Universo da obra
Universo da obra
Sátio buscou em todos os locais mais perto de onde morava. Não tinha como ir para outras vilas; se fosse, não conseguiria chegar próximo do horário combinado com Mona. Não gostaria de arriscar que ela ficasse sozinha na floresta. Querendo ou não, ele a protegia e, com sua audição aumentada, aliada às asas, sobrevoava várias vezes o entorno do local, para garantir que não seriam atacados tão próximos da vila. Ela precisava treinar seus poderes para que pudesse se proteger sozinha.
E ele a ajudaria como pudesse, mesmo que essa ajuda significasse que se colocaria em perigo. Caminhando de volta do local de encontro dos viajantes, Sátio foi interpelado por uma conhecida. A elfa conversou amigavelmente com ele, perguntando de sua família, e comentou que soube que ele estava procurando algo como um encantamento de proteção. Disse isso meio hesitante e cautelosamente, olhando para os lados, provavelmente com medo de alguém ouvir.
Quando ele respondeu que talvez estivesse procurando, ela lhe informou o local. Sátio agradeceu, e se despediram. Fez suas asas surgirem e levantou voo. Sobrevoando a floresta, com o dia terminando, a noite se aproximava. Elrony, a elfa, lhe disse que veria a fumaça da cabana logo após a curva do lago Stifhe. Devia contar setenta e duas árvores na direção da estrela maior, Cátena. Ali, no alto das árvores, ele veria a fumaça da cabana da bruxa Filanthe. Passando pela curva do lago, Sátio seguiu a estrela Cátena.
Ao mesmo tempo, olhava para baixo e contava as árvores; de vez em quando, voltava a olhar para a estrela, para se certificar de que estava na direção correta. Ao contar quase sessenta árvores, começou a se preocupar com o tempo que estava levando para
chegar, já que ainda tentaria falar com a bruxa Filanthe, esperar que ela fizesse o amuleto e voltar. Talvez ficasse tarde para ele chegar até Mona. Parou sobre uma árvore para ponderar o que era mais prático. Não sabia se devia desistir pela distância e se proteger Mona esta noite seria melhor do que ter uma proteção mais eficaz, como o talismã. Optou por voltar o mais rápido possível. No dia seguinte, já sabendo para onde seguir, seria muito mais rápido e fácil encontrar o caminho.
Voou na maior velocidade que conseguiu, o vento cortando seu rosto e jogando seus cabelos para trás, fazendo sua pele se arrepiar ao imaginar que Mona estaria desprotegida se ele não conseguisse chegar a tempo. E se um têntri a atacasse? Não sabia o que faria. Olhando as três luas, percebeu que estava muito próximo do horário em que ela geralmente abria o portal. Forçou mais as asas a baterem.
Tanto que, quando finalmente pousou sobre uma árvore, próximo ao local de onde Mona saía do portal, percebeu que os músculos das costas estavam sangrando. Havia forçado tanto que a pele se abriu. Não podia deixar Mona perceber isso. Fez suas asas sumirem, tirou uma pomada que carregava sempre consigo para um ferimento eventual ou para ajudar alguém e tentou passar da melhor forma possível. Enfaixou o torso tão rapidamente quanto pôde, mesmo com a dor, e recolocou a camisa.
Desceu devagar da árvore e ficou à espera de Mona. Mona lembrou-se de tudo que ele fizera por ela e de todos os anos que tinham vivido, e se arrependeu de ter se obstinado a treinar tanto. Aparentemente, não havia servido de nada. Provavelmente, suas filhas, Saphyre e Ambhar, haviam morrido na explosão e agora estava com o marido preso em um encantamento e sua filha mais nova, a mais inocente delas, nas mãos desse psicopata.
Aúnica coisa que a fazia aguentar e não explodir montanha abaixo, enterrando todos de uma vez, era sua filha Emeraldy. E, por ela, alimentaria esse desgraçado com seu sangue até o fim de sua vida. Estendeu o pulso para Borag e ele, com um metal fino e afiado, cortou-lhe a veia, deixando seu sangue dourado escorrer em uma taça. Ouviu-o salivar e olhou para o marido. Ele a olhava com terror nos olhos, e Mona sentiu vergonha por ser tão fraca e não conseguir proteger sua família. Era sua obrigação.
Ela havia insistido em treinar para ensinar as filhas, mesmo colocando feitiços nelas para que se parecessem humanas e amarrando seus poderes para não ferir nem a si mesmas nem aos outros. Foi ela que passou anos se arriscando a ir, a cada noite, à floresta de Kalimares para aguçar e aumentar seus poderes. Arriscou a vida de todos ao fazer isso. Se tivesse permanecido quieta, vivendo como humanos no planeta Sart, recentemente habitado, não teriam sido descobertos: ela e Sátio, sendo seguidos por Borag.
Borag tomou o sangue na taça, degustando e fazendo chiados de prazer ao engolir. Ao terminar, ainda lambeu cada gota. Mona teve tanto nojo que o alimento que havia comido no jantar quase fez o trajeto contrário, do estômago até o chão. Ela engoliu repetidamente, respirando profundamente, com os olhos fechados. — Muito bem, minha querida. Você é deliciosa. Sua linda e desejável filha teve a quem puxar os genes. — Deu uma sacudida em Sátio. — Não é mesmo, querido Sátio? — riu, quando Sátio o olhou com ódio.
— Quem sabe, um dia, quando você não mais existir, Mona… e eu espero que você dure uma eternidade… eu tome de minha linda esposa e terei total poder sobre ela. Estou curioso: será que o sabor dela é tão bom quanto o seu, ou melhor, por ela ser mais poderosa? — disse, colocando a mão no queixo e olhando para cima, pensativo. — Não saberei, não é mesmo? Não
por agora, ao menos. Mas a tentação de provar é muito grande. — Você prometeu, Borag! — exclamou Mona, aterrorizada. Borag riu. Riu alto. Seus olhos enlouquecidos e a boca arreganhada tiravam toda a beleza do rosto dele. — Ai, ai… o poder de aterrorizar é tão bom quanto seu sangue, minha querida. Agora, fiquem quietos e até a próxima… colheita. — disse a palavra com ênfase, como se o que ele fizesse fosse exatamente isso: como se colhesse, de uma árvore qualquer, uma fruta madura.
Ele saiu como que dançando, meio embriagado por seu poder. Mona olhou para Sátio, abaixou-se e o beijou nos lábios. — Eu te amo, Sátio. Aguente por mim, por favor. Desculpe, meu amor. Eu sou a culpada de tudo isso. Ela o abraçou e deitou ao lado dele. As lágrimas de Sátio escorreram e caíram, molhando seus cabelos. Borag subiu explodindo de poder. Poder luxuriante, mais do que o prazer sexual.
O poder de um elemental embriagava, enlouquecia e era por isso que ele sugou, louca e deliciosamente, todos os elementais que conheceu, ou que, mesmo sem conhecer, bebeu. Era pecaminoso o prazer. Depois do primeiro gole que tomou por acaso, Borag arrumou um jeito de tirar o melhor de suas presas. Lembrava-se, até hoje, de sua primeira presa. Sanarha era o nome da elemental. Doce, doce, Sanarha. Havia ido para sua cama, embevecida por ter sido escolhida por ele.
A linda Sanarha passou noites em seus aposentos e foi descobrindo, aos poucos, seus planos. Quando ele percebeu que ela iria delatá-lo, teve que matá- la enquanto transavam. E, como ela estava por cima dele, o sangue esguichou todo em sua face e boca quando ele a esfaqueou, abrindo-lhe a garganta. E então foi uma revelação prazerosa. Teve um orgasmo ao ter a boca invadida pelo poder dela. E o poder nem era tão grande, pela juventude. Tinha apenas dezenove aninhos. Fora inesquecível
sua primeira vez. E ele se levantou tentando sugar o máximo de seu sangue. Tanto poder, e tão bom, que guardou seu corpo por dias em um baú, e os lençóis manchados permaneceram em seu armário por algum tempo. Continuou encantando mais elementais com sua beleza e carisma, atraindo as pequenas, mais inocentes, até sua cama. Fazia juras de amor, as pendurava amarradas pelas pernas e pelos braços, com um balde embaixo para coletar todo o sangue.
Lembrou o dia em que se banhou no sangue de um elemental que também havia levado para a cama com juras de amor. Não perceberam seus assassinatos até que um dos que limpavam o castelo abriu o baú com sua primeira vítima. Foi expulso pelos babacas honrados que o acusaram, sentenciaram e tentaram impedi-lo de matar mais. Mas aí seu poder já era tão grande que começou a criar, a partir do ódio e do próprio sangue, os seus têntri. O que aumentou a chacina.
Caçou e arrastou mais e mais elementais até sua gruta e tomou deles como tomava suco da lua, até não encontrar mais nenhum. Então passou a procurar, desesperadamente, matando quem viesse pela frente. Aí ficaram nervosinhos e fizeram um feitiço, o mais potente de todos: um feitiço que fez com que ele não pudesse mais entrar nas vilas, nos castelos ou em qualquer lugar próximo de algum ser vivo novamente. Passaram-se anos e ele estava solitário e amargo, com saudades do seu doce licor de elemental.
Às vezes, a necessidade era tanta que simplesmente corria com seus têntris pela floresta e matava qualquer coisa que via pela frente. Só pelo prazer de matar mesmo. Quando matava, tinha delírios de que se banhava no sangue de elementais, mas, quando acordava, era somente o sangue de uma elfa ou alguma outra raça inferior. Eram inferiores, todos eles. Se achavam os melhores, da mais alta honra, mas não chegavam aos pés de elementais. Não sabiam
quanto poder eles tinham. O sabor do poder borbulhando pela garganta enquanto os bebia… não podiam sequer imaginar que nada se comparava à sensação do poder se espalhando pelo corpo, subindo à cabeça e explodindo seus neurônios, bombeando pelos órgãos, implodindo seus orgasmos. Nada nunca foi tão bom para Borag. Sorte a dele ter encontrado o pai e a pequena filha. Pena que tomou apenas o pai. A filha conseguiu escapar e ele nunca mais a viu.
Passou milênios tendo sonhos com o pequeno pescoço vazando sangue em seus lábios. E agora, antes tarde do que nunca, após ter o vislumbre dela já adulta e ter seguido todos pelos portais, sem ser visto, com um de seus têntri fantasma, os vigiou dia após dia, por meses, e viu sua doce, doce, doce Emeraldy. Ela era o que precisava: sua rainha. Ela seria sua rainha. E ninguém o impediria, nem ela mesma.
Em um mundo marcado por guerras antigas, pactos esquecidos e poderes que jamais deveriam ser despertados, as chamas não nascem do fogo, nascem da escolha. Quando sinais de um desequilíbrio voltam a surgir, reinos inteiros entram em alerta. Dragões desaparecem, portais são abertos nas entranhas das montanhas e forças que haviam sido seladas começam a se mover nas sombras. No centro desse caos está um segredo capaz de mudar o destino de todos: um poder ancestral ligado às Chamas Celestes, cuja existência foi apagada da história. Entre alianças frágeis, traições silenciosas e conflitos que atravessam raças e territórios, personagens são forçados a confrontar não apenas inimigos externos, mas também aquilo que carregam dentro de si. Uma decisão cobra um preço. E a verdade revelada ameaça incendiar todo o mundo conhecido. Chamas Celestes é um romance de fantasia que combina intrigas políticas, magia antiga e tensão crescente, conduzindo o leitor por um universo onde o passado insiste em retornar — e onde nem todos sobreviverão ao despertar das chamas.
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