Universo da obra
Universo da obra
Q UANDO Maria Magdalena appareceu entre os apostolos, os lindos cabellos soltos, os olhos resplandecentes, rosas vivas nas faces, tremula, com lagrimas molhando-lhe o sorriso, como duas correntes limpidas em florido campo cheio de sol, contiveram-se todos em silencio , sentindo que a formosa apaixonada trazia novas alegres do tumulo adorado . Ainda que não falasse, o seu contentamento expandia-se-lhe nas feições, dava-se nos gestos, subia de toda ella como o perfume a exhalar-se de uma flôr . Cançada da corrida em que chegara amparou-se a uma columna e, depois de respirar, erguendo os olhos maravilhosos, disse :
O tumulo do meu Senhor é como um vaso , com azas lindas, de luz, que são dois anjos . Lá os vi silenciosos e, como me inclinasse sobre o abysmo da morte, achei apenas o perfume do corpo embalsamado, como fica no alabastro quando se lhe despeja a essencia . Lá está sómente o residuo funereo : a mortalha e as ligaduras . O corpo desappareceu . Gloria ao meu amor divino ! Nem tão depressa vem a flux o grão de trigo semeado , ainda que o reguem copiosas chuvas e o aqueçam ardentes raios do sol . A sementeira divina rebentou ao terceiro dia e já a sua flôr trescala e já o seu fructo alimenta . Celebremos as nossas lagrimas, mais fertilisantes que as chuvas . Celebremos a nossa Fé mais ardente que o sol . O tumulo do meu Senhor é um deserto florido . Quando eu caminhava, coberta pelo véu da noite, como uma viuva, toda de negro, o meu coração ia alvoroçado sentindo, talvez, o milagre como as andorinhas sentem na brisa gelada os primeiros effluvios da primavera . As flores falavam-me com as suas bocas cheirosas, as aguas diziam-me, atravéz do seu canto, o que minh'alma sentia . Cheguei. Os soldados que guardavam o`sepulchro jaziam por terra, como feridos do raio e eu vi pelos caminhos mádidos as palmilhas luminosas que marcavam os passos do meu Senhor . E logo deixei fugir a voz da minha alegria : Resuscitou ! E, assim clamando, tambem despertava minh'alma porque, ai ! de mim, eu vivo d'aquella vida e morreria d'aquella morte . Vio-o . Tomei-o, a principio, pelo jardineiro do horto, tanto, porém, que me falou, logo lhe reconheci a voz e prostrei-me de joelhos, adorando-o . Se os beijos florescessem eu caminharia, de rastos , á sua frente beijando a terra do seu transito para que elle só pizasse em lyrios e não sentisse a poeira e as pedras asperas dos caminhos .
A morte transfigurou-o . Parece mais bello depois do enterro - está como as collinas ao amanhecer, quando o orvalho as refresca e todas as flores vivem e todos os passarinhos cantam . A morte foi para elle uma noite de somno . Onde o levarão os passos ? O tumulo conservava-o : era a urna em que elle jazia. Lá eu poderia vel-o e, sentada na lapide em que encontrei os anjos, ficaria de guarda ao seu somno como a mãe que se prende junto ao berço do filho . Agora ... como o poderei seguir ? Nem consentio que eu lhe tocasse porque já não é deste mundo . Puro espirito, é do céu, volta ao céu, deixame orpha . Sou eu que vou ficar enterrada no tumulo : morta-viva . Morta porque, sem a sua companhia, serei um corpo sem alma ; viva porque soffrerei desfazendo-me em lagrimas . Para substituil-o no tumulo vou despojar-me de toda a minha alegria.
Volta ao Paraiso , regressa aos altos céus e eu ficarei como a terra sem sol e coberta de neve . A minha noite fria será sem fim , só a morte me trará a madrugada que abrirá o dia eterno da minha ventura . Porque o encontrei ? Porque o ouvi ? Meus olhos ficaram como duas pedras azues nas quaes se houvessem gravado a sua imagem . Meu coração é uma concha cheia da sua voz . Viverei eternamente a vel-o e a ouvil-o e, estendendo os braços, como o cego que tacteia, só acharei o vasio . Elle torna aos céus . Resuscitou ! Estará em tudo, em toda a parte, por que é Deus, e eu serei a amante do mundo e de tudo que nelle existe, por amor do meu amado . Espalharei meus beijos pela terra dando-os ás flores e aos espinheiros, á rocha e ao rio, á gotta d'agua e ao lume de sol, á arvore e á vaga, á herva do monte e ao clarão da lua, aos animaes da terra e ás aves do espaço, aos ven
tos e ás tempestades, a tudo os darei porque em tudo estará o meu Senhor . Ai ! de mim, mas o seu rosto e as suas palavras, nunca mais eu verei nem ouvirei . Resuscitou ! E a sua gloria é a minha soledade . Eu era a rosa do campo-santo que recebia a vida de uma sepultura, revolveram-na, esvasiaram -na ... Ai ! de mim ! Os anjos cantam victoria, meu coração soluça . Vivo, mas tão longe ! Remonta aos céus e deixa-me no mundo . Eu era a arvoresinha nova, toda coberta de flores ... Porque havia elle de abrazar-me deixando-me reduzida a cinzas ? Porque não faz elle como o vento que leva a folha secса ? Meu sol ! Pudesse eu desfazer-me em pranto para que elle me sorvesse ao seu seio como faz o sol á agua morta que resuscita nas nuvens . Que será de mim ? Eu era um espelho que só mostrava vida quando elle me apparecia .
Agora reflicto o fundo de um tumulo vasio onde só ha escuridão . Resuscitou ! Resuscitou ! Vós outros mostrais alegria, vós, os seus apostolos, porque vedes cumprida a sua dôce promessa; eu chóro porque o perco . Fica-me a sua religião, fica-me a sua palavra, mas foge-me o seu amor . Vós ides espalhar a sua doutrina ; eu fico a lamentar a minha solidão . Vós o sabeis vivo , en só o sei muito longe . Sois felizes ... Ai ! de mim . Ide ! dizei a todos que resuscitou, que não está no tumulo . Cantai a victoria, é o vosso Mestre e eu ficarei a chorar a minha orphandade nas cavernas dos montes . Meu Deus ! Meu Deus ! meu amor ... Enches o céu e os tempos com a tua presença e com o teu nome . Deixaste o teu tumulo só com o perfume das essencias que embalsamavam o teu corpo . Assim ficou o meu coração cheio de saudade .
Resuscitou ! Ai ! de mim ... O que ainda me consola é saber que elle está em toda a parte, em tudo : no ar, na luz, na gotta d'agua, na pedra, na arvore, na flór, no passaro , na féra, no oceano e no charco e assim, sendo piedoso , não exceptuará apenas o coração de uma pobre mulher . Meu Deus ! Jesus de Nazareth, meu amor perdido que remontas aos céus deixando-me neste immenso vasio que é a terra, sem ti .
Leia gratuitamente Fabulário, de Coelho Neto, coleção de fábulas e narrativas alegóricas em domínio público publicada em 1907, organizada em capítulos para leitura online no Literunico. Esta edição digital foi preparada a partir do exemplar público preservado no Wikimedia Commons/HathiTrust, com capa nova no padrão Literunico, fonte validável, busca, redes sociais e pesquisa por IA.
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