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Capítulo 21 · Chamas Celestes

Capítulo 21

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Discutiram o que fazer: se seguir em frente e ver a muralha, ou voltar boa parte do caminho e ir até a vila que haviam visto ali próximo do rio Stifhe. Ao final, acabaram por decidir voltar para casa. Àsgar tinha certeza de que havia descoberto algo ali. E também não queria admitir, mas ficou intrigado com a bruxa. — Alguém reparou o quanto essa bruxa era atraente? E mais: o estranho clima entre Àsgar e ela quando entramos? Foi bem estranho. O que houve lá dentro, Àsgar? — falou Zarin, curioso.

— Impossível não reparar nisso, Zarin. E eu não sei... Eu apenas me surpreendi com a beleza dela e com o fato de ela parecer saber quem nós éramos. Ela teve uma visão quando me viu na porta, apenas por uma fresta. Eu travei quando a vi completamente. Depois, ela foi falando honestamente tudo que podia ou não falar e me pediu, humildemente, para não a forçar. Depois, ao analisar a cabana, vi o pequeno par de calçados de menina, mas não havia uma menina lá. Entendem? Pode ser que a criança esteja com Borag.

Não posso imaginar sofrimento maior do que isso. Voaram de volta à ilha flutuante, e Àsgar ficou repassando em sua mente cada detalhe do que aconteceu, do que viu e ouviu na cabana. Repassou cada som que ela fez, cada expressão de seu rosto. Logo que amanhecesse, iria para a cidade de Flandys. Precisava saber mais sobre Filanthe e, mais do que tudo, precisava achar a criança que lhe foi roubada. Chegaram.

Àsgar se despediu de Zarin e Zenit, já combinando que iriam sair novamente mais tarde, e viu que ainda faltava uma hora para o dia clarear. Uma das três luas — lua Aon, lua Dha e lua Trì — sendo a terceira, a lua Trì, a que permanecia ainda no céu e a mais próxima de Kalimares. Era a mais bonita, na opinião de

Àsgar: a lua verde. A lua na qual viviam alguns pequenos animaizinhos e lindos seres que, em toda primavera, voavam da lua para Kalimares. Eles brilhavam e pareciam pequenas chamas multicoloridas, ao que os ancestrais deram o nome de Spiorad. Os Spiorads desciam flutuando até Kalimares e faziam o belíssimo e necessário trabalho de polinização das flores, plantas e todos os alimentos que vinham de plantas.

E, quando voltavam para a lua, via-se, após algum tempo, que a lua se enchia de cores, assim como Kalimares com suas flores. Eles eram reverenciados como pequenos deuses e todos comemoravam suas vindas. Os ancestrais diziam que eles eram os filhos nascidos da água-vida. Olhando a lua, que cintilava com os movimentos dos Spiorads, Àsgar imaginou como seria ver Filanthe novamente e, deitado em sua cama, teve um motivo a mais para lutar.

Havia passado milênios vendo seus amigos e muitos da família se apaixonarem; sua irmã e seu irmão mais jovens já viviam com seus companheiros há alguns séculos. Ele não esperava nada disso, não estava preocupado e não achava que tinha obrigação de ter uma companheira. Alguns até se casavam em uma cerimônia de devoção. Ele não. Preferia estar só. Achava que não haveria nenhuma possibilidade de se apaixonar, já que manteve seus sentimentos de forma linear, nunca se excedendo em nada.

E agora, sentindo a indignação, a sede de justiça — que, para ele, eram sentimentos fortes —, sabia que poderia se apaixonar e que podia odiar. Descobrira que sua falta de sentimento era apenas por ignorância e que, agora que não era mais ignorante, conseguia medir, ver e sentir o sofrimento de tantos. Faria o possível para destruir Borag por tudo que ele tinha feito a cada um que ele conheceu e a cada um de quem não soube. Esperava ajudar a justiça a ser feita por todos.

Se Saphyre não tivesse aparecido, até quando eles iriam ficar na ignorância do que Borag fez e ainda fazia com inocentes? Apesar de eles saberem que seus antepassados fizeram o que

foi necessário para o momento e que não tinham como saber o que aconteceria depois, ainda assim não faz pouco tempo que existiam seres desaparecendo na floresta. Já faz muito. Àsgar queria agora ir de casa em casa, de vila em vila, perguntando e vendo o que precisava ser feito. Quem precisava ser encontrado. Não fazia ideia do sentimento de quem não tinha um corpo para agradecer pela companhia e tempo em Kalimares. Suas famílias tinham o direito de saber onde estava o que sobrou de seus amados e se despedir deles.

De fazer o ritual de despedida e enviar seus corpos para o local natural deles: a natureza. Colocar a semente de fruta da lua dentro de suas bocas e que fossem plantados, e dessem vida com seus nutrientes e frutos, com a força do seu ser. Àsgar adormeceu cultivando a ideia mais e mais. Quando acordou, as três luas já estavam no céu e Àsgar ouvia, ao longe, algumas músicas das festividades. Temia que houvesse dormido mais do que deveria.

Se asseou e desceu ao pátio rapidamente, sentindo no ar um misto de cheiros: panquecas de frutas, o balu marinho assado em grandes travessas com leguminosas e frutos marinhos, cada um com seu cheiro característico. Àsgar, lembrando do sabor, salivou enquanto seu estômago roncava. Pensou em perguntar por aí do que bruxas se alimentavam, mas não queria dar na cara seu interesse por enquanto. Talvez, mesmo depois disso tudo, ela não quisesse saber dele.

Eram de raças diferentes e outras raças não gostavam de se relacionar com dragões por causa dos filhos: eles raramente sobreviviam e sua raça, geralmente, só conseguia filhos saudáveis com sua própria raça. Por isso celebravam tanto os que faziam o primeiro pulo com transformação. E, por causa da falta de proteção na pele na meia transformação, isso era um tabu entre os dragões. Não seria mais, já que havia mandado criar esta armadura. Iria

fazê-la em alta escala para todos que quisessem e sentissem que estariam melhores, mais ágeis, leves e rápidos com um corpo meio transformado. Ele falaria isso formalmente, logo após o pulo e a premiação de todos. Comeu e foi separando, em uma cesta, comidas variadas, tanto cozidas quanto cruas. Cada uma enrolada em folhas para alimentos, que estavam dispostas na mesa para o uso de todos. Zarin e Zenit olharam para ele e para a cesta, ambos arqueando as sobrancelhas. — Parem de me olhar assim.

Vocês sabem pra quem levarei isto — encarou-os. — E não se atrevam a comentar isso com ninguém. Não, até eu achar que posso falar algo — rosnou Àsgar, de cara feia, para os dois. — Ok! — sorriu Zarin. — Ok. Não falei nada. Tô quietinho aqui, comendo — falou Zenit, enfiando um pedaço da carne suculenta do balu na boca. Àsgar olhou e apertou os olhos. Os três riram da cara cômica de Zenit com a boca cheia. — Qual o motivo do riso? — disse Tarwin, chegando ao lado deles na mesa e se sentando. — E da cesta?

Àsgar olhou para ele fixamente, fechou a cara, deu bom dia e saiu caminhando a passos largos pelo grande pátio. — O que fizeram a esse grande mal-humorado hoje? — perguntou Tarwin. — Não sabemos de nada. Se quiser, pergunte a ele — disse Zarin. Tarwin sorriu e comentou: — Só podem ser coisas do coração. Já vi essa cara de quem levou uma dentada na bunda e não gostou. Ele não gostou? — Ah, acho que gostou bastante. Está até levando comida — Zenit riu alto.

Era sempre o mais brincalhão, além de ser o mais ousado dos irmãos. Tarwin olhou para Àsgar, que já estava bem longe, carregando

uma cesta enorme em um dos braços. — Comida, hein? Aham. Já está apaixonado. Dividir comida e querer alimentar a pessoa é bem significativo, não acham? — Ah, sim. Deve ser mesmo. Eu gosto muito da minha comida e, se for para dividi-la, que seja com alguém muito fenomenal — falou Zenit, rindo. — Quando for a hora, vai dividir e, se brincar, vai deixar toda sua comida pra ela, meu caro. Espere e verá! Ah, a linda Leigh está caminhando para cá!

— falou Tarwin, se levantando e já arrumando uma cadeira para ela ao lado da dele. Leigh veio direto pra mesa deles, e Tarwin já estava com a cadeira esperando por ela. Ela se surpreendeu, olhou para ele e apertou os olhos, pensativa. Pegou a mão do pequeno Sorag e o sentou na cadeira que Tarwin oferecia. Agradeceu a ele, puxou outra cadeira e sentou-se. Tarwin ficou sem saber o que fazer. Leigh percebeu e disse: — Ah, este é meu filho, Sorag. — Olá, Sorag. Sou Tarwin, rei do mar Filórdico. Como vai?

O menino arregalou os olhos, espantado. — Você tem uma cauda? E nada no mar, lá bem fundo? E tem monstros que moram na sua casa com você? Leigh ficou espantadíssima com esse interesse de Sorag. Ele era tão tímido com todos. Tarwin rapidamente foi respondendo a todas as perguntas do menino, que, muito interessado, ia falando e fazendo mais perguntas e mais comentários, enquanto Tarwin respondia e ia servindo comidas variadas nos pratos de Sorag e de Leigh.

Leigh ficou mais surpresa ainda, pois o menino, tão difícil de comer, estava acompanhando as garfadas de Tarwin e, em meio às pausas, o imitando, entre uma palavra e outra nas histórias que ele estava contando. A cada risada do menino, Tarwin sorria e olhava discretamente para Leigh. E, quando ela o pegou a encarando, ele

sorriu mais ainda, todo encantador. Leigh só ouviu vários suspiros em volta dela. Desviou os olhos, um pouco irritada com isso. Todos se apaixonavam por Tarwin. E ele agora estava tentando jogar seu charme nela. Leigh não queria saber disso. Estava ali para esquecer, e vinha aquele tritão enorme tentá-la a se apaixonar e talvez voltar a sofrer novamente? Não, não! Estava farta de sofrer por isso. Não fosse por Sorag... Não seria tentada novamente! Queria apenas tomar algumas bebidas, dançar e se divertir.

Tarwin tinha todos os seres com quem gastar seu encantador sorriso e sua encantadora conversa. Ela iria fugir dele. Levantou-se, rígida. — Vamos, Sorag. Estamos atrasados pra ver os garotos pularem e se transformarem! Pegou a mão do garoto e foi caminhando com ele, logo à frente, tentando dar tchau para Tarwin. — Eu acompanharei vocês, linda Leigh! — falou Tarwin, seguindo os dois. — Sim! — disse Sorag, empolgado. — Não. Obrigada, rei Tarwin. Iremos passar em muitas barracas antes, e você vai se cansar.

Tarwin a olhou, desconfiado, mas pegou sua mão e colocou na curva de seu braço, enquanto caminhavam para fora, em direção à praça central. — Ah, não vou, não. Me encantaria caminhar com vocês pelo festival. Quem sabe até não participamos das competições, não é, caro Sorag? — Sim! — falou Sorag, todo animado. Tarwin virou para ele: — Gostaria de ficar no alto, jovem Sorag? Verá melhor as barracas para onde iremos competir. — Sim, senhor Tarwin! Tarwin soltou Leigh por um momento e elevou o menino por

cima de sua cabeça, colocando-o montado em seus ombros. Sorag gritou, eufórico. Tarwin se virou e pegou a mão de Leigh novamente. — Vê alguma arena? — Ainda não, senhor Tarwin. Tarwin sorriu e sussurrou: — Algum problema, senhorita Leigh? Se houver, pode me falar. Brincarei um pouco com seu filho e inventarei uma desculpa para não o magoar desnecessariamente. Ela olhou para ele e negou com a cabeça. — Não há problemas — suspirou. — Me desculpe, mas me irrita um pouco o seu jeito, jogando charme o tempo todo.

Não quero ser o alvo disso. — Ah, entendi. Então me acha charmoso o tempo todo? Ela o olhou de boca aberta. — Não foi isso o que falei! Ahhh... Só que é para você direcionar seus charmes para outra pessoa. Eu estou de luto e pretendo ficar assim o resto da minha vida — disse ela, indignada, sussurrando. — Mas podemos ser apenas amigos. Que acha? Aproveitar o festival como amigos. Afinal, eu, como você, estou há muito, muito tempo sem me divertir, e seu filho é encantador.

Olhando-a enquanto caminhava, com o jovem Sorag fazendo festa em seus ombros, Tarwin sorriu mais brandamente e pediu: — Pode me dar a honra da sua companhia e de Sorag? Leigh se sentiu uma elfa má pelo modo como tinha tratado ele. — Tudo bem. Mas seremos apenas amigos. Não espere nada mais de mim. Não tenho interesse. — Não teve nunca, não é? Ela piscou, encarando-o. — Tem a minha palavra, senhorita Leigh: nunca faremos nada que a senhorita não queira. Leigh perscrutou o rosto dele e o viu muito sério.

Concordou, e desceram para a praça central.

Chamas Celestes

Sinopse

Em um mundo marcado por guerras antigas, pactos esquecidos e poderes que jamais deveriam ser despertados, as chamas não nascem do fogo, nascem da escolha. Quando sinais de um desequilíbrio voltam a surgir, reinos inteiros entram em alerta. Dragões desaparecem, portais são abertos nas entranhas das montanhas e forças que haviam sido seladas começam a se mover nas sombras. No centro desse caos está um segredo capaz de mudar o destino de todos: um poder ancestral ligado às Chamas Celestes, cuja existência foi apagada da história. Entre alianças frágeis, traições silenciosas e conflitos que atravessam raças e territórios, personagens são forçados a confrontar não apenas inimigos externos, mas também aquilo que carregam dentro de si. Uma decisão cobra um preço. E a verdade revelada ameaça incendiar todo o mundo conhecido. Chamas Celestes é um romance de fantasia que combina intrigas políticas, magia antiga e tensão crescente, conduzindo o leitor por um universo onde o passado insiste em retornar — e onde nem todos sobreviverão ao despertar das chamas.

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Chamas Celestes

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