Universo da obra
Universo da obra
or com a entrada luminosa de Hérmes, ainda cheirando a silvas redolentes, porque subira da terra onde andára a vagar, que se accendeu no coração impetuoso de Zeus o desejo forte de rever a terra em flôr, as aguas que escachoam nas rochas, os largos prainos dos mares glaucos, os visos frondosos dos montes acima dos quaes adejam as aguias alipotentes . Horas alegres bordavam a téla azul com fios d'ouro tirados do novello do sol ; outras, pallidas , d'olhos melancolicos, vestidas de negras tunicas funereas, coroadas de myrtho e papoulas, recenavam estrellas para que fulgissem na tréva com luz viva e o Olympo, nessa tarde de
maravilhoso encanto, clara e suave como os olhares macios de Aphrodite, rejubilava festivamente . A propria Hera, sempre taciturna no seu ciume divino , cantava doubando a la translucida das nuvens estivaes . Eis que Zeus, de repente, se levanta, acena á aguia cujo olhar fuzila e, assentando-se-lhe no dorso , instiga-a . Pasmam os deuses ; um momento detêm-se as Horas e o animal soergue-se, arranca, abre as azas largas e arremessa-se nos ares tépidos e fulgurantes . Desce vertiginosamente como os titans rebeldes quando rolaram sob as catapultuosas penhas sotopostas . Zeus tem ancia de rever a terra, os homens, os rebanhos: deseja avistar as aguas e as verduras, as furnas sombrias e sempre gementes e as clareiras onde o sol retouça . Já os oceanos brilham como sóes e os lagos lampejam como estrellas, cresce o esplendor entre sombras que parecem nuvens e são serras altas e são prados longos e são valles fundos .
A terra apparece d'uma só côr sombria, alarga-se dilatadamente em alfombra azul, lisa, chã, sem um relevo de collina, mas logo avultam os accidentes redondos, as pomas dos outeiros de fina relva : movem-se lentos rebanhos e homens . Já se accentuam as linhas, rendilham-se as frondes, ondulam os trigaes dourados, aves voam cantando , sóbe o fresco aroma dos fenos e das searas e o balar dos anhos passa nos ares suaves . E' a terra . A aguia foge e os olhos claros de Zeus mal distinguem a mansão ephemera dos homens e as suas bellezas transitorias que a Morte espreita cubiçosa . Em toda a parte ha flores e risos : são dansas cyclicas nos prados, parthenias á volta dos templos, entre cedros ; amores á beira d'agua. Em tudo a alegria, a alegria illusão da tristeza . Mas longe, á flór dos mares, branca e muda, uma ilha apparece . Toda branca e lisa é como uma larga lápide nos mares . A aguia, guiada pelo deus, paira um momento sobre a desolada paragem de onde não sobem aromas nem rumores .
E' tudo funereo : brancas as praias de areal sem dunas, branco o interior apagado da ilha . Nem arvoredo nem hervas, tudo desolação e silencio e vultos merencoreos seguindo as trilhas brancas, como lemures cimmerios, levando de rasto , no lento e tristonho andar, as longas tunicas, tão alvas como o areal esteril . Zeus medita um momento e, fazendo baixar a aguia sobre um rócado alvadio, salta em terra , desce á planicie , torna-se invisivel e espreita a gente melancolica que vai e vem, sem falar, sem sorrir, em passos morosos e surdos . A sua omnisciencia logo adivinha a causa de tão estranha tristeza e, lesto, retomando a aguia, remonta . Entra no Olympo irritado . E ' a hora quieta em que se recolhem as purpuras da tarde e se estendem no espaço as alcatifas da noite oculadas de estrellas . Atravessando impetuosamente o vestibulo fulgurante , Zeus brada o nome de Eros . As brancas pombas de Aphrodite, já agasalhadas no columbario, esvoaçam espavoridas ante a colera estrondosa do accumulador de nuvens ; os deuses afastam-se medrosos e, pal
lida e languida, a deusa, filha da espuma egina, temendo pelo filho, precipita-se embrulhando os pequeninos pés na fimbria da tunica diaphana, luminosa e volatil, como feita de bruma e sol , a receber o Pae, já se lhe rojando ante os joelhos, linda com o pranto, em fios, a descer-lhe dos olhos verdes, cheios de espanto e medo . Eros, que se adestra asseteando estrellas, ouvindo a voz tonitroante, adeanta-se a correr, com a aljava a bater-lhe o dorso, o arco pendente á ilharga e, avistando o Todo Poderoso, retem os ligeiros passos . E Zeus, fitando nelle os olhos flammejantes, argúe-o encolerisado sobre a tristeza da ilha que encontrára, branca e muda , dizendo : -Todos quantos nella vivem são como sombras que penam . As mulheres são lindas, os mancebos são fortes , e cruzam-se indifferentes . Porque os deixaste em tal abandono ? -Senhor, é facil reparar o crime do esquecimento . Hoje mesmo, com o favor da noite, farei o que devo . →E antes do raiar do dia quero ter a prova do que fizeste .
Tereis a prova, Senhor, antes que as estrellas murchem ao sol . E Eros baixa aladamente do Olympo . O gallo vigilante de Arés desfere o seu primeiro canto, ainda sahem Horas tenebrosas levando bojudas urnas de orvalho, quando Eros reapparece no Olympo e, posto que Zeus repouse adormecido, quer dar conta do seu trabalho e, ante o solio divino, fala com palavras aladas . Zeus potente, dominador do Ether... Aclara-se esplendidamente o Olympo com a fulgencia do olhar do esposo de Hera que desperta á voz do infante . Que me trazes por prova do que fizeste ? -Nada, Senhor, senão o desejo de que vos certifiqucis, com os vossos olhos, do resultado da minha empreza . Era a ilha branca e esteril e é hoje uma verde alfombra , colmada de for
mosos bosques odoriferos . Era o presidio do silencio e nella agora o murmurio das palavras e o sussurro dos beijos são tão perennes como o fragor das aguas nas penhas geradoras . Nos seus caminhos balsamicos não mais se cruzam figuras solitarias, senão pares abraçados e não ha moita de onde não saia, por entre o chilreio d'aves que se ameigam, palavras tremulas de bocas de namorados . Das flechas que levei no meu carcaz nem uma só errou o alvo , e, de extremo a extremo da ilha, fui accordando com o amor a gente merencorea. O sangue gottejava na areia e as flechas por lá ficaram crescendo em floresta acolhedora e de aroma . Mas Zeus, sempre desconfiado , ordena a Hermes que baixe á ilha, a percorra, trazendo-lhe uma prova do exito da missão do infante . E Hermes desce alipede sobre a ilha. Tudo vê e, tentando contar os pares que se succedem nos meandros amaveis do arvoredo, descobre , a tremer na haste, que era uma flecha aculea, uma grande flor purpurina e nova para os seus olhos divinos . Demora-se a vêl-a, maravilhado , e como procure lembrar-se da sua origem - elle
que conhecia a origem de todas as flores eis que ouve uma voz, a voz de Hertha, a terra maternal : Esta flôr, côr de purpura, de petalas cordeaes- é a rosa : nasceu das gottas de sangue que lentejaram as flechas de Eros victorioso . Conta-lhe as petalas e terás o numero dos corações feridos que se buscam e não se deixam nesta ilha florida, dantes areal onde nem o cardo vingava . E Hermes, tomando a flôr, regressa ao Olympo repetindo a Zeus as palavras de Hertha e descrevendo-lhe o que vira . Zeus, então , afagando a immensa e espalhada barba, mais rebrilhante do que a Via Lactea , põe-se a aspirar o aroma da flor, contente por saber que deixara de existir na terra o triste degredo d'almas onde corações moços se cruzavam com a indifferença com que duas folhas mortas descem na correnteza fria e tremula de uma ribeira apressada .
Leia gratuitamente Fabulário, de Coelho Neto, coleção de fábulas e narrativas alegóricas em domínio público publicada em 1907, organizada em capítulos para leitura online no Literunico. Esta edição digital foi preparada a partir do exemplar público preservado no Wikimedia Commons/HathiTrust, com capa nova no padrão Literunico, fonte validável, busca, redes sociais e pesquisa por IA.
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