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Capítulo 19 · Fabulário

A piedade

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ultimo vestigio humano - uma choça pauperrima ficara na orla da floresta que haviam deixado ao romper d'alva quando Ananda, que se dirigia a um palmar, á cuja sombra cantava uma fonte, enveredando por uma trilha sinuosa, reteve subitamente os passos e pallido, d'olhos fitos no juncal cerrado e alto que asselvajava a paisagem, conteve a sofrega respiração . Surdos frémitos , soltos a quando e quando , annunciaram ao servo fiel do principe de Kapilavastu a presença de um tigre que soffria . Então, recuando passo a passo, sem tocar em ramo , sem pisar em folha secca para evitar o ruido, chegou á clareira em que ficára, cercado

de pombos e de borboletas, afagando uma gazella , o Mestre perfeito . O sol alcatifava de ouro o terreno alfombrado e pelos ramos enfestoados de parasitas os passaros cantavam festejando o missionario meigo que attendia, com o mesmo desvelo, ao soffrimento de um homem, á dôr incomprehendida de um insecto ou á sede de uma raiz que as arèas torridas consumiam . Vendo-o Ananda tão tranquillo entre os animaes que a sua caridade attrahira, calou a noticia alarmante, mas Buddha, como se adivinhasse o que, tão de improviso, o afugentára do palmar, interrogou-o ; -Que tens, Ananda ? Vens pallido, trazes nos olhos vestigios de espanto . Não foi, de certo, o bengali que te fez recuar em tamanho alvoroço, nem foi, tão pouco, a fonte que te affrontou com as suas aguas para que tornes assim tão demudado . Que viste ? --- Senhor, disse Ananda -e a voz tremiaThe á beira da fonte , entre os juncos, está uma féra a gemer . Ia eu descendo a rampa, já o meu corpo apparecia reflectido nagua, quando

ouvi o lamento doloroso do animal occulto . Foi por protecção dos bodhisattvas que me pude livrar de tão perfido encontro . Vim a correr, não tanto para escapar ao carniceiro hospede do sitio, como para acautelar-vos contra a sua ferocidade . Que vale a vida misera de um escravo ? E ' a vossa que me dá cuidado porque nella reside a esperança dos homens e della depende a conversão do mundo . E dizes que o animal geme ? Geme e escabuja em ancia. Em torno os juncos abatem-se e estalam com o estortegar agoniado do grande corpo . Levantou-se Buddha e, sem dizer palavra, despedindo a gazella, as aves e as borboletas, tomou o caminho por onde regressara Ananda e, apezar das insinuações medrosas do servo humilde, que teimava em dissuadil-o de tão arriscada sorpreza , foi-se tranquillamente e, em passos graves, mas seguros, penetrou no palmar e logo ouvio o soturno, prolongado gemer, parecendo o echoar de uma caverna profunda . Ananda, vendo-o seguir resoluto, tirou da cinta o punhal e, ainda que não contasse vencer,

com arma tão fragil, inimigo tão poderoso , queria enfrental-o, dando-se-lhe por pasto, antes que ver seu principe e senhor ferido . E Buddha caminhava . As hervas abriram-se por si mesmas dandolhe passagem e elle foi indo por entre as muralhas verdes, guiando-se pela voz dorida do animal. Ao ruido dos seus passos a féra calou-se , como á espreita . Ananda ainda insistio . Senhor, lembrai-vos da missão que tendes . Não vos deveis expor em lance tão arriscado a felicidade de todas as creaturas depende da vossa palavra . E não ouves gemer um animal , Ananda ? E que é a dôr de um animal comparada á dôr humana ? -E' a mesma dôr . Tanto soffre o que fala como o que apenas accusa o soffrimento pelo gemido ou lagrima. O que vem em missão de amor não tem eleitos . Se um homem armado e enfurecido contra mim, na investida que fizer, de punho erguido e lamina apontada ao meu coração , tropeçar e cahir ferindo-se, o meu de

ver é pensar-lhe a ferida, leval-o em braços ao seu lar e permanecer á sua cabeceira até que de todo sare . A piedade não é um presente entre amigos , é um amor sem condição e que não espera resposta . E, suavemente, murmurou «A minha força é a caridade, a minha tunica é a paciencia... maitri é a suprema virtude» . Ananda, só o homem elege affeições - o bodhisattva não tem preferidos . A Luz foi creada para o mundo . Ninguem diz - o meu sol . As aguas são passageiras que percorrem a terra espalhando esmolas com as duas mãos , tanto ha de fartura em uma beira de rio como em outra e as aguas não perguntam o nome nem pedem os titulos d'aquelle que as procura dão -se ao principe e ao animal, fartam o torrão e ascendem á nuvem . O rio não volta ao moinho para exigir salario, nem regressa ao campo, no outono, a reclamar o dizimo o bem e prosegue. Entre dois sóes ha a noite como um esquecimento . faz Assim falando , Buddha chegou ao lugar em que a féra jazia . Era um monstruoso tigre negro, de pello

luzidio . Estava deitado de flanco, numa роçа de sangue, com uma flecha através do corpo . A cauda flagellava o solo, vergastava os juncos e, de vez em quando, abrindo a boca desmedida , o animal deixava escapar um gemido . Sentindo a presença do missionario, num esforço supremo, poz-se a féra de pé . Buddha approximou-se apartando os juncos e, chegando-se ao belluino, arrancou-lhe a flecha das carnes e logo o sangue estancou e ao contacto da mão divina cicatrizou-se a ferida . O sol, entrando em nimbos pelos escassilhos das folhas, estampou-se na pelle negra do animal que ficou mosqueada de ouro . Ananda olhava em extase vendo o monstro submisso rastejar humilde e grato aos pés do principe abnegado, lamber-lhe as mãos, fital -o com suave ternura nos olhos fulgurantes . E quando, livre da flecha dolorosa, poude caminhar, Buddha acenou mostrando-lhe a floresta e o tigre, d'um salto, deixou o juncal, partio , aos galões, fremindo . Foi-se, desappareceu no palmar, manchado de sol e, de longe, rugio alegremente como agradecendo a piedade do peregrino .

E Buddha , feliz por haver combatido um soffrimento , sahio á estrada cheia de perfume e sonóra do canto airoso dos bengalis . Então , mostrando ao longe o Himalaya que recebia o sol agonisante nas suas neves doiradas, disse apenas : Adeante ! - Senhor, lamentou Ananda, que pena tenho de não haver quem conte este acto tão generoso da vossa misericordia . -Ananda, assim como o sol ficou em manchas de ouro no corpo do animal curado, assim os actos de caridade gravam-se na memoria dos deuses . Quem propala o que faz e alardea os beneficios não os pratica por amor do proximo, mas por vaidade e, longe de ser um virtuoso, é um fatuo que se engrandece á custa do soffrimento , fazendo -se acclamar pela gratidão . A moeda da esmola deve ser como o sol- que alumia e desapparece . E dize : já viste a mão que nos dá essa moeda de ouro? Adeante, Ananda, e goza o perfume da tarde que é tambem uma misericordia e contempla, com alegria, as estrellas que

nascem . O que dá um mendrugo ao faminto sahe logo a apregoar o seu acto e nós não sabemos quem nos dá o ar, a luz, a agua, a flor e todas as maravilhas que temos por nossas . Como somos imperfeitos e mesquinhos e como é grande a vaidade ! Os kokilas gazilavam nos ramos e as sombras quietas da noite baixavam sobre os peregrinos .

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Sinopse

Leia gratuitamente Fabulário, de Coelho Neto, coleção de fábulas e narrativas alegóricas em domínio público publicada em 1907, organizada em capítulos para leitura online no Literunico. Esta edição digital foi preparada a partir do exemplar público preservado no Wikimedia Commons/HathiTrust, com capa nova no padrão Literunico, fonte validável, busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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