Universo da obra
Universo da obra
Ambhar fez que sim com a cabeça e falou: — Acho que mamãe sabia o que ia acontecer, ou ao menos sabia que tínhamos esses poderes. Sempre me lembro dela dizendo algumas palavras todos os dias, ao final do dia, em volta de nossa casa. — Quero que tudo isso seja solucionado o mais breve possível. E, Ambhar, mudando de assunto, eu queria perguntar — porque fiquei curiosa —: elas entram naquele edifício para se transformar… por quê? — falou Saphyre, para Ambhar. — Ah, bem… elas não se transformam com roupa, sabe?
Saphyre abriu a boca. — Sério? Então foi por isso que você ficou chocada quando Fayne se transformou na sua frente? Ela estava nua! — Saphyre olhou para Ambhar, e ela corou. — Sim! Mas fica quieta! Elas vêm vindo! — Ah, irmãzinha… Pode deixar, boquinha de siri! — riram, e Ambhar ficou toda envergonhada quando Fayne e Sora chegaram próximas a elas em suas formas de dragões. — Subam! — falou Sora. — Estamos famintas. — Ah, nós também, Sora. Nós também estamos — falou Saphyre, subindo nas costas de Sora.
Desceram até a ilha flutuante maior. Quando pousaram, Sora e Fayne entraram novamente no edifício para mudarem de forma. Saíram de lá conversando e rindo. Sora veio dizendo que estariam treinando de novo dali a dois dias, por causa das festividades da ilha. Eles teriam shows de fogos em comemoração ao aniversário de vida das ilhas, que foram planejadas pelo primeiro rei dragão, Solarhr, um estudioso mago da magia do ar, e presenteadas à sua sucessora, a rainha Astargh, enquanto ainda viviam nas terras do
planeta Kalimares. E, na eleição da sucessora, as ilhas se levantaram, e foram todos recebidos em casas ou no castelo, como cada um escolhesse. Então se iniciou uma vida plena nos ares para aqueles que amavam voar. — Fora os shows de fogos, ainda temos o salto, que é uma iniciação para quem vai se transformar pela primeira vez em dragão. Claro que é para aqueles cuja mãe preferiu passar a gestação em sua forma feminina. Eles pulam e se transformam no ar, rasgando suas roupas.
Ninguém vai fazer adolescentes pularem nus — falou Fayne para elas. — E todos estarão de volta à ilha, inclusive Kaeidh. É nosso principal festival. Todos em excursão voltam para este período tão importante nas vidas de todas as famílias. É a celebração dos nossos descendentes. É muito emocionante, vocês vão ver. — Mal posso esperar — falou Ambhar. — E temos que fazer algo para a ocasião? Roupas adequadas ou algo assim, Fayne? — Durante o dia, não. Geralmente colocamos o que temos.
Somente os adolescentes que vão fazer o salto se arrumam melhor. A maioria se arruma do jeito normal de sempre. — Sim, não precisam se preocupar com isso durante o dia. Mas, no final do segundo dia, temos um baile de finalização, e para ele nos vestimos melhor. Mas nada de que vocês não tenham. Nos vemos no jantar daqui a pouco? — falou Sora para as duas. — Claro! — Sim. Vou apenas tomar banho e me arrumar pra descer. Vejo vocês na mesa de sempre, meninas — falou Saphyre, e subiu as escadas.
Cumprimentou um e outro que passavam por ela, sorrindo. Encontrou Leigh saindo de um dos quartos com Soragh, todos bem arrumados. Quando a viu, Leigh logo sorriu. — Que bom que chegou! Kaeidh já está à sua espera. Ele
acabou de chegar e está no escritório de Àsgar. Parece que trouxe notícias de uma vila próxima daqui, na terra. Ele mandou me chamar para encontrar com eles, mas esperamos você. Virou-se para Soragh e falou para ele ir para o pátio de refeições. Ele saiu pulando e dando tchau à tia Saphyre. — Já estou com tanta saudade dele! — disse Saphyre. — E faz só um dia e meio que ele saiu. Mas temos que ter cuidado. Você deve ter ouvido falar da minha explosão.
Estamos a ponto da conexão e eu não posso ter muito contato com ele por causa dos meus poderes. — Ah, sim… Talvez ajude se vocês saírem para algum lugar deserto. Já pensaram nisso? Depois da conexão, que é a parte mais intensa, pode ser que se resolva o problema. Saphyre olhou para Leigh e falou: — Como não pensei nisso antes? Obrigada, sis! Vou falar com Kae logo que eu puder. — Sim, te encontro lá embaixo. É só pedir para alguém levar você até o escritório de Àsgar. Todos sabem onde fica.
— Estarei lá em quinze minutos. Leigh concordou e seguiu pelo corredor, em direção às escadas. Saphyre correu para seu aposento. Lavou-se rapidamente, vestiu-se e desceu saltitante, como Soragh, de tanta felicidade por ela e Kae terem uma alternativa… algo que poderiam testar: um lugar deserto. E, quem sabe, ela poderia ficar com Kae novamente. Kaeidh resolveu sair com Zenit e Zarin em uma excursão, para se afastar um pouco de Saphyre após a recente explosão.
Assim, talvez conseguisse dar tempo para que ela treinasse sem a interferência física e emocional dele constantemente ali. E, além disso, ajudaria na procura pela irmã e pelos pais dela, que não sabiam onde estavam, mas que também poderiam estar perdidos na floresta e correndo risco de serem encontrados pelos têntri e por Borag.
— Ouvimos falar de alguns desaparecidos em todas as vilas. Sumiram de todas as raças. Seres que saíram em colheita da árvore da lua ou em exploração para os herbaristas e não voltaram mais — disse Zenit. — Não sabemos o que está acontecendo nas florestas ultimamente. As famílias estão preocupadas. Recebemos notícias de um têntri em forma de century. Antes disso, uma aldeia century relatou, há alguns meses, o sumiço de alguns jovens. Seus nomes são Alazôr, Sarim e Lariàn. Todos jovens.
Sarim e Lariàn são fêmeas — completou Zarin. — Fora os outros seres: Samira e Galatian, do povo do norte; uma pirim herbarista chamada Aslym, junto com mais quatro pirims — Biancy, Soturn, Sariant e Dian. Todos desapareceram nas florestas, em partes diferentes dela — falou Zenit, para Zarin e Kaeidh. — Então cobriremos uma área da floresta voando para que lado? — perguntou Kaeidh. — Iremos a sudoeste, em direção ao mar. Quem sabe os habitantes do mar tenham visto algo — Zenit apontou.
— E vamos aproveitar e trazer alguns animais para o festival também. Teremos visitas de carnívoros como nós, e teremos que levar cestos nas costas. — Então voltaremos amanhã à noite? — Se tudo correr bem, sim — respondeu Zenit. Foram até a área de pouso e saídas. Zenit e Zarin entraram no edifício e saíram já como dragões. Alguns rapazes colocaram os cestos gigantes nos dois: um vazio e o outro com suprimentos para a noite e a caçada.
Kaeidh foi até sua carruagem e acoplou a ela mais uma cesta com rodas na parte traseira. Ligou os motores e subiu. Zenit e Zarin já estavam ao seu lado, pairando, à espera da partida. E foram os três, com mais dois dragões da guarda voando logo atrás — primos de Zarin: a comandante Samy e o soldado Fion —, todos em direção a sudoeste.
Amadrugada, ao contrário do que muitos pensam, é muito boa para visualizar acampamentos em meio à floresta, e os mínimos sons parecem ser tão altos que ecoam à distância. A cada vez que viam ou ouviam algo, planavam lentamente, e Kaeidh, que tinha uma luneta acoplada à carruagem, a direcionava para onde queria e acionava um escudo de visão noturna. Na maioria das vezes, eram pequenos animais e grandes insetos predadores que saíam à noite para a caçada, ou os dois se enfrentando, um servindo de alimento ao outro.
Num planeta como Kalimares, existiam tantas espécies vegetarianas quanto onívoras, e todas eram respeitadas e mantidas em seus habitats. Os seres conscientes não escravizavam outros seres nem animais para sua alegria e diversão, ou para trabalho. Todos trabalhavam e dividiam comunitariamente os ganhos. Todos eram essenciais. Nenhum passava qualquer tipo de necessidade, nem vivia com muito. Na excursão, pararam na metade do caminho para ajudar uma elfa presa em cima de uma árvore eterna.
Um têntri a caçava e raspava as unhas, tentando subir para pegá-la. Zenit lançou uma bola de fogo nele, que se virou e correu floresta adentro, chamuscando algumas folhagens secas, mas foi rapidamente apagado pela comandante Samy e pelo soldado Fion. Fion levou a elfa, de nome Núbiar, à sua casa naquela mesma hora, logo antes do sol nascer. Ela contou que estava voltando pra casa com uma cesta de frutas da lua, mas havia visto um pequeno dwarf preso pelos pés na árvore e ficou tentando retirá-lo do laço.
Anoiteceu tão rápido que não percebeu e, quando finalmente estava soltando o pequeno dwarf, se viu acuada pelo têntri. Só conseguiu subir na árvore, e o pequeno dwarf foi engolido pelo têntri bem em frente aos seus olhos. Núbiar estava completamente horrorizada. Não voltaria à floresta por um bom tempo. Logo que amanheceu, Fion voltou para junto dos outros e falou para todos:
— Devolvi Núbiar à sua família, e eles disseram que não era a primeira vez que eram emboscados por têntris. E, quando dissemos que um dwarf estava preso por corda pelos pés, eles contaram que, na semana passada, havia acontecido o mesmo com a elfa Midir. Núbiar disse que havia muitos nós na corda e, como era uma corda de árvore eterna, não teve como cortar, já que só se corta essa corda com pedras de diamar. Acho que sabemos agora o que acontece com as pessoas que estão se perdendo e não voltam da floresta.
— Será que estão servindo de comida para têntri, ou sendo sequestradas? — falou Zenit. — Só saberemos se colocarmos alguém como isca. Pobre dwarf… Logo que voltarmos, temos que falar com os povos para saber se alguém sabe de sumiços de dwarfs. Devemos dar à família a oportunidade de chorar seus mortos — falou, indignado, Zarin. — Nessas horas eu entendo a revolta de Sirius. Ele teve a família toda devorada ou deixada para morrer. Encontrou todos mortos quando voltou — disse Kaeidh, pesaroso.
Continuaram a viagem, pensativos e pesarosos, até o litoral de Szalim. Os cinco acenderam um círculo de fogo em volta do acampamento. Se acomodaram, cada um em seus locais escolhidos para passar o resto da excursão, inclusive a noite. — Zarin, vou chamar o rei Tarwin. — Iremos com você até o penhasco — afirmou Zarin, caminhando em sua direção. Iniciava-se a tarde e, como não encontraram nada mais nas florestas, decidiram montar o acampamento e já falar com Tarwin.
Providenciar os suprimentos marítimos também levaria algum tempo. Por isso, quanto mais cedo falassem com Tarwin, melhor. Kaeidh parou à beira de um penhasco de ponta aguda sobre o mar, que cintilava verdejante com ondas de bolhas que pareciam cristais, de tão brilhantes. Tirou uma espécie de chifre pequeno e pontudo, com um furo no meio, e soprou.
Imediatamente, um som melodioso se estendeu sobre o mar, penetrando em suas águas, tornando-as turbulentas e espumantes. O som foi se aquietando aos poucos, por fim terminando. Um só sopro e uma melodia única chamaram Tarwin e seu séquito de acompanhantes, que surgiram. Num pulo e giro espetacular no ar, Tarwin emergiu e, um pouco antes de seu corpo tocar a beira do penhasco, sua cauda se separou e, num piscar de olhos, ele caminhava em direção a Kaeidh. Abaixou-se e fez uma reverência. Levantou-se e sorriu.
— Olá, amigo Kae! Kaeidh fez uma reverência para ele também; era uma brincadeira pessoal dos dois. Ambos riram e se abraçaram. — Olá, Tarwin! Como está, amigo? — Tirando esse problema com Borag querendo se imiscuir na água e fogos azuis caindo em meus domínios, está tudo bem. E você? Esse cheiro almiscarado quer dizer que tem uma âme sœur novamente? — disse Tarwin, inspirando profundamente em direção a Kae. Logo olhou atrás de Kaeidh. — Olá, Zarin, Zenit, Samy e Fion.
Todos responderam aos cumprimentos, e Kaeidh continuou a conversa: — Sim. Achei minha âme sœur novamente, e foi ela quem causou o fogo azul que caiu no seu mar — respondeu Kae. — Desculpe. Ela ainda está aprendendo a controlá-los. Estávamos em conexão e ela não teve como se controlar. Ela está, neste momento, nas ilhas flutuantes de treinamento com Fayne e Sora. — Oh, interessante. Ela é uma dragão? — Não. Ela é elfa, mas tem uma magia do fogo da qual nunca se soube. Sabe algo sobre a Esquecida? — Sei algo, sim.
Ela apareceu? — Sim, e é minha âme sœur. — Interessante, Kae, muito interessante. E ela solta fogo como
dragões? — Não. Ele aparece nas mãos dela e no corpo todo quando está em sua potência mais alta. Tarwin o olhou, prestando atenção. — Vimos uma memória nos cristais, e ela aparece lá coberta de chamas azuis. Mas, fora isso, não soubemos muito… até a irmã dela aparecer nas florestas alguns meses depois. Vamos ao acampamento? Temos muito o que falar. Tarwin anuiu e seguiu Kaeidh. Eles se juntaram ao redor de uma fogueira próxima da tenda que todos haviam ajudado a montar ao lado da carruagem de Kaeidh.
Pequenos simps, criaturinhas de luz, voavam ao redor das chamas das fogueiras, absorvendo suas luzes e brilhando como nunca no início da noite. Eles se acomodaram no chão, e Kaeidh trouxe um cantil de sua carruagem. Serviu a todos. — Ah, o néctar dos deuses… Tartan feito da mais pura fonte de frutas da lua. Meu amigo, eu estava com saudades desse sabor — elogiou Tarwin.
Virou-se para um dos rapazes que o acompanhava e pediu: — Sarin, por favor, peça a Charith que nos traga o jantar e busque os cristais dos feiticeiros para mim. Virou-se e falou para Kae: — Tenho uma suspeita de onde vem o poder da sua âme sœur. Não tenho certeza, mas será um ponto de partida. Vou lhes contar uma pequena história que minha mãe me contava quando eu era criança — disse, aumentando a voz para todos ouvirem. — Há algumas centenas de anos, nesta terra à beira-mar, viviam um homem e sua família.
Eles eram feiticeiros elementares. Ele vivia com sua idosa mãe e sua filha. Haviam fugido da guerra contra Borag e vieram humildemente pedir permissão ao meu bisavô para morar na encosta escarpada, bem em frente ao nosso mar. Eles manipulavam água, fogo, ar, terra e todas as coisas que
tinham matéria. Seus poderes eram imensos, tanto que não podiam misturar seus genes com outros seres. Além de perderem a pureza desses poderes, poderiam criar um ser ainda mais poderoso. Eles viveram ali até que, um dia, entraram na floresta e não voltaram mais. Essa é a informação que tenho dessa raça, pois, pelo que me consta, nunca nenhuma outra foi vista. — Então você suspeita que essa história pode ser verdadeira? — Kae perguntou. Tarwin fez que sim. — Se eles existiram, foram extintos há muito tempo.
Tanto, que a maioria dos povos não tem lembranças deles. — Eu tenho… apenas deles. Meus bisavós eram amigos deles. Borag não chega perto do litoral com sua espécie. Só ficam à borda das florestas. Deve ser por isso que viveram aqui. Enquanto estavam à espera da comida, Kaeidh falou a respeito de todas as informações que eles foram coletando com um ou outro reino. Falou de Ambhar e das lembranças dela. Dos pequenos dwarfs assassinados.
Tarwin, Zenit e Zarin falaram da explosão: Zenit e Zarin contaram como viram Saphyre correndo pelo pátio até explodir; e Tarwin falou de como lhe contaram do fogo azul. As labaredas adentrando o mar sem se apagar… elas só foram evaporando, como se estivesse acabando o combustível que as alimentava. Mas não houve mortes. O alimento e os cristais chegaram, e Zarin ergueu um e outro, à procura das histórias guardadas.
Em um deles, viram uma pequena memória do bisavô de Tarwin e, nela, os feiticeiros manipulavam as matérias ao seu redor como numa brincadeira. Os fogos saíam das mãos, como com Saphyre e Ambhar, mas eles tinham total controle sobre eles. Faziam as águas falarem com eles, e elas dançavam em volta de seus corpos. Em uma delas, a pequena garotinha criava algo que parecia portais, e seu pai falava para ela que não podia criar portais, só em
uma emergência. Ele a chamou de Mona. — Mamãe dizia que Mona era a melhor amiga de minha avó, mas que desapareceu na floresta, junto com seu pai. A avó ficou na encosta até morrer. Ela já era muito idosa quando chegaram; então, após o desaparecimento de seu filho e neta, ela apenas se deixou levar pela morte.
Em um mundo marcado por guerras antigas, pactos esquecidos e poderes que jamais deveriam ser despertados, as chamas não nascem do fogo, nascem da escolha. Quando sinais de um desequilíbrio voltam a surgir, reinos inteiros entram em alerta. Dragões desaparecem, portais são abertos nas entranhas das montanhas e forças que haviam sido seladas começam a se mover nas sombras. No centro desse caos está um segredo capaz de mudar o destino de todos: um poder ancestral ligado às Chamas Celestes, cuja existência foi apagada da história. Entre alianças frágeis, traições silenciosas e conflitos que atravessam raças e territórios, personagens são forçados a confrontar não apenas inimigos externos, mas também aquilo que carregam dentro de si. Uma decisão cobra um preço. E a verdade revelada ameaça incendiar todo o mundo conhecido. Chamas Celestes é um romance de fantasia que combina intrigas políticas, magia antiga e tensão crescente, conduzindo o leitor por um universo onde o passado insiste em retornar — e onde nem todos sobreviverão ao despertar das chamas.
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