Universo da obra
Universo da obra
D ESPEITADO com a gloria do sol, que os homens adoravam sob o nome de PheboHyperion, Hephaestos, o artificioso, resolveu supplantal-o fazendo, em sua officina subterranea, um astro em tudo egual ao que deslumbrantemente percorria, de extremo a extremo , a altura elysea . Espalhou os seus cabiras e telchinos pelos veios das minas em busca de ouro e, quando vio a forja atupida de metal luzente, reunio os cyclopes e, com os mais habeis, poz-se a modelar a imagem do astro . Lavraram, com esmero, o nucleo, ajuntaram -lhe os raios .
Hephaestos não esquecia um detalhe, não descurava a mais imperceptivel minucia e, apurando a arte em requintes de cuidado escrupuloso, depois de um lento, insistente polir, espalhou a irradiação em torno do centro de ouro e, orgulhoso da sua fabrica, convocando Demeter e todas as divindades da terra á sua entranhada officina, mostrou-lhes a nova creação da sua arte incomparavel . Pasmaram os deuses do sublime trabalho do artifice magnifico e, em unisono, bradaram : - E' o proprio sol ! E Demeter pronunciou-se : -Agora poderemos zombar de Apollo e do mesmo Zeus, condensador das nuvens . Quando os cumulus tempestuosos apparecerem na altura e os nimbus escurecerem os campos , o sol da terra abrirá a sua claridade . Quando os froccos de neve baixarem sobre prados e montes, o sol da terra os fundirá de repente . Não haverá mais regelo e o meu corpo verde terá sempre o esplendor diurno porque, quando o plaustro de Phebo mergulhar no occaso, o sol da terra refulgirá alumiando todos os logares,
desde o campo mais descoberto á mais recondita deveza . E disse ainda Hephaestos orgulhoso : E mais ainda farei, Demeter fecunda . O eu mulsol é um para todo o vasto universo tiplicarei os sóes, cobrirei com elles a terra como as estrellas recamam o céu . As montanhas, os campos, as collinas, os valles terão constellações de sóes . A' beira de todo o corrego , ao longo dos grandes rios, em torno dos lagos limpidos brilharão sóes ardentes e os lavradores poderão colher o sol da terra como colhem o trigo e o linho levando-o para as cabanas . O que é necessario, Demeter, é que tu o faças sahir a flux como fazes brotar a semente atirada no sulco do arado . Mas um velho cabira, que ouvira em silencio , adeantou-se e disse : Hephaestos, senhor das minas, dominador do fogo occulto, se pretendes fazer um sol que possa competir com Phebo-Hyperion, não basta que imites a forma do astro , é necessario que lhe dês a luz, eterna como a do sol, e essa
não a farás, de certo , com o fogo que flammeja na terra e que uma gotta d'agua combate . Assim, para que faças um sol, terás de procurar obter a essencia da luz divina, imperecivel e inalteravel, que é o esplendor dos dias . — Tomal-a-ei ao proprio sol, disse Hephaestos, desde que achas que o lume terreal é ephemero . Faça Demeter apparecer á flôr da terra o sol de ouro que eu o accenderei nos proprios raios do sol divino, como se accende a lenha á chamma da fogueira . Farei o que pedes, disse Demeter ; e cumprio a palavra . Com os primeiros calores da primavera , quando as brisas corriam perfumadas e começavam os ares a enxamear-se de borboletas, viram os pastores árcades brotar da terra um arbusto novo . Cercaram -no com interesse examinando -o e maior foi nelles o espanto quando deram com a sua flor . Levantou-se, entre todos, uma grita jocunda : E' um sol ! E ' um sol ... ! Talvez algum nimbo que tivesse ficado do
estio e, creado na terra, como o grão de trigo , viesse agora em flôr . Que lindo enfeite ! gabaram as mulheres . E, em torno da haste em que oscillava a flor radiosa puzeram-se a bailar em circulo os árcades contentes . Hephaestos , apenas se cumprio a promessa de Demeter, poz-se a guiar a flor inclinando-a para o sol afim de que recebesse em cheio a luz do astro e nella eternamente se inflammasse . Mal se acairelava o oriente de rubro volvia a flor o seio para o esplendor. Surgia o sol, a flor fitava-o e seguia-o na sua derrota ceus em fora até que, ao canto vesperal das cigarras, o astro descahia no horizonte . Que lhe ficava do sol ? o amortecimento . Crestava-se debalde a flor misera e, á noite , ao contrario do que Hephaestos esperava, perdia-se na treva como as outras flores . Mais lume despedia o pyrilampo erradio, mais lume espalhava o pantano selvagem . Exaltou-se o deus subterraneo accusando os cyclopes de imperitos e já pensava em descer á officina profunda para vingar-se dos artifices
da incude, quando um subito clarão desfez as trevas nocturnas e Phebo fulgido appareceu junto da flôr pendida . Hephaestos, não lances a culpa aos que a não têm . Quizeste cobrir a terra de sóes e trabalhaste no ouro com esméro admiravel . Não ha duvida que a obra é digna do teu genio, o que, porém, não lhe podes dar é o esplendor que me cerca . Conseguiste imitar a forma, mas a essencia, que é a luz, essa só a poderia dar o grande Zeus . Nem tudo póde o martello sobre a incude e o ouro só brilha ao contacto da luz . Sóes d'ouro podem fazer, e lindos ! os teus cyclopes habilidosos ; astros só os cria o poder de Zeus . Demeter sahio em teu auxilio , está a terra coberta de helianthos e quem os vê dentro da noite ? Emtanto um raio só da minha claridade basta para alumiar um campo vasto . E's fogo, senhor do fogo, contenta-te com a tua natureza e com o teu prestigio, não queiras ser astro . Disse e, como as cotovias, voando dos tri
gaes, annunciavam a madrugada, remontou ligeiro aos ceus para tomar o governo da esplendida quadriga . Hephaestos, porém, não se dando por vencido, insistio no seu proposito de tornar a flor egual ao sol inflammando-a na luz do astro diurno e, desde os tempos mais remotos até hoje, mal amanhece e incendeia-se o ceu, eil- o a voltar a flor para o disco fulgente, a acompanhal-o até o perder de vista . E a flôr ... sempre apagada e a crestar-se na luz, morre como as mariposas . Hephaestos, porque has de sujeitar a flor a tamanho ridiculo entre as flores ? Heliantho... pobre de ti... ! E quantos ha com a tua pretensão e com o teu destino entre os homens - sóes na vaidade e menos que vagalumes .
Leia gratuitamente Fabulário, de Coelho Neto, coleção de fábulas e narrativas alegóricas em domínio público publicada em 1907, organizada em capítulos para leitura online no Literunico. Esta edição digital foi preparada a partir do exemplar público preservado no Wikimedia Commons/HathiTrust, com capa nova no padrão Literunico, fonte validável, busca, redes sociais e pesquisa por IA.
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