Universo da obra
Universo da obra
Ao anoitecer, Borag levantou-se de sua cama em seu castelo no subsolo da montanha de lava que ele intitulou de Amort. Ao contrário do que alguém poderia pensar, ele não vivia em meio à lava, mas a usava para o aquecimento central de seu castelo. Vivia lá sozinho, tendo por companhia apenas as criaturas que criou do nada. Depois delas, começou as experiências em corpos mortos de animais enormes que achava na floresta. Eles funcionavam apenas ao seu comando; quando ele dormia, hibernavam.
Não tinham consciência nem vontade. E agora, com a nova aquisição do suprassumo do povo mais poderoso desse planeta, Borag conseguia criar têntris conscientes, com pequenos e incautos seres que se aventuravam na floresta. Bastava mandar um têntri cavar em um buraco de dwarf que uma bruxa achava para ele e, quando tinha a sorte de achar um, tirava o pequeno gritão de lá, amarrando-o de cabeça para baixo e fazendo-o gritar quando visse alguém. Era de uma facilidade sequestrar essa gente.
Eram muito inocentes para ver alguma maldade em um pequeno dwarf preso e corriam logo para ajudar. O problema é que só se cortavam as cordas, feitas com cipós da Árvore Eterna, com pedra de diamar, que, por acaso, vinha da montanha Amort. E ele se certificava de dar tantos nós que uma pessoa levaria o dia inteiro para desatar, fazendo, assim, o ser ficar até anoitecer, quando um dos seus têntri iria buscar sua presa viva.
Estava com as celas lotadas de prisioneiros e, agora, poderia transformar todos em seu séquito. Graças ao sangue raro de Mona! Antigamente, ele, um jovem tolo, matava e sugava o poder deles para si, até que eles não existissem mais. Depois, viu seu poder ir se desgastando conforme o usava. Mas havia roubado todo o
poder dos mais poderosos seres: os feiticeiros elementares. E agora que havia reencontrado os últimos e a última de sangue puro, a manteria com cuidado e a beberia como um vinho raro, para que sempre tivesse o gole de poder mais enlouquecedor de todos. E foi ao beber de seus poderes infinitos que descobriu que podia transformar, com a ajuda de seu sangue, os têntris em algo realmente útil, e que não cheirasse a corpo pútrido.
Havia transformado com sucesso o centaury Alazôr e agora podia montar e voar nele à vontade. Desceria, então, para fazer mais uma experiência. Quem sabe uma elfa se tornasse sua mais nova têntri naquela semana? Sorrindo e assobiando, desceu os longos degraus, montanha abaixo, em direção às masmorras que continham suas preciosidades presas, para que ele fizesse o que quisesse, pelo tempo que quisesse. Riu e engasgou. Precisava tomar mais um gole de seu saboroso sangue.
Virou à esquerda, em direção ao corredor, e viu, atrás de uma parede de cristal, seu tesouro. — Olá, Mona, minha querida! Como está esta noite? Ela estava quieta, o marido ao lado dela, amarrado e enfeitiçado por ele para controlá-lo. Apesar disso, o marido vivia só para agradá-la. Tinha a filha, Emeraldy. A pequena meio elfa e meio feiticeira elemental. Poderosa, mas ainda não havia descoberto. E ele pretendia mantê-la como sua mulher. Emeraldy era uma beldade; ele a desejava e estava há muito sozinho.
E poderia beber de seu sangue. Quem sabe fosse tão saborosamente poderoso quanto o da mãe? Mas primeiro estava seduzindo-a. Ela não tinha memória de nada de quando ele capturou os três no outro planeta. Então ele a nomeou com outro nome para garantir que ela não se lembrasse de nada e se apaixonasse por ele. Queria prendê-la com o seu amor
e, caso ela descobrisse quem ele era de verdade, poderia usar isso e dizer que fez tudo pelo amor dela. E ela acreditaria. — Quero ver minha filha — disse Mona, sem olhar para ele. — Claro, minha querida, minha protegida. Está bem cuidada. Olhe. Aproximando-se dela, mostrou a clareira em um pequeno espelho de mão. Nela estava Emeraldy, a esplendorosa elfa/elemental de cabelos prateados. Seus olhos observavam a água, e ela ria com algum bicho que ele havia colocado lá para dar a ilusão de um jardim do paraíso.
Um lugar com uma beleza quase compatível com a dela, se isso fosse possível. E também para distraí-la durante o tempo em que ele não poderia estar lá. Ele passava algumas horas do final da tarde com ela, quando as árvores já se preparavam para dormir e não soltavam sua odiosa chuva de gotículas sobre ele. Apesar de ter mandado colocarem apenas árvores lacrimosas nos extremos do terreno, para não correr riscos. Mona olhou a filha pelo espelho. Viu-a calma, tranquila e sorridente. Tão inocente.
E percebeu que ela, assim como há dois dias, estava bem por enquanto. Tinha que fazer de tudo para manter aquilo. Olhou o marido na cama ao seu lado, enfeitiçado por Borag. O homem de sua vida, por quem arriscara à miscigenação perigosa de sua raça com a dele, por amor. Seu âme sœur. Deitado ali, incapaz de proteger a família, lutar contra Borag, assim como ela. Ele conseguira afinal.
Passaram séculos em um mundo que não era o deles e mais séculos ainda perdida, tendo que, por si mesma, treinar seu poder com o pouco que sua avó lhe ensinara. Um poder que fora usado pelo pai para enviá-la a outro mundo no ataque de um têntri há tanto tempo que ela já não fazia ideia. Não sabia se o pai perecera, ou a avó. Conseguira abrir portais para este mundo, o seu mundo
original, por acaso. Já havia completado dezessete anos, após viver o que restava de sua infância com uma família que a adotou em um mundo sem magia, e eles não sabiam que ela era uma feiticeira. Cautelosa, pois no seu mundo o pai e a avó falavam que estavam sendo caçados e não podiam praticar a magia livremente, ela só a praticava próxima à família real e ao povo do Mar Filórdico, que eram seus protetores enquanto estivessem na faixa da praia.
E, depois que descobriu o portal para Kalimares, passou a constantemente viajar por ele e treinar mais e mais na floresta. Sozinha, aprendeu e se lembrou das vezes em que a avó fazia, escondida do pai, os gestos para que ela aprendesse e usasse um dia. Até que encontrou Sátio, colhendo Frutas da Lua, próximo ao vilarejo em que ele morava. Sátio era um elfo bondoso e Mona fez amizade com ele.
Passaram quase um ano se encontrando todas as noites, escondidos, porque naquela época já era proibido ir à floresta após o pôr do sol. Tiveram, no início, problemas para se reencontrarem, pois Mona nunca saía no mesmo local. Então ele a presenteou com um espelho. Sempre que Mona passava por seu portal, podia chamá- lo e avisar onde se encontrava. O espelho era como um pequeno pingente, e Mona o mantinha sempre em uma cordinha amarrada ao pulso.
Seus pais adotivos nunca imaginariam que ela era uma feiticeira, e, com o tempo, ela estava ficando muito boa nisso. Sabia que, sem alguém para ensiná-la, nunca chegaria ao potencial máximo de seus poderes como seus pais e avós tinham. Nunca teria a tutela de um mestre elemental. E, pelo que Sátio lhe contou, na época em que Mona ainda vivia à beira-mar, Borag já havia matado e sugado o sangue de todos os feiticeiros elementares que se conheciam, e não havia mais ninguém da raça.
Então Mona seria a última, e precisava se proteger. Disse a Sátio que deveriam ir a uma casa de bruxa para pedir
um encantamento de proteção para ambos. Mas Mona explicou que não poderia ir tão longe, porque, quando fazia os portais entre os mundos, só tinha energia depois para viajar de volta. Isso era causado por ela viver em um mundo sem magia, além da falta de prática. Sátio encarregou-se disso. Perguntou na vila sobre alguma bruxa que pudesse fazer algum amuleto de proteção, e não quiseram falar, porque as bruxas não eram de confiança. Muitas se aliaram a Borag e viviam tranquilamente na floresta.
Mas eram as únicas que faziam aquele tipo de trabalho. Sátio buscou por um bom tempo algum rumor sobre alguma bruxa e, certa vez, ouviu uma conversa em um local de reunião de viajantes. Um deles dizia que haviam parado em uma caverna para passar a noite e, ao anoitecer, uma bruxa passara por eles voando por entre as árvores em Talarian. Sátio começou a busca pela casa da bruxa. Geralmente as casas delas eram no topo das árvores, e Sátio fazia nascer suas asas para sobrevoar aquela parte da floresta.
Chegava à noite cansado para encontrar Mona. Ele já havia revelado a ela que era seu âme sœur e explicou o que isso significava. Mona não o aceitou de início, mas o tratava com carinho, e ele a respeitava. Ficaram muito amigos, e Sátio só queria protegê-la. Começou a pesquisar também sobre os elementares. Era muito difícil achar, por causa dos diversos incêndios que Borag havia causado em bibliotecas da magia, destruindo boa parte dos cristais, ou das Joias da Memória, livros e anotações em papiro antigo.
Tudo destruído.
Em um mundo marcado por guerras antigas, pactos esquecidos e poderes que jamais deveriam ser despertados, as chamas não nascem do fogo, nascem da escolha. Quando sinais de um desequilíbrio voltam a surgir, reinos inteiros entram em alerta. Dragões desaparecem, portais são abertos nas entranhas das montanhas e forças que haviam sido seladas começam a se mover nas sombras. No centro desse caos está um segredo capaz de mudar o destino de todos: um poder ancestral ligado às Chamas Celestes, cuja existência foi apagada da história. Entre alianças frágeis, traições silenciosas e conflitos que atravessam raças e territórios, personagens são forçados a confrontar não apenas inimigos externos, mas também aquilo que carregam dentro de si. Uma decisão cobra um preço. E a verdade revelada ameaça incendiar todo o mundo conhecido. Chamas Celestes é um romance de fantasia que combina intrigas políticas, magia antiga e tensão crescente, conduzindo o leitor por um universo onde o passado insiste em retornar — e onde nem todos sobreviverão ao despertar das chamas.
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