Leia agora
Fabulário

Universo da obra

Fabulário

Capítulo 12 · Fabulário

O Príncipe de Lahos

12 de 33 ≈ 7 min de leitura

O Principe de Lahos Q CANDO The disseram que o physico pedira , alem da conducção, uma guarda de fortes cavalleiros que lhe garantissem a vida nos andurriaes assolados pelos bandidos e tantas mocdas de ouro quantos fossem os dias que passasse no castello, ergueu-se no leito o rispido suzerano bramindo, a apontar a arca em que guardava o thesouro : D'alli não sahe moeda para tão refalsado villão O que eu lamento é não ter forças para montar o meu ginete e empunhar uma lança, porque havia de mostrar-lhe como costumo responder a affrontas da ralé. D'alli não sahe moeda . Disse e cahio no leito prostrado e gemendo .

Foi tamanho o furor, tão violento o arranque, tão despejados os movimentos do ancião que se lhe abriram as feridas do peito e o sangue jorrou aos golfões . Sollicita e ligeira a filha acudio a tempo de estancar a copiosa hemorragia e, com palavras meigas e socegadas, screnou o animo do pai contendo-lhe as abafas e os protestos furentes da avareza e, para distrahil-o, á falta de menestrel ou jogral que lhe cantasse, ao som da róta, um lais ou uma cantilena, tomando o fuso , a fiar, improvisou o romance do Principe de Lahos . «Logo que subio ao throno o principe gaIhardo, o cavalleiro mais apposto e a melhor lança do reino, ordenou se fizessem grandes obras militares ao longo da fronteira, se dotasse a esquadra de navios possantes, se alistassem no exercito os mancebos das principaes familias . Queria-os jovens e de boa sombra, armados com esplendor para que todos quantos os vissem ficassem deslumbrados . Assim foi feito.

Restauraram-se as muralhas, armaram-se galés altivas, escolheram-se os esbeltos infantes e os mais gentís cavalleiros . O que maravilhava, porém, não era a espessura das muralhas, não era o porte dos navios , nem era, tão pouco, o numero da soldadesca, mas o fausto que em tudo se notava . As muralhas eram pintadas como paredes de paços, as náos andavam sempre empavesadas, como em festa, com a companha vestida de linho alvo, vergando remos que eram de sandalo ; os infantes, mais pareciam donzeis de paço , vestidos de purpura, com arcos que trescalavam, escudos que eram baixellas, lanças com espiculos de prata e que direi dos cavalleiros ? se os telizes eram de trama de ouro podeis imaginar como seria o mais . Toda essa ostentação era apenas para a vista : nem as muralhas offereciam resistencia porque as pedras , mal assentadas, rolariam ao primeiro embate abrindo brechas ao inimigo, nem os infantes meneavam as armas e os cavalleiros só em torneios galantes escaramuçavam . O principe contentava-se com possuir exer

citos e uma esquadra numerosa. Que lhe importava a impericia do soldado e a inexperiencia da maruja ? Lá estavam os vistosos esquadrões e no molhe, velas abertas, a esquadra arfando . Succedeu que um monarcha ambicioso, cujo reino confinava com o de Lahos, resolveu levantar-se em armas contra o principe garrido e, estendendo em campo o seu valente exercito e soltando nos mares a sua aguerrida fróta, impoz-se com arrogancia . Foi então que um aio falou ao principe : - Senhor, é tempo de fazerdes sahir a vossa gente . Guarnecei as muralhas, confiai o commando da tropa a um general argúto, entregai a um habil capitão a esquadra e facilmente fareis recuar o ousado que nos ameaça com affronta . Que ! exclamou o principe . Queres que exponha os meus infantes, que tanta vista fazem com os seus saios de purpura , as suas cnemidas de prata, os seus escudos de aço brunido e as suas lanças tauxiadas, á gente rude e salaz que ahi vem ? llei de lançar ginetes preciosos e

cavalleiros que levam no corpo thesouros em pedrarias contra uma horda de maltrapilhos ? Achas que navios laminados a prata, abrindo velas de linho, foram feitos para abordar chavécos ? Não ! E deixou-se estar . Chegou ás muralhas a chusma bravía e logo foi iniciado o assalto . No mar as galéras ricas soffreram o abalrôo da frota inimiga e, uma a uma, foram sossobrando . Correu o aio a palacio . O principe admirava a sua gente de guerra que manobrava ao sol, num campo fechado . As ascumas scintillavam , os cocáres dos elmos eram de todas as cores e os cavallos, cabeando airosamente ao meneio dos cavalleiros, faziam rebrilhar os jaezes e as armas . Estrondavam os instrumentos, refulgia o aceiro . Que lindo ! Senhor , tornou o aulico alarmado, emquanto vos extasiais no lustre da vossa gente o inimigo vareja os muros da cidade . Já se ouve o vozeio confuso, as tubas roucas resoam, tinem armas nas ruas . Em pouco estarão comVOSCO . Fazei sahir a vossa gente . Que, ao

menos , se defenda a vossa throno . residencia eo Não deu resposta o principe . Expor á morte aquelle brilhante exercito ... E deixou-se estar contemplando o garbo e o luzimento dos infantes e dos cavalleiros . Um tumulto assustou-o : era tarde . Quando se lembrou de bradar aos seus guerreiros, mãos brutas arrastaram-no e, manietado, captivo, lá foi o principe de Lahos .» Calou-se a donzella . Soergueu-se o enfermo e, fitando os olhos na filha, que baixara a cabeça loura e retomara a meada e o fuso, bradou : Por Deus ! e os guerreiros ? Os guerreiros ? Sim . Porque não sahiram em defeza do seu soberano ? Porque elle não os tinha para batalhas, mas para simples encanto dos olhos . Essa agora ! Guerreiros querem-se na lucta, não são histriões para divertimento de cortes . De que lhe servio exercito tão numeroso e tão rico se acabou em tamanha miseria ás mãos dos brutos ?

Lastimai-o , senhor : tinha mais amor ás armas resplandécentes do que á patria e á propria vida . Não tendes vós alli na arca moedas sem conta, barras de ouro e de prata, pedrarias e baixellas ? Não nutris nas vastas campinas tantos ginetes aderençados ? Não dispondes de cavalleiros fieis ao vosso commando ? Emtanto , a Morte ronda o castello e, em breve, estará comvosco porque vos negais a ceder ao pedido do physico . Moedas amealhadas são economias que devem sahir ao reclamo da necessidade . A formiga, no inverno, alimenta-se com o que recolheu no estio . Vale mais que um reino a vossa vida e, se succumbirdes, ainda que vos forrem de ouro o tumulo e o incrustem de gemmas não deixareis de apodrecer como o animal que morre na charnéca . Quem fica debruçado a contemplar thesouros esquce todos os deveres . A avareza é um crime . Se o principe houvesse attendido á voz do aio ainda seria rei e não estaria a gemer no fundo de um ergastulo, carregado de ferros . - Que venha o physico ! bradou o fidalgo.

Manda-lhe a conducção e os cavalleiros e que lhe digam que, alem das moedas do ajuste, terá ainda um vaso de ouro cheio de besantes no dia em que eu puder vestir a couraça e brandir a facha d'armas . Exercitos querem-se em campo . E moedas em gyro, quando é preciso , disse a donzella . E, levantando-se para transmittir as ordens de seu pai, suspirou : Tivesse o principe ouvido as palavras do aio e ainda hoje seria rei do lindo paiz de Lahos . - E onde fica esse paiz ? indagou o velho interessado . Onde fica ? Só os poetas o sabem, meu senhor, os poetas que tudo conhecem porque a imaginação os leva a toda a parte . perguntar a um menestrel . Hei de Disse e , sorrindo, sahio a transmittir as ordens necessarias para que fossem buscar o physico á montanha .

Fabulário

Sinopse

Leia gratuitamente Fabulário, de Coelho Neto, coleção de fábulas e narrativas alegóricas em domínio público publicada em 1907, organizada em capítulos para leitura online no Literunico. Esta edição digital foi preparada a partir do exemplar público preservado no Wikimedia Commons/HathiTrust, com capa nova no padrão Literunico, fonte validável, busca, redes sociais e pesquisa por IA.

Ver ficha da edição física
LITEBN
LITEBN-978657745174886912264156
Fabulário

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

Fabulário

Trilha sonora oficial

Uma seleção criada para acompanhar a atmosfera, os personagens e os caminhos desta obra.

Abrir no Spotify
Ir para o carrinho
Mercado de Fabulário

Leve um fragmento deste universo

Escolha a arte, confira a disponibilidade e adicione o produto ao carrinho sem sair da experiência.

Nenhum livro físico está disponível neste universo.
Relíquias da Obra

Adquira Relíquias da Obra e deixe sua marca registrada, criando valor ao item!

Aguardando Aprovação do Autor
Aguardando grupo autoral Fabulário Escolha uma Relíquia e envie uma proposta de aquisição, mesmo antes da ativação.
100Relíquias
0Titulares
0 Passagens
Central de RelíquiasDescubra coleções de outros universos e obras.
ver todas
Capítulo 12 carregado no app · 1 livro conectado 1/1
Abrir leitor completo

Capítulos disponíveis para continuar a leitura.

Capítulos de Fabulário

Capa de Fabulário
Continue a leitura O Príncipe de Lahos Capítulo 12 · 12 de 33 · ≈ 7 min
Todos os capítulos 33 disponíveis

Donos de Relíquias

0 titulares

Nenhuma Relíquia desta obra foi adquirida ainda. Seja o primeiro a eternizar seu nome no acervo oficial!

Conhecer as 100 Relíquias

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

Entrar para resenhar

Posses do livro

0 Leitores com posse
0 Unidades registradas

Nenhuma posse foi registrada publicamente para esta edição.

Adicionais do Universo

Visual ClássicoAbra a leitura editorial, no estilo de uma página de livro
ler
Visual AuroraApresentação imersiva do universo da obra
abrir