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Capítulo 20 · Fabulário

Elegia

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clarão funereo da lua dava á paizagem immovel o aspecto lapidar de immensa cidade, toda de marmore, morta. Rigidas, hirtas arvores laivadas d'alvo reluziam e toda a extensão que os olhos alcançavam era alvadia e quieta como esculpida em pedra . O ar da noite rescendia aromas e, por entre as frondes adormecidas, faiscavam lampyros . Silencio de camara mortuaria . O rio largo, glacial, espelhava a lua nas aguas lisas , turvas em negror de lucto nas proximidades das margens, sob os pendidos ramos desolados . Ia eu descendo a rampa resvaladía quando ouvi rumor de vozes partindo d'um cerrado .

Curioso do mysterio - Quem, a horas taes, affrontaria o frio, á beira deserta d'aquellas aguas lugubres?- avancei em passos silenciosos . Evitando os ramos enredados, approximeime tanto quanto me foi possivel e, debruçandome á borda da ribanceira, sobre a gróta de onde subia o sussurro das vozes vi, ao primeiro relanço d'olhos, um grupo de corpos nús como estatuas perdidas entre a folhagem escura . Attentando, porém, na visão reconheci duas mulheres e jovens . Dava-lhes o luar em cheio no rosto accendendo-lhes áscuas nos olhos, pondo-lhes esplendores nos cabellos soltos, despejados em ondas por sobre os hombros até á cinta . A belleza d'uma reproduzia-se traço a traço nas feições da outra . Abraçadas conversavam com meiguice : Serás ámanhã onda marinha, dizia uma ; e a outra suspirava . Irás por entre ribas verdejantes, ao longo de campos, através de arvoredos até a costa deserta e bravia que o mar solapa e n'elle entrarás como a folha que se desprende do ramo e perde-se no rebalso da floresta . O destino leva-te como o vento assopra a nuvem . -E o mar? -E' immenso, não se lhe vê o fim . E' como o ceu . As suas praias são brancas, planas ou accidentadas em dunas altas, rasas ou eriçadas de rochas, beirando cidades tumultuosas ou chegadas a escarpas inhospitas, só accessiveis ás aves oceanicas . As suas aguas amargas não balouçam lyrios, sulcam-nas pesados navios de ferro . As libellulas que as affloram têm azas para resistir ás tormentas, são as gaivotas; as suas narsejas chamam-se albatrozes . A superficie é inquieta - os temporaes affrontam-na, mas o abysmo é sereno . N'elle acharás o silencio e a companhia dos seres que nunca viram o sol nem se acostaram á ourela de terra em flor . Lá viverás em grutas de coral, pisando o nacar em que se geram as perolas, acompanharás a lenta construcção das ilhas por architectos tão péqueninos que cem d'elles viveriam n'um estame de flôr: e andarás na claridade livida que irradiam os corpos dos oceanides .

Em que tempo viveste n'esse mundo merencoreo? Não sei. Ainda cortavam a vaga naves de prôas curvas que seguiam ao som dos ventos offerecendo á monção velas amplas de purpura . Os marinheiros navegavam alumiados pelas estrellas . O mundo era velho, havia ruinas e os homens relembravam , com saudade, os encantos e a felicidade dos seculos chamados de ouro . Mas o mar é invariavel como a Eternidade . Has de achal-o como o deixei . Um dia, inesperadamente , tornarás aonde estamos : aos rios , á sombra dos bosques . Subirás ao ceu, como eu subi, e regressarás á terra em chuva ou em orvalho . circulo . Regressarei! Tudo regressa á origem - a vida é um E as aguas do mar são claras e transparentes como as das fontes sylvestres? -As aguas do mar são verdes ou são azues . Verdes, porque recebem o tributo dos bosques ; azues, porque tambem n'ellas se despejam os mananciaes do ceu .

A floresta despacha-lhes tudo 'quanto deflue das fontes e o mar reveste a côr das balsas , como que se cobre de verdura, torna-se de esmeralda e florido de espumas, tão brancas como as açucenas . E ' campina sem arvore . Forra-se de azul, todo celagem, agradecido ao céu, que o nutre e as espumas são froccos de nuvens rolando por elle ao sabor do vento. Assim o mar é o espelho do ceu e da terra . Turva-se o mar na tormenta e, como a colera demuda, vão-se-lhes as côres suavęs, enruga-se-lhe a face e toda a belleza desapparece . A furia decompõe-no e o que antes ostentava o viço da mocidade apparenta a feição de um velho desvairado , com os cabellos brancos revoltos, a arremetter com a terra, rugindo sob o flagello dos ventos e dos raios . Mas a bonança depressa refaz-lhe a juventude . Nasce o sol e redoura-o, reapparece nas aguas o azul, lembrança do ceu, ou o verde, saudade da terra . O mar é o symbolo do Tempo, variavel na apparencia, que é a superficie, mas immutavel na essencia, que é o abysmo . O dia em que se vive é mais tumultuoso do que todos os seculos

decorridos . Ouve-se o insecto que esvoaça em torno de nós e das guerras antigas, das catastrophes de outr'ora, das convulsões do mundo, que resta? o silencio . O que se afoga deixa apenas bolhas d'ar- o abysmo é o vasio e o Tempo é um abysmo mais fundo do que o oceano . E, assim como os rios alimentam o pelago, os seculos correm para o Tempo, o mar infinito da Eternidade no qual todo o orgulho humano referve um momento e morre, como as ephemeras espumas . Vai, o mar reclama-te, és gotta d'agua, segue o teu destino . Has de voltar um dia á terra maternal . Quando? -Pergunta á nuvem . A folha que morre apodrece e torna em seiva ao tronco, a ser foIha? Pergunta á arvore . Has de tornar ao bosque em chuva, em orvalho, talvez em lagrima, trazida em um coração . Abraçaram-se e cu vi um corpo mergulhar nas aguas . Outro ficou na ribanceira, immovel . E o rio entrou a chorar no silencio .

-- Tudo regressa, disse a nayade ; só as minhas illusões não tornam. E que bem me fariam agora no tumulto dos cuidados que me affligem . Talvez regressem em lagrimas, como affirmou a nayade que eu vi á beira rio e que era a imagem da minh'alma melancolica, junto á corrente saudosa do pranto, despedindo a ultima illusão que se foi para o mar alto ser gotta d'agua no oceano, perder-se na immensidade . Meus pobres sonhos! Que nuvem os sorverá no oceano para fazer com elles a Poesia que eu não fiz?

Fabulário

Sinopse

Leia gratuitamente Fabulário, de Coelho Neto, coleção de fábulas e narrativas alegóricas em domínio público publicada em 1907, organizada em capítulos para leitura online no Literunico. Esta edição digital foi preparada a partir do exemplar público preservado no Wikimedia Commons/HathiTrust, com capa nova no padrão Literunico, fonte validável, busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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