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Capítulo 33 · Fabulário

Aventuras das aguias

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Á Ex.ma Snr. D. Amalia Bittencourt Я o som das aguas descia ondulando o camalóte de aningas e, deitada entre flores, sobre macios froccos de algodão virgem, uma creança dormia . Morena, lisos cabellos negros, tão linda que as uyáras vinham á tona do rio e, nadando em torno do berço fluctuante, contemplavam-na maravilhadas . Uma aguia potente que rondava o espaço, lançando os olhos d'alto , avistou o estranho berço e nelle descobrio a passageira . Colheu as azas e, deixando-se cahir das nuvens em revoluteiada espiral, como se rolasse ferida de morte, soltou um grito que repercutio na vastidão . Logo as uyáras mergulharam e o vulturino,

abrindo subitamente as azas poderosas, librouse, pairou sobre as aningas, o olhar agúdo fito na creança que dormia . Poz-se a esvoaçar em torno do camalote e. compadecida da innocente que, com mais algumas horas, descendo ao sabor das aguas tributarias, perder-se-ia no mar, remontou aligera e, no espaço , desferio a voz atroadora que retumbou longa, estrondosamente e logo, de varios pontos, com fragor desabrido, surgiram aguias e , á voz da que primeiro baixara , que era a rainha, cercaram o florído esquife, habil e destramente entreteceram as folhas, enredaram ligeiras as humidas raizes, fazendo do camalote uma rede intrincada e tomando-o , cada qual, por uma parte, ergueram-no e foram-no levando pelos ares fóra em direcção á cumiada azul de uma serra escarpada . Pousando serenas agasalharam em uma gruta a creança sempre adormecida . Então, reunindo a sua grey alada, disse soberanamente a rainha das aguias : «Que adoptava a pequenita, exigindo das subditas robustas o juramento de que a prote

geriam até que ella tivesse forças de viver sobre si mesma podendo, caso quizesse, regressar á planicie . » E as aguias juraram pelo sol . Desde logo começou a solicita vigilancia . Poz-se, cada qual, em maior actividade para attender á pupilla . Uma desceu ás pasturas, arrebatou nas garras uma ovelha nedia, levando-a para a gruta para que amamentasse a creança ; outra encarregou-se de recolher achegas: folhas de aroma e frouxeis de paina para forrar-lhe o leito . Ao amanhecer era uma estrepitosa ruflalhada em torno da moradia selvagem : eram as aguias que espanavam com as azas o circuito da caverna e, constantemente, alerta, rondas circulavam nas immediações devassando as grótas e as veredas, os alcantís e os valles e ai ! da féra que ousasse chegar a um tiro d'arco - sahiam-lhe ao encontro , em furente investida, as formidaveis sentinellas e a bico e garras espostejavam-na . Sob tal protecção cresceu, linda, no homisio alpestre , a pequenita salva das aguas . Ama

vam-na as aves régias e ella correspondia com amor que se manifestava em cuidados e carinhos. A's vezes, á tarde, ao vibrar de um grito doloroso, a virgem precipitava-se da gruta em commovido alvoroço para acolher uma aguia ferida . Quasi a recebia nos braços frageis e com que pressa e ternura a alliviava da flecha que lhe atravessara o corpo e era, a bem dizer, com lagrimas que lhe curava a ferida . Velava como enfermeira e, quando o animal convalescente ia ganhando forças, com que alegria o acorçoava nos ensaios de vôo . Via-o lançar-se, ainda fraco, de um rochedo a outro , arrojar-se a uma volta larga, abrir as azas por fim em toda a envergadura e desapparecer nos ares luminosos . A' volta, eram fructos e flores , caça, tudo quanto de mais bello e de mais saboroso póssuiam as veigas e as florestas . Uma manhã a rainha das aguias , que só pensava na felicidade da sua pupilla, reunio a legião voadora em torno do penhasco que lhe servia de throno, propondo uma ascensão ao sol .

Iremos juntas, disse, unidas para que as mais fortes possam prestar auxilio ás mais fracas . A viagem é longa e arriscada, mas o sol deve ser lindo e de lá traremos tantas riquezas para a nossa filha que todos os thesouros dos reis da terra serão miseria comparados aos seus haveres . As aguias applaudiram estrondosamente ; mas a virgem, tanto que soube do plano aventuroso , oppôz-se com as suas lagrimas mais meigas . As nossas azas são fortes, nada nos acontecerá ; disse a rainha das aguias . -Ai ! de mim ! Mas como poderei viver sosinha nesta solidão ? As feras, logo que souberem da vossa partida, virão profanar o meu asylo e quem me defenderá dos jaguares carniceiros ? Disse, então, a rainha das aguias : Não temas . Para que as feras não se atrevam a chegar até aqui basta que cada uma de nós deixe uma penna das azas naquelle tronco secco que fica á beira do abysmo ; e viverás tranquilla como se comtigo estivessemos . E se não voltardes ? Se vos perderdes ou

succumbirdes nessas alturas ardentes onde vos leva a audacia, como poderei saber ? As nossas pennas dirão . Emquanto estiverem hirtas , a prumo, saberás que estamos vivas , que vamos escalando as nuvens d'ouro , proseguindo na viagem em demanda do sol ; se as vires, porém, pendidas, dobrando-se sobre o tronco, chora-nos porque perecemos . E verás o tronco secco subir, esguio e esbelto como uma columna, para que as feras, avistando, de longe, a nossa plumagem, não se animem a invadir os dominios d'aquellas que affrontam o sol . Assim falou a rainha das aguias e , arrancando uma penna das azas, cravou-a no tronco secco . O mesmo fizeram as companheiras e, com um grasnido triumphante, alaram-se tumultuosamente subindo em nuvem negra . Estenderam-se em fila formando uma escada aerea , espalharam-se a granel , juntaram-se de novo diminuindo, esvaecendo até que não fizeram mais que um ponto no espaço . Subito desappareceram . A virgem passou a noite no limiar da caverna, chorando .

Mal accendeu-se a manhã correu á beira do abysmo a examinar o tronco secco- lá estavam as pennas hirtas, a prumo, como flechas cravadas . Bafeu as mãos contente e foram-se-lhe os olhos para o céu radioso como se ainda pudessem descobrir as aguias que voavam em direcção ao sol. «Já devem estar perto ... Como são felizes ! » Tres dias seguidos, mal os passaros galreiavam annunciando a luz d'alva, corria a ver as pennas e achava-as perfeitas . «Ainda vivem . Lá vão ! » Na quarta manhã, porém, achou uma das pennas curvada e logo se lhe arrazaram os olhos d'agua . Recolheu-se á caverna muda e triste pensando na infeliz que morrera e passou a noite em claro , a tiritar de medo, ouvindo as vozes roucas dos jaguares errantes . Ao amanhecer, ai ! d'ella, depararam-se-lhe todas as outras pennas dobradas e, entre ellas, como um signal de morte, uma flecha fincada . E o tronco secco subia, liso e esbelto como uma columna, passava as franças das arvores mais altas como para mostrar ás féras as pennas das

aguias defendendo assim o refugio da virgem solitaria . Mas a misera, comprehendendo, por aquelle prodigio, que as suas protectoras haviam perecido, sentou-se no limiar da caverna e, depois de tres dias e tres noites de pranto continuado , adormeceu na morte... talvez para juntar-se ás aguias . Hirto, a prumo, o tronco altivo , balouçando ao vento a sua coma maravilhosa, mantinha as féras á distancia. E assim fez-se a palmeira, a arvore de pennas, que lembra, a quem a vê, a tristeza mortal da virgem solitaria e a aventura das aguias que remontaram ao sol . FIM

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Sinopse

Leia gratuitamente Fabulário, de Coelho Neto, coleção de fábulas e narrativas alegóricas em domínio público publicada em 1907, organizada em capítulos para leitura online no Literunico. Esta edição digital foi preparada a partir do exemplar público preservado no Wikimedia Commons/HathiTrust, com capa nova no padrão Literunico, fonte validável, busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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