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Capítulo 5 · Fabulário

El-rei Truão

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Q UE teria o bobo ? De seu natural e officio sempre alegre déra em melancolico . Calado, mazorro, passava taciturno , medindo , a lentas passadas, os vastos salões reaes , indifferente ás chufas dos pagens, á mordacidade dos fidalgos e, com a palheta esquecida á ilharga, retorcendo a gorra, seguia, sem dar resposta alguma, elle, dantes tão prompto em replicas dicazes, tão vivo em retrucar aos motejos e perguntas com a jogralice venenosa . Ia -se cabisbaixo , moroso , e lá se ficava solitario, horas e horas, no eirado, d'olhos perdidos nos campos que por além se estendiam em fartura de searas e limpidas ondulações de ribeiras, em cujas ourellas rumorejavam casaes e pasciam rebanhos . O rei , estranhando a repentina mudança no genio do bufão, chamou-o á sua recamara e, affavelmente, o interrogou : Que tens ? Porque andas assim tristonho e sempre arredado de todos e de mim ? - Senhor, se eu vos disser o motivo da minha tristeza maior ainda a tornareis com o vosso justo desprezo . E ' por um sonho de bufão . Que sonho é ? - Quizera ser rei, ainda que fosse apenas por uma hora. Trocar a minha gorra de orelhas d'asno pela coroa, a minha palheta pelo sceptro, o meu saio pelo manto real . Quizera sentar-me no throno, ver toda a côrte a meus pés, ouvir as lisonjas dos homens, escutar e sentir os suspiros das mulheres , atordoar-me com o troar das tubas, deslumbrar-me com o brilho dos trajos e as áscuas do aceiro das armas, governar, dominar, ser senhor . E' um sonho de bobo . Se me emprestasseis, por uma hora, os vossos attributos eu me julgaria o mais feliz dos homens ...

- E acreditas que só com a coroa, o sceptro e a purpura consegues impôr-te ao respeito da côrte ? Os attributos de um rei de sangue não são apenas os symbolos . Enganais-vos , senhor : rei sem sceptro , corôa e purpura vale tanto como o villico, menos que um bôbo palatino . Na Terra é a illusão que governa : tudo é apparencia . No primeiro momento . Sempre, senhor. Pois se é por tão pouco que tanto te avexas , escolhe a hora e nella serás rei e eu, para divertir-me, vestirei o teu saio, empunharei a palheta e me cobrirei com a tua gorra de orelhas d'asno e, ante o throno, como é do teu officio , farei cabriolas e direi sandices . Senhor, seja então hoje, á hora da audiencia . -Seja, disse o rei, a sorrir, antegosando o espectaculo original .

Já o nobre salão do palacio regorgitava : eram fidalgos venerandos com as samarras matizadas de ouro e recamadas de pedrarias ; eram guerreiros acobertados de aço ; eram sacerdotes em estamenhas; eram pagens em lemistes e em velludos; eram damas em riquissimos vestidos e ainda burguezes e gente da ralé que levavam requestas ao monarcha . A's portas, junto aos reposteiros armoriados, alabardeiros montavam guarda, e, ladeando o throno, quatro barbudos homens d'armas apoiavam-se em achas que reluziam . Ao clangor das trombetas agitou-se no salão a turba anciosa e um murmurio passou : «El -Rei ! » Cada qual procurou, com esforço, chegar-se mais ao throno , desejoso de ser visto, com ambição servil de ser o primeiro a beijar a mão do principe, prostrar-se ante a sua magestade, ser attendido , sentir-lhe o poder .

Eis que rompe o cortejo . Engelha-se e corre o reposteiro, entra a guarda real, com os montantes de prata e as rodellas floreadas de ouro ; em seguida os pagens, depois os magnatas e , entre elles, El-Rei . Tanto, porém, que appareceu com o manto de rasto , o sceptro collado ao peito, a coroa um tanto inclinada á frente, pela attitude, pelo gesto, no corresponder ao respeito dos seus subditos, no subir os degráos do throno, em tudo, emfim, via-se-lhe o enleio canhestro . Attentaram, então, os vassallos e um, mais esperto , sussurrou na turba : «E' o bobo ! » Os olhos fitaram-se agudos no monarcha, franziram-se em sorrisos os rostos e todos, em voz que subia em grita e se desfazia em gargalhada, repetiram : «E' o bobo ! » E os alabardeiros riam, riam os homens d'armas, riam donas e fidalgos, pagens e varletes, villicos e burguezes, todos . E a gargalhada immensa estrondava abalando os muros do salão quando o arauto, avançando, impoz silencio . Foi, então , uma rinchavelhada chocarreira :

«E' o bôbo ! El-Rei Truão ! El-Rei Truão ... » Uns, com acenos, perguntavam pela palheta, outros pela gorra e as damas e os fidalgos torciam -se de riso . Debalde o arauto ameaçava a turba com os alabardeiros e com os homens d'armas , não havia contel-a, e o bobo , remexendo-se no throno , empallidecia de furor, e quanto mais se lhe accendia a colera, mais crescia a assuada . Eis, porém, que, com alegre tinir de guizos , surge, disfarçado nos trajes do bufão, com a palheta em punho, a fazer visagens e momices, o proprio rei . Foi direito ao throno, zumbrio-se, rebolcouse no tapete ao som das gargalhadas e, quando maior era a balburdia, ergueu-se e encarando de face a multidão, perguntou em tom faceto: - Que tal vos pareço assim ? Na pergunta reconheceram todos a voz do Rei e logo, respeitosos, humilhados, prostarámse . Cessou a galhofa e o silencio dominou solemne . Então o rei, acenando com a palheta, disse : - Ide-vos . Foi um capricho meu pôr um

truão no throno e vestir-me com a sua pelle . Ide-vos ! Houve um escoar e a turba retirou-se . Quando se acharam sós, o rei e o bobo, disse o monarcha ao bufão : Deves estar contente: foste rei uma hora . Ah ! senhor... mais bobo que nunca ! Mais bobo que nunca ! E despindo-se : Aqui tendes o que vos pertence, dai-me o que é meu e fique cada qual no seu destino . Podem os reis descer sem risco e onde quer que estejam sempre serão reis porque trazem comsigo o prestigio ... Ο bobo é que não póde subir porque, quanto mais se eleva , mais lhe apparece o ridiculo . Em vós a gorra é apenas um capricho, em mim a corôa foi uma burla e o que conseguistes com o aceno da palheta não pude cu alcançar com ameaças de morte . E emtanto ... eu tinha todos os attributos . Nem todos , disse o soberano : faltava-te o principal a magestade de rei .

Fabulário

Sinopse

Leia gratuitamente Fabulário, de Coelho Neto, coleção de fábulas e narrativas alegóricas em domínio público publicada em 1907, organizada em capítulos para leitura online no Literunico. Esta edição digital foi preparada a partir do exemplar público preservado no Wikimedia Commons/HathiTrust, com capa nova no padrão Literunico, fonte validável, busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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