Universo da obra
Universo da obra
Zarin e Zenit riram alto durante o voo. Depois de tanto, tanto tempo fazendo isso escondidos, finalmente estavam compartilhando esse momento com Àsgar. E era incrível. Depois da primeira semana em que fizeram isso, os pais dos três descobriram que eles estavam se arriscando, logo após a primeira queda deles. As mães descobriram a gravidez em forma humana e preferiram não arriscar os bebês.
E, a partir do dia em que se transformaram em pleno voo, começaram a sair para voar à noite e decidiram que seria legal transformar pela metade apenas. Experimentaram e aprovaram ter o melhor das duas formas em uma. — Onde iremos, Àsgar? — perguntou Zenit. — Iremos o mais próximo possível da montanha onde Borag vive. — Zenit o olhou, espantado. — Fazer o quê lá? — Pretendo procurar Sírius esta noite e, se preciso, mais algumas, até encontrá-lo.
E tenho a leve suspeita de que, já que ele quer vingança, pode tanto estar morto quanto de vigia, próximo à toca de Borag. É o que eu faria, caso eu fosse ele. E também preciso informar vocês: entraremos em guerra com Borag, mas iremos atacá-lo desta vez. Não seremos mais bonzinhos. Por isso, preciso de Sírius ao nosso lado, para convencer os outros reis e garantir a eles que, caso ele não queira entrar na guerra, iremos mesmo assim, mas os protegeremos da mesma forma.
Não haverá pressão, e muito menos separação da amizade. Mas aceitaremos de bom grado cada um que vier e quiser se alistar e lutar conosco. Não teremos misericórdia ou inocência desta vez. Ninguém mais vai ver os nossos morrerem. Eles o olharam com os olhos luzindo. — Estamos muito felizes, Asg, que você se tornou um grande
rei. Nossos pais teriam orgulho disso. — Vocês concordam com isso? — Sim. E estaremos com você em qualquer circunstância, e você sabe disso. — Eu sei. E, além de meus primos, vocês ainda são meus melhores amigos, e me sinto muito grato por vocês existirem. — Nós também, Àsgar. — comentou Zarin. — Então, iremos para que lado da montanha? — disse Zenit. — A última vez que ele foi visto foi próximo à cidade de Athom, como nos informou Solano. Então, pensei em seguir em linha mais ou menos reta até a montanha.
Quem sabe possamos encontrar algo. — E o que acham de seguir em três linhas separadas? — disse Zenit. — Acho que, se guardarmos a distância de, no máximo, vinte metros um do outro, cobriremos uma distância boa. — falou Zarin. — Se não o acharmos, tentaremos novamente, até não ter mais onde procurar, a não ser dentro da montanha. — Pena não poder explodir ela. — Se tivéssemos certeza de que Borag não coleciona prisioneiros…
Mas, com os desaparecimentos cada vez mais frequentes e com a procura dele por dwarfs para fazer de isca, para os outros seres salvarem, sem conseguir… Vocês sabem como se acha um dwarf? — Nunca tentamos, Àsgar. Como seria? — É praticamente impossível. Eles moram debaixo da terra, não têm cheiro e não fazem nenhum som audível para quem anda por cima do chão, na floresta, porque eles se especializam nos sons do entorno, dos demais moradores da floresta, e os imitam. Só fazem uma gritaria quando são pegos.
Xingam e amaldiçoam quem os pegou. — Então, como você acha que Borag faz isso? — Bruxas. Elas são apaixonadas por metais e pedras preciosas,
sejam de qualquer tipo. Elas sentem o cheiro de metal. Quanto mais valioso e maior o veio, mais perfumado é pra elas. Assim como os dwarfs, elas acham veios profundos. Já viu uma bruxa cavar? Elas enlouquecem. E Borag tem muitas que são aliadas a ele. — Então ele tenta a sorte com elas, de achar um veio, e apenas cavam a terra? — Eles têm a entrada da toca: uma entrada de um lado. Mas fazem mais duas saídas distantes, em outros pontos da floresta.
Ficam escondidas, mas, se procurar e souber o que procura, não fica difícil achar. E a caverna deles geralmente tem locais marcados. Se você souber que horário eles dormem, pode pegá-los em suas camas. — E isso provavelmente demanda tempo. — E tempo é o que Borag tem de sobra. Teve tempo e liberdade para passear pela floresta toda por muitos e muitos séculos. Nossos pais garantiram isso a ele. — Àsgar falou, amargamente. — Infelizmente para ele, essa festa vai acabar. Está na hora de atacar.
Viajaram por quase uma hora. Tinham mais seis horas pela frente até ter que voltar. Chegando ao local no qual haviam avistado Sírius, próximo à cidade de Athom, partiriam dali com vinte metros de distância um do outro, em sentido à montanha. Viram casas de bruxas meio escondidas pelas folhagens intensas, no topo de árvores centenárias, tão altas que dificilmente alguém que caminhava na floresta veria. Só tiveram essa visão delas pelos pequenos pontos de luz esmaecida por entre as folhas.
Àsgar apontou uma casa e comentou: — Tive uma reunião com Kae e Tarwin. Chamamos as meninas… — Àsgar falou, chegando perto de Zarin. — Saphyre e Ambhar. Elas viram as memórias e decidimos, depois de uma longa conversa, que, antes de atacar Borag, iremos descobrir quem são as bruxas que estão ao lado dele e quais estão forçadas, mas
são boas. Vamos usar isso para descobrir o que Borag está fazendo e tentar entrar na montanha. Temos, inclusive, um gás que Tarwin trará para fazer as bruxas falarem a verdade. — O gás clitiun? Chegamos a usar numa visita anterior ao castelo de Tarwin. Foi divertido. Eles usam em brincadeiras da verdade. Será bem efetivo. As pessoas falam mesmo a verdade. — contou Zarin. — Será interessante.
— Àsgar fez um sinal afirmativo com a cabeça e, com um voo rasante, foi para a direita, voltando ao local que deveria fiscalizar. Olhando minuciosamente todas as frestas abertas entre as árvores, a visão deles, já acostumada à escuridão, pegava cada minúsculo movimento ou qualquer pequena fresta de luz. Sempre desciam para averiguar incognitamente, sem serem percebidos, pois as armaduras feitas especialmente para os três, além de protegerem seus corpos e serem de material maleável, ainda refletiam o entorno.
Então, para quem os olhasse, veria apenas folhagens e galhos. E, como eram predadores, sabiam ficar imóveis quando necessário. Passavam e ninguém os via. A noite era mesmo uma vantagem para eles, e a usariam de toda forma. Àsgar passou de árvore em árvore nas quais via luzes e, chegando mais próximo, via que era uma cabana. Espionava por poucos minutos e, caso não visse nada, saía cautelosamente e voltava a voar. Fez isso várias e várias vezes.
Em uma delas, de onde tinha a visão de longe de uma das pontes e da barreira, Àsgar parou acima de uma casa de bruxa na qual havia visto uma explosão de luz. Ficou ouvindo e chegou mais perto. Alguém chorava e gemia, murmurando uma cantilena, invocando algo para si. Pelas palavras que Àsgar ouvia, eram cânticos de proteção sussurrados. Ele resolveu olhar por uma das frestas da madeira, por onde um galho entrava na cabana. Uma bruxa abaixava o corpo para frente e para trás, de joelhos no chão. Um símbolo de proteção
divina, de um deus antigo, estava desenhado no chão. Havia raízes de árvore da lua — raras, banhadas pelo sol — e elas formavam, no chão, um nome: Kaly. Àsgar percebeu que a bruxa chorava pelos soluços e abraçava uma pequena peça de roupa. Seus cabelos vermelhos e longos estavam caídos sobre o rosto. E, em seu tornozelo, havia uma tornozeleira com uma corrente preta que se mexia, flamejando como fogo. Era algum tipo de matéria mágica que, pelo jeito, estava lá há muito tempo.
Dava para perceber pelas diversas faixas de cicatrizes esbranquiçadas, roxas ou avermelhadas, feitas uma embaixo da outra, como se ela tivesse sido queimada diversas vezes pela tornozeleira. Àsgar mandou um pequeno sinal de fagulhas no ar — que ele e a armada já estavam acostumados a dar — para avisar Zarin e Zenit que deviam vir ao seu encontro. A bruxa continuou a murmurar enquanto chorava. Aquela tornozeleira era produto de feitiço, e não dos bons; parecia muito com as matérias das bestas de Borag.
Os dois chegaram e desceram devagar nas árvores ao lado, caminhando cautelosamente pelos galhos. Chegaram próximos. Àsgar passou para a árvore ao lado, falando por sinais o que viu. Sinalizou para os dois olharem pela fresta, onde teriam uma boa visão da tornozeleira antes de qualquer coisa. Pensava em usar um dos frascos de gás da verdade que Tarwin havia lhe dado. Zarin foi primeiro. Logo que voltou, Zenit foi. Quando Zenit voltou, Àsgar avisou que tentaria falar com a bruxa e usar o gás pela primeira vez.
Concordaram. Os dois ficaram na árvore escondidos e Àsgar caminhou fazendo barulho para que ela ouvisse. Foi até a porta e bateu. Ouviu-a se mover pelo local rapidamente e chegar próximo à entrada. — Quem é, e o que você quer? — falou a bruxa, com a voz rouca, mas calma. Àsgar sabia que ela não havia estado calma
havia apenas um momento. — Sou Àsgar. Gostaria de falar com você, bruxa. — Eu tenho modos de me proteger de qualquer coisa que queira me fazer. Portanto, pense antes de fazer algo de que se arrependa. Você estará entrando em meu território. Sabe quem eu sou? — Sei que é uma bruxa, mas não sei seu nome. — respondeu Àsgar. — Sou a bruxa Filanthe. — Continuo não sabendo quem você é. E, se a intenção ao me dizer seu nome era que eu soubesse imediatamente quem você era, desculpe, mas seu nome não me diz nada.
Ele viu uma pequena fresta da porta se abrir e parte de um olho castanho aparecer. Viu a pupila dilatar, e ela emudeceu, parando por um instante, sem se mover e sem respirar o mínimo que fosse. De repente, puxou o ar como se estivesse engasgada, como se estivesse ficando sem ar, submersa na água, e voltou ao normal. Ela fechou a porta. Àsgar ouviu um barulho de metal contra metal e, depois, a porta se abriu completamente. E ele prendeu a respiração dessa vez. A bruxa tinha um olho castanho e outro verde.
Seu cabelo vermelho era tão longo que varria o chão, e era a coisa mais linda que ele já tinha visto na vida. Nada superava aquela beleza. — O que quer, rei Àsgar? Eu não posso te ajudar da forma que você pensa que eu posso. — apontou para a corrente presa aos tornozelos. — Cada vez que falo sobre isso, sofro por dias. Sei que você pensa em me forçar, mas eu não sou má e, se o fizer, só me fará sofrer. Por favor. Virou-se e caminhou pela sala ampla até uma mesa com quatro cadeiras.
Acenou para que ele se sentasse em uma. — Pode chamar seus… primos, irmãos e amigos? Àsgar a olhou e, desarmado, sem saber o que fazer, caminhou
devagar pela cabana. O local era organizado e havia, além da sala, mais duas portas: uma larga que dava para uma varanda agradável (que ele não tinha visto de fora) e tinha vista para o rio por cima das árvores. Ele podia ver agora que não era fechada: era de cristal, talvez enfeitiçada para que ninguém olhasse de fora para dentro. E uma outra porta mais estreita, talvez para o quarto em que ela estava quando o chamou.
Reparou em pequenos sapatos infantis ao lado da porta, junto com os dela, e mais uma ou outra coisa. Seriam de uma filha? De uma irmã? Àsgar foi até a porta e soprou calmamente fagulhas no ar para que Zarin e Zenit viessem até a cabana. Alguns segundos depois, os dois entraram e pararam ao lado de Àsgar, com as sobrancelhas arqueadas, olhando da bruxa para o rei, sem entender nada. — Olá, bruxa. Sou Zarin. — E eu sou Zenit. — Eu sei. Sou Filanthe. Sentem-se.
Os dois olharam para Àsgar, que fez um sinal afirmativo com a cabeça, caminhando até a cadeira ao lado dela. Filanthe ficou observando os três tomarem assento. Só então falou: — Não posso ajudá-los. E saibam: isso é o que eu mais queria. Mas estou impedida, como vocês podem ver. — moveu os pés e as correntes tilintaram. — Entendo. Podemos perguntar e você responde as que puder. As que não puder responder, fique em silêncio. Eu entenderei. Concorda?
Ela o fitou com seus olhos de cores díspares e fez que sim com a cabeça. — Está há muito tempo com isso? Ela anuiu. — E quem colocou isso em você? Ela ficou em silêncio. — Há um motivo para que nunca tenha tentado se libertar?
Ela confirmou, baixando os olhos para os pequenos sapatinhos infantis. — Entendo… ela está aqui? Àsgar fez um gesto com os olhos para a outra porta. Ela apertou os olhos e não respondeu. Uma lágrima solitária desceu por sua face. Àsgar sentiu uma pontada no peito, uma vontade enorme de sanar as dores dela. Piscou e olhou para os primos. — Entenderam? Eles fizeram que sim, pensativos. — Sabe quantas de vocês estão na mesma situação? Ela negou. — Não posso sair daqui. Estou literalmente presa em minha cabana.
Tem uma elfa, o nome dela é Elrony. Ela me ajuda trazendo água, suprimentos mágicos que eu a ensinei a achar e alimentos que não posso caçar ou colher daqui de cima. Falem com ela, por favor, e digam: “innis mo dhìomhair”. Ela saberá o que contar e o que é seguro. E, por favor, se mantenham atentos ao sair. Eu recebo muitas visitas indesejadas, mas incansavelmente esperadas. — Só mais algumas perguntas. — falou Àsgar, e ela esperou. — Como soube que somos confiáveis? Viu algum metamorfo passar por aqui?
E, se sim, quando e para onde foi? — Eu tenho visões, mas não posso falar sobre elas. Seu metamorfo está bem longe daqui e foi em direção à muralha. — Muralha? — Existe uma, há algum tempo. Acho que foi erguida há trezentos anos. Ela rodeia um jardim especial, feito para alguém especial: a rainha. Ela pulou na cadeira. — E é só o que posso falar! — disse, com os olhos lacrimejando. Àsgar ouviu um chiado e sentiu cheiro de pele queimando. Levantou-se, pegou um copo com água de cima de um balcão e,
abaixando-se, puxou as pernas de Filanthe debaixo da mesa, jogando água em seus tornozelos. Não fez efeito algum. As tornozeleiras continuaram a queimar a pele de Filanthe. — Obrigada… mas não adianta. Eu já tentei de tudo. — disse ela, apertando os dentes enquanto falava. Zarin e Zenit ficaram perplexos, olhando a cena e se compadecendo da bruxa. — Por favor, me deixem agora. Preciso cuidar do ferimento antes que infeccione. Àsgar se levantou para falar algo, mas ela o interrompeu: — Por favor!
Ela se levantou, foi para o quarto e fechou a porta. Àsgar sinalizou para Zarin e Zenit para que saíssem da cabana. Ele fechou a porta quando saiu. Ficou parado por um tempo, com os punhos fechados. A vontade de socar algo era intensa. Aquela bruxa estava sofrendo havia tempos, e ele sabia que era pela garotinha. Tinha visto a dor nos olhos díspares. Tanta beleza e tanto sofrimento juntos.
Em um mundo marcado por guerras antigas, pactos esquecidos e poderes que jamais deveriam ser despertados, as chamas não nascem do fogo, nascem da escolha. Quando sinais de um desequilíbrio voltam a surgir, reinos inteiros entram em alerta. Dragões desaparecem, portais são abertos nas entranhas das montanhas e forças que haviam sido seladas começam a se mover nas sombras. No centro desse caos está um segredo capaz de mudar o destino de todos: um poder ancestral ligado às Chamas Celestes, cuja existência foi apagada da história. Entre alianças frágeis, traições silenciosas e conflitos que atravessam raças e territórios, personagens são forçados a confrontar não apenas inimigos externos, mas também aquilo que carregam dentro de si. Uma decisão cobra um preço. E a verdade revelada ameaça incendiar todo o mundo conhecido. Chamas Celestes é um romance de fantasia que combina intrigas políticas, magia antiga e tensão crescente, conduzindo o leitor por um universo onde o passado insiste em retornar — e onde nem todos sobreviverão ao despertar das chamas.
Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.
Uma seleção criada para acompanhar a atmosfera, os personagens e os caminhos desta obra.
Escolha a arte, confira a disponibilidade e adicione o produto ao carrinho sem sair da experiência.
Adquira Relíquias da Obra e deixe sua marca registrada, criando valor ao item!
Capítulos disponíveis para continuar a leitura.
Cada capítulo avulso custa R$ 0,00. Ao completar R$ 10,00 em capítulos, você ganha automaticamente o e-book e o acesso à obra completa.
Nenhuma Relíquia desta obra foi adquirida ainda. Seja o primeiro a eternizar seu nome no acervo oficial!
Conhecer as 100 RelíquiasAinda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.
Durante a leitura, abra Menu para ajustar a experiência sem sair do capítulo. As preferências de aparência ficam salvas neste aparelho.
Recursos identificados como “em preparo” aparecem para antecipar a evolução do leitor, mas ainda não executam uma ação.
Posso mostrar leituras em destaque, clássicos e Relíquias disponíveis agora no Literúnico.
Escolha um caminho
Dúvidas desta página
As explicações do Aurélio são respostas cadastradas pelo Literúnico.