Universo da obra
Universo da obra
Àsgar encerrou a reunião.
— Por enquanto é isto. Só peço que, ao voltarem aos seus reinos, façam o anúncio: quem quiser se alistar e treinar para a guerra — se quiserem, podem treinar com os meus. Enviem quantos quiserem. E, se vocês tiverem medo por suas famílias e pelas famílias das pessoas nas vilas, avisem: temos a ilha flutuante Solariana. Fica mais acima e pode abrigar muitos seres. É só me avisar, que teremos abrigo para quem quiser. Obrigado a todos e aproveitem o festival.
Ele sinalizou para Zenit, Zarin, Tarwin, Alanda, Kae, Saphyre, Ambhar e Leigh permanecerem, enquanto foi falar com Faleey. O esbelto fauno era elegante e parecia um lorde: os cabelos encaracolados, jogados para trás, desciam numa trança presa por um laço; os pelos faciais concentravam-se no queixo másculo. Os óculos desciam de vez em quando pelo nariz enquanto ele falava. Era muito bonito, se você parasse para reparar de verdade. — Quando poderemos visitá-lo? — perguntou Àsgar, enquanto caminhavam.
— Ficarei para acompanhar vocês. E, se forem todos, me avisem, porque é claro que teremos que arrumar mais espaço no castelo. Tiramos os móveis dos quartos de visitas e os usamos para experimentos científicos de grande valor. Temos muitas classes de aulas. Inclusive de música, que é pelo que somos lembrados superficialmente. Precisam de algo mais? Estou com fome e preciso de um banho para dar uma volta na feira. Quem sabe vejo alguma novidade que gostaria de levar para casa — disse Faleey. — Não, não.
É só isso mesmo. Aproveite o festival — respondeu Àsgar. Esperou a porta da sala se fechar e voltou para a mesa. Sentou- se novamente e falou para Alanda:
— Não é que eu esteja desconfiado, mas, nesses tempos de guerra, alguns desafetos exigem mais cuidado. Que acha de colocar algum pirim para vigiar Grahara? Ela parece muito vingativa quando não recebe a atenção que acha que merece. E você sabe um dos poderes que ninfas têm. — Sim, concordo com você, Àsgar. Colocarei imediatamente uma espiã atrás dela. — E teremos que dar uma passada na biblioteca de Faleey — disse Àsgar. — Depois do fim do festival, claro.
— Acho que o treinamento, após isso, será muito mais efetivo. Se ele tem livros sobre os elementais, o que terá sobre a profecia? — disse Kaeidh, interessado. Saphyre franziu a testa. — O que eu não entendo é como Faleey apareceu só agora. Passamos meses fazendo pesquisa, e Kaeidh, Alanda, Travalt e muitos outros trouxeram o que tinham. Mas Faleey não. O que mudou? — Talvez o que tenha mudado seja o secretário que enviou as mensagens. Safin as enviou; é a primeira semana dele.
E eu não lhe informei onde achar os nomes para enviar. Vou chamá-lo. Àsgar foi até a porta. — Safin? O rapaz veio andando rápido: as bochechas vermelhas, os cabelos meio espetados, as roupas um pouco tortas. — Parabéns, Safin. Você estava magnífico no seu primeiro voo — disse Àsgar, feliz, batendo nas costas do rapaz, que sorriu. — Obrigado, senhor. Precisa de algo? — Não precisa me chamar de senhor, Safin. Mas preciso de uma informação.
Quando lhe pedi para chamar os reis e rainhas — e que quem não pudesse comparecer enviasse alguém — com quem você entrou em contato? E como fez esse contato? — Sim, senh... Àsgar. Eu olhei no Grande Livro de Reis e Rainhas, o que está na biblioteca do castelo. Em destaque, o que
está na cúpula. Eu tenho a chave agora que estou trabalhando aqui. Fiz algo errado? Infelizmente muitos não puderam vir, mas eu enviei a mensagem. — Não fez nada errado, Safin. Só me surpreendi por Faleey estar aqui. Como falou com ele? — perguntou Àsgar. — Pelo espelho, senhor. Li no livro que eles não leem missivas porque são muito ocupados para perder tempo com isso. E lá havia o espelho particular do rei Faleey.
Ele anda com um, só para não perder tempo indo até um dos espelhos espalhados pelo castelo e pela biblioteca, caso não esteja num local onde tenha algum. — Muito bem, Safin. Estou muito orgulhoso de você. Mas mantenha-se longe das ninfas por enquanto, rapaz. Elas soltam algo que vai te dar muita dor de cabeça depois — disse Àsgar. Safin arregalou os olhos, arrumou as roupas, se aprumou melhor e disparou: — Sim, senhor! Desculpe, senhor! Não acontecerá mais, senhor!
Àsgar caminhou com ele até a porta, saiu por um instante e explicou, em voz baixa: — Safin, apenas Àsgar. E isso é para o seu bem. Eu já passei por isso e não foi bom depois. Você é um rapaz bonito, grande, chama a atenção delas… mas, na sua idade, o que elas secretam é mais como um veneno. Seu organismo não lida bem com isso. Espere até os vinte anos. Mas apenas com as ninfas, ok? — Ah… sim, senh… Àsgar. Obrigado, senhor… e desculpe. Àsgar riu e entrou na sala novamente. — Deuses, ele é quase uma criança!
— disse Leigh, indignada. Àsgar respondeu: — Ele não é mais uma criança. Safin tem dezenove anos. A mãe morreu no parto. Fora daqui, ela vivia sozinha numa caverna perto da vila Sésame. Outra família o criou até perceberem que ele era um dragão; dali, foi para um orfanato e ficou passando de família em família. Ele sente que não pertence a ninguém. Eu fui
visitá-lo, vi isso e percebi na hora que ele pertencia a nós. Eu o trouxe comigo há um ano. Ele estava em treinamento. Por isso só saltou hoje. Kaeidh olhou Tarwin. — Tarwin… você pareceu não gostar nada de Grahara. — Nenhum ser me interessa menos que Grahara. É mesquinha e maldosa — disse ele, um pouco mal-humorado. — E faz alguns anos que não me interesso por ninguém. Por motivo pessoal. — Eu havia percebido isso faz um bom tempo, amigo. Se precisar, estou aqui — disse Kae, solícito.
— Prefiro guardar para mim, caro Kae. Mas obrigado. Sei que posso contar com você. Leigh ficou pensativa. Levantou-se. — Se vocês não forem mais precisar de mim, preciso ver Sorag. Ele ficou com Fayne na feira. Deve estar deixando ela maluca já. Tarwin levantou também e esperou. — Não, Leigh. Obrigado por vir. Aproveite a feira com seu filho — disse Àsgar. — Obrigada, Àsgar. É sempre um prazer para nós virmos aqui todo ano. Até mais, a todos — disse Leigh. Então levantou os olhos para Tarwin.
— Com sua licença, rei Tarwin. Ela desviou dele e saiu rápido da sala. Saphyre reparou no desconforto de Leigh e no olhar de Tarwin. Levantou-se e disse: — Um minuto. Preciso falar com Leigh rapidamente. Saiu da sala dando uma corridinha e a alcançou próximo à entrada do pátio, num corredor. Tocou no ombro dela; Leigh se virou rápido e relaxou quando viu que era Saphyre. — O que foi, Leigh? Aconteceu algo? Me conta! — Saphyre a abraçou. Leigh tremia. — O que foi, sis? — perguntou, com carinho.
Saphyre olhou em volta, viu uma porta, abriu e entrou. Era
uma sala com sofás confortáveis, estantes de livros, uma mesa de canto com bebidas e uma lareira. Sentaram-se num dos sofás. Saphyre olhou Leigh e esperou. — Eu estou muito brava. Muito, muito, muito! — disse Leigh, chorando. — Tá tudo bem ficar brava. É algo pessoal ou com tudo que ouviu na sala? — É pessoal — respondeu, soluçando, enquanto puxava um lenço de dentro do bolso da saia. — Eu perdi meu âme sœur! Perdi mesmo. E Sorag foi quem me deixou de pé. Ela respirou fundo, tentando se firmar.
— E agora que comecei a me curar… um pouco… o outro aparece. Eu nunca falei isso para ninguém. Ninguém. Nunca soube de nada! — Do quê? — perguntou Saphyre, pacientemente, segurando a mão dela. Leigh apertou o lenço. — Eu não sei como isso aconteceu. Nem os anciãos devem ter explicação. Eu passei noites chorando. Eu tive que matar metade de mim. Eu tive dois âmes sœurs. DOIS! Saphyre arregalou os olhos. — Pode imaginar o meu sofrimento? Isso nunca aconteceu. Nunca, entende? É uma aberração. E agora ele está aqui.
Eu pensei que nunca mais ia vê-lo. Tenho que ir embora antes que seja tarde demais! E meu filho… passou boa parte do dia com ele hoje e o amou, o adorou, admirou. Você precisava ver, Saphyre. Ele… ele… só queria ficar com ele. E Tarwin… botou Sorag nos ombros, brincou, deu atenção e encantou o meu filho… o filho que tive com o homem que escolhi ao invés dele. — Entendo. Isso nunca aconteceu… é como Kae e eu? — Não.
Vocês são raros: já houve alguns casos assim, mas sempre acontece quando uma das partes perde o seu amor. Se o outro sobrevive… Já o meu caso nunca houve nada sobre isso. Os
dois vivos… na mesma semana. É inacreditável. Eu não quero mais isso. E se ele morrer também nessa guerra? Eu não aguento mais. — Já procurou em todos os lugares? Pode ser que talvez tenha existido… mas não falaram sobre, porque sentiram o mesmo que você está sentindo. Já pensou nisso? — Eu não perguntei para ninguém. Li livros e não havia escrito nada sobre isso. — E como aconteceu? — perguntou Saphyre. Leigh suspirou e se acalmou um pouco. — Tivemos a festa da primavera… será a próxima, daqui a alguns meses.
É quando os spiorads descem da lua verde e polinizam nossas flores. É maravilhoso. Eu estava na sacada onde recebemos você com Zoltark, lembra? — Sim. Me lembro. — Ele chegou com Kae na carruagem. Era uma carruagem mais antiga do que a que Kae tem agora. Ele sempre gostou de tecnologias. Mas, quando desceu e eu o vi… eu já sabia que meu âme sœur era Sharif. Eu tinha vinte anos, sabe? Eu queria esperar ficar mais velha, aproveitar mais, para depois me prometer para Sharif. Eu tive um baque. Não podia acreditar.
Fiquei atormentada por isso. Ele passou um mês lá. Eu passei a maior parte do tempo longe, mas ele sempre me procurava. E isso era o pior. Leigh encarou Saphyre. — Como você se sentiu com meu irmão, quando o viu pela primeira vez? Sentiu que era diferente? — Não sei explicar. Eu nunca amei ninguém, nunca tive interesse por ninguém. Kae foi intenso. Eu disfarcei bem, não foi? Mas, com o tempo… a convivência… cada toque, cada sorriso, o olhar… o jeito como ele fala comigo e com os outros…
o cuidado com cada um que procura ajuda… eu não tive chance, mesmo que eu quisesse. E foi explosivo, literalmente — Saphyre riu. Leigh engoliu seco.
— Será que Tarwin se sentiu assim também? Na semana seguinte que ele chegou lá, nos beijamos. Foi meu primeiro beijo. Eu e Sharif estávamos esperando… eu queria ficar até os vinte e dois, em casa. Meus pais ainda eram vivos. Eu queria aproveitar com minhas amigas, noites de garotas, e Sharif respeitou. Foi viajar, conhecer outros reinos. Eu estava feliz. Ele também. Aí Tarwin veio… e mudou tudo. — Ele te beijou, vocês se beijaram… — Eu não resisti. Não sei por quê. Talvez porque ele seja muito… digamos… — Leigh…
ele chama atenção, né? É charmoso e aposto que sabe o que quer — disse Saphyre. — E, se ele quer você, é óbvio que ele vai tentar, mesmo que saiba que não deve. Você nem sabe o quanto é difícil para mim ficar longe de Kae. É inacreditável o que eu sinto. Aposto que você sabe o sabor do beijo dele ainda. Leigh arregalou os olhos. — Ah, meus deuses. Eu sei! Saphyre… será que ele sofreu quando eu não o escolhi? Pelo que ele disse agora há pouco, ele não teve mais ninguém desde então… e isso é muito tempo.
Me sinto tão culpada. Ele passou o dia agradando Sorag. Eu passei o dia irritada e tratando ele mal. Eu achei que ele tinha me esquecido. Ela respirou, tremendo. — Meu irmão passou muito tempo com ele. Viajaram muito para aprender a cuidar de povos diversos. Toda vez que Kae voltava, eu perguntava se ele tinha perguntado sobre mim… e meu irmão dizia que não. Até que parei de perguntar. Me senti feliz, porque achei que eu estava enganada. — Aí meu irmão foi coroado. Meus pais fizeram uma festa.
Tarwin compareceu, foi amável. Eu e Sharif marcamos o casamento… e eu não tinha feito convite para Tarwin. Meu irmão viu e pediu. Eu tive que fazer. Ele recebeu o convite e, antes do casamento, apareceu na porta do meu quarto. Eu já estava pronta
para descer e me prometer a Sharif… e ele me implorou para não fazer. Disse que não aguentava mais tempo sem mim. Eu disse não. — Ele me beijou de novo e eu quase morri… porque eu sentia o mesmo que sentia ao beijar Sharif. Mas eu conheci Sharif primeiro e achei que devia ser leal. Leigh limpou as lágrimas. — Eu descobri, depois de estar grávida de Sorag, que Sharif tinha uma doença. Ele ficava entre a vida e a morte por tempos e depois voltava a ficar bem. Ninguém sabia o que era, e ele não me contou.
Por isso ele me deu espaço para me divertir… não teria como me explicar. Teve medo. Saphyre perguntou, com cuidado: — E você teria desistido dele? — Não teria. Eu teria cuidado dele. Depois do casamento, ele tinha épocas em que saía e dizia que voltaria. Ficava fora quase o mês todo. Quando voltava, vinha cheio de energia… até não ter mais e sucumbir à doença que ninguém conseguiu tratar. Depois eu soube que ele viajava para os lugares mais longínquos atrás de tratamento. Adoecia no meio disso tudo, voltava bem…
e viajava de novo. — Eu pensei que seria sempre assim… me sentia solitária. No final, não foi. No final foi pior. Fiquei sem ele, com um bebê recém- nascido. Eu vim aqui por impulso, não falei nada a Kaeidh. Eu nunca imaginei que Tarwin estaria aqui. Leigh puxou o ar, ofegante. — E na sala… quando ele entrou galante… eu fingi que esqueci dele. E me irritou. Eu vim para esquecer da morte… e Tarwin aparece, mais bonito do que antes e o dobro do tamanho. Eu senti raiva. Porque eu estava sozinha…
e ele provavelmente estava tranquilo, saindo com outras fêmeas por todos os lugares. Desfilando a beleza dele. Onde ele passa, ficam todas suspirando… ele sorri, elas derretem. — Até meu filho… que é tímido… brincou, conversou e quis
estar com ele. Era como se fosse ele o pai de Sorag. Saphyre falou devagar: — E, se você quiser ouvir a minha opinião… Leigh assentiu. — Eu acho que pode vir a ser. Leigh arregalou os olhos. — Não? — Eu acho que seria um presente. Para os três… Pense bem. Ele te esperou — aparentemente — todo esse tempo. Todo ele. Imagina o que ele passou? Você está sozinha há quanto? Sete anos? — Sim… mas, como sabe, eram raros os momentos que Sharif passava comigo. Fiquei mais tempo sozinha do que com ele. — Então…
acho que passar por isso pode ser o melhor. É mais uma chance. E acho que você deveria conhecer Tarwin… e parar de tratar ele como se fosse ele quem tirou seu amor de você. Leigh baixou os ombros. — Estou tão cansada de estar sozinha. — Eu acho que deve estar muito cansada. Elas ouviram a conversa dos homens e de Ambhar no corredor. — Vamos. Eles já estão nos deixando — disse Saphyre. — Está pronta? — Sim… acho que sim. Tô muito inchada? — Não, sis. Você está encantadora. — Obrigada, Saphyre.
— Não precisa agradecer. Você é minha amiga e minha irmã. Saíram de mãos dadas, conversando. Foram em direção ao pátio atrás dos amigos. Eles já estavam quase na praça central quando elas os alcançaram. Sorag estava novamente nos ombros de Tarwin. Leigh olhou para Saphyre e caminhou até eles, falando com Sorag, enquanto Tarwin a observava, pensativo. Kaeidh viu Saphyre e a abraçou.
— Saphye… vocês sumiram. Está tudo bem com vocês? Eu não sei o que há, mas Leigh parece ter algum problema com Tarwin. Você sabe de algo? — disse Kae, em pensamentos. Saphyre olhou para ele. — Sim. É uma história longa… mas não é minha para contar. Pergunte para sua irmã, meu amor. Ela o abraçou mais apertado, sentindo o cheiro dele. — Estava com saudades. Ainda estou. Parece que o tempo que ficamos longe não acabou ainda. Vai me contar mais das suas aventuras no mar? — Contarei todas. E mais: você vai me acompanhar nas próximas aventuras, se quiser. — E você duvida, meu amor? Com você… sempre — respondeu Saphyre, em pensamentos.
Em um mundo marcado por guerras antigas, pactos esquecidos e poderes que jamais deveriam ser despertados, as chamas não nascem do fogo, nascem da escolha. Quando sinais de um desequilíbrio voltam a surgir, reinos inteiros entram em alerta. Dragões desaparecem, portais são abertos nas entranhas das montanhas e forças que haviam sido seladas começam a se mover nas sombras. No centro desse caos está um segredo capaz de mudar o destino de todos: um poder ancestral ligado às Chamas Celestes, cuja existência foi apagada da história. Entre alianças frágeis, traições silenciosas e conflitos que atravessam raças e territórios, personagens são forçados a confrontar não apenas inimigos externos, mas também aquilo que carregam dentro de si. Uma decisão cobra um preço. E a verdade revelada ameaça incendiar todo o mundo conhecido. Chamas Celestes é um romance de fantasia que combina intrigas políticas, magia antiga e tensão crescente, conduzindo o leitor por um universo onde o passado insiste em retornar — e onde nem todos sobreviverão ao despertar das chamas.
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