Universo da obra
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A arvore Ω picia. INGLEM sabia explicar como, em tão arido deserto, conseguira medrar a arvore proFóra da sombra amenissima da sua cора , tudo era esterilidade adusta - areias amarellas, sem herva, sem sulco de riacho, esbrazeando ao sol . Os viajantes respiravam alliviados quando, de longe, avistavam o vulto frondoso da arvore ; os animaes amiudavam os passos e, sob a densa e derramada folhagem, impenetravel aos raios caniculares , juntavam-se as caravanas e, como havia uma cisterna no diversorio virente, todos bebiam á farta e renovavam a provisão dos odres .
A providencia d'aquella arvore não era apreciada, mal lhe prestavam attenção os viajantes e muitos, por passatempo, escorchavam-lhe o tronco com as facas, detoravam-lhe os ramos ou accendiam fogueiras sobre as suas robustas raizes . Certo ancião , abrigando-se á sombra da arvore, descobrio que um mal roaz a consumia e logo, piedosamente, poz-se a tratal-a com o desvello carinhoso com que se dedicaria a um sêr humano . Mofaram da sua paciencia os homens da caravana e o velho, sem agastar-se, assim lhes falou: Rides de mim porque pratico o bem; talvez venhais a arrepender-vos da vossa descuidosa ingratidão quando, de regresso, não achardes sombra que vos acolha. A arvore succumbe, nada ha mais a fazer-lhe . Foram -se os caminheiros . Certa tarde, a um rijo golpe de vento, a arvore, cuja folhagem amarellecera, rolou, com fragor, no solo . Vinha de volta a caravana e os homens antegozavam a delicia de um lento repouso á sombra, quando pasmaram do encontro : ruinaria folhas seccas, ramos quebrados e o tronco desconforme meio coberto pelas areias . A cisterna ficara entulhada e a alfombra verde morrera resequida . Foi então que os homens comprehenderam o valor da arvore e a fortuna que haviam perdido . Pobre arvore ! emquanto viveu foi sempre desprezada, soffrendo toda a sorte de máos tratos ; morta, porém, deixando o vasio, eis todos lamentando a sombra agasalhadora que ella, sempre generosa, offerecia, as flores de perfume suave que se abriam nos seus ramos , os passaros que nelles se juntavam, alegrando a região com os seus cantos concertados, a agua que parecia brotar das suas fundas raizes . Ainda hoje, os que trilham o deserto inhospito, mostrando um toro que apparece acima das areias, param e, tristemente, murmuram : Era aqui que a grande arvore, coberta de flores e de passarinhos, abria ás caravanas a sua sombra hospitaleira.
Leia gratuitamente Fabulário, de Coelho Neto, coleção de fábulas e narrativas alegóricas em domínio público publicada em 1907, organizada em capítulos para leitura online no Literunico. Esta edição digital foi preparada a partir do exemplar público preservado no Wikimedia Commons/HathiTrust, com capa nova no padrão Literunico, fonte validável, busca, redes sociais e pesquisa por IA.
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