Universo da obra
Universo da obra
Dois dias a mais se passaram e Saphyre acordou em seu novo quarto, separada de Kaeidh. Haviam resolvido ficar em alas diferentes do castelo por enquanto, para a proteção de todos na ilha flutuante. Kaeidh havia ido com alguns dragões, Zenit e Zarin, fazer rondas, para distrair a cabeça e parar de pensar um pouco em Saphyre, no dia anterior. Quem sabe iriam encontrar Sirius ali por perto. Com um dragão adulto em plena formação, poderiam cobrir várias milhas ao norte, ao sul, a leste e a oeste em um único dia.
No final do dia anterior, ela e Kae conversaram e decidiram ficar separados, para que ela aproveitasse esse tempo e focasse no treinamento. Hoje era dia de mais treino, só que hoje Ambhar e ela fariam o treino com Fayne e Sora, ambas especialistas em explosões. Após quatro dias de tentativas sem sucesso para acender as piras, tentariam explodir coisas. Talvez, quem sabe, dessa vez desse em algo. Estava tensa e frustrada. Queria estar com Kae, desesperadamente. Mas sabia que ele era uma fonte de distração.
Liamm as mentes um do outro com muita facilidade e, quando esticava o corpo no meio do treinamento, lá vinham os pensamentos dele, dizendo como ela era linda e como ele a desejava, como ele seguia com os olhos uma gota de suor que lhe escorria do pescoço e descia pelo vale entre os seios. Todos os dias, tardes e noites, desejando estar com ele. Se vendo pelos olhos dele. Se sentindo pelas sensações que ela mesma lhe causava.
Não conseguia se concentrar em nada, a não ser em todas as mensagens, pensamentos e imagens que a mente de Kae montava a toda hora sobre ela. Nunca pensou que fosse tão complicado ter poderes e querer
alguém ao mesmo tempo, ainda mais lendo todos os pensamentos dele sobre si mesma. E então ele havia saído em excursão com Zenit e Zarin no dia anterior. Falou com ela ontem à noite pelo espelho do quarto, e a assustou até a morte com isso. Não esperava vê-lo enquanto se penteava depois do banho, e havia levado um susto enorme. Depois que se acalmou, perguntou, desconfiada, se mais alguém podia acessar essa “tecnologia”. Ele disse que não.
Ficaram algumas horas conversando, até que Saphyre começou a cochilar e ele a mandou pra cama. Despediram-se e Saphyre dormiu rapidamente, agarrada a uma camisa dele. Agora, só queria seu abraço. Pena que seu abraço podia levar a outras coisas, ainda mais agora, os dois soltando feromônios intensos para a conexão. Era melhor mesmo ficarem separados e ela tentar, de todas as formas, bloquear os sentimentos por um tempo. Lavou-se, vestiu-se e desceu. O salão estava repleto de gente esta manhã.
O sol estava a pino e o dia era de verão. Avistou, na mesa, Leigh e Soragh com Moony em seus braços. Quando o bichinho a avistou, soltou um gritinho e saiu pulando em sua direção. Ela o abraçou. — Moony, que saudade! — fez cócegas em sua barriguinha macia. — Leigh, Sorag! Ahhh, que saudade de vocês! Os abraçou. Acariciou os cabelos ruivos de Sorag. — Olá, sis! — disse para Leigh. — Eu não acredito! — falou, correndo para abraçar Saphyre. — Como Kae não me falou nada! É verdade mesmo? Somos sis agora?
Mais abraços foram dados. — Agora pode chamar Saphyre de titia, Sorag! — falou ao filho. — Titia? — exclamou o menino. — Ah, sim! — estalou um beijo em sua face e riu com a carinha
de surpresa do menino. Virou-se para Leigh: — Como vocês estão? Tenho tanto para te contar, Leigh. Kae foi numa excursão em torno da barreira, mas acho que volta ainda hoje. — Estamos bem. Estávamos com saudades. Moony ficou estressado sem você lá, não é mesmo, garoto? — falou, afagando a cabeça do pequeno animalzinho. — E nós também. E eu aproveitei que tive que falar com Kae e com você. E também precisava sair do castelo um pouco. Preciso distrair a cabeça nessa época — disse Leigh, pensativa. — Entendo.
Saphyre apertou as mãos de Leigh, sabendo que se tratava do aniversário da morte do âme sœur dela. — Venha, vamos pra mesa, querida. Você e Sor devem estar com fome, sim? — Estamos, sim, tia Saphyre — falou o tímido Sorag. — Que bom, eu também! Vamos. Todos se cumprimentaram e sentaram para comer. Saphyre apresentou Ambhar a Leigh e Sorag. — Esta é minha irmã. Eu recuperei um pouco das minhas memórias e descobri por que as perdi. Ela e Ambhar explicaram tudo a Leigh.
— Então temos sua irmã e seus pais desaparecidos! Kae falou com outros povos para saber se alguém avistou algum deles? — perguntou Leigh. — Àsgar fez isso e não tivemos notícias. Só falaram sobre ter visto Sírius há muito tempo, em meio à floresta. E, mesmo ele, não o viram mais — disse Fayne. — E agora temos que ir pra ilha flutuante de treinamento, pois já está ficando tarde. Até mais tarde, Leigh e Sorag. — Leigh, tenho que ir com Fayne e Sora. Se importa de falarmos mais tarde?
— Claro que não, Saphyre. Vá logo. Estaremos aqui quando você voltar. — Temos muito o que falar, Leigh. Até mais tarde. — Até! — Sorag, cuida da sua mãe e de Moony pra mim? — Sim, tia Saphye — respondeu o menino, brincando com Moony. — Pode deixar comigo. Saphyre sorriu pra ele. Saíram para o pátio e Fayne e Sora subiram as escadas em direção a um espaço aberto acima delas. Saíram de lá já como dragões, pousaram levemente e falaram para Saphyre e Ambhar subirem em suas costas.
Depois, levantaram voo para a ilha flutuante de treinamento. Apenas alguns minutos depois de um voo alucinante, as quatro pousaram na campina ao lado de alguns outros dragões. Tinham sorrisos enormes no rosto pela aventura excitante. Fayne e Sora entraram em uma construção ao lado das campinas e voltaram alguns minutos depois, já com suas formas femininas. Saphyre reparou que Ambhar olhava Fayne um pouco encabulada. E Fayne, quando Ambhar desviava o olhar, a analisava sem ela perceber.
Era um jogo de olhares interessante de se ver. Saphyre achava que as duas estavam apaixonadas uma pela outra e não tinham coragem de falar. Mas ela nunca iria falar nada, em respeito a Ambhar e também a Fayne. As duas tinham que se resolver um dia. Assim como ela e Kaeidh tinham se entendido. Ambhar merecia ser feliz. Ela era muito leal, doce e dedicada. Além disso, era uma das pessoas mais fortes que Saphyre conheceu. Suas irmãs eram. Sentia saudade e se preocupava demais com os pais e Emeraldy.
Esperava que estivessem a salvo de alguma forma. E estava com saudades de Kaeidh, apesar de ele falar com ela a cada hora do dia em que ela estava sozinha em seu quarto e de
terem dormido se olhando. Sentia falta do calor do corpo dele, do riso, da conversa murmurada e das histórias que lhe contava de sua infância e adolescência. Sem contar o quão bons eram os dois juntos. Queria muito aprender algo hoje. Queria muito ter alguma esperança. Seria um início de controle desse poder estranho que ninguém sabia de onde vinha. E seria um indício de que ela poderia estar com Kae novamente. Elas começaram as atividades do dia em frente a alguns alvos.
Fayne abriu a boca e cuspiu uma bola de fogo, a qual pegou com as mãos. Movimentando as duas em círculos em volta dela, como se a chama fosse física, transformou-a em uma esfera flamejante. — O que eu fiz aqui agora foi segurar a chama e manejá-la para que se transforme em uma esfera perfeita. E agora eu vou jogá-la naquele alvo. Prestem atenção! Fayne levantou ambos os braços a um lado do corpo e jogou com muita força. A esfera passeou velozmente pelo espaço entre ela e o alvo e caiu numa explosão impressionante.
Elas olharam aquilo com muita emoção. Fayne era incrível! Ambhar virou para Saphyre e falou: — Você se lembra de mamãe fazendo isto? Os mesmos gestos de Fayne com a esfera, mas claro que só o gesto. Você se lembra? Ela nos fez fazer isto incansavelmente. E vários outros. Inclusive, nos fez repetir vários gestos e ficamos sem saber o que eram. Será que é isso que ela nos ensinava? — Sim! — Fayne, nossa mãe nos fez fazer esse e mais alguns gestos. Disse que fazia parte dos nossos treinamentos.
Mas claro que não havia fogo na época. Acha que... — Pode ser que sim. Não duvido de nada. Vamos tentar? Quem vai primeiro? Ambhar foi.
Começou acendendo o fogo em suas mãos timidamente. O fogo foi ficando mais forte. Ambhar olhou para Fayne e imitou os movimentos que a via fazer e que tanto treinaram antes, e a esfera de fogo formou-se forte e constante. Ambhar, completamente concentrada, puxou os braços para trás e jogou a esfera de fogo longe. Caiu próximo, mas não pegou no alvo. Mesmo assim, ela pulou feliz. — Ahh, consegui! Ou quase! — Mas foi muito bom, Ambhar! Estou muito orgulhosa de você!
— falou Fayne, afagando o braço dela, com um sorriso largo no rosto. Ambhar sorriu mais ainda, e Saphyre se aproximou, abraçando-a. — Muito bem, Ambhar. — Obrigada, Saphye. Agora sua vez. — Sim. Saphyre foi até o local em que Ambhar e Fayne estavam e fez o pequeno fogo surgir em sua palma. Fazendo-o aumentar, imitou os gestos de Fayne e Ambhar. Sua esfera foi se formando. Ela a olhou encantada, fechou os olhos e foi relembrando, enquanto repetia os movimentos ensaiados com a mãe.
Com o gesto, se lembrou de vários flashes, coisas que aprendeu, coisas que viveu, coisas que ouviu. Lembrou-se de quando era pequena e corria pela casa. Perseguia suas irmãs. Elas brincavam de pegar uma à outra. Pegou o vestido de Emeraldy e ele logo pegou fogo. Emeraldy gritou, assustada. A mãe correu até elas e apagou o fogo rapidamente. Saphyre olhou e viu que Emeraldy não havia sofrido nenhuma queimadura, apenas tinha levado um susto. Saphyre tinha doze anos então e ficou com medo de acontecer tudo de novo.
Quando foram dormir, ouviu os pais discutindo, sempre em sussurros sobre elas. A mãe achava que elas tinham que aprender a lutar e se cuidar. O pai achava que elas tinham que se
manter escondidas. No final, no dia seguinte, após o pai sair para o trabalho, a mãe as chamou e disse que iriam treinar para serem heroínas. Na hora, elas pensaram que era uma brincadeira da mãe, mas logo viram que o treinamento era real. Saphyre voltou ao que estava fazendo, abrindo os olhos. Suspirou, puxou os braços para cima de um lado do corpo, prendeu a respiração e jogou, mirando no alvo. Acertou, e a explosão foi parecida com a de Ambhar, só que azul. Soltou a respiração, aliviada. Sorriu, emocionada.
Todas vieram parabenizá-la. Ambhar, super feliz, pulava à sua volta. Depois da bagunça, os exercícios continuaram. Ambhar e Saphyre treinaram até o final do dia, sempre acertando ou errando o alvo por pouco. Estavam muito satisfeitas e, quando Fayne e Sora foram para o local fechado, Saphyre falou: — Tive uma memória sobre o fogo. Sobre o meu fogo. Quase queimei alguém quando eu tinha doze anos. Foi quando, depois de papai e mamãe discutirem, mamãe começou a nos treinar.
Ela nos disse que íamos treinar para ser heroínas. Papai era contra e então ela fez disso nosso segredo até fazermos dezessete. Eu quero muito que isso dê certo.
Em um mundo marcado por guerras antigas, pactos esquecidos e poderes que jamais deveriam ser despertados, as chamas não nascem do fogo, nascem da escolha. Quando sinais de um desequilíbrio voltam a surgir, reinos inteiros entram em alerta. Dragões desaparecem, portais são abertos nas entranhas das montanhas e forças que haviam sido seladas começam a se mover nas sombras. No centro desse caos está um segredo capaz de mudar o destino de todos: um poder ancestral ligado às Chamas Celestes, cuja existência foi apagada da história. Entre alianças frágeis, traições silenciosas e conflitos que atravessam raças e territórios, personagens são forçados a confrontar não apenas inimigos externos, mas também aquilo que carregam dentro de si. Uma decisão cobra um preço. E a verdade revelada ameaça incendiar todo o mundo conhecido. Chamas Celestes é um romance de fantasia que combina intrigas políticas, magia antiga e tensão crescente, conduzindo o leitor por um universo onde o passado insiste em retornar — e onde nem todos sobreviverão ao despertar das chamas.
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