ele que matá-la? Ou ela era mais uma vítima dele? Pelo sorriso de boas-vindas…

ou ela não sabia de nada do que ele fazia, ou ela sabia e concordava. Teria que arrumar um jeito de descobrir. Esperava que o muro acabasse e ele conseguisse escalar para o outro lado e perguntar a ela qual era sua condição lá. Ela o viu com a faca levantada para atacar Borag; não o delatou. Simplesmente sorriu novamente e o levou para longe do portal, lançando a Sirius um último olhar.

Ela poderia ter gritado e alertado Borag. Não o fez. Mas estava livre e sorrira ao vê-lo! Apesar de ser um ser maligno, Borag tinha uma aparência extremamente sedutora. Era isso que sempre levava pessoas do povoado a se aproximarem dele sem medo. Era de uma beleza angelical; até os olhos claros e os cabelos negros e longos faziam contraste um com o outro. O externo belo encobria tanta maldade que nunca ouviram falar de outro ser pior do que ele.

Tanto que, há milênios, nunca se haviam feito barreiras mágicas para proteger os povos. Eles viviam tranquilamente passeando nas florestas, rios e mares, e não isolados em suas próprias cidades, como aconteceu depois que Borag chegou e se instalou ali, no planeta deles, por um portal. Seus pais disseram que, primeiro, ele quis fazer amizade com todos os reinos, mas depois, quando foi conhecendo os poderes de todos, foi tentando jogar uns contra os outros, plantando a semente da desconfiança.

Fingiu amizade para apunhalar pelas costas. Sirius se encontrava no reino dos mares e, quando chegou, já haviam guerras programadas entre os povos porque Borag havia falado mentiras para prejudicar o bom relacionamento de todos. Felizmente, descobriram o engodo antes de acontecer uma tragédia. Enviaram Borag para longe e o exilaram de todas as cidades, e mais uma vez tiveram um pouco de paz.

Até que alguns que se aventuravam, mesmo durante o dia, nas florestas, começaram a voltar com uma doença e acabavam morrendo em poucos dias. Alguns, um pouco antes de entrar em coma, falavam, em delírios, que haviam sido quase pegos por criaturas estranhas. Outros nunca mais voltaram da floresta, e não se sabia se haviam morrido ou sido presos. Sirius continuou subindo, até se cansar… e ainda não havia visto o final do muro.

Alcançou o galho do topo de uma das árvores centenárias e pulou para se abrigar para a noite que já havia começado. Desamarrou o tecido que enrolara em seu quadril e que

carregava algum alimento, e sua bolsa feita da pele de selkie que havia achado na areia à beira-mar, onde carregava sua água. Comeu e bebeu. Abriu o tecido e amarrou em dois galhos, formando uma rede para dormir. Deitou exausto e se transformou parcialmente, apenas para aquecer a pele com os pelos do leão que era… e dormiu.

Chamas Celestes

Sinopse

Em um mundo marcado por guerras antigas, pactos esquecidos e poderes que jamais deveriam ser despertados, as chamas não nascem do fogo, nascem da escolha. Quando sinais de um desequilíbrio voltam a surgir, reinos inteiros entram em alerta. Dragões desaparecem, portais são abertos nas entranhas das montanhas e forças que haviam sido seladas começam a se mover nas sombras. No centro desse caos está um segredo capaz de mudar o destino de todos: um poder ancestral ligado às Chamas Celestes, cuja existência foi apagada da história. Entre alianças frágeis, traições silenciosas e conflitos que atravessam raças e territórios, personagens são forçados a confrontar não apenas inimigos externos, mas também aquilo que carregam dentro de si. Uma decisão cobra um preço. E a verdade revelada ameaça incendiar todo o mundo conhecido. Chamas Celestes é um romance de fantasia que combina intrigas políticas, magia antiga e tensão crescente, conduzindo o leitor por um universo onde o passado insiste em retornar — e onde nem todos sobreviverão ao despertar das chamas.

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