Universo da obra
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Я NDAVA O santo bispo em visita pastoral percorrendo as freguezias da serra, as ermidas dos solitarios, as pequeninas capellas das póvoaś de pastores quando, ao chegar a uma aldeia alegre e farta, com os campos viçosos cobertos de gado, os pomares carregados de fructos, os jardins em matiz redolente de flores, sahio-lhe ao encontro, na estrada, o vigario convidando-o a pernoitar no presbyterio, entre jasmins, com uma fresca e pura fonte cantando ao lado . O santo bispo, que viajava escoteiro, como um simples peregrino, acceitou o agasalho que The offerecia o sacerdote e, dando-lhe o braço, lá
foram os dois, ambos velhinhos, já curvados, caminhando vagarosamente . Entrando no passal e sentindo o bom cheiro dos guisados que vencia o dos jasmins, disse o bispo a sorrir : -Tendes cosinheira attenciosa, irmão, que nos manda á cancella, para receber-nos, o arôma agradavel da ceia . E' um meio de fazer com que aligeiremos os passos . E são horas, reverencia . Estes caminhos agrestes fazem appetite e, como os casaes distam leguas uns dos outros de certo, depois do almoço da manhã, nada mais levasteis á boca e já o gado recolhe e brilham estrellas no ceu de Deus . Com effcito, irmão, depois do almoço em uma herdade, comi apenas alguns fructos sylvestres e bebi á farta a boa agua das fontes serranas ; e foi só . Trago fome e honrarei a vossa mesa . Entraram . A casa rescendia . A ceia foi servida com abundancia e os dois santos, depois de renderem graças ao Senhor, amezendaram-se e foi da sopa e foi do assado e foi do vinho, um fartão !
Ao fim do opiparo repasto, sentando-se os dois á porta do presbyterio, que o luar illuminava, gozando o perfume delicioso dos jasmins, pôz-se o bispo a falar das ovelhas d'aquelle aprisco . Ah ! reverencia, exclamou o presbytero sentido , não fosse o peccado da mentira e isto seria um cantinho do ceu, um seminario de pureza , mas as mulheres — oh ! as mulheres ! mentem desde que accordam até que dormem . Ninguem se póde fiar no que dizem. Já lhes tenho descripto o inferno de mil modos ; falo-lhes dos horrores dos castigos, das penas eternas, do fogo, dos espetos, dos demonios, dos dragões que rabeam nas chammas ; até eu minto, reverencia, para combater a mentira e nada . Quando vêm ao confessionario é só mentira, mentira e mais mentira . E que fazeis, irmão ? Peço a Deus que as corrija, que as não castigue com dureza, porque, infelizmente, estou convencido de que as pobresinhas não têm força contra o peccado vil . E é pena, reverencia, porque são puras e caridosas.
Depois de pensar um instante levantou-se o bispo, dizendo : Leva-me á forca do sino , irmão . Deus ha de attender ás minhas orações . Que ides fazer ? -Vou benzer o sino para que sôe toda a vez que uma mulher mentir na aldeia. -Ai ! de mim, reverencia ... Como poderei concentrar-me na leitura piedosa e dormir um momento á sesta ? Isso vai ser uma matinada de enlouquecer . Emfim ... seja tudo pelo amor de Deus . -Amen! concordou o santo bispo . E dirigiram -se ao adro onde se erguia a forca . Ajoelharam-se os dois velhinhos e, depois de ferventes preces, o bispo lançou a benção . Ainda a mão não completára o gesto e já o sino badalava.e bimbalhava em repique de alarma enchendo a noite de sons . Acudiram, em alvoroço, os da aldeia e, quando o bispo os vio juntos explicou-lhes a razão d'aquelle rebate tão vivo . E, como ameçasse as mulheres com um castigo do ceu se persistissem na mentira, todas, com lagrimas de arrependi
mento, juraram, de joelhos, que nunca mais mentiriam e o bispo abençoou-as . Foram-se em silencio e os dois velhinhos, contentes, agradeceram a Deus o milagre edificante . Entraram . Justamente iam recolhendo , cada qual a seu leito, quando o sino começou a bimbalhar de novo . - Ouvi, reverencia, bradou o presbytero . E o bispo : A esta hora ! Mas a quem mentirão ellas ? A quem ? Aos maridos, reverencia ; aos maridos . Lá estão todas a mentir, as infelizes . Subito calou-se o sino . Ficou o bispo pensativo; por fim, falou, tranquillisando o sacerdote, que tanto receiava pelas almas dos seus fieis: Não vos preoccupeis, irmão ; tanto ha de o sino bater que ellas se hão de corrigir . Deus attenda ás palavras de vossa reverencia . E deitaram -se . Cedo sahiam OS rebanhos - despedio-se o bispo para proseguir na sua viagem devota . Ainda havia estrellas no céu e luz de luar nos campos . Passavam junto da forca, no adro , quando o sino começou a badalar com furia .
Pois já ! ęxclamou o prelado . Estão accordando, reverencia , e isto agora vai pelo dia adeante até a hora do somno . - Hão de corrigir-se, affirmou convicto o santo bispo . gario. Assim queira o Senhor ! murmurou o viera Um mez depois, regressando o bispo, ao chegar ao caminho que levava ao presbyterio ahora melancolica de vesperas - deteve-se encantado com o suave murmurio que faziam as aguas rolando sobre seixos brancos, e, como avistasse, além das arvores, a ermida, lembrou-se do sino e murmurou satisfeito : Bem dizia eu que se haviam de corrigir . O vigario deve estar contente e tranquillo com a sorte das suas ovelhas . A perseverança é tudo . Eu confiava, com razão , no rebate do sino ! Mal o avistou, o vigario precipitou-se ao seu encontro zumbrido em reverencias e, como se ajoelhasse, tiniram moedas na esportula que levava ao braço . Felicito-vos pela riqueza, irmão, disse o
bispo , a sorrir, e o vigario, comprehendendo a allusão, fez um gesto de desalento e, estendendo o braço para o lado da ermida, mostrou a forca, dizendo: -Ando a pedir esmolas para comprar novo sino . Novo sino ! exclamou pasmado o bispo . E o outro? - O outro ?! O outro durou dois dias - e durou muito , affirmo a vossa reverencia, porque nesse tempo não cessou de bater um só minuto e parecia tangido por demonios . Um desespero ! Por fim rebentou, fez-se em cacos . E quer vossa reverencia o meu conselho ? Acho melhor não dar ao novo a virtude do antigo, senão ficarei sem sino para chamar á missa e para annunciar o Senhor quando sahir com o viatico . Pois seja assim . E rio-se o bispo . Eu só tenho pena das pobres almas ! suspirou o vigario . Ora, irmão ... deixai- as ! Mentiras de mulheres ... o Senhor não as toma a serio . Deixai-as ... deixai-as ! E vamos ao que agora importa: Tendes ainda a mesma cosinheira ?
Sim, reverencia, a mesma . Louvado seja o Senhor ! E caminharam , por entre as sebes floridas, para o presbyterio hospitaleiro .
Leia gratuitamente Fabulário, de Coelho Neto, coleção de fábulas e narrativas alegóricas em domínio público publicada em 1907, organizada em capítulos para leitura online no Literunico. Esta edição digital foi preparada a partir do exemplar público preservado no Wikimedia Commons/HathiTrust, com capa nova no padrão Literunico, fonte validável, busca, redes sociais e pesquisa por IA.
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